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[Futebol na sua TV] Como acordos globais afetam a grade de programação das TVs brasileiras

Fox Sports e ESPN Brasil brigavam pelos direitos da Bundesliga a partir da temporada 2015/16. O canal do grupo Disney tinha o campeonato e, teoricamente, estaria em vantagem na disputa. Mas perdeu. E não teve nem chance. Nem poderia, pois a disputa foi muito além das sedes dos dois canais, em Rio de Janeiro e São Paulo. A mudança de mãos do Campeonato Alemão é um exemplo de como o que passa na sua TV às vezes é decidido muito longe daqui.

O elemento principal dessa história são os planos da Bundesliga para os próximos anos. Os alemães querem projetar seu campeonato internacionalmente, tornando-se efetivamente um concorrente mundial da Premier League inglesa e da liga espanhola. Nesse cenário, é vantajoso ter um parceiro de mídia global que se comprometa a dar o carinho (exibição de jogos, espaço nos noticiários) ao evento. E aí a Fox apareceu.

O canal de Rupert Murdoch fez uma oferta que envolvia 80 países de América do Norte, América do Sul (incluindo o Brasil), Europa (Itália, Holanda e Bélgica) e Ásia (incluindo China e Japão). Essa lista de regiões soou como música aos ouvidos dos alemães, que fecharam uma parceria mundial de cinco anos (dois no caso dos países europeus) com a Fox. Os valores desse contrato não foram divulgados, mas eles representarão boa parte dos € 140 milhões que a Bundesliga pretende faturar em venda internacional de direitos entre 2015/16 e 2020/21.

A Bundesliga quis se internacionalizar e acertou com a Fox Sports para 80 países (Foto: AP)

A Bundesliga quis se internacionalizar e acertou com a Fox Sports para 80 países (Foto: AP)

Uma parceria entre liga e emissora também aconteceu na Eredivisie. A Fox Sports queria entrar no mercado holandês com força, inclusive transmitindo o campeonato local. Para isso, comprou o Ereedivisie Live, canal por assinatura, e criou o Fox Sports Eredivisie. Foi natural que esse acordo se estendesse para toda a rede de canais esportivos do grupo norte-americano. Assim, o Campeonato Holandês também deixará a ESPN aqui no Brasil.

Claro que o canal da Disney não perde eventos apenas. Ele próprio tem sua rede global, e a utiliza para conseguir alguns eventos importantes. É o caso do Campeonato Espanhol, da NBA, da MLB e, principalmente, da NFL, que é exclusiva de todos os canais ESPN pelo mundo em TV por assinatura.

Apesar de ser um movimento interessante, e que produza contrato de dezenas ou centenas de milhões de dólares e crie parcerias importantes, a globalização dos direitos não é um movimento inevitável. Ele é útil quando há desejo de internacionalização de uma liga, mas, quando esse processo já está consolidado, negociar localmente facilita o acordo com algum veículo que ofereça um pacote mais interessante para cada país. “Se o cara que está vendendo diz que vai vender só para o Brasil, não vale quem tem os direitos no resto da América Latina. O Brasil vai ser tratado de igual para igual”, explica Evandro Figueira, diretor de aquisições e produções da Bandports.

Nesses momentos, se aplica a regra do “cada caso é um caso”, porque depende do quanto os canais brasileiros se interessam e o que eles têm a oferecer. “No mercado brasileiro, a lógica é fechar com as empresas da Globo, porque elas têm mais audiência”, comenta Erich Beting, jornalista especializado em marketing esportivo. Isso faz que, algumas vezes, o Brasil se torne exceção em um contrato regional. “Às vezes acontece de a ESPN comprar o evento para a América Latina inteira, mas, como no Brasil o SporTV é muito forte, ficamos com a América Latina, menos Brasil”, acrescenta o diretor de negócios da ESPN Brasil, Carlos Eduardo Maluf, há 14 anos na empresa. É o que acontece nos torneios de Wimbledon e na série Masters 1000 do tênis.

Isso não significa que a SporTV terá prioridade ou ganhará a disputa sempre. Outros canais podem contra-atacar com promessa de mais exposição do torneio em sua grade. Até porque o canal da Globosat tem uma programação menos flexível e muitos compromissos com competições nacionais, inclusive de outros esportes.

Cada negociação é conduzida de uma forma. Depende dos interesses das ligas, das emissoras de televisão e das especificidades dos países. As estruturas das empresas internacionais para atingir mais países servem apenas como um trunfo a mais, uma moeda de troca extra. A globalização, no mercado de direitos de transmissão de eventos esportivos, ainda não é plena.

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