Götze beija a taça: ele foi o autor do gol do título (AP Photo/Matthias Schrader)

Götze é quem melhor representa o trabalho que levou a Alemanha ao título

A Alemanha tem sido muito elogiada pelo seu trabalho de base, merecidamente. Muito se falou desde o massacre contra o Brasil na semifinal, e mesmo antes, sobre como o futebol alemão se reestruturou e seria um modelo para o Brasil. Em um jogo tão duro quanto foi com a Argentina, o gol do título não poderia ser mais simbólico: veio de Mario Götze, considerado o maior talento da nova geração alemã. É curioso que o jogador que deu o quarto título à Alemanha jogando no Brasil tenha surgido com o apelido “Götzinho”, uma forma de dizer que ele tem um estilo brasileiro. Incluir o “inho” no nome é uma forma muito usada por alguns países europeus para descrever um jogador habilidoso. Götze representa essa formação alemã, o mais promissor de uma série de bons jogadores criados nas novas categorias de base do país, que agora é visto como modelo justamente para o Brasil. Foi pelo gol dele que Alemanha foi o primeiro europeu a vencer uma Copa na América.

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Aos 22 anos, Götze nasceu nas categorias de base do Borussia Dortmund e é um dos melhores jogadores da sua geração. Foi essencial na ascensão do Dortmund que levou a dois títulos nacionais e a um novo patamar da equipe, depois de anos afundado em crise, que culminou na final da Liga dos Campeões em 2012/13. Sua transferência para o Bayern de Munique deixou um rastro de mágoa em torcedores do clube aurinegro, mas isso aconteceu justamente porque seu talento, inegável, despertou o interesse do clube mais rico e poderoso da Alemanha. Chegou a ser titular no início desta Copa do Mundo, mas ainda falta despontar com a camisa alemã. O gol do título dá a Götze uma página nobre da história, que será contada para sempre como o título do time que se preparou por anos para chegar a esse resultado. Que trabalhou o seu futebol internamente para voltar a ser dos melhores do mundo, como liga, como futebol e como estilo.

Götze teve uma temporada difícil no Bayern, sem conseguir se firmar. Foi mais reserva do que titular. Foram 45 jogos do meia na temporada, sendo 15 deles entrando durante o jogo. Não se tornou um titular do time, embora se diga que Götze é uma das grandes apostas de Pep Guardiola para fazer o papel de “falso nove”, como fez com Messi. Se ele é o novo Messi de Guardiola, venceu o antigo pupilo do seu técnico no Bayern na final da Copa do Mundo. O “novo Messi” conquistou a Copa marcando o gol do título, algo que Messi ainda não conseguiu fazer (mas ainda deve ter outra chance, com 31 anos, na Rússia).

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Todo o trabalho feito pela Alemanha para desenvolver o seu futebol, melhoras as categorias de base e ter um novo estilo de jogo, que em 2010 já era o mais atraente de ver jogar, mesmo com a derrota para a Espanha, em 2014, depois de duas semifinais de Copa (2006, 2010), uma final e uma semifinal de Eurocopa (2008, 2012), a Alemanha finalmente levanta o título por meio do gol da sua maior revelação. O trabalho alemão já tinha dando resultado, com o time se tornando sempre muito competitivo e, mais do que isso, jogando um grande futebol, muito ofensivo desde 2006, lá atrás, quando o país sediou a Copa e mostrou ao mundo um futebol ofensivo e bonito sob o comando de um ex-atacante, Jürgen Klinsmann.

Como se não bastasse de simbolismo, Götze é um dos jogadores do elenco que nasceu já com a Alemanha unificada. Além dele, só Matthias Ginter, zagueiro de 20 anos, Julian Draxler, meia também de 20 anos, Erik Durm, lateral esquerdo de 22 anos, e Shkodran Mustafi, zagueiro de 22 anos. Ele é, sem dúvida, o mais importante de todos eles. Com o talento que tem e o potencial que demonstra, Götze tem tudo para ser o grande nome da Alemanha na Copa do Mundo de 2018, quando os alemães defenderão o título e tentarão se igualar ao Brasil em número de conquistas.

Se não faltam muitos talentos ao Brasil, falta formação do jogador em outras áreas, falta um futebol local mais forte, mais estruturado, com clubes que possam criar mais jogadores talentosos, com clubes mais saudáveis financeiramente, com um campeonato que tenha capacidade de rivalizar com as ligas mais fortes do mundo. O Brasil não precisa copiar a Alemanha, mas precisa olhar o trabalho que os alemães fizeram para entender o que quer fazer, melhorar o seu próprio campeonato da sua forma, fortalecer a sua formação de jogadores, mais do que tecnicamente, mentalmente, como pessoas, pensando também no lado social que o futebol tem.

Que em 2018 ao menos tenhamos visto o início desse trabalho para, quem sabe, em 2026 vermos em campo uma seleção que reflita tudo isso, como a Alemanha vê desde 2006, depois de iniciar esse trabalho no ano 2000. Há tempo para isso. A Alemanha tem o mais forte time do mundo, uma das melhores ligas do mundo e forma muitos jogadores. Os alemães são uma das grandes escolas de futebol do mundo, como são também Brasil, Itália e Argentina. Cada um precisa encontrar o seu próprio caminho para tornar o futebol de seu país mais forte. Todos precisam refletir sobre o que se viu nessa Copa para olhar nesse sentido. Os alemães estão olhando. E futebol não vence sempre o melhor time. A Argentina poderia ter vencido os alemães e jogaram para isso. Não tornaria o trabalho argentino no seu futebol melhor, nem o do futebol alemão pior. É preciso pensar e cuidar do seu próprio futebol, antes de tudo. Porque a Copa mostrou o tamanho do futebol no mundo.

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