Torcida do Liverpool lembra de Hillsborough: desde a tragédia de 1989 não há lugares para torcer em pé na Inglaterra  (AP Photo/Paul Thomas)

Governo inglês aceita discutir permissão setores para torcer de pé, e isso significa muito

Ter setores para se torcer em pé no futebol inglês se tornou um enorme tabu. As razões estão bem vivas na memória dos ingleses. A tragédia de Heysel, que causou a morte de 39 torcedores e deixou outros 600 feridