Não se conta a história do Grêmio sem mencionar as suas Libertadores. É o torneio arraigado no DNA dos tricolores, que melhor traduz aquilo que se vive e o que se sente como identidade do clube. E o sucesso gremista no torneio continental é inerente à idolatria a Renato Portaluppi. A trajetória do Grêmio na competição começou a ser construída justamente na década de 1980, quando o talentoso atacante despontava com a camisa listrada. Quando se afirmava como realidade, tão decisivo às glórias do time de Valdir Espinosa. E se o Mundial de Clubes de 1983 costuma ser geralmente citado como exemplo da magia de Renato nesta época, não se pode ignorar a sua importância também na conquista da Libertadores. A mística do camisa 7 transborda em ‘La Copa’, e se reaviva nos pensamentos dos torcedores diante do retorno do clube à final sul-americana, com a equipe treinada pelo veterano.

Vale mencionar, entretanto, que a trajetória de Renato na Libertadores não começa em 1983. Ele estreia junto com o Grêmio na competição, após a conquista do Brasileirão pelos tricolores. Lapidado nas categorias de base após ser trazido do Esportivo, o ponta de 19 anos ainda dava os seus primeiros passos na equipe principal quando a Libertadores de 1982 começou. Já tinha o seu moral, costumeiramente pedido nas escalações de Ênio Andrade. No entanto, o veterano treinador nem sempre alinhava o camisa 7. Titular em quatro jogos e substituto nos outros dois, Renato pouco ajudou o Tricolor naquela campanha. A equipe acabou eliminada ainda na fase de grupos, em tempos nos quais apenas os líderes da chave avançavam ao triangular semifinal. A única vitória gremista viria justamente contra o Peñarol, que se sagraria campeão daquela edição. E uma prévia do que aconteceria em 1983.

Vice-campeão brasileiro de 1982, o Grêmio voltou à Libertadores em 1983. E o status de Renato cresceu no retorno à competição continental. O jovem teve os seus percalços. A indisciplina era um problema constante e por muito pouco ele não acabou emprestado ao Operário de Campo Grande. Permaneceu no Olímpico, encontrando o seu melhor futebol sob as ordens de Valdir Espinosa. O treinador sabia o tamanho da joia que tinha em mãos. Apesar do excesso de individualismo em alguns momentos, Portaluppi possuía uma habilidade natural. Era um ponta completo, que aliava a facilidade para entortar os marcadores com uma força física atípica na época para os jogadores da posição. Além do mais, possuía uma potência nas arrancadas que o tornava imparável. E a iluminação dos grandes craques, pronto para decidir em um lampejo.

Reserva na estreia contra o Flamengo, Renato entrou no segundo tempo e deu seu cartão de visitas numa bola que estalou a trave de Raul. O Grêmio, apesar da boa atuação no Olímpico, precisou se contentar com o empate. E o ponta logo se firmaria na posição durante a fase de grupos da Libertadores, em que a dupla brasileira media forças com os representantes bolivianos. Durante a mini-turnê pelos Andes, o camisa 7 foi fundamental para as duas vitórias conquistadas. Desequilibrou contra o Blooming, anotando o segundo tento no triunfo por 2 a 0. Já na visita a La Paz, o garoto minimizou os efeitos da altitude, dizendo que “também nasceu em um lugar alto” e que “em Bento Gonçalves também faz frio”. Não foi tão preponderante naquela noite, mas o Tricolor buscou a virada sobre o Bolívar por 2 a 1. O resultado permitiu aos gremistas dispararem na liderança.

O Grêmio selou sua classificação com uma rodada de antecedência, graças às vitórias nas visitas dos bolivianos a Porto Alegre. Renato, mais uma vez, chamou a responsabilidade. Criou as jogadas nos dois gols contra o Blooming e infernizou a defesa do Bolívar. A torcida por vezes se irritava com o “fominha”, prendendo a bola demais, mas também tinha a consciência da importância do camisa 7 para mudar as partidas. Já no encerramento da fase de grupos, o Tricolor viajou ao Rio de Janeiro tranquilo, sem poder ser ultrapassado pelo Flamengo. Ainda assim, o Grêmio jogou sério e atropelou os rubro-negros, com o triunfo por 3 a 1 garantido ainda no primeiro tempo. Com a melhor campanha da fase classificatória entre todas as chaves, a equipe de Espinosa pegaria Estudiantes e América de Cali no triangular semifinal.

