As esperanças do País de Gales de retornar à Copa do Mundo após 60 anos morreram na última segunda-feira, com a derrota em Cardiff diante da Irlanda, quando um empate poderia bastar para garantir uma vaga ao menos na repescagem. Referendado pela ótima campanha na Eurocopa de 2016, quando chegaram às semifinais, o time acabou falhando justo no instante crucial, fazendo relembrar o momento mais doloroso da história da seleção: a desclassificação nas Eliminatórias para o Mundial de 1994.

LEIA TAMBÉM: Podcast #146: Definições nas Eliminatórias rumo à Copa do Mundo 2018

Diante da Romênia, também em casa, Gales teve a chance de passar à frente no placar com num pênalti e desperdiçou, abalando a confiança não só dos torcedores como também dos próprios jogadores, além de mergulhar a equipe num limbo que durou duas décadas.

Nos anos 80, os galeses já haviam vivido “quases” bastante dolorosos. Ficaram de fora da Copa do Mundo de 1982 ao perderem no saldo de gols a segunda vaga no Grupo 3 europeu para a Tchecoslováquia. Dois anos depois, um gol do zagueiro Radanovic nos acréscimos contra a Bulgária deu a vitória por 3 a 2 e a vaga à Iugoslávia quando um empate classificava Gales para a Eurocopa da França.

E em setembro de 1985, a seleção vencia a Escócia por 1 a 0 em Cardiff, num resultado que a colocava no Mundial do México, a Espanha na repescagem e os escoceses de fora. Até que um gol de pênalti de Davie Cooper a dez minutos do fim do jogo mudaria todo o cenário, desclassificando os galeses – e provocando o infarto que mataria, à beira do campo, o lendário técnico do Tartan Army, Jock Stein.

Mas, para os torcedores, nada se compara ao que aconteceu naquela noite de 17 de novembro de 1993 em Arms Park, Cardiff. Foi como um Maracanazo. O time dirigido por Terry Yorath reunia uma boa quantidade de talento e experiência. Jogaria em um estádio lotado, no qual nunca havia perdido, diante de uma torcida fanática e ansiosa pela perspectiva de voltar à Copa depois de 36 anos.

E, na condição de seleção do Reino Unido com maiores probabilidades de ir ao Mundial dos Estados Unidos, contou com o apoio até de celebridades das outras regiões das ilhas britânicas: entre os milhares de telegramas de boa sorte recebidos antes da partida, estavam os enviados pelo primeiro ministro John Major, a Princesa Diana e o craque histórico da Irlanda do Norte George Best. A BBC chegou a interromper a transmissão do jogo da Inglaterra contra San Marino para acompanhar o segundo tempo de País de Gales x Romênia.

O ponto de partida

Mas antes de contar como a decisão traumática se desenrolou, é interessante lembrar como se chegou até ali. A começar pelo comandante: ex-meia de Leeds, Coventry e Tottenham e com 59 partidas pela seleção galesa entre 1970 e 1981, Terry Yorath foi convidado para dirigir o time do País de Gales em 1988, substituindo o carismático Mike England, então há nove anos no cargo.

Os resultados ruins no princípio geraram críticas e dúvidas sobre o acerto da escolha, mas aos poucos a coisa foi entrando nos eixos. A pedido do treinador, o Arms Park, estádio tradicional da seleção galesa de rúgbi, passou a ser a casa da equipe de futebol a partir de maio de 1989. No primeiro jogo, um encorajador empate em 0 a 0 diante de uma Alemanha Ocidental que conquistaria o título mundial na Itália no ano seguinte.

Gales contra Alemanha, em 1991

Outra medida de Yorath que causou uma pequena revolução na seleção foi a adoção de um esquema com três zagueiros, uma espécie de 3-4-1-2, bem diferente do tradicional 4-4-2 britânico. Nessa configuração tática, os galeses fizeram bonito já nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1992.

