Torcedor do San Lorenzo em La Paz se vestiu como o papa Francisco. A fé não tem limites (AP Photo/Juan Karita)

Golpe de sorte? Seis virtudes dos finalistas que são exemplo para quem quer ganhar a Libertadores

Você pode até colocar a sorte na conta. Sim, Nacional e San Lorenzo se safaram em alguns momentos desta Libertadores em que a imaginação logo nos leva ao inexplicável. O que dizer das traves de Torrico, tão importantes em especial contra o Grêmio? Ou do tiro de Herrera, do Defensor, no travessão de Nacho Don? São milagres, tais quais aos de Victor na campanha vitoriosa do Atlético Mineiro na Libertadores 2013. Mas não dá para explicar a campanha do Galo só pelo goleiro santo. O time de Cuca fez mais. Assim como paraguaios e argentinos neste ano.

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Os torneios de mata-matas não colocam sempre os clubes mais regulares na final. A própria campanha sofrível da dupla na fase de grupos traduz isso. No entanto, os méritos nas últimas seis rodadas, pelo menos, são inegáveis. Força coletiva, sangue nos olhos, apoio da torcida, atuações eficientes. Tudo respaldado por boas gestões e boas contratações. Nacional e San Lorenzo podem não ter as camisas de Peñarol, Cruzeiro, Grêmio, Atlético Nacional, Flamengo (todos que ficaram pelo caminho) ou de um River Plate, Boca Juniors, Olimpia, São Paulo, Internacional (que sequer se classificaram para esta edição da copa). Mas os dois finalistas fizeram com que acontecesse, ao contrário dos outros.

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Pode até não ser a melhor. Mas dizer que esta é a “pior final de Libertadores de todos os tempos”, apenas por julgar o peso dos times no continente, é uma tática para criar polêmica barata. A história conta o passado, mas também se faz no presente. E, abaixo, as virtudes que permitem a San Lorenzo e Nacional escreverem esta história a partir de hoje:

A dupla ignorou favoritos nos mata-matas

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Se Nacional e San Lorenzo foram os dois piores classificados da fase de grupos, obviamente, estiveram longe do favoritismo na maioria de seus duelos nos mata-matas. Ainda assim, se impuseram. E de maneira incontestável. O Nacional estava longe de ser a força nos duelos contra Vélez e Defensor, enquanto estava um pouco mais em pé de igualdade com o Arsenal. Qual foi o seu plano de jogo nos três confrontos? Partir para cima no jogo de ida, com um futebol ofensivo, e segurar o resultado fora de casa. Até aqui, está perfeito. Já o San Lorenzo também não desfrutava assim de tanto prestígio contra Grêmio e Cruzeiro. Foi melhor que os brasileiros ao conter a pressão e aproveitar as poucas chances. Em nenhum dos dois casos dá para dizer que houve injustiça. Nacional e San Lorenzo foram superiores aos seus adversários. Classificaram-se na bola. Quer algo mais coerente?

Ninguém foi melhor coletivamente

Se você for pensar nos craques desta Libertadores, talvez não coloque necessariamente como grande protagonista um jogador do Nacional ou do San Lorenzo. Em uma competição tão surpreendente, rodada a rodada, o que acabou fazendo a diferença foi a força coletiva das duas equipes. O bom encaixe, mesmo. Tanto que, se você for citar um nome que ajudou mais os cuervos ou os tricolores, serão o dos técnicos Edgardo Bauza e Gustavo Morinigo. Seguir à risca o plano de jogo e ter consciência de forças e fraquezas também faz muita diferença no futebol, tanto quanto craques ou ímpeto ofensivo.

As duas torcidas dão provas de fanatismo rodada após rodada

Tudo bem, envolvimento popular é uma constante na Libertadores. Mesmo assim, o momento de comoção vivido em Assunção e Buenos Aires é especial. O Nacional, como o clube pequeno que é, continua levando às arquibancadas as famílias que representam a sua tradição. Mas também carrega consigo o resto do país. Porque um time que homenageia a nação em seu nome e suas cores, que sequer têm rivais e que possui uma história riquíssima também acaba ganhando reforço dos amigos. O Defensores del Chaco deverá estar cheio, mas não só de tricolores, mas de paraguaios. Já o San Lorenzo possui uma torcida na seca, à espera do título da Libertadores de 1960. Nada mais natural que uma das hinchadas mais fanáticas da Argentina impulsionasse esse sentimento no momento em que a Copa parece mais palpável. Os gritos, as faixas e a vibração no Nuevo Gasómetro são um espetáculo à parte no torneio.

A administração dos dois clubes é profissional

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Eis aí um mérito que contemplaria qualquer um dos quatro semifinalistas. A forma consciente como Nacional e San Lorenzo são geridos é exemplar em um continente em que muitos clubes se afundam em dívidas e se aproximam do caos. O profissionalismo na administração tricolor vem de 2009, em um trabalho que começou com o presidente Robert Harrison. O clube segue respeita suas condições financeiras (o que deveria ser uma obrigação, não uma exceção) e com isso tem feito um planejamento de cintos presos. O resultado está na Libertadores. Já pelo San Lorenzo, Marcos Tinelli pode ter algumas controvérsias envolvendo seu nome, mas é difícil encontrar problemas na forma como conduziu o Ciclón. O empresário geriu o clube como um de seus negócios, com investimentos precisos e lucros colhidos em campo.

A observação no mercado de transferências é inteligente

O sucesso dos finalistas pode ser explicado também pelas equipes bem montadas que os dois construíram, algo que também tem o mérito de suas gestões. No caso do Nacional, o escolhido para o comando foi uma aposta, Gustavo Morinigo, ex-jogador do clube. O homem da casa soube lidar com ex-companheiros e encontrar o melhor encaixe para jogadores locais, trazidos sem grandes exageros. Fredy Bareiro, destaque no Olimpia vice-campeão continental, e Brian Montenegro, promessa que não vingou no futebol europeu, são dois grandes exemplos. Já no San Lorenzo, as rédeas foram entregues a Edgardo Bauza, técnico respeitado e com bom currículo nos torneios continentais. Um comandante que mesclou boas apostas da base, como Correa e Villalba, a observações inteligentes no mercado, sobretudo estrangeiro. Cinco dos jogadores que devem ser titulares nesta quarta foram resgatados do exterior, entre eles Ignacio Piatti, o protagonista no último título argentino.

A vontade dos dois clubes em vencer a Libertadores foi insuperável

Pode parecer meio óbvio, mas não é: para se vencer a Libertadores, não é suficiente poder. O querer é fundamental acima de tudo. Lógico que Nacional e San Lorenzo possuem tantas qualidades. Mas a forma como se portaram diante dos adversários também foi essencial. Foram acuados, saíram de situações desvantajosas, aproveitaram os momentos que tiveram. Não foi o poderio de Cruzeiro ou Vélez e a fase de Grêmio ou Defensor que puderam barrá-los. A concentração de ambos ao longo da campanha foi notável, e fará um campeão inédito na próxima quarta-feira. Aquilo que poucos imaginavam, mas para o que os dois times se mostraram prontos desde as oitavas de final.