´Kleines dickes Müller´ – em português, ´Müller, o gordinho´. Esse foi o apelido que o iugoslavo Tschik Cajkovski, primeiro técnico de Gerd Müller no Bayern de Munique, lhe deu em 1964, como prova de sua desconfiança no potencial daquele jogador. Alguns anos depois, o ´gordinho´ – quem diria -, entraria para a história como o maior artilheiro da Alemanha em todos os tempos e com outro apelido, muito mais pomposo: ´Bomber der Nation´ (´O Bombardeiro da Nação´).

Nesta quinta-feira, 3 de novembro, ele completa 60 anos. Mesma idade que completou seu amigo e colega de Bayern de Munique e seleção alemã, Franz Beckenbauer, seis semanas antes. Quando tornou-se um sexagenário, o Kaiser afirmou que ´sem os gols de Gerd, o Bayern ainda estaria num cubículo na Säbener Strasse´ – hoje o endereço do clube.

Hoje auxiliar técnico das categorias Müller, nesta entrevista concedida originalmente à revista alemã Kicker e publicada em português com exclusividade pela Trivela, o ´Bomber der Nation´ relembra as tabelinhas com o Kaiser e revela seu desconforto com a badalação, mas deixa a modéstia de lado para ao comentar como seria se ainda estivesse na ativa: ´Se jogasse hoje em dia, eu marcaria muito mais que 40 gols por temporada e ganharia ? 10 milhões por ano.´

´Der Bomber´ em números

Apesar de menos badalado e lembrado internacionalmente que Franz Beckenbauer, Gerd Müller tem números praticamente inalcançáveis dentro da Alemanha.

Enquanto o Kaiser marcou 44 gols em seus 424 jogos na Bundesliga, Müller jogou 427 partidas e anotou 365 gols. Até hoje, o recorde na Alemanha. Ele chegou a marcar mais de um gol em 87 partidas: foram dois gols em 55 partidas; três em 18 jogos, quatro em 10 outras partidas e, acreditem – cinco gols em quatro outros jogos.

É seu o recorde de gols numa mesma edição da Bundesliga – 40, em 1971/2. Sem falar nos 38 em 1969/70 e nos 36 em 1972/3, responsáveis também pela segunda e a terceira posição no ranking. No total, foram sete artilharias da principal competição alemã: 1967, 1969, 1970, 1972, 1973, 1974, 1978

Pela seleção, os números são ainda mais impressionantes. Ele vestiu 62 vezes a camisa do Nationalelf e fez 68 gols. Média superior de um gol por partida e até hoje a melhor marca no país. Para se ter uma idéia, o atual tecnico da seleção, o ex-atacante Jürgen Klinsmann, e seu antecessor Rudi Völler chegaram relativamente perto: 47 gols cada um.

O único recorde próximo a ser quebrado é o de maior goleador na história das Copas do Mundo. Müller marcou 14 gols em 13 jogos entre os Mundiais de 1970 e 74. Sua marca é melhor que a do francês Just Fontaine (com 13 gols) e as de Pelé e Ronaldo, que marcaram 12 vezes. Só o atual camisa 9, para o Bombardeiro Alemão ´o maior atacante da atualidade´, tem condições de ultrapassá-lo. Por ironia do destino, dentro de sua Alemanha.

Confira a entrevista concedida à revista Kicker e publicada em português com exclusividade pela Trivela

Senhor Müller, em seu 60° aniversário, Franz Beckenbauer teve várias festas oficiais. Como você vai festejar?
Na quinta à noite, somente com os meus amigos. Na semana seguinte vou convidar o time dos amadores do Bayern de Munique. Para mim é o suficiente.

O que significa para você esse aniversário redondo?
Nada de mais – exatamente como o 58° ou o 59°.

Envelhecer é um problema para você?
Não. Estou do mesmo jeito que no ano anterior e vou continuar assim. Está bom desta maneira.

Qual foi o período mais feliz de sua vida?
No futebol, as quatro semanas durante a Copa do Mundo do México, em 1970.

Quando você fez 10 gols…
É verdade, mas era muito legal fazer parte daquele grupo. Somos amigos até hoje. Só perdemos contato com o goleiro reserva, o Manfred Manglitz.

E em 1974 não foi melhor?
Aquele grupo também era bom, mas não tinha o mesmo grau de amizade de 1970. E Helmut Schön [N. da R.: o técnico em 70] também melhorou o clima. Como era nervoso, ele! Ele estava tão nervoso que furou a própria bochecha com o garfo antes dos jogos de tanto tremer. O senhor Schön sempre me convocava, mesmo quando não estava numa fase muito boa no Bayern de Munique.

E com qual freqüência você não atravessava bons momentos?
Às vezes cheguei a ficar dois ou três jogos sem marcar na Bundesliga, mas na seleção sempre marquei. Era minha salvação.

Qual era a pior fase na sua vida?
Minha desintoxicação [N. da R.: Gerd Müller atravessou sérios problemas de alcoolismo após encerrar sua carreira]. Na primeira semana, nem estava consciente. Passei completamente sedado.

Há um ditado que diz que temos a idade com a qual nos sentimos. Com quantos anos você se sente agora?
Como quando tinha 50. E como eu corro quando jogo tênis! Se continuar assim será ótimo. Jogo todos os dias, mas quando disputo três partidas seguidas contra um adversário forte costumo ficar com dores na coxa por causa de meus quadris. Ambos estão destruídos. Estou com dois quadris artificiais. Já futebol, não tenho mais condições de jogar.

Quer dizer você não joga mais nem na chamada ´Liga Túmulo´, onde só atuam os que têm mais de 50 anos?
Não, mas o time ainda existe e tenho contato com alguns dos jogadores.

Como é o seu dia-a-dia na atualidade?
Eu me levanto às seis da manhã e tomo meu café. Entre sete e sete e meia vou para o Bayern. No caminho compro jornal. Na Säbener Strasse [N. da R.: a sede do clube], falo primeiro com o roupeiro Sepp Schmid. Às oito vamos ao centro de treinamento das categorias de base. Continuo conversando com Herman Gerland e os outros técnicos dos juvenis. Às nove chego na cabine e as dez começa o treino. Às onze e meia, após o treino, vou para jogar tênis e às duas e quinze volto para o treino da tarde. Às quatro e quinze volto para casa. As cinco e meia janto e depois assisto TV – futebol ou um filme, mas nenhum até o final. Fico zapeando pelos canais. Às dez e cinco já estou na cama.

Por que tão cedo?
Sempre levantei cedo. Na época da escola, entregava pãezinhos para uma padaria aos sábados por volta de cinco da manhã – e sempre esperava por uma gorjeta. Geralmente, era o suficiente para pegar um cinema. Quando trabalhava na fábrica de tecelagem, tinha que acordar as cinco para chegar no primeiro turno às seis. Terminava às duas e meia da tarde. Aos 17 anos, aprendi a soldar para não trabalhar mais no primeiro turno. Além de ganhar quase o dobro, mais do que 500 marcos (hoje algo como ? 250).

Se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que você mudaria?
Nada. Não existe uma vida melhor para mim. Futebol é meu hobby e trabalho.

Você vive longe dos holofotes, ao contrário de seu genial parceiro Franz Beckenbauer. Você sente inveja ou pena dele?
Sinto inveja pela rotina dele e pelo que faz. Não seria para mm. Eu evito o público o máximo possível. Mas acho que o Franz pode mais mudar. Depois de dois dias em casa ele fica inquieto. Eu admiro demais esse maluco.

Você consegue imaginar sua vida sem futebol?
Se não trabalhasse mais no Bayern de Munique, mesmo assim apareceria por aqui. Mas já faz oito semanas que assinei um contrato de assistente técnico no departamento amador por cinco anos.

Por mais quanto tempo você pretende trabalhar?
Se tudo der certo, no mínimo esses 5 anos. Depois não vou funcionar com jogadores tão jovens. Mas quero ficar no clube, fazendo qualquer coisa.

Que tipo de técnico você é?
O tipo mole. Meu colega Hermann Gerland é o durão.

Você dá dicas para os atacantes?
Eles nem perguntam. Além disso, não dá para transmitir para eles meu estilo.

E de onde você as tirou?
Sempre as tive.

Seu pai era jogador?
Não. Meu irmão era e era até melhor tecnicamente do que eu, mas era preguiçoso. Jogávamos na rua e nas praças onde nos deixavam, mesmo quebrando uns vidros na vizinhança. O mais legal foi numa festa na escola, quando nós, da quinta série, batemos o time da oitava. Acabamos com eles. Só entrei num clube de verdade aos 12 anos.

Você sempre foi o goleador?
Sim. E sempre xingava quando não me passavam a bola.

Você se lembra quando se tornou um atacante goleador?
Nunca treinei nada especificamente. Sempre tive esse dom, esse faro. Por isso sempre chegava uma fração de segundo antes dos zagueiros.

Você preferiria ser profissional hoje em dia?
Claro! Quando vejo….

Os belos estádios?
Também, mas o estádio Grünwalder também era bonito.

Você gostaria de estar na ativa por causa do jogo ou pelo dinheiro?
O dinheiro sempre foi uma conseqüência. Sem alegria, não teria jogado nem com os cinqüentões. Para isso, tomei até infiltração.

Franz Beckenbauer, na entrevista que deu à Kikcer sobre seu 60° aniversário, falou que dependeu muito de você para chegar onde chegou. Você também dependia dele?
Sempre precisei dos outros jogadores, mas sempre fiz muito gols em jogadas com o Franz. Nos entendíamos sem nos olharmos. Quantas tabelinhas não comemoramos… Mas coitado de mim quando errava! Ele berrava: ´Corre, gordo!´ E eu respondia gritando: ´Vai tomar no…! Volta para a zaga!´. E ele não voltava correndo, mas passeando. O Franz era bacana. Mas sempre joguei em bons times.

Ou os times eram bons porque você jogava neles?
Não diria isso, mesmo eu sendo bom. Meu companheiros sempre puderam confiar que marcaria os gols.