Num grupo em que só o primeiro colocado se classificava, havia novamente a incômoda companhia da Alemanha (agora unificada), além do forte time da Bélgica (e da baba Luxemburgo). Mas os britânicos começaram em excelente forma: venceram os belgas em Cardiff (3 a 1) e empataram em Bruxelas (1 a 1), bateram os luxemburgueses fora de casa (1 a 0) e obtiveram um resultado histórico em 5 de junho de 1991 ao vencer os alemães também no National Stadium, em Arms Park, por 1 a 0, gol de Ian Rush.

A fase era tão boa que, em setembro, os galeses derrotaram o Brasil (então dirigido interinamente por Ernesto Paulo, após a saída de Falcão) por 1 a 0, gol de Dean Saunders, em amistoso também disputado no National Stadium. Mas a equipe voltou à realidade no mês seguinte, em Nuremberg, quando os alemães deram o troco da derrota em Cardiff com juros, goleando por 4 a 1.

Paul Bodin, de pênalti, descontou para os britânicos. O mesmo jogador, novamente da marca da cal, anotaria o único gol na vitória sobre Luxemburgo em casa na última partida (guardem esses detalhes). O resultado deixou os galeses aguardando por um tropeço dos alemães, que ainda enfrentariam Bélgica e Luxemburgo fora de casa. Mas ele não veio: com duas vitórias, os campeões do mundo carimbaram o passaporte para a Suécia.

Gales enfrenta o Brasil em 1991

Com esse bom retrospecto recente debaixo do braço, os galeses não eram em absoluto uma carta fora do baralho no equilibrado Grupo 4 europeu das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Eram tão cotados quanto as três outras forças da chave: Bélgica, Romênia e Tchecoslováquia.

A Bélgica tinha sido recém-derrotada na fase de classificação para a Euro 92; a Romênia de Gheorghe Hagi; e a Tchecoslováquia, que durante aquela etapa passaria a ser chamada de Representação de Tchecos e Eslovacos. A equipe reunia jogadores dos dois países que, em janeiro de 1993, oficializariam sua separação após a Revolução de Veludo. O papel de saco de pancadas seria representado pelo Chipre e pelas Ilhas Faroe, que disputavam pela primeira vez as Eliminatórias de um Mundial.

A estreia, no entanto, não poderia ser pior. Em Bucareste, no dia 20 de maio de 1992, contra uma Romênia que duas semanas antes havia arrasado a pobre equipe das Ilhas Faroe por 7 a 0 e vinha com sangue nos olhos, os galeses pareceram incrivelmente perdidos e vulneráveis. Com sete minutos de jogo, os romenos já venciam por 2 a 0. Com 35 do primeiro tempo, já goleavam por 5 a 0.

Na etapa final, Ian Rush descontou, mas o resultado foi um vexame. Cinco dias depois, o técnico Terry Yorath sofreria ainda um abalo pessoal: seu filho Daniel, de apenas 15 anos, morreu no jardim de sua casa vitimado por uma doença cardíaca não detectada anteriormente.

O time-base das Eliminatórias

O próximo jogo viria apenas em setembro, em Cardiff, contra o melhor adversário possível: as Ilhas Faroe. A goleada por 6 a 0, além de reanimar a equipe após a estreia desastrosa, ajudou a definir o time-base. No gol, o dono da posição era Neville Southall, ídolo histórico do Everton, titular na grande fase vitoriosa vivida pelos Toffees em meados dos anos 80 e também um dos melhores goleiros do futebol britânico do período. Com 33 anos de idade e dez de seleção quando do início das Eliminatórias, andava meio gordinho, mas seguia inquestionável, até por seu status adquirido entre os galeses.

O time de Gales em 1993 (Foto: Getty Images)

A versatilidade de vários dos jogadores de linha era outro bom trunfo na equipe de Yorath: David Phillips, o ala-direita, atuava em seu clube, o Norwich, como meia-esquerda. Enquanto Clayton Blackmore, outro curinga no Manchester United de Alex Ferguson, podia jogar nas duas laterais e no meio, mas na seleção atuava no miolo de zaga, como uma espécie de líbero. Durante a campanha nas Eliminatórias, revezou com outro meia convertido em zagueiro, Mark Aizlewood, do Bristol City.

