As mãos de Eldin Jakupovic impediram algo muito especial. Na penúltima rodada do Campeonato Inglês, Ryan Giggs despiu o casaco, mostrou à torcida o número 11 que carrega nas costas há duas décadas e entrou em campo. Precisava de mais alguns minutos no terreno onde foi um gigante. Os últimos minutos. E uma cobrança de falta nos instantes finais do jogo poderia significar que ele marcaria ao menos um gol em todas as edições da Premier League. A cobrança não foi ruim e nem perfeita. Poderia ter entrado. Mas as mãos de Eldin Jakupovic estavam no caminho.

Leia mais: Van Gaal tem o perfil ideal de que o Manchester United precisa no momento

Aquela foi a última partida profissional da vida de Ryan Giggs. Você vai ver os números da carreira dele em todo lugar, mas o jogador que entrou 963 vezes em campo, marcou 168 vezes e conquistou 34 títulos pelo Manchester United desde 1991 merecia uma despedida com um pouco mais de pompa. Só que Giggs estava em dúvida entre se manter preso ao passado ou embarcar de vez na próxima aventura, o que impediu que fosse armada uma festa à altura da sua história em Old Trafford.

No fim, decidiu pelo futuro e escolheu o caminho correto. Será assistente de Louis van Gaal, um treinador que dificilmente permitiria que Giggs se dividisse entre duas funções tão distintas. O holandês, seu currículo indica, exige dedicação total. Se o galês que nunca disputou uma Copa do Mundo quisesse manter a profissão de jogador de futebol, teria que ser apenas isso.

Valeria a pena, aos 40 anos? Giggs acha que não, e a sua opinião é a única que importa. Ele já se aposenta como um dos maiores da história do Manchester United, e as gerações futuras ainda vão discutir muito se ele foi ou não mais importante que Bobby Charlton, menos habilidoso que George Best ou mais carismático que Eric Cantona. Ganhou todos os títulos que poderia em clubes – exceto a Liga Europa – e representou a nação britânica na Olimpíada de Londres. Ao que mais poderia aspirar dentro dos gramados?

Agora, fora deles, com a prancheta na mão, vai dar os primeiros passos de uma nova carreira. Um retorno ao começo dos anos 1990, quando ainda era um Cocker spaniel perseguindo uma folha de papel ao vento, como Alex Ferguson descreveu a primeira vez que o viu jogar futebol. Alguns dos colegas daquela turma de 1992 estarão por perto. O clube quer dar emprego para Nicky Butt, Paul Scholes e Phil Neville, mas ainda não sabe em qual departamento. Por outro lado, vai aprender com um professor muito diferente.

Desta vez, será pupilo de Louis van Gaal. Curiosamente, o holandês começou a ser treinador no mesmo ano em que Giggs fez a sua estreia no time titular. Desde 1991 na praça, colecionou desafetos e títulos quase na mesma medida. Não é conhecido por ser a pessoa mais agradável do mundo, mas é um técnico experiente e vitorioso. Se souber driblar os atritos tão bem quanto evitava os laterais, Giggs pode aprender muito com seu novo mestre. José Mourinho é um exemplo de treinador que teve a influência de Van Gaal na sua formação e prosseguiu para uma carreira de sucesso.

>>>> Moyes era o nome certo para ser o novo Ferguson, mas quem disse que o United precisava disso?

Segundo pessoas ligadas ao clube – diretores, ídolos, ex-jogadores e etc -, é quase certo que um dia Ryan Giggs será o treinador do Manchester United. Mas seria um risco muito grande, depois de uma temporada desastrosa de transição entre Alex Ferguson e o que vem adiante, dar essa responsabilidade para o galês neste momento. Seus resultados como interino foram médios: duas vitórias, um empate e uma derrota. E precisam ser relativizados porque há uma diferença gigante entre fazer o planejamento para uma temporada e pegar um barco desgovernado em direção a um iceberg.

Giggs pode tirar muita coisa dessa experiência ou, no mínimo, perceber o quanto ainda precisa aprender para comandar um dos maiores clubes do mundo. O Manchester United não precisa de um novo Alex Ferguson, mas se fizer questão de longevidade, o escolhido pode ser Ryan Giggs, que encerrou sua trajetória com a camisa vermelha para começar outra de terno e gravata. A sua aposentadoria é apenas o ponto final de um capítulo, não do livro inteiro.

Leia mais:

>>>> Giggs se divertiu muito na sua primeira entrevista como técnico e terá alguns desafios pela frente

>>>> Gols e dribles para comemorar os 40 anos de Giggs

>>>> Depois desta goleada, o apelo será grande pela permanência de Giggs como técnico