É quase impossível duvidar do orgulho que Steven Gerrard sente em defender o Liverpool. A camisa vermelha se tonou um anexo de sua pele. São 25 anos de comprometimento, de entrega total aos Reds. Embora torcesse pelo Everton durante a infância, algo que ele próprio admite, seu coração se tornou realmente vermelho em 1989. O menino de oito anos perdeu seu primo no desastre de Hillsborough, meses antes de começar a frequentar as categorias de base do Liverpool. Logo entendeu a importância de defender aquele clube, que se sagraria campeão inglês em 1989/90.

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Aquele título certamente habita o imaginário de Gerrard. Afinal, foi a primeira grande conquista que comemorou como um membro dos Reds, em uma idade na qual o futebol começa a ter grande representatividade para qualquer um. Tornou-se um sonho, que ele persegue desde então. O meio-campista chegou ao time profissional, tornou-se capitão, levantou a taça da Liga dos Campeões, se eternizou como uma das maiores lendas de Anfield. No entanto, ainda falta um objetivo: se consagrar como aqueles seus ídolos de infância. Recuperar o título que o Liverpool não consegue exatamente há 24 anos.

O desejo de triunfar na Premier League já foi expresso por Gerrard diversas vezes. Em novembro, com um pouco de frustração na voz, o capitão admitiu que pudesse encerrar a carreira sem ser campeão inglês. Apesar disso, também afirmou que nunca deixaria de lutar. E o objetivo pareceu mais próximo do que nunca. Com grandes atuações de seu ídolo, o Liverpool passou a depender apenas de si para recuperar a taça depois de tanto tempo. Até um deslize de Gerrard colocar essa chance em risco.

É difícil imaginar o que passou pela cabeça do camisa 8 após escorregar em campo, permitir que Demba Ba marcasse o gol, conseguisse a vitória do Chelsea dentro de Anfield. Não apaga toda a sua história no clube, muito menos o coloca como vilão da campanha. Mas a conquista da Premier League pode ter passado por debaixo de seus pés, em uma bola fácil. Um sentimento de culpa que seria natural para qualquer ser humano.

O que não significa que Gerrard se entregará. Ele já disse, nunca deixará de lutar. E isso que seguiu fazendo em Anfield, sem deixar que o erro o abalasse. Foi o jogador que mais tentou derrubar a muralha montada pelo Chelsea, quem mais chutou a gol – foram nove finalizações, quase o dobro de Luis Suárez, o segundo que mais arrematou. Uma insistência em parte para tirar o peso de sua consciência. Algo menor, quando se envolve a paixão de milhões de torcedores, inclusive a dele mesmo.

Derrotado, Gerrard não poderá se redimir do erro apenas carregando o Liverpool nos dois jogos restantes. Dependerá também de um tropeço do Manchester City. Seu espírito em busca da taça sonhada certamente se manterá firme, assim como a complacência da torcida dos Reds, consciente dos serviços prestados pelo ídolo. Ainda assim, o inferno dentro da mente do craque deverá arder por algum tempo. Quem mais merecia o título, talvez se sinta culpado por perdê-lo. Uma pena que só alguém com a história do capitão seria capaz de suportar.