No princípio era a retranca, como sempre é quando a Holanda enfrenta rivais que gostam de tomar mais a iniciativa – como foi o Chile, na primeira fase, e como foi o México, neste domingo. Porém, a Oranje não contava com a astúcia do México, que também veio fechada, confiando na aplicação da linha de cinco defensores. De quebra, o time de Miguel Herrera tinha mais rapidez e ousadia nos avanços. Por isso, fez o primeiro gol. Só que a equipe de Louis van Gaal, vendo que os espaços apareceram durante o jogo, tinha mais gente capaz de tirar um coelho da cartola na hora final. Eles foram tirados. E a Holanda fez 2 a 1 e está nas quartas de final da Copa do Mundo.

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Mas é claro que foi difícil, como era previsto por qualquer pessoa que tivesse bom senso. Até porque o México foi bem mais rápido e arisco do que o Chile fora. Basta olhar Layún, superior a Verhaegh enquanto o camisa 12 esteve em campo – sem contar os chutes que o lateral esquerdo arriscou contra o gol de Cillessen. Aliás, o goleiro holandês foi vítima de algumas críticas injustas. De fato, começou ligeiramente assustado no jogo. Mas depois se recompôs e até fez algumas boas defesas durante a partida.

Se houve problema para a defesa do time holandês, novamente com cinco jogadores, ele veio logo aos nove minutos do primeiro tempo. Ao sentir lesão na virilha, Nigel de Jong teve de sair rápido. Perda que teve impacto triplo para a Holanda. Primeiramente, Louis van Gaal teve dúvidas sobre quem colocar em campo. “Era um risco colocar Martins Indi, por isso também mandei De Guzman para o aquecimento”. Depois, a lesão pequena (que já tirava De Jong dos treinos pós-jogos) pode ter se tornado grande demais. Van Gaal se preocupou demais: “Temo que a Copa dele tenha se acabado, mas com Nigel nunca se sabe. No que se refere ao coletivo, ele é meu jogador mais importante”.

Só que o problema maior veio imediatamente, no jogo contra o México. Pela esquerda, Martins Indi não foi mal, pois Aguilar foi relativamente tímido. Só que Layún continuou avançando bem pela direita e superando Verhaegh, já naturalmente desgastado pelo calor. Além disso, pelo meio-campo, Guardado e Herrera sabiam dar toques rápidos para Peralta e Giovani dos Santos, acelerando as jogadas de ataque e trazendo perigo a Cillessen.

Claro, às vezes Van Persie e Robben começaram a achar espaços vez por outra na defesa mexicana. Uma dessas vezes, inclusive, foi o lance em que supostamente houve pênalti de Moreno sobre o camisa 11 (curiosamente, com consequências maiores para o zagueiro, que saiu com a tíbia quebrada). Só que foi justamente nessa infração, considerada por muitos até mais grave do que o pênalti que definiu a partida, que Robben disse ter assumido a postura de cai-cai, em entrevista à tevê holandesa após o jogo: “Preciso ser honesto, e então pedir desculpas por fingir sofrer o pênalti. Foi uma ação estúpida. Eu me arrependo enormemente”.

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Terminar o primeiro tempo sem sofrer gols já era algo para se comemorar na Holanda. Porém, embora a disciplina tática da equipe na Copa seja notável, a equipe tem um problema já apresentado em 2010: mesmo com um esquema claro e jogadores que sabem perfeitamente o que têm de fazer, uma falha minúscula da defesa já causa problemas enormes à Oranje. Foi o que aconteceu no início do segundo tempo: uma desatenção da zaga deixou Giovani dos Santos livre para arriscar, fazer o gol e premiar a ousadia mexicana, que tornava El Tri melhor no jogo.

Só que o gol foi um mal que veio para o bem da Holanda no jogo. Claro, tirar Giovani para colocar Aquino e recuar o time pode ter sido aposta arriscada demais, embora compreensível, de Miguel Herrera. Mas de nada adiantaria o México ficar na defesa se a equipe laranja não tivesse espírito de luta e decidisse ir à frente. Foi o que aconteceu. Colocar Depay na vaga de Verhaegh mudou o esquema para o 4-3-3 e já acelerou o jogo holandês.

Só que Sneijder continuava apagado na armação das jogadas. O que sobrecarregava Robben na função de resolver o apuro holandês. E mesmo quando a chance de gol surgia, a Holanda parava em Ochoa, goleiro que soma a tradicional elasticidade de arqueiros mexicanos a um senso de colocação poucas vezes visto num guarda-metas daquele país. Foi a ótima colocação que permitiu a Ochoa salvar bolas como a cabeçada de De Vrij, num escanteio.

Sneijder seguia tão apagado, apenas tentando chutes sem mira aqui e ali, que era de se pensar por que Van Gaal não decidia arriscar, colocando Clasie em campo. A resposta veio aos 43 minutos do segundo tempo, quando a vontade holandesa finalmente deu resultado. Aí, é preciso voltar aos 30 minutos do segundo tempo, logo após a pausa para refresco. Segundo o técnico informou na coletiva pós-jogo, tudo já estava previsto: “Eu vi que estávamos em melhor forma do que os mexicanos, e que iríamos crescer em espírito de luta no final do jogo. Tivemos sorte com a pausa, quando eu pude pôr o plano B em prática. Isso nos salvou de novo”.

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Aí entrou Huntelaar no lugar do discreto Van Persie. Aparentemente, o atacante do Schalke 04 seria o homem de finalização, aquele que tentaria colocar desesperadamente uma bola alta nas redes, fosse do jeito que fosse. Mas Klaas-Jan teve inteligência tática fundamental. Por exemplo, aos 43 minutos do segundo tempo, quando fez o pivô e atraiu a atenção da marcação para abrir espaço. E Sneijder, enfim, acertou um chute, empatando na mais desejada das horas. Era a justificativa para que ainda se prefira ele a Clasie nos titulares: porque o camisa 10 ainda pode definir um jogo, apesar dos pesares.

Depois, veio o pênalti de Rafa Márquez sobre Robben. Algo injusto, pela ótima Copa que o capitão mexicano fez. E também polêmico, embora marcável. Há árbitros que marcam pênaltis daquele tipo, e outros que não marcam. O português Pedro Proença marcou. E Huntelaar recebeu a bola de Robben, virou o jogo e comemorou com um golpe na bandeirinha de escanteio que já ganhou, na Holanda, popularidade semelhante à do “peixinho” de Van Persie no primeiro gol holandês contra a Espanha.

E a Holanda teve premiado o seu espírito de luta, passando às quartas de final. Continuará sendo difícil: a Costa Rica chegará novamente como franco-atiradora, e diminuirá os espaços como o México fez. Campbell, Bryan Ruiz e Bolaños avançam bem, e Navas é tão bom goleiro quanto Ochoa, embora seja mais arrojado. Mas a Oranje sabe que não precisa ganhar um jogo só na retranca, que seu ataque pode vencer jogos. Essa sabedoria pode lhe facilitar os caminhos rumo à semifinal.