As duas outras vagas no trio central da defesa tinham donos: Eric Young, gigante negro do Crystal Palace, nascido em Cingapura e que costumava atuar com uma faixa na cabeça que lhe rendeu o apelido de “Ninja”, era um deles. O outro era Kit Symons, cria do Portsmouth (clube o qual ainda defendia na época) e que hoje integra a comissão técnica da seleção galesa. Já a ala-esquerda era objeto de disputa: Mark Bowen, lateral do Norwich (que naquele período partiria para uma campanha histórica na edição inaugural da Premier League inglesa) disputava jogo a jogo a titularidade com Paul Bodin, do Swindon Town. Ambos eram jogadores leves e bons no apoio.

No meio, jogava uma dupla tarimbada. Pelo lado direito atuava o capitão Barry Horne, volante raçudo e brigador que acabara de trocar o Southampton pelo Everton. Seu companheiro de setor pelo lado esquerdo era outro polivalente: Gary Speed, campeão inglês com o Leeds naquele ano, jogador dinâmico, bom organizador pelo meio e também opção nas jogadas de linha de fundo.

Na frente de ambos, fazendo a ligação entre o setor de criação e o ataque, ficava Mark Hughes, um dos nomes mais conhecidos e experientes da equipe. Ídolo do Manchester United, contava também com passagens pelo Barcelona e Bayern de Munique no currículo e era capaz de jogar mais à frente, marcando muitos gols.

Na frente, havia uma dupla de destaque no futebol inglês da época. Dean Saunders, atacante veloz e goleador, movimentava-se por todo o setor, abrindo espaço nas defesas adversárias. Por ele, o Liverpool pagou ao Derby County o valor recorde de transferências no futebol inglês em julho de 1991.

E por ele, o Aston Villa pagaria outra soma recorde – desta vez do clube – em setembro do ano seguinte, poucos meses após conquistar a FA Cup e terminar a temporada como o artilheiro dos Reds. Completando o setor, a referência de área era Ian Rush, nada menos que o maior artilheiro da história do Liverpool e, dentro de pouco tempo, também da seleção galesa. Centroavante letal, também tinha passagem pelo futebol continental, ainda que sem tanto brilho, defendendo a Juventus por uma temporada.

Giggs jogando por Gales em 1993

Além destes titulares, havia um jovem talentoso que em breve pediria passagem, conquistando também um lugar na equipe. Um ponta absurdamente veloz e com grande capacidade de drible e que podia atuar pelos dois lados, embora preferisse o esquerdo. Tinha apenas 18 anos ao início das Eliminatórias e começava a despontar no time do Manchester United. Seu nome era Ryan Giggs.

Nos 6 a 0 diante das Ilhas Faroe, Ian Rush marcou três vezes, com Dean Saunders, Mark Bowen e Clayton Blackmore completando a goleada. Mas até o fim de 1992, os galeses oscilariam num grupo equilibrado, vencendo o Chipre em Limassol por 1 a 0, gol de Mark Hughes, e em seguida perdendo para a Bélgica em Bruxelas por 2 a 0.

Naquela pausa para a virada do ano, os belgas ameaçavam disparar: tinham vencido todas as suas cinco partidas, incluindo os confrontos diretos contra a Romênia também em Bruxelas e a Tchecoslováquia em Praga. Os romenos vinham logo atrás, mas além da derrota para os Diabos Vermelhos, também haviam tropeçado em casa diante dos tchecoslovacos num empate em 1 a 1. País de Gales e Tchecoslováquia vinham bem atrás na pontuação, mas tinham jogos a menos, o que os permitiria encostar nos ponteiros.

A briga de foice no Grupo 4

A reação galesa começou em 31 de março de 1993, e com estilo: pondo fim aos 100% de aproveitamento dos belgas e dando o troco da derrota em Bruxelas. A vitória começou a ser desenhada aos 17 minutos, quando Ryan Giggs, fazendo sua primeira partida como titular da seleção, encheu o pé esquerdo numa cobrança de falta para vencer Michel Preud’Homme. E aos 39, Saunders foi à linha de fundo e cruzou da esquerda para a cabeçada de Ian Rush, que marcou seu 24º gol pela seleção, tornando-se seu maior artilheiro na história.

O próximo desafio seria outro confronto direto, dessa vez contra a ex-Tchecoslováquia, que precisava recuperar os pontos perdidos num desastroso empate diante do Chipre em Limassol no jogo anterior. A equipe trazia vários dos jogadores que dali a três anos levariam a República Tcheca ao vice-campeonato na Euro 96 – Kouba, Kadlec, Kubik, Latal, Nemecek, Nemec, Kuka e Bejbl estiveram em campo naquela tarde de abril de 1993 em Ostrava. Mas foram os galeses que saíram na frente, após linda jogada de Giggs pela ponta direita e a conclusão precisa de Mark Hughes. Os donos da casa empataram ainda no primeiro tempo com Latal, e o resultado acabou ficando mesmo no 1 a 1.

Enquanto a Bélgica deslanchava, ficando bem próxima da classificação, os resultados de junho de 1993 ajudaram a embolar a briga pela segunda vaga: no dia 2, em Kosice, a ex-Tchecoslováquia goleou a Romênia por 5 a 2. Em seguida, o País de Gales venceu com facilidade as Ilhas Faroe em Toftir por 3 a 0: Saunders completou um cruzamento da esquerda de Giggs, Eric Young testou firme uma cobrança de escanteio e Rush arrematou de sem pulo um passe de Saunders de cabeça. Quando os tchecos e eslovacos também derrotaram os faroenses na ilha pelo mesmo placar, eles também se igualaram a galeses e romenos na segunda colocação com nove pontos ganhos em sete jogos.

A igualdade na briga deu caráter ainda mais decisivo ao confronto entre o País de Gales e a Representação dos Tchecos e Eslovacos (comumente referidos por aqui pela sigla RTE), marcado para 8 de setembro em Cardiff. Os visitantes abriram o placar com Pavel Kuka, após um erro de saída de bola galesa aos 16 minutos. Mas a reação foi quase imediata: aos 21, David Phillips desceu pela ponta direita em velocidade e cruzou para Giggs escorar.

E a virada chegaria aos 35, quando Giggs ajeitou de cabeça uma bola alçada em cobrança de falta, e Ian Rush concluiu para as redes. Na etapa final, porém, Eric Young cometeu falta em Skhuravy e, na cobrança, Petr Dubovsky acertou um chutaço, empatando o jogo.

No mesmo dia, a Romênia goleou as Ilhas Faroe fora de casa por 4 a 0 e se isolou na segunda colocação. Nas três partidas de outubro, tudo continuou na mesma: os romenos derrotaram os belgas por 2 a 1 em Bucareste – resultado que deixou os Diabos Vermelhos numa posição um pouco menos confortável – enquanto o País de Gales e a RTE batiam o Chipre em casa por 2 a 0 e 3 a 0, respectivamente.

Foi uma vitória suada, a dos galeses: o primeiro gol só saiu aos 25 minutos do segundo tempo, com Saunders finalizando um bate e rebate na área, depois que os cipriotas já haviam tido um defensor expulso. O segundo tento veio no fim, num bonito passe de Mark Hughes para a conclusão de Ian Rush.

Chega o grande dia

Hagi, capitão da Romênia, contra Gales em 1993 (Foto: Chris Cole/ALLSPORT)

Até que veio a rodada decisiva, em 17 de novembro. Os quatro candidatos às duas vagas se enfrentariam num autêntico mata-mata: dos dois jogos, em quase todas as possibilidades de combinação de resultados, uma seleção sairia classificada e a outra eliminada.

