Quatro anos sem títulos, afundado em dívidas, perdendo seus principais jogadores e virtualmente eliminado da principal competição do futebol africano. A situação do Zamalek, um dos maiores clubes do Egito e da África, é desesperadora. É aquele momento em que o clube questiona sua própria grandeza. Segundo maior campeão continental, nem de longe impõe o mesmo respeito que estabelecia no início da década. Desde 2008 sem disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões Africana, quebrou o tabu neste ano. No entanto, passadas três rodadas, o time já está virtualmente eliminado.

A paralisação da última temporada do futebol egípcio foi cruel com os clubes locais. Mas isso não basta para explicar o fracasso. O Al Ahly, que sofreu as mesmas consequências (ou até piores, pois esteve diretamente envolvido no massacre em Port Said), ganhou todas as partidas que disputou na LC. O Zamalek segue o caminho contrário: três jogos, três derrotas. A comemoração do centenário do clube ajudou um pouco a mascarar a crise no ano passado, porém a época de “vacas magras” não vem de agora. Desde a conquista da Copa do Egito, em 2008, o Zamalek vive um longo jejum de títulos.

O caos administrativo do clube ganhou ainda mais evidência com a inatividade nos últimos meses. Sem fonte de renda, já que a temporada local foi paralisada e os jogos que a equipe disputa como mandante na LC são com portões fechados, o clube sofre para cumprir suas obrigações financeiras com jogadores e comissão técnica. Atletas como o atacante Omotoyossi, por exemplo, se recusaram a atuar pelo clube durante um período por conta de salários atrasados.

O ciclo de Hassan Shehata no comando da equipe também foi bastante turbulento. Multicampeão com a seleção egípcia, conquistando três edições consecutivas da Copa Africana de Nações, o treinador foi contratado há um ano para colocar ordem na casa, mas fez exatamente o contrário. Conhecido pelo seu temperamento explosivo, criou desavenças com as principais estrelas do time e não conseguiu montar um elenco à altura da tradição do clube.

Os efeitos de sua chegada eram óbvios. O atacante Mido, por exemplo, que havia sido contratado para ser uma das estrelas do time, nunca teve uma relação amigável com Shehata desde os tempos de seleção egípcia, onde era preterido por Amr Zaki. Mas ele não foi o único a se desentender com o comandante. Em maio, numa partida contra o Maghreb de Fes pela Liga dos Campeões, Shikabala, jogador mais talentoso do time, teve uma discussão áspera com Shehata ainda no campo. Após ser substituído nos minutos finais, o meia atirou a braçadeira de capitão no gramado e esbravejou que estava “farto” do treinador, precisando ser levado aos vestiários pela comissão técnica.

O desentendimento teve consequências drásticas. Para o jogador, que foi afastado do elenco enquanto Shehata esteve no comando, e para o time, que desde então sofreu uma “crise de criatividade” sem sua referência no meio-campo. Vulnerável ao mercado de transferências, o Zamalek ainda perdeu Mido para o Barnsley e deve perder Zaki para o futebol turco – este nem vem jogando por conta das negociações. Ahmed Hassan, a “lenda” do futebol egípcio, também deixará o clube nos próximos dias.

Em crise e sem seus principais jogadores, o time não tem perspectiva alguma de recuperação na Liga dos Campeões e chegará enfraquecido para o campeonato nacional. No fim das contas, o Zamalek nada mais é do que um reflexo do futebol egípcio: um gigante adormecido.

Curtas

- Na contramão da crise do maior rival, o Al Ahly sapecou 4 a 1 no Berekum Chelsea e disparou na liderança do Grupo A da LC. Na outra chave, o clássico tunisiano entre Espérance e Etoile du Sahel foi o atrativo da rodada. Com gol de Mouelhi, o Espérance venceu por 1 a 0 e segue 100%. No outro jogo, o Sunshine Stars bateu o ASO Chlef por 2 a 0 e pulou para a vice-liderança, com quatro pontos.

- O futebol africano deu adeus aos Jogos Olímpicos. Senegal e Egito não resistiram a México e Japão, respectivamente, e caíram nas quartas de final. Os egípcios, com um jogador a menos durante mais da metade do jogo, sofreram 3 a 0 dos japoneses. O time sentiu a má forma física de Mohamed Salah, principal jogador dos faraós. Mesmo com uma lesão no joelho, o atacante jogou 60 minutos no sacrifício.

- A eliminação dos senegaleses foi mais dramática. Perdiam por 2 a 0, buscaram o empate no tempo normal e, na prorrogação, sofreram dois gols e se despediram de Londres. A defesa, novamente, foi o ponto fraco do time: foram pelo menos três pixotadas nos quatro gols dos mexicanos. O atacante Moussa Konaté, autor de um dos gols de Senegal, segue na artilharia dos Jogos com cinco gols e é a grande revelação do torneio.

- E a desclassificação do Marrocos, ainda na fase de grupos, continua dando o que falar. O atacante Nordin Amrabat, titular durante a campanha, chamou o técnico Pim Verbeek de “perdedor” e disse que o holandês não merece o cargo que ocupa. Ele não ficou satisfeito em disputar o torneio como centroavante, claramente fora de sua posição ideal, e apontou Verbeek como o culpado pelo fracasso.

- Emad Moteab, um dos principais jogadores do futebol egípcio, anunciou sua aposentadoria da seleção nacional. O atacante, que tem media de quase 0,5 gols por jogo pelos faraós, disputou os Jogos Olímpicos e não marcou nenhum gol, fato que gerou muitas críticas dos torcedores locais. Moteab se sentiu injustiçado com a situação e decidiu focar sua carreira no Al Ahly.

- Começou a fase de grupos da Copa da Confederação Africana. No clássico sudanês do Grupo A, o Al-Hilal bateu o Al-Ahli Shendi por 2 a 1. O Al-Merreikh, também do Sudão, derrotou o Interclube por 1 a 0. Já no Grupo B, o Djoliba bateu o Stade Malien por 2 a 0 no confronto de malineses. O Wydad Casablanca foi ao Congo e empatou com o AC Léopard em 1 a 1.

- Emmanuel Adebayor, que reluta em voltar a defender a seleção de Togo, foi convocado pelo técnico Didier Six para o amistoso contra Senegal, no dia 15 deste mês. Resta saber se o atacante concordará em vestir a camisa de seu país novamente.

- Recreativo do Libolo, rumo ao bicampeonato angolano, e o Kabuscorp, time da “moda” no país com a chegada de Rivaldo, se enfrentaram pela 20ª rodada do Girabola. Melhor para o Libolo, que venceu por 2 a 0 e disparou na primeira colocação com 52 pontos.

- Pelas quartas de final da MTN 8, uma das principais copas do futebol sul-africano, Orlando Pirates, SuperSport United, Sundowns e Swallows classificaram-se para as semifinais. O Pirates, atual campeão, venceu o Bloemfotein Celtic por 1 a 0, gol do bom meia Jali cobrando pênalti. A surpresa foi a sapecada do Sundowns sobre o tradicionalíssimo Kaizer Chiefs: 4 a 1.

- Faltando duas rodadas para o fim do Campeonato Nigeriano, o Kano Pillars venceu o Jigawa Golden Stars por 3 a 0 e assumiu a liderança, com 61 pontos. O Lobi Stars conseguiu uma importante vitória fora de casa sobre o Dolphins por 2 a 0 e chegou aos 60. O Enugu Rangers, com 58, teve seu duelo contra o Sunshine Stars adiado.

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