Eu estava lá. Allianz Arena, 19 de maio de 2012. Morumbi, 31 de Agosto de 1994. Interlagos, 25 de março de 1990. Bayern de Munique, São Paulo, Ayrton Senna. Três campeões, três decisões em casa. E três derrotas. Dos três, só Senna não disputava um título, apenas uma corrida, a que mais desejava e nunca vencia até ali, a única em que corria em casa. No ano em que ganhou seis das 16 corridas, Senna foi pole no Brasil, mas perdeu a corrida para Prost.

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Das 19 Copas do Mundo anteriores à de 2014, só seis foram vencidas pela equipe da casa. De todas elas, apenas uma, a Alemanha em 1974, já tinha sido campeã mundial quando venceu em casa. É isso mesmo: em 19 Copas do Mundo até hoje, apenas um campeão mundial venceu em casa depois de já ter sido campeão mundial.

Dos seis campeões que venceram em casa, com ou sem razão alega-se coisas estranhas sobre a maior parte deles. Em 1930, teriam entrado no vestiário argentino no intervalo da final ganha pela Celeste. Em 1934 e 1978, os ditadores de plantão teriam contribuído – em 78, a mala preta para o Peru também. Em 1966, um gol que não houve. Com exceção da Alemanha de 1974, só a França de 1998 venceu em casa sem contestações. Só Beckenbauer e Zidane.

Em 1990, a Itália tinha Baggio e Schilacci. Podia até não ser favorita absoluta, mas tinha time para passar pela Argentina. Em Nápoles, porém, Maradona foi rei de novo, a Argentina venceu (nos pênaltis, com gol da Cannigia no tempo normal) e eliminou os anfitriões da Copa – que acabaria com a Alemanha campeã. Em 2006 a Alemanha não era favorita, o que não conta muito quando se considera que nem Itália, a campeã, nem França, eram. Também foi eliminada na semifinal, pela Itália, que, em estranha coincidência, desta vez ficou com o título.

Ainda assim, teimamos em achar que o Brasil, “desta vez”, tem a obrigação de ganhar em casa. Uma obrigação um tanto estranha para um time que não tem um atacante que preste, e cujos principais destaques têm 22 anos. Para um time que, acostumado a ter seis, sete, oito craques em campo, agora se contenta, com três, quatro, dois deles na zaga. Se a perda de Neymar alivia a “obrigação” do ponto de vista racional, não há quem, emocionalmente, não espere que o menino craque não seja substituído por esta entidade abstrata tão cara aos brasileiros, a “superação”.

Sabemos que há algo a ser superado, algo grande a ser superado, que ficou ainda maior, mas no coração continuamos achando que, na nossa casa, o título tem que ser nosso. Por uma questão de “justiça”. Por Neymar, por Barbosa, pelos meninos da Rocinha, Paraisópolis e Brasília Teimosa. Pela Copa das Copas. Porque somos os torcedores mais legais do planeta. Ou, simplesmente, PORQUE EU QUERO!

Eu também quero. Mas historicamente não é bem assim que acontece. Não temos obrigação nenhuma de ganhar em casa pelo simples fato de que não é mais fácil ganhar em casa, é mais difícil. Se a gente ganhar, portanto, vai ter sido a superação da superação da superação.

É possível, atingível a superação. Mas não é, nem pode ser, obrigação.