A tragédia de Hillsborough, que custou 96 vidas no final da década de oitenta, modificou as regras de estádios das duas primeiras divisões da Inglaterra. Passou a ser obrigatório que todos os setores tivessem cadeiras. Torcer em pé desapareceu da elite do futebol do país e, embora haja um movimento forte tentando retomar a prática, flexibilizar essa medida ainda é uma tarefa muito difícil, como descobriu o West Brom.

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O Relatório Taylor, uma lista de medidas sugeridas pelo autor do documento para impedir que Hillsborough voltasse a acontecer, obrigou os estádios dos dois primeiros degraus da pirâmide a terem assentos em todos os lugares disponíveis. A exceção é para terraços de clubes abaixo da terceira divisão que haviam sido construídos antes de 1994. Quando uma agremiação passa pelo menos três anos na Championship ou na Premier League, é obrigada por lei a preencher o seu estádio com cadeiras.

No entanto, nos últimos anos, começou a haver movimentações para dar um pouco mais de liberdade às arquibancadas inglesas, muito criticadas por serem frias na maioria das partidas. Em 2013, diversos clubes das duas primeiras divisões mostraram-se a favor de um setor para torcer em pé e o governo daquela época, ainda controlado pelo então primeiro-ministro David Cameron, aceitou discutir a questão.

Nesse contexto, o West Brom propôs reformar um dos setores do The Hawthorns. A ideia seria introduzir o formato que já foi testado com sucesso no estádio do Celtic e é utilizado na Alemanha: em vez de cadeiras fixas, 3,6 mil assentos que podem ser levantados para que o torcedor possa ficar em pé com segurança. Segundo o Guardian, especialistas afirmam que torcer em pé não é perigoso, em si, mas fazê-lo em setores com cadeiras fixas, sim.

No entanto, a proposta foi rejeitada. O Sports Grounds Safety Authority, agência criada para regulamentar as medidas de seguranças dos estádios depois de Hillsborough, afirmou que o equivalente inglês ao Ministério dos Esportes não tem planos de mudar seu posicionamento ou introduzir acomodações para torcer em pé nos estádios das duas primeiras divisões da Inglaterra.

O diretor de operações do West Brom, Mark Miles, lidera a iniciativa do clube e pediu uma revisão da decisão do governo. O argumento é que já há torcedores que ficam em pé no setor e que a reforma faria com que isso se tornasse mais seguro. Tudo que ele queria era introduzir um projeto piloto para reunir mais informações.

“Eu acho essa decisão do ministro dos Esportes (Tracey Crouch) surpreendente e decepcionante. Certamente decepcionará muitos torcedores com quem conversei e que são a favor da nossa proposta”, disse Miles ao site do West Brom. “Acho que o ministro está adotando uma visão estreita e impedindo o clube de criar um ambiente seguro para os seus torcedores. A política de todos os torcedores sentados foi desenvolvida 25 anos atrás e o futebol é muito diferente agora. O sistema que propomos foi muito bem testado na Europa e também funcionou bem com o Celtic, que é governado por leis diferentes da Inglaterra e do País de Gales”.

O que bloqueia qualquer tentativa de modificar essa regra no futebol inglês é a dor ainda presente pelas mortes na tragédia de Hillsborough. Historicamente, as famílias sempre foram contra torcer em pé, mas, nos últimos tempos, mesmo elas estão abertas a debater o tema.