O sobrenome remete imediatamente ao irmão que se tornou mais famoso aos olhos do futebol mundial. Mas alguns, especialmente os interistas, fazem questão de ressaltar que outro Baresi, além do rossonero Franco, teve carreira bastante significativa no Calcio, mas vestindo as cores nerazzurri. Giuseppe Baresi, o irmão mais velho, símbolo da Beneamata ao longo dos anos 80 e com participações em Copa do Mundo e Eurocopa pela seleção italiana no currículo, completa 60 anos nesta quarta-feira.

O início da carreira

Por se tratarem de carreiras quase inteiramente contemporâneas, é difícil escapar da tentação de contar a história de Giuseppe sem traçar um paralelo com a do irmão mais novo. Nascidos na cidade de Travagliato, província de Brescia, foram levados à Inter de Milão ainda garotos, no começo dos anos 70, mas só Beppe ficou por lá. Descartado pelos nerazzurri, Franco foi levado pelo Milan. Na Inter, Giuseppe estreou em junho de 1977 numa vitória sobre a Juventus pela Copa da Itália, pouco menos de um ano antes da primeira partida de Franco pelos rossoneri.

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Naquela época, a dupla milanesa enfrentava a necessidade imperiosa de reformular suas equipes. Do meio para o fim da década, quem dava as cartas no Calcio eram os rivais de Turim: Juventus e Torino tinham hegemonia não apenas na briga pelo scudetto como também na seleção. Nada menos que 15 dos 22 convocados por Enzo Bearzot para a Copa de 1978 pertenciam ao Toro ou à Vecchia Signora. Milan e Inter, por outro lado, contribuíram com apenas um jogador cada (no caso dos nerazzurri, a participação ficou ainda mais restrita pelo fato de seu representante ser o goleiro Ivano Bordon, reserva de Zoff).

Se sua participação na temporada 1976/77 se limitou ao jogo de estreia, na seguinte (a da Copa do Mundo), Giuseppe Baresi já era titular da Inter. Atuando como lateral ora pela direita, ora pela esquerda, teve em várias partidas a honra de ser companheiro da lenda nerazzurra Giaccinto Facchetti, então jogando como líbero em seu último ano de carreira. A Inter terminou o campeonato na quinta colocação, oito pontos atrás da campeã Juventus, mas levantou uma rara Copa da Itália (apenas a segunda da história do clube, e a primeira em 25 edições), derrotando o Napoli de virada na decisão em Roma.

O primeiro scudetto e a chegada à seleção

Se o Milan – com Franco vestindo a camisa 6, de líbero – quebrou seu jejum de 11 anos na liga conquistando o scudetto em 1979/80, na temporada seguinte seria a vez de Giuseppe ajudar a tirar a Inter de sua própria fila de nove anos. Atuou em todos os jogos e balançou as redes na importante vitória de 4 a 3 sobre o Napoli no San Paolo. Os nerazzurri (que ainda contavam com os meias Oriali e Marini, o goleador Altobelli e o fantasista Beccalossi) lideraram com folga a liga de ponta a ponta, chegando a vencer os dois Derby della Madonnina e golear a Juventus por 4 a 0, confirmando o título com duas rodadas de antecedência.

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Para o lateral, a temporada também marcou sua estreia pela seleção, substituindo Claudio Gentile no intervalo da vitória sobre a Suécia por 1 a 0 num amistoso em Florença, em setembro de 1979. As atuações destacadas pelo clube ao longo da campanha do scudetto também valeram a Giuseppe uma vaga entre os convocados de Enzo Bearzot para a disputa da Eurocopa de 1980 em solo italiano – pela única vez tendo a companhia do irmão Franco, que então sequer havia entrado em campo pela Azzurra, mas acabou incluído.

No torneio, Giuseppe entrou em campo pela primeira vez no fim da vitória sobre a Inglaterra. Na partida seguinte, o frustrante empate sem gols contra a Bélgica que tirou a chance de os italianos decidirem a competição, o lateral foi o escolhido para substituir o meia Giancarlo Antognoni, cérebro da equipe, lesionado aos 35 minutos do primeiro tempo. Apesar da eliminação, Beppe foi titular na decisão do terceiro lugar contra a Tchecoslováquia, e atuando numa posição diferente, como volante. Após empate em 1 a 1 no tempo normal e prorrogação, o jogo foi para os pênaltis. O interista converteu o seu, o terceiro de uma série quase interminável, que rendeu nova frustração com a vitória tcheca por 10 a 9.

Após a Eurocopa, Giuseppe continuou na seleção durante parte das Eliminatórias para a Copa de 1982, participando também do Mundialito do Uruguai, na virada de 1980 para 1981. Mas acabou se deixando levar por um certo relaxamento, perdendo o foco nos treinos, o que ele próprio admitiria mais tarde ter sido a causa de sua não-convocação para o Mundial espanhol. A temporada 1981/82 também ficou marcada por sua fixação na lateral esquerda devido à consolidação de outro jovem talento, um certo Giuseppe Bergomi, do lado direito da defesa. Na nova posição, levantaria mais uma Copa da Itália, que não amenizaria, porém, a frustração por não participar do tri mundial da Azzurra na Espanha.

Seu irmão Franco, porém, estava entre os 22 tricampeões, ainda que naquela altura não tivesse entrado em campo nenhuma vez pela Itália. Sua estreia seria durante a fracassada campanha nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1984, integrando em seguida a equipe olímpica que disputou os Jogos de Los Angeles (os italianos acabaram em quarto). Na volta dos Estados Unidos, entretanto, acabou “exilado” da seleção, embora continuasse como capitão e titular absoluto do Milan. Ironicamente, em maio do ano seguinte, era Giuseppe quem ganhava uma nova chance com Bearzot, quatro anos depois de sua última partida pela Nazionale, chamado para uma excursão pelo México, preparatória para o Mundial de 1986.

Em nova posição, o retorno aos azzurri

Beppe ganhava nova chance exatamente quando voltava a receber elogios da imprensa ao trocar de posição. Com a saída de Salvatore Bagni para o Napoli em meados de 1984, o novo técnico interista Ilario Castagner transformou Giuseppe em volante, potencializando suas características de perícia na marcação e capacidade no apoio. Na primeira temporada, a Inter andou perto do scudetto, sendo um dos principais desafiantes do surpreendente Verona. E tanto nela quanto na seguinte, também chegou longe na Copa da Uefa, caindo ambas as vezes nas semifinais para o Real Madrid da Quinta del Buitre em duas “remontadas” (os merengues foram os grandes algozes dos nerazzurri nas copas europeias durante aquela década).

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Inscrito com a camisa 11 na Copa do Mundo do México, Giuseppe ficou no banco durante todo o jogo de estreia contra a Bulgária (também jogo de abertura do Mundial, que terminou num empate em 1 a 1) e entrou apenas a três minutos do fim na partida seguinte, novo 1 a 1, agora com a Argentina de Maradona. Contra a Coreia do Sul, já participou um pouco mais ao entrar na metade da etapa final no lugar de Bagni. Mas sua maior missão estava por vir nas oitavas de final, contra a França: marcar Michel Platini.

Não era tarefa fácil, já que os Bleus vinham numa ascendente, enquanto a Azzurra acumulava atuações pouco convincentes. E quando o camisa 10 francês abriu o placar logo aos 17 minutos do primeiro tempo, a batalha já tinha sido perdida. Beppe foi substituído no intervalo pelo armador Antonio Di Gennaro, numa tentativa de empurrar a Itália à frente. Mas Stopyra fez o segundo no início da etapa final e enterrou de vez o sonho do tetra para a equipe de Enzo Bearzot.

A eliminação provocou a aposentadoria do treinador e também encerrou a passagem de Giuseppe Baresi pela seleção. As portas da Azzurra, entretanto, foram reabertas para Franco pelo novo comandante, Azeglio Vicini. Dali em diante, o irmão mais novo se firmaria não apenas como titular incontestável da seleção, mas também um dos maiores defensores da história do futebol italiano e mundial. E a partir de 1987, quando da chegada do técnico Arrigo Sacchi ao Milan, viveria seu período mais vencedor, empilhando scudettos e títulos da Copa dos Campeões.

