A passagem de Gareth Bale pelo Real Madrid sempre será marcada por uma cifra: €101 milhões. O dinheiro, que hoje é mera fração perto do que se desembolsou por Neymar, havia se tornado um marco há cinco anos, quando o galês trocou Londres por Madri. Pela primeira vez na história, atingiam-se os nove dígitos na contratação de um jogador. E a etiqueta parecia sempre pendurada a cada atuação do ponta. Neste sábado, enfim, Bale rasgou este selo. Teve uma noite para dizer que foi o cara do time, numa conquista maiúscula. Saiu do banco, chamou a responsabilidade e desequilibrou uma partida que estava para o lado merengue, mas não via ninguém brilhar. Pois o camisa 11 cintilou no Estádio Olímpico de Kiev, ao anotar um dos gols mais fantásticos da história da Liga dos Campeões – justo em uma final. Jogo inesquecível e que, por suas palavras, pode ser o último ato vestindo branco.

Bale fez três temporadas satisfatórias pelo Real Madrid. Satisfatórias, mas não o que se pedia pela etiqueta de nove números que vinha colada em sua testa. Por aquilo que se pagou, as estatísticas soavam não mais do que razoáveis, quando se esperava alguém que se tornasse até mesmo um possível sucessor de Cristiano Ronaldo. A verdade é que o camisa 7 continuou sendo o dono do time e permaneciam ressalvas sobre o galês, mesmo com participações importantes nos títulos da Champions em 2013/14 e 2015/16. Cobrava-se mais, ainda assim. E em meio às lesões, a temporada passada marcou a baixa do camisa 11. Não era e, aparentemente, nem seria o fenômeno do Tottenham que tinha custado os olhos da cara aos madridistas.

A atual temporada continuou sendo difícil a Bale, até por um visível afastamento de Zidane. Perdeu parte do primeiro semestre por conta dos problemas físicos. Voltou sem alarde, mas logo mostraria serviço. Que suas aparições na Liga dos Campeões tenham sido esporádicas, no Campeonato Espanhol o galês carregou o time em vários momentos na reta final. Foram dez gols e duas assistências em suas últimas 12 atuações. Por bola, até parecia ser um nome mais indicado para começar jogando a final da Liga dos Campeões. Zizou preferiu deixá-lo no banco. Algo que mexeu com os brios de Bale, e ficou claro quando ele entrou em campo.

A chance veio apenas aos 16 minutos do segundo tempo, quando o jogo estava empatado, logo após o tento de Sadio Mané. O Liverpool até havia crescido, mas voltara a se retrair. Coube a Bale botar fogo na partida. Três minutos bastaram para isso. Três minutos bastaram para o cruzamento de Marcelo chegar na medida ao camisa 11. Mal tinha tocado na bola. Em uma das primeiras vezes, já emendou uma bicicleta magnífica. Velocidade de raciocínio, capacidade técnica, ousadia: tudo entra na equação para arriscar um movimento desses. E a pedalada, que lembrou um golpe de artes marciais, foi fatal. Morreu no alto, nas redes, sem que Loris Karius conseguisse alcançar.

O golaço foi a deixa para que Bale ganhasse mais confiança. Era ele quem partia para cima, que explorava o esfacelado moral do Liverpool. As melhores jogadas do Real Madrid vinham de seus pés, porque nenhum outro mostrava a mesma incisividade. Ao final, contou com a infelicidade de Karius para ampliar a vantagem. Seu chute de longe não foi bom, sem tanta força assim, no meio do gol. Aproveitou-se da total desatenção do alemão, numa das noites mais infelizes de um goleiro a este nível de competitividade. Nada que o galês tivesse a ver. Independentemente disso, o eleito melhor da partida demonstrou compaixão ao adversário. Ao vê-lo desabado no gramado, partiu a consolá-lo, junto com outros companheiros do Real Madrid.

Esta final da Champions, aliás, valeu para os renegados do trio BBC. Cristiano Ronaldo fez uma partida apagada e, quando poderia ter marcado, ou parou em Karius ou foi obrigado a parar por uma invasão de campo. Benzema, por sua vez, continuou com sua batalha costumeira. Foi esperto ao bloquear o caminho do goleiro adversário. Terminou em alta, também pela maneira como arriscou e incomodou, forçando boas defesas do alemão. Já a etiqueta da decisão, dourada, é de Bale. O gol espetacular merece ser mais lembrado do que os nove dígitos de cinco anos atrás. O tri continental dependeu bastante do galês, tanto quanto qualquer debilidade do outro lado.

Na saída de campo, porém, Bale não escondeu a insatisfação: “Obviamente, eu estava muito desapontado por não começar o jogo. Senti que merecia, mas é o técnico quem toma as decisões. O melhor que eu tinha a fazer era entrar em campo e causar impacto, o que certamente eu fiz. Deve ter sido o melhor gol em uma final de Champions, não há palco maior. Estou feliz pela vitória. É um esporte coletivo, mas quando você sai do banco, vai além dos 11 atletas. Causei impacto. Nós sabemos o que alcançamos e quão bons temos sido. A campanha no Espanhol decepcionou, mas ganhamos a Champions. Isso transforma a temporada em ótima. Sabemos como somos famintos, como somos preparados e como somos motivados. Sobre meu futuro, eu preciso jogar todas as semanas, e isso não aconteceu nesta temporada, Tive uma lesão, mas voltei a me recuperar logo. Vou sentar com meu agente e discutir isso”.

Bale sabe que o golaço em Kiev traz uma nova marca à sua carreira. O lance valoriza o seu momento e providencia a impressão de que poderá render muito mais. Talvez seja a deixa para que busque novos horizontes no futuro, especialmente com o mercado que ainda possui na Premier League. O trio BBC, aliás, parece próximo de se desintegrar como um todo, considerando os constantes questionamentos a Karim Benzema e as declarações de Cristiano Ronaldo neste sábado, dando a entender que também reavaliará sua continuidade no Bernabéu. Instantes finais no quais os holofotes, com méritos, recaem sobre o galês. A bicicleta fica para sempre.