A Bélgica liderava o grupo com 14 pontos e 11 gols de saldo. Em seguida vinha a Romênia, com 13 pontos e 16 gols de saldo. A ex-Tchecoslováquia e o País de Gales vinham logo atrás com 12 pontos, e a vantagem no saldo ficava com a RTE: 12 contra 8. Assim, para os galeses, vencer os romenos em casa era fundamental.

Um triunfo por dois gols de diferença garantiria a vaga na Copa. Já em caso de resultado favorável por um gol, seria preciso que a RTE não vencesse os belgas em Bruxelas, no jogo que se desenrolaria simultaneamente. Pelas ruas de Cardiff, a torcida se mostrava confiante na classificação, aos gritos de “USA”.

Sem poder contar com Blackmore ou Aizlewood na defesa e Hughes na ligação entre o meio e o ataque, os galeses foram a campo com Andy Melville, do Sunderland, na zaga e um quinteto do que trazia Horne e Speed no meio-campo e o tridente formado por Saunders pela direita, Rush no meio e Giggs pela esquerda na frente.

Na saída da bola, já se percebia qual seria a tônica do jogo: inflamados pela torcida que gritava a plenos pulmões numa atmosfera típica de jogo decisivo, os galeses saíam mordendo, pressionando a saída de bola romena. E tiveram uma boa chance numa cabeçada de Ian Rush por cima do travessão antes dos cinco minutos.

Mas a seleção de Gheorghe Hagi era traiçoeira em seu toque de bola envolvente e chegou a acertar a trave com o lateral Petrescu logo no começo do jogo. A partida continuou com chances de parte a parte até o placar ser aberto, aos 32 minutos. Para o desespero da torcida local, em favor dos romenos.

Repetindo uma jogada que havia feito minutos antes, Hagi conduziu a bola da meia direita, quase na linha lateral, arrancando na diagonal até perto da meia-lua da área galesa. Então disparou um chute rasteiro, que passou por baixo do corpo de Southall, numa bola defensável. A falha do goleiro silenciou temporariamente a torcida local e aumentou o tom de dramaticidade do jogo.

Mas a torcida voltou a se levantar quando o time voltou a pressionar os romenos, e uma cabeçada de Melville, após cobrança de escanteio, foi salva em cima da linha, no último lance do primeiro tempo. Na etapa final, depois de Hagi perder uma grande chance de ampliar para os visitantes, Giggs sofreu falta de Selymes no lado direito do campo de ataque galês aos 15 minutos.

O jovem do Manchester United cobrou levantando a bola na área. Numa sucessão de cabeçadas, Saunders, Young e Speed mantiveram o ataque aéreo até o lance sobrar de novo para Saunders, que escorou de pé direito quase sobre a linha empatando o jogo e enlouquecendo o estádio.

Foi quando o jogo virou totalmente a favor dos galeses, empurrados pelos 40 mil torcedores. E então veio o lance crucial da partida. Após uma reposição de Southall, a bola sobrou no meio-campo pelo lado direito para Jeremy Goss, meia do Norwich que havia entrado no início da etapa final no lugar do zagueiro Symons.

Goss avançou em velocidade e alçou para a área. Saunders dominou na frente de Petrescu e girou. Puxado de leve pelo lateral romeno, aproveitou para valorizar na queda. Mas era pênalti, apontado pelo árbitro suíço Kurt Rothlisberger.

Era a chance de passar à frente do marcador e tomar de vez o controle do jogo, afinal a vitória, mesmo por um gol de diferença, naquele momento dava a classificação aos galeses, já que a Bélgica, mesmo com um a menos, segurava um empate sem gols com a ex-Tchecoslováquia.

Paul Bodin cobra o pênalti

Paul Bodin, o ala esquerda, foi o encarregado da cobrança. Desde que estreou na seleção, em maio de 1990, havia cobrado três pênaltis e convertido os três. O primeiro dando a vitória por 1 a 0 num amistoso contra a Islândia um ano depois. E os dois últimos, como lembramos lá no começo do texto, pelas Eliminatórias da Euro 92, contra Alemanha e Luxemburgo.