Capitão da Inter e o segundo scudetto

Giuseppe se voltou apenas para a Inter. Já consagrado como uma bandeira do clube, herdou a braçadeira a partir de 1988, quando o atacante Alessandro Altobelli saiu para a Juventus. Por ironia, a partir daquela temporada 1988/89 ele deixaria o posto de titular absoluto da equipe, tornando-se uma espécie de 12º jogador. Na campanha irretocável que garantiu o scudetto depois de nove anos (Inter campeã com quatro rodadas de antecipação, 11 pontos à frente do Napoli de Maradona e Careca), Beppe participou de 32 das 34 partidas, mas só foi titular em 13, entrando durante o jogo nada menos que 19 vezes.

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Também foi assim na conquista de seu único troféu continental, a Copa da Uefa de 1991. Já com 32 para 33 anos, Giuseppe participou mais esporadicamente, mas foi influência importante no elenco interista, que derrubou Rapid Viena, Aston Villa, Partizan, Atalanta, Sporting de Lisboa e Roma para faturar seu primeiro caneco europeu desde os anos 60. Beppe foi titular em dois jogos (contra Partizan em Belgrado e Atalanta em Milão), ostentando a braçadeira em ambas as partidas. Entrou durante outros três jogos e ficou no banco sem ser utilizado mais cinco vezes. No jogo de volta da final, porém, não foi relacionado.

A conquista marcou também a despedida da Inter do técnico Giovanni Trapattoni, que chegara ao clube em 1986. Para seu lugar, o clube apostou no semi-desconhecido Corrado Orrico, que treinava a Lucchese, da Serie B, mas ao fim do primeiro turno ele já deixaria o cargo, substituído pelo velho ídolo espanhol Luís Suárez. A confusa temporada foi a última de Giuseppe Baresi no clube, atuando em apenas oito partidas durante a campanha. Em 24 de maio de 1992, ele vestia pela 559ª e última vez a camisa nerazzurra em jogos oficiais, entrando no segundo tempo do empate em 0 a 0 com a Atalanta em Milão.

O discreto fim de carreira

Não pendurou as chuteiras, entretanto. Desceu até a Emília-Romanha para uma nova experiência aos 34 anos de idade: disputar a Serie B pelo Modena, promovido da terceira divisão dois anos antes. Na primeira temporada, conseguiu o objetivo de evitar o retorno à Serie C. Já na seguinte, mesmo com sua experiência e os gols do jovem atacante Enrico Chiesa (emprestado pela Sampdoria), os Canarini terminaram na penúltima colocação e não conseguiram escapar do descenso. Enquanto seu irmão mais novo vencia pela terceira vez a Copa dos Campeões com o Milan e disputava sua terceira Copa do Mundo, chegando à final contra o Brasil, Beppe discretamente encerrava sua carreira aos 36 anos.

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À parte da discussão sobre qualidade (até porque nenhum jogador se mantém por acaso como titular por mais de uma década em qualquer um dos gigantes do futebol italiano bem na era de ouro do Calcio), há outras considerações e hipóteses que podem ser levantadas na comparação das carreiras de Giuseppe e Franco. Uma delas é que talvez a versatilidade do irmão interista tenha jogado mais contra do que a favor quanto a seu status como jogador, ao passo que o milanista, ao se fixar na zaga, tornou-se um especialista na posição, facilitando seu completo desenvolvimento técnico (e tático) sem sobressaltos.

Outro ponto é o contexto do clube. Franco, é verdade, enfrentou dois rebaixamentos – um pelo Totonero e outro em campo – com o Milan na primeira metade da década de 80. Mas na segunda, quando se consagrou definitivamente, teve em Arrigo Sacchi um treinador que revolucionou os rossoneri e o próprio futebol italiano em termos táticos como nenhum treinador interista no período (nem mesmo o vitorioso Giovanni Trapattoni) conseguiu, o que ajudou a consolidar o futebol do líbero. De todo modo, Giuseppe Baresi não viveu sua carreira à sombra do irmão mais novo (o qual, no começo, era comumente referido como Baresi II, ou o “segundo”). Com brilho próprio, entrou para o panteão dos ídolos nerazzurri.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no Mundo Rubro-Negro.