Quando a Rússia veio ao Brasil e fez uma campanha modesta na Copa do Mundo de 2014, Aleksandr Golovin era mais um adolescente torcendo pela seleção do país. Tinha 18 anos e havia se mudado a Moscou meses antes, juntando-se às categorias de base do CSKA Moscou. Por mais que fosse tratado como um grande talento do país, ainda dava os seus primeiros passos nas seleções menores, longe de figurar no nível principal. Mas quatro anos podem ser transformadores, principalmente quando se pensa no Mundial. Nesta quinta-feira, o garoto foi decisivo. Demonstrou uma qualidade técnica acima da média e, ao lado de Denis Cheryshev, protagonizou a Rússia na estreia da Copa. Foram duas assistências e um belo gol de falta do camisa 17, determinante nos 5 a 0 sobre a Arábia Saudita.

Pouco antes de 2014, aliás, Golovin estava muito distante de Moscou. Ele nasceu em Kaltan, uma cidadezinha de pouco mais de 20 mil habitantes no coração da Sibéria. As condições climáticas, obviamente, atrapalhavam a prática do futebol e havia apenas um campo em dimensões oficiais no vilarejo, muito mal cuidado. Isso acabou sendo determinante ao seu desenvolvimento: desde cedo, o meia aprimorava a sua habilidade nas quadras de futsal. A capacidade para driblar e bater na bola surgiu daí. Mas a estreia da Copa apresentou muito mais do prodígio.

Golovin logo se mudaria a Barnaul, cidade siberiana de 600 mil habitantes. Mirrado, o menino esquentava o banco em um time de Leninsk-Kuznetsky, mas passou a ganhar espaço quando desenvolveu-se fisicamente. Já em 2012, aconteceu o ponto de virada em sua carreira. Foi chamado para a seleção siberiana para disputar um torneio na Crimeia – o suficiente para ser descoberto pelo CSKA Moscou. Mudou-se à capital e a maestria evidente o levou à seleção sub-17 no ano seguinte, campeão europeu da categoria. A partir de então, sua ascensão foi meteórica.

O meio-campista estreou no time principal do CSKA Moscou pouco depois da Copa do Mundo. Promovido por Leonid Slutsky, atuou em uma partida válida pela Copa da Rússia, em setembro de 2014. Pois Fábio Capello, então técnico da seleção principal, preferiu nem perder tempo para promover a estreia do adolescente, em julho de 2015, durante amistoso contra Belarus. Início este que não poderia ser melhor: Golovin saiu do banco e, com 15 minutos, matou no peito e fuzilou, anotando o gol que deu vantagem no placar aos russos, no triunfo por 4 a 2.

Ainda demoraria um pouco mais para Golovin se firmar. Virou titular do CSKA na reta final do Campeonato Russo 2015/16. E o destino, em partes, facilitou o seu caminho na seleção. Primeiro, porque o próprio Slutsky substituiu Capello no comando da equipe nacional, em agosto de 2015. Depois, porque Igor Denisov e Alan Dzagoev se lesionaram às vésperas da Eurocopa, abrindo uma brecha ao prodígio. Mesmo com pouca rodagem, virou titular às portas do torneio. Jogou recuado, como cabeça de área ao lado de Roman Neustädter, mas não se saiu tão bem. Mais importante foi a temporada seguinte, quando se tornou imprescindível no clube e ganhou sequência nos jogos da seleção. Então, assumiu sua posição atual, meia-armador, por vezes deslocado à ponta esquerda.

Na estreia da Copa, Golovin foi este vértice ofensivo do ataque. Centralizado, mas aproveitando um pouco mais os espaços pelos lados, ditou o ritmo de uma Rússia que pisava no acelerador quando se aproximava ao ataque. Entre os jogadores de sua equipe, foi o mais acionado ao longo dos 90 minutos. Assim, o novato proporcionou a goleada sobre a Arábia Saudita.

Os cruzamentos para os gols de Yuri Gazinskiy e Artem Dzyuba são de manual. Batidas secas de pé direito, botando curva na bola e endereçando os presentes na cabeça de seus companheiros. Ainda criaria outras três oportunidades, nas quais os colegas não foram tão precisos nos arremates. Também participou do segundo tento, de Cheryshev, ao puxar o contra-ataque e dar uma finta para quebrar a já desmontada defesa saudita. Por fim, o prêmio por seu trabalho veio no último lance do jogo. Em falta pelo lado direito da área, o camisa 17 cobrou com todo capricho, no canto do goleiro. Caixa. Placar encerrado com os 5 a 0 um tanto quanto inesperados.

E a estreia na Copa do Mundo mostrou apenas uma das faces de Golovin, como meia criador. É um jogador versátil, que também pode se tornar um volante com boa saída de bola, preenchendo o meio-campo; ou ainda um ponta leve e de ações rápidas, mas que também oferece o combate. Admitidamente, o camisa 17 gosta de estudar táticas. Segundo suas próprias palavras, assiste a vídeos do futebol italiano e também analisa as atuações de N’Golo Kanté, seu jogador favorito. As principais inspirações, no entanto, são outras: Zinedine Zidane e Alexey Smertin.

A Rússia, de fato, decepcionou nas últimas competições internacionais. E, massacre à parte, nada ainda está garantido em 2018. Mas é importante notar como há alguns jogadores para conduzir o futuro da equipe nacional, impressão que não era tão clara meses atrás. Golovin é um nome óbvio, e não apenas para isso. Por aquilo que já fez e ainda pode fazer na Copa do Mundo, não será surpreendente se o jovem reabrir as portas do mercado europeu aos futebolistas russos. A atuação de gala contra a Arábia Saudita é um chamariz aos interessados em sua categoria, em especulações que surgiam antes mesmo do Mundial. Uruguai e Egito, na sequência da competição, oferecerão as provas de fogo. A abertura da Copa pode ser, de qualquer forma, uma porta de entrada a Golovin. Agora muito mais gente ao redor do mundo sabe seu nome e conhece seu talento.