Seis meses antes daquela partida contra a Romênia, ele havia convertido em Wembley a cobrança decisiva na disputa por penalidades que garantiu o acesso inédito do Swindon Town à Premier League, nos playoffs da segunda divisão. Agora, era a nação galesa inteira que prendia a respiração. A cobrança de Bodin foi firme e alta. Prunea pulou para o lado certo, mas não alcançou. Só que a bola acertou o travessão.

Tão perto e tão longe

Foi um abalo enorme. Ainda que os galeses continuassem pressionando pela vitória, algo tinha morrido no espírito do time e da torcida – ainda que esta mantivesse o apoio incondicional – após a cobrança desperdiçada. Numa tentativa de reanima-los, Yorath ainda substituiu Paul Bodin pelo meia-atacante Malcolm Allen, do Newcastle.

Mas sem foco e cada vez mais sem pernas, os galeses só chegaram a ameaçar num chute de virada de Ian Rush. E ainda sofreram com os perigosos contragolpes dos romenos, que perdiam chances inacreditáveis. Num deles, aos 38 minutos, Dumitrescu desceu pela esquerda, desvencilhou-se da marcação e passou a Raducioiu aberto pela direita. O camisa 9 só teve o trabalho de bater cruzado para vencer outra vez Neville Southall. A seleção da terra do Conde Drácula cravava de vez a estaca no peito dos dragões galeses.

Para tornar a noite ainda mais triste, um torcedor idoso morreu logo após o apito final atingido no pescoço por um sinalizador atirado do outro lado das arquibancadas. Com todos – jogadores, comissão técnica, torcedores – sem conseguir entender o que havia acontecido naquele jogo ao fim da partida, a ficha só caiu para o técnico Terry Yorath durante a madrugada.

Às quatro da manhã, o treinador sentou na cama de seu quarto de hotel e desabou num choro convulsivo. “Foi a partida mais dolorosa da minha carreira. Eu fiquei arrasado, pra ser honesto. E preferia ter lidado melhor com isso porque me afetou por um longo tempo”, revelou o meia Gary Speed.

Ian Rush com Yorath

O resultado definiu a trajetória da seleção galesa pelas próximas duas décadas. Com seu contrato vencido no dia seguinte ao jogo, Terry Yorath não foi convidado a renová-lo. A federação apontou então John Toshack como seu sucessor, mas o anticlímax foi insustentável. Na estreia do novo técnico, o time perdeu um amistoso para a Noruega por 3 a 1 em Cardiff sendo vaiado durante os 90 minutos, em protesto pela saída do antigo comandante. Sem clima, Toshack entregou o cargo logo depois do jogo.

O inglês Mike Smith assumiu, mas colheu resultados desastrosos nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1996. Nos três últimos meses de 1994, a seleção foi derrotada pela fraquíssima Moldávia em Chisinau (3 a 2), humilhada pela Geórgia em Tbilisi (5 a 0) e batida com facilidade pela Bulgária em casa (3 a 0).

O técnico acabou demitido após outra derrota para os geórgios, desta vez em Cardiff, por 1 a 0. Bobby Gould, seu substituto, não fez melhor: apanhou de 7 a 1 para a Holanda na fase de classificação para a Copa de 98, além de se desentender com vários nomes do elenco. Os galeses, que em 1993 ocupavam a 27ª posição no recém-criado Ranking da Fifa, quatro anos depois haviam despencado para o 102º posto.

Somente nas Eliminatórias para a Eurocopa de 2004 o País de Gales voltaria a chegar perto de se classificar para uma grande competição: chegaram a derrotar a Itália por 2 a 1 e terminaram na segunda posição em seu grupo, mas caíram na repescagem diante da Rússia com um empate sem gols em Moscou e uma derrota por 1 a 0 em Cardiff. Andy Melville, Gary Speed e Ryan Giggs eram remanescentes da derrota para a Romênia de dez anos antes. O fim da espera veio com a classificação para a Euro 2016, acompanhado pela grande campanha no torneio disputado na França. Mas, depois de tanto tempo, a Copa do Mundo ainda bate na trave para os galeses.