Não seriam jogos fáceis. Os argentinos haviam conquistado o Campeonato Metropolitano, contando com um time de bons nomes individuais, mas famoso também por seus métodos “sujos” na Libertadores. Já os colombianos iniciavam os seus anos de ouro, bancados pelo Cartel de Cali e com um elenco repleto de estrelas, inclusive estrangeiras. O Grêmio iniciou a jornada derrotando o Estudiantes no Olímpico, por 2 a 1. Renato não fazia a sua partida mais consistente, embora fosse a válvula de escape do ataque tricolor. Acabou substituído aos 12 minutos do segundo tempo, com cara de poucos amigos, saindo direto para o vestiário. A cartada de Espinosa, contudo, deu certo. O veterano Tarciso entrou para anotar justamente o gol decisivo, a cinco minutos do fim. Já depois do jogo, o camisa 7 evitou estender a polêmica, mas sem esconder seu desagrado.

Mantido entre os titulares na visita à Colômbia, Renato não evitou a derrota por 1 a 0 para o América de Cali. Em jogo muito pegado contra os alvirrubros, no entanto, o ponta sofreu um pênalti ignorado pela arbitragem. O troco viria no reencontro em Porto Alegre, com a vitória tricolor por 2 a 1. A partida precisou ser remarcada para o dia seguinte, por conta das fortes chuvas que caíam na capital gaúcha. E o camisa 7 exibiu toda a sua energia durante os 90 minutos. Deu fluidez ao ataque, cruzou para Caio anotar o primeiro gol e não se cansou de humilhar os marcadores com seus dribles. Atuação tão boa que rendeu nota 10, segundo o jornal Zero Hora do dia seguinte.

“Estou convencido que corri os 90 minutos porque não tinha ido a festas. Vou continuar concentrado. Sempre gostei de sair à noite, mas agora é a vez do título. O Espinosa me disse que depois do jogo em La Plata posso me soltar até no avião”, declarou Renato, após a partida. “Nem tudo que passa pela minha cabeça são mulheres. Quero este título mais do que ninguém. Elas estão até me escolhendo como o rapaz mais lindo da cidade, mas nada disso vai me influenciar. O que importa agora é seguir os meus companheiros e voltar da Argentina com a classificação”.

Pois no último compromisso do triangular semifinal, Renato demonstrou o seu foco. O Grêmio faria uma partida bastante tensa contra o Estudiantes, na Argentina, apenas dois dias depois da vitória sobre o América de Cali. O clima antes do encontro era pesado, considerando os atritos diplomáticos entre Brasil e Argentina, bem como as hostilidades dos pincharratas com o Tricolor. Não à toa, aquela partida ficou conhecida como ‘A Batalha de La Plata’. Mesmo com dois jogadores expulsos ainda no primeiro tempo, o Estudiantes abriu o placar, cedendo o empate aos 45 do primeiro tempo. Já no intervalo, a cena que simboliza aquela noite. Quando seus companheiros já estavam no vestiário, com a porta cerrada pelo segurança tricolor, o atacante Caio foi encurralado por três adversários nos corredores, agredido sem piedade. Sofreu uma fratura na tíbia, sem sequer voltar para a etapa final.

No segundo tempo, Renato destoou. Brilhou para dar a virada ao Grêmio. Primeiro, cruzou a bola para César (justamente o substituto de Caio) anotar o segundo. Depois, ele mesmo fez um golaço. Arrancou da intermediária e driblou três adversários, antes de estufar as redes. Neste momento, o Estudiantes perdeu a compostura de vez. O bandeirinha levou uma pedrada da torcida, enquanto mais dois jogadores receberam o cartão vermelho. Os tricolores precisavam redobrar o cuidado nas divididas, porque a intenção dos pincharratas era machucar. Pois mesmo com sete, os argentinos conseguiram arrancar o empate por 3 a 3, com dois gols nos 15 minutos finais. Os sentimentos variavam no vestiário do Grêmio depois do jogo. Prevalecia a indignação pela violência, a revolta com o árbitro por um gol de César mal anulado quando o placar estava em 3 a 2, o vazio por ceder o resultado com quatro jogadores a mais. Ainda existia risco de eliminação aos tricolores, apesar da liderança da chave. Todavia, o empate do Estudiantes na visita a Cali confirmou os gaúchos na final.

O adversário? Justamente o Peñarol, oponente do Grêmio na edição anterior da Libertadores. Os atuais campeões faziam a primeira partida no Estádio Centenário. E o Tricolor, mais tarimbado depois do que aconteceu em La Plata, suportou a nova batalha. Não seria um jogo fácil para Renato, que sofreu um pisão de Miguel Bossio logo nos primeiros minutos, quando estava caído, e acabou com corte na canela – sem poder ser atendido em campo pelo médico da equipe, diante da proibição do árbitro. O gramado irregular dificultou o trabalho do ponta, bem marcado por Víctor Diogo. Sendo assim, precisou se empenhar também sem a bola, ajudando os gremistas a segurarem o empate por 1 a 1. Tita abriu o placar ainda no primeiro tempo, enquanto Fernando Morena igualou para os uruguaios antes do intervalo. A decisão ficaria para o Olímpico.

“Estava difícil, são muitas faltas, não se pode jogar. O importante é que não revidei, procurei ajudar o time. Também voltei à defesa e até segurei o lateral. Agora o título está no papo”, afirmou Renato, após o jogo. “O cara me acertou, pisou na minha perna quando eu estava caído. Mas quem quer ser campeão da Libertadores tem que enfrentar também essas coisas. Libertadores é isso mesmo, não adianta”. Antes do jogo em Porto Alegre, o camisa 7 voltou a estampar as manchetes. Atiçava o zagueiro Walter Olivera, um dos líderes do Peñarol, dizendo que queria ver se os carboneros também “seriam machos” no Rio Grande do Sul.

Quando a bola rolou, prevaleceu o futebol do Grêmio, diante dos 73 mil presentes no Olímpico. Valdir Espinosa montou um time firme e que marcava bem, mas sem ser desleal. E as palavras de Renato, provocações que se tornariam marca de sua carreira, se dissiparam ao vento. A resposta do camisa 7 vinha mesmo com sua habilidade primorosa, partindo para cima dos adversários com seus dribles. Logo nos primeiros minutos, entortou Diogo e arrancou um cartão em falta cometida por Olivera. Aos 10 minutos, cobrou o escanteio que, na sequência, rendeu o gol de Caio. E, sem temer, deu uma caneta de letra no mesmo Bossio que pisara em sua canela. Não passou ileso, atingido por um carrinho duríssimo do uruguaio.

Fechando o primeiro tempo em vantagem, o Grêmio passou a ser ameaçado na volta para a etapa complementar. O Peñarol crescia. E faltava um pouco mais de controle aos tricolores. Ao próprio Renato, que aos 22 minutos pisou em Venancio Ramos, causando uma confusão entre as duas equipes, o que lhe valeu o cartão amarelo. Pouco depois, o baque. O Peñarol conseguiu arrancar o empate com Fernando Morena. O Tricolor precisava se reerguer. Dependia do talento de seus jogadores. Precisava da qualidade de Renato. Pois ela apareceu, sete minutos depois, aos 32. Tita lançou o ponta, que evitou o tiro de meta e cruzou em cima de Diogo. Lateral. O jovem cobrou e recebeu de volta, marcado por dois carboneros. Foi para o improviso. Levantou a bola e, com ela no alto, desferiu o cruzamento. O passe vai rumo à segunda trave, onde César passa às costas da zaga. De cabeça, anota o gol da vitória por 2 a 1. O gol do inédito título continental.

Caberia ao Grêmio segurar a vantagem nos 13 minutos que restavam. Renato voltaria a atrair as atenções aos 42, mas não de maneira positiva. Venancio Ramos agrediu Mazaropi e o atacante revidou, acertando o adversário. Os dois acabaram expulsos. Na saída de campo, Bossio ainda foi empurrar o camisa 7, que desferiu mais um soco no uruguaio antes de seguir para o túnel. Mas a ausência do jovem craque não atrapalharia os gaúchos. Logo ele voltaria a campo para comemorar a façanha do time aguerrido do Tricolor. Uma conquista com o verdadeiro DNA gremista, e que marca tanto o imaginário dos torcedores.

Naquele momento, Renato Portaluppi tinha o seu nome gravado na história do Grêmio. E ampliaria sua adoração pela maneira como destruiu o Hamburgo em Tóquio, garantindo o título do Mundial. No ano seguinte, o Tricolor voltou à Libertadores. Por ser campeão, entrou diretamente no triangular semifinal. E disputaria sua segunda decisão, depois de passar por Flamengo e Universidad de Los Andes, garantindo a vaga depois de um jogo-desempate contra os rubro-negros no Pacaembu. Renato marcou dois gols naquela fase, incluindo um na goleada por 5 a 1 sobre os cariocas no Olímpico. Na decisão, porém, os gremistas acabariam derrotados pelo Independiente.

Trinta e três anos depois, Renato volta à final da Libertadores com o Grêmio. Uma história grandiosa ainda sendo escrita. E os gremistas esperam que a glória de 1983 se repita com o mesmo brio e a mesma estrela do velho ídolo.

Para outras informações daquela campanha, vale acompanhar o trabalho feito pelo site Grêmio1983 em 2013, compilando diversos artigos de jornais da época. Outra boa pedida é o especial feito pelo Globo Esporte em 2013. Além disso, abaixo reproduzimos um perfil da revista Placar de abril de 1983, apresentando Renato.