Beckenbauer também falou que sem você o Bayern não seria tão vitorioso. Você se sente satisfeito com o reconhecimento do clube?
Bacana o Franz ter dito isso. Quem me conhece fala para mim: ´Bombardeiro!´ ou então: ´Senhor Müller, todo bem?´ As pessoas contam para os seus filhos que eu era o melhor artilheiro. Isso já é o suficiente para mim. Fico satisfeitíssimo.

Qual de seus muitos recorde foi o mais importante?
Os 40 gols na temporada 1971/72 da Bundesliga.

É possível superá-lo?
Nunca se sabe. O Makaay começou bem esta temporada e agora o Klose está numa boa fase. Eu o critiquei muito enquanto jogava pelo Kaiserslautern, mas tenho de reconsiderar: no Bremen ele está jogando muito.

Ele tem condições de superar seus 40 gols?
Se não se machucar, poderia.

Quem você colocaria no ataque da seleçao alemã para a Copa de 2006?
Klose, com certeza. E o cara do Colônia, esse que o Bayern quer comprar.

O Lukas Podolski.
Ele é muito jovem ainda e tem muito o que aprender. Além disso, tem de mostrar suas qualidades por mais tempo. Vejo muito auê em torno dele.

E o Kuranyi?
Não acho o Kuranyi um bom atacante. Ele não faz o meu gênero.

Qual foi o gol mais importante que você marcou?
O gol da vitória na final de 74. Corro para frente, dou um passo para trás, a bola chega, pula contra o meu pé esquerdo e vai embora. Mas consegui chutar com o pé direito no canto do gol.

E o mais bonito?
O gol da vitória por 3 a 2 sobre a Inglaterra na Copa de 70.

E o mais maluco?
Contra o Tennis-Borussia Berlim. Eu estava deitado no chão, me levantei, caí de novo no chão e marquei o gol.

Quantos gols você marcaria numa temporada da Bundesliga hoje em dia?
Com certeza mais de 40. O sistema defensivo com um alinha de 4 zagueiros e a marcação por zona deixam mais espaços livres.

Qual o adversário mais duro que você já enfrentou?
O Pirsig, do Duisburg. Ele era maluco. Nos jogos fora de casa, ele não me deixava em paz.

Quem é o melhor atacante da atualidade?
Ronaldo.

E a seleção alemã tem chance de ganhar a Copa em 2006?
Campeã? De maneira alguma. O time é fraco demais.

Pior que o time de 1974?
Naquela época tínhamos craques em todas as posições.

E hoje em dia, quem é craque na Alemanha?
Oliver Kahn, se ele for escalado – e isso tem de acontecer. Na defesa temos ninguém decente. No meio de campo, só o Ballack. No ataque, no máximo o Klose.

O titulo da Copa e seu mais importante?
Claro! Ganhar uma Copa do Mundo é o máximo.

Qual de seus prêmios individuais é o mais valioso?
O de melhor jogador da Europa em 1970.

Se você fosse o Ballack agora, ficaria no Bayern?
Se me oferecessem ? 40 milhões aqui e ? 45 milhões num outro lugar, ficaria aqui.

O Barcelona ofereceu, na sua época, algo como 600 mil marcos (hoje ? 300 mil). Por que você não foi?
Eu e minha esposa conversamos e decidimos: ´Não, nós ficaremos aqui.´

O que você acha dos salários atuais?
Não tenho inveja. Cada um deve receber o máximo que puder.

Quanto ganharia um goleador como você hoje me dia?
Acho que algo próximo de ? 10 milhões por ano.

O que significa o dinheiro para você?
Sem ele não dá para viver. Mas sempre ganhei bem, mesmo hoje. E nem gasto tanto, somente com o tênis. No inverno, gasto ? 26 por hora. E mesmo a metade é caro para mim.

Passa os três últimos anos de sua carreira nos Estados Unidos foi a decisão certa?
Sem dúvida. A oferta era irrecusável. Mas foi decisivo o diretor de futebol do Fort Lauderdale falar que a temporada nos Estados Unidos durava somente cinco ou, no maximo, seis meses. Pensei: ´Ah, cinco meses vou agüentar´. Não sou o tipo de jogador que gosta de atuar no exterior. Foi um milagre eu ter aceitado. Os dois primeiros anos foram ok, mas não o último. Foi quando chegou Krautzun [N. da R.: também alemão] como treinador. Ele dava treinos sob temperaturas na casa dos 35°C, como se fosse na Bundesliga. E me deixava no banco. O Bernd Hölzenbein [N. da R.: outro jogador da seleção de 74] jogou menos ainda. Tudo isso apenas para mostrar que ele era o chefe.

O que te deixa irritado?
Ver o Bayern perder. E também o preço da gasolina. Meu maior inimigo é o tanque do meu carro.

Você é supersticioso?
Na Copa de 1970 joguei com a camisa 13. È o meu numero de sorte desde então.

Até que idade você deseja chegar?
Uns 70 estão de bom tamanho. Minhas costas estão quebradas, mas graças a Deus nada me falta e não tenho do que reclamar.

Entrevista: Karlheinz Wild (Kicker)
Tradução: Frank Kohl/Carlos Eduardo Freitas
Fotos: fcbayern.de