Paulinho e Pedrinho despontam como duas das grandes revelações do primeiro turno deste Campeonato Brasileiro. O vascaíno Paulinho surgiu em um momento de dificuldade da equipe e, aos 17 anos, já marcou gols decisivos. Tornou-se, inclusive, o primeiro jogador nascido a partir de 2000 a balançar as redes pelo Brasileirão. Pedrinho, por sua vez, já era um nome conhecido entre os corintianos, especialmente desde a Copa São Paulo. Ainda assim, as entradas providenciais do garoto de 19 anos valeram pontos importantes aos líderes da Série A. Em comum, além do sonho e do destaque, também as histórias de vida profundas. Histórias estas que, por certa coincidência, foram apresentadas recentemente em uma série-documentário sobre 12 jovens na mesma batalha.

Desde o início de julho, o Sportv exibe nas noites de domingo a ‘Geração Z’ – com reprises em sua programação durante a semana. A produção, dividida em seis episódios, não visa apenas falar sobre futuros craques do futebol brasileiro. Ela apresenta principalmente as trajetórias e os anseios de cada um desses garotos, sem se limitar apenas à relação com o esporte. É, acima de tudo, um relato sobre a vida de cada um deles e as questões que permeiam a realidade desta geração. Não à toa, os depoimentos são intercalados por “conselheiros” – ex-jogadores, treinadores e até pessoas de fora do futebol, como psicólogos e filósofos, que aprofundam a visão sobre alguns temas abordados. A direção é de Jorge Mansur e Ricardo Porto, enquanto a produção de reportagem é de Pedro Venancio – do ótimo blog ‘Na base da bola’.

Para conhecer um pouco mais a fundo a série e conhecer as ideias que regeram a produção, conversamos com Ricardo Porto. O jornalista possui uma ampla experiência na cobertura esportiva, trabalhando durante boa parte de sua vida na TV Globo, em diferentes funções. Foi produtor, editor-chefe, gerente de eventos e editor de automobilismo. Além disso, criou sua própria produtora e também trabalhou como consultor de texto no filme da Copa de 1994, ao lado de Armando Nogueira. O bate-papo, no entanto, vai muito além da série em si e entra no universo amplo que foi retratado nos episódios.

“Precisamos falar cada vez mais sobre a juventude. Dar voz a essa juventude. A gente ouve pouco essa galera. Eles precisam falar, vir a público. A gente tem que ouvir as histórias que estão sendo criadas e divididas por eles, há muito para acrescentar a nós. Acho que o Brasil, em geral, precisa disso. Estamos ouvindo muita gente velha e deixando de lado o pessoal mais novo”, afirma Porto.

Abaixo, a entrevista com o diretor. O último episódio de ‘Geração Z’ vai ao ar neste domingo, às 23 horas, com reprises durante a semana no Sportv. Também é possível assistir a todos os episódios e também aos extras no ‘Sportv Play’ – acessível através deste link.

O que norteou a escolha dos personagens retratados na série?

A gente estava em busca de boas histórias de pessoas, em primeiro lugar. Depois, que fossem garotos com alguma relevância, com possibilidade de ter uma história futebolística interessante. Não que eles viessem a ser craques e tal, mas que o futebol fosse algo importante para eles, não apenas uma saída para a vida. Além disso, que eles tivessem o que contar, da experiência tanto no futebol quanto na vida. Isso resume um pouco da essência do que buscamos desde o início. A partir de então, fomos fechando o cerco em cima de histórias que pudessem trazer um pouco de um universo diferente. Queríamos representar várias classes sociais, vários estados do Brasil, clubes diferentes – algo que proporcionasse uma abrangência nacional. Assim, não foi fácil fechar em 12 jogadores, ao mesmo tempo que a gente não teve muitos nomes além.

Então existiu uma ideia de representar a relação dessa ‘Geração Z’ em vários cantos do país e também a perspectiva futebolística em cada canto?

Exatamente. Tentamos botar a perspectiva futebolística dentro disso. Ao mesmo tempo, queríamos mostrar alguma coisa do trabalho de base que é feito no Brasil. Como é essa seleção de jogadores, não apenas do ponto de vista técnico. Por mais que haja parâmetro para definir as escolhas, o acaso às vezes define situações. Às vezes o cara não está no lugar certo e na hora certa, ou não consegue usar aquilo a favor dele. Então, queríamos descobrir histórias em que o acaso também estivesse presente.

A série mostra um retrato mais humano dos jogadores, dá destaque às histórias pessoais. Como foi o processo de escolha do material e de planejamento, para enfatizar esse lado mais humano, quando uma série do tipo geralmente explora apenas a parte esportiva?

Antes de definirmos os jogadores, a nossa ideia inicial era ter histórias boas de pessoas que estão fazendo a transição para o mundo do futebol. Eu chamo de jogadores, mas nem todos são ainda e talvez nem todos virão a ser. A nossa ideia era que tivéssemos não apenas jogadores, mas que eles contassem outras experiências de vida. Isso foi importante para nós. Abrimos mão de alguns caras que eram muito bons, mas que a história deles não era tão relevante. Ser excelente como jogador não era nossa meta.

Teve alguma intenção de fazer esses personagens refletirem a cabeça da juventude atual?

Não intencionalmente. A gente queria saber o que estava na cabeça desses caras que pertencem a uma geração que é considerada a ‘geração Z’. Esse conceito abrange vários aspectos dessa galera que nasceu depois de 1995. Não tínhamos uma ideia de juventude feita na nossa cabeça. Eu acho que essa ideia de juventude única é muito plana, quando há vários níveis. Quando alguém vem falar em nome da juventude, eu logo desconfio, porque são várias juventudes. Várias classes sociais, vários níveis culturais, vários locais de nascimento, vários backgrounds familiares, que não compõem um painel tão homogêneo em um país tão grande quanto o Brasil. Uma das nossas preocupações ao chamar de ‘geração Z’ era dar uma identificação etária, mas existiam questões identificadas nesta geração que seriam apresentadas pelos personagens.

Atletico MG v Vasco da Gama - Brasileirao Series A 2017

Quais eram estas questões?

Como lidar com uma sociedade brasileira cada vez mais violenta; como lidar com questões da velocidade proporcionada por mídias sociais, celulares, etc; a questão sexual para esta geração; entre outras coisas. Algumas delas apareceram, outras menos. Mas todas elas estavam em nosso universo, além de uma questão fundamental sobre o futebol, que é o peso dessa geração em trazer o Brasil novamente como expoente, em um cenário no qual ele sempre foi número um. Como eles lidam com ídolos e com cifras gigantescas? Qual a percepção sobre a seleção brasileira e sobre os clubes, o que isso representa no imaginário deles? Como é a questão de estar instrumentalizado e totalmente integrado ao capital? Onde está o futebol na vida dessas pessoas e qual ligação essencial deles com o jogo? Isso ainda existe para essa garotada? Qual a conexão deles com a bola, como surgiu, isso permanece ou mudou? Enfim, buscamos várias dessas questões. Por isso, existem os “conselheiros” na série. Eles surgiram como vozes de fora, tanto do futebol ou de outras áreas, que pensem um universo da juventude e as questões geracionais – até com um tom crítico ao que acontece no mainstream, mas ao mesmo tempo com uma compreensão do que se passa na cabeça dessa juventude e no mundo em que eles vivem.

Como foi a escolha desses conselheiros?

Queríamos pessoas que fossem relevantes em diferentes campos. Queríamos um craque do passado e um craque do presente, pelo menos. Gente que tivesse vivido uma outra realidade de futebol e refletisse sobre isso – porque não adiantaria nada quem não tivesse refletido. Estão lá o Júnior e o Falcão, que são caras de uma geração anterior, e o Juninho, de uma geração mais nova, que largou o futebol há pouco tempo, mas continua refletindo. Por isso que está lá o Carlos Amadeu, que é um treinador ativo nas divisões de base. E queríamos também gente de fora do mundo do futebol, com uma visão sobre as questões atuais do mundo, como o Mário Sérgio Cortella. Pessoas que refletem sobre futebol, mas tem uma visão externa. Buscamos ter discursos diferentes, como o Luís Fernando Veríssimo, que já escreveu muito sobre futebol, de uma maneira romântica e com uma excelência incrível. Queríamos ouvi-lo sobre o que ele enxerga sobre o futebol hoje em dia, depois de tantos anos.

Partindo de dois mundos que vocês apresentam, o futebol e a vivência dos próprios garotos, o que você acha que a série acrescenta mais ao público?

Primeiro, ela quebra um paradigma que está na cabeça das pessoas, de que jogador de futebol é uma besta quadrada. Que jogador de futebol não pensa. Que a juventude também não pensa. Que a juventude não tem nada a dizer. Mesmo com pouco tempo de estudo, você encontra reflexões profundas sobre a vida num cara que é futuro jogador de futebol. Para mim, isso é o que acrescenta, o que é mais importante da série. Quebrar paradigmas sobre como se forma o jogador de futebol, botar isso em discussão, saber qual é o jogador que se quer hoje. Principalmente, saber se essa trajetória de jogador de futebol está sendo completa, quais as lacunas, onde estão os grandes problemas. E também mostrar um pouco que não é só o pobre que tem desejo de ser jogador, mas qualquer garoto, de classe média e tal. Se ele tem esse sonho, se a família abraça.

É muito interessante você ver que a série deixa claro qual é o papel familiar na trajetória desses garotos, seja positivo ou negativo. Não sou desses que falam que quem não tem base familiar não vai conseguir, não é bem por aí. Tem família com tudo nas mãos e toma decisões erradas. Assim como tem o cara que a família está a mil quilômetros de distância – o [Jean Louis] Anel, haitiano, que veio para o Brasil para outro tipo de sonho, um sonho de cidadania universal. Ele ama o futebol, mas, na verdade, quer ser outra coisa na vida. Ser jogador de futebol é uma etapa importante, mas não é tudo para ele. O questionamento sobre as verdades definitivas é um pouco o que a série consegue passar – principalmente no discurso das pessoas, nos acontecimentos da vida delas.

O que marcou mais durante as gravações? Alguma ideia foi quebrada durante a produção?

Acabamos percebendo que o jogador nunca está sozinho. Ele não se faz por si mesmo. Tem muitas coisas que acontecem antes do cara se tornar jogador, que podem criar alicerces para o futuro dele. Isso a gente descobriu um pouco fazendo a série. Não que tenha quebrado paradigmas, mas descobrimos que precisávamos investigar melhor os antecedentes das vidas para entender a conexão das pessoas com o futebol. Até por isso, no início a gente buscou mais informações do entorno, além de saber quem era o cara. Refizemos algumas entrevistas, porque achamos que não tínhamos ido suficientemente a fundo. Isso foi muito educativo para nós, do ponto de vista que também temos que estar preparados para o inesperado da vida. Para o inesperado da história de vida das pessoas, quando você se propõe a contá-las. Não é tão fácil assim.

durante o jogo Corinthians/Brasil x Patriotas/Colombia, esta noite na Arena Corinthians, jogo de volta da segunda fase da Copa Sulamericana 2017. Juiz: Roberto Tomar  - Sao Paulo/Brasil - 26/07/2017. Foto: © Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians

Como foi a decisão de pegar um jogador haitiano, do Pérolas Negras?

A escolha não foi aleatória. Sabíamos do projeto do Pérolas Negras e de outras abordagens que tinham sido feitas para apresentá-lo, mas queríamos entrar no tema e pegar um personagem que tivesse uma história interessante. Que tivesse coisas a dizer sobre o Haiti e sobre o Brasil. Conversando com o Pérolas Negras é que a gente chegou ao Anel e, depois de um papo, confirmei que ele seria mesmo o personagem. É uma escolha complicada, porque primeiro o cara precisa dominar o português. Tudo bem que a gente poderia tentar fazer uma entrevista em francês ou creole, com alguma pessoa traduzindo, mas nunca é a mesma coisa. Ele já tinha um domínio grande do português, e isso se tornou um assunto para nós. Fomos a uma aula de português com ele e sabia mais que alguns brasileiros, era impressionante. Além disso, a forma como ele se envolveu com o Brasil também é um pouco diferente dos outros garotos, então isso se tornou muito forte. E a maneira como ele é líder dentro do grupo, a representatividade, também pesou para que emplacasse como personagem. É um bom jogador, acredito que ele tenha capacidade de jogar profissionalmente em clubes do Brasil, não sei de Série A. Ele é inteligente, e isso conta muito, tem compreensão tática, leitura de jogo.

Como é a sensação de ver alguns dos garotos retratados, especialmente o Paulinho e o Pedrinho, ganhando repercussão justamente na época em que a série está no ar?

É muito gratificante. É emocionante, na verdade. Quando você descobre a história de vida desses garotos e chega perto do universo deles, é muito emocionante – e para qualquer um, mesmo para um jornalista que precisa manter a distância, a crítica, etc. Você fica muito feliz ao ver um cara desses tendo destaque, e não só por estar no meio da série. Isso não trouxe nenhuma visibilidade adicional, mas trouxe credibilidade de que o trabalho foi bem-feito e de que buscamos alguns jogadores que tinham relevância. Tenho certeza que alguns dos caras retratados vão conseguir se destacar, porque eles têm estrela, têm talento, etc e tal. Independente de ‘Geração Z’, vão lá fazer as histórias deles. Eu fico bem feliz, porque o Paulinho tem um projeto familiar muito forte, que sempre foi muito bem construído e conduzido. E o Pedrinho é uma história maravilhosa de talento bruto, sendo lapidado de uma maneira correta – e eu espero que seja, porque ele é um garoto bom, do bem.

Qual foi a maior dificuldade durante a produção e qual é a maior satisfação depois de tudo?

A maior satisfação é que a série tenha trazido algumas histórias muito tocantes para as pessoas. Se esses garotos aparecerem agora para o futebol ou só depois, isso é consequência da trajetória deles. Só é mérito nosso ter conseguido identificar alguns talentos. E a ideia não era identificar talentos, era identificar caras com boas histórias para contar, que a gente pudesse contar de uma maneira legal. Tem cara que talvez nem emplaque como jogador de futebol, mas tem uma história de luta e de batalha. Acho que isso talvez una todos eles: a história grande de batalha pelo sonho. E é o exemplo que fica para a geração: tem que se batalhar para se conseguir qualquer coisa, seja em qualquer campo. Já o mais difícil na produção foi amarrar algumas pontas, dar tempo de fazer tudo e não perder as coisas boas. Enfim, tivemos que abrir mão de algumas coisas que talvez fossem muito boas, mas que a gente não conseguiu ilustrar direito. Mas não fica nenhuma frustração nesse sentido. É parte do processo de qualquer documentário, de qualquer trabalho jornalístico.

E tem alguma ideia além, de não ficar apenas na série atual, levá-la a outras mídias?

A gente está discutindo, precisamos conversar com o Sportv. Vamos tentar inscrever uma versão do ‘Geração Z’ no CineFOOT. E tem uma ideia de desdobramento, se acontecer uma segunda temporada, talvez a gente invista em outra mídia – talvez um livro, com fotos. Como as entrevistas são muito pungentes, a médio prazo a gente pode pensar em uma compilação. Tem alguns caras que podem se tornar importantes geracionalmente no futebol brasileiro.