“Mas como, colunista? A Holanda classificou-se com sobras para a Copa do Mundo de 2014 e você fala que o ano do futebol holandês decepcionou?! Sabe-se que você é bem reservado em relação às qualidades que ele tem, mas para quê tanto pessimismo?” Tudo bem, a coluna reconhece que é bem sovina quando se trata de elogiar coisas vindas do futebol holandês. Mas há que se lembrar: o futebol do país é mais do que a sua seleção nacional. O futebol holandês, então, é muito mais do que a Oranje…

E a verdade é que o ano do futebol holandês ficou devendo. Principalmente quando nota-se o cenário interno. Sim, o final do campeonato na temporada 2012/13 foi trepidante: se em centros maiores do futebol europeu o time destinado ao título nacional já se destacava havia muito, somente na 30ª rodada o Ajax entrou na rota do tricampeonato, ao vencer o PSV no confronto direto (3 a 2, num bom jogo em Eindhoven). Isso, sem contar a rodada seguinte, quando houve o susto do empate contra o Heerenveen, em Amsterdã, por 1 a 1. Mas, afinal, veio o tricampeonato esperado.

A Eredivisie 2013/14 começou com um equilíbrio até maior do que o visto na temporada anterior. Basta lembrar do que já foi mencionado na coluna passada: até a 11ª rodada, apenas dois pontos separavam o líder do campeonato do nono colocado. Isso já mudou, mas cada vez mais o Campeonato Holandês se distancia daquele “rodízio” que antes restringia o campeonato a Ajax, PSV e Feyenoord. E isso não é de hoje: com os títulos em 2009 e 2010, AZ e Twente deram aos clubes médios uma esperança de que, um dia, podem “chegar lá”.

Tudo isso seria muito bom e daria a impressão de que o Campeonato Holandês está fortalecido… se representasse a existência de equipes de nível técnico razoável e partidas bastante equilibradas tecnicamente. Não é o caso, e quem acompanha o futebol holandês sabe disso. Claro, houve jogadores de ótimo nível técnico atuando na Eredivisie em 2013. Que o digam Strootman, titular absoluto da Roma, e Eriksen, que já começa a se fazer notar no Tottenham. Mas eles continuam deixando rapidamente a Holanda, enfraquecendo as equipes.

Com isso, os times dos Países Baixos não se cansam de entrarem nos torneios continentais como franco-atiradores, coadjuvantes claros. Pior: em 2013, cansaram de dar vexame já nas fases preliminares. Aqui, aparecem o Vitesse, eliminado na terceira fase preliminar da Liga Europa, pelo Petrolul Ploiesti, da Romênia. Ou o Feyenoord, que não superou o Kuban, da Rússia, nos play-offs. Mas é difícil, bem difícil, que alguém supere o “feito” do Utrecht, eliminado ainda na segunda fase preliminar do mesmo torneio pelo… Differdange, de Luxemburgo.

E essa fragilidade se reflete na própria Eredivisie, em que o Ajax quase sempre consegue reagir a resultados irregulares para ascender à primeira posição da tabela – normalmente, para não largá-la mais. Talvez isso possa ter acontecido na rodada mais recente, quando os Godenzonen jogaram mal contra o Roda JC e ficaram atrás no placar até os 42 minutos do segundo tempo, quando o zagueiro Jaïro Riedewald, reserva de 17 anos, começou a viver seu conto de fadas, empatando e depois virando o jogo em sua primeira partida pela equipe principal. Tudo isso, normalmente para o Ajax ter azares incríveis no sorteio dos grupos da Liga dos Campeões, e ter de se contentar com vaga na segunda fase da Liga Europa.

Mas é claro que não há mal que sempre dure. E o próprio Ajax deu razões para acreditar numa melhora do futebol holandês, ao vencer o Barcelona brilhantemente na Liga dos Campeões e manter até o fim as esperanças de classificação às oitavas de final. No sorteio dos grupos da segunda fase, deu sorte, e pode até chegar às quartas de final. Qualidade para tanto, a equipe de Amsterdã tem: pode ser considerada a única equipe mais próxima do nível dos grandes centros europeus, e saiu de cabeça erguida da Liga dos Campeões, coisa que não aconteceu nas temporadas anteriores.

Além disso, ainda há o AZ, que também fez uma boa primeira fase na Liga Europa e pode avançar – até para contrabalançar as decepções que começou a viver no Campeonato Holandês. E, finalmente, a seleção holandesa. Que novamente classificou-se com sobras nas eliminatórias para a Copa do Mundo, e que adota agora um estilo de jogo mais condizente com a sua história.

Para 2014, a Laranja terá o grande desafio de provar para todo o mundo que o desempenho em 2010 não foi originado apenas da falha conjunta de Júlio César e Felipe Melo, que empatou o jogo das quartas de final na Copa, em Port Elizabeth. Não será fácil, e é altamente provável que não aconteça. Mas a Holanda sabe que tem condições de superar o difícil grupo em que caiu, com Espanha e Chile. Este foi o clima após o sorteio do dia 6: podia ser mais fácil, mas também podia ser pior.

Além disso, a geração atual dá mostras de que chegará ao Mundial de 2018. Caberá a ela sustentar o bom desempenho de Robben e Van Persie – ambos incluídos na lista dos 100 holandeses de mais sucesso no mundo, divulgada pelo jornal “De Telegraaf” nesta semana (Van Persie foi o melhor futebolista da relação, no 6º lugar; Robben figura em 58º – para constar, o vencedor foi John de Mol, dono da Endemol, empresa de mídia criadora de programas como “Big Brother” e “The Voice”).

Se houve erros e pontos baixos no futebol holandês, em 2013, eles foram contrabalançados pela esperança que veio no final do ano. E é ela que deverá reger 2014. Pode não parecer, mas a coluna deseja ver o futebol holandês forte e mais respeitado. Que isso ocorra. Sonhar ainda não custa nada, não é?

(E a coluna também deseja que as alegrias venham aos leitores em números tão grandes quanto o número de gols de Finnbogason e Pellè na temporada atual. E que todos sigam suas vidas com otimismo e força de vontade nos projetos pessoais, já que o tempo não para nem em momentos ditos de reflexão, como Natal e Ano Novo. Bom ano a todos – e que aproveitem a presença holandesa no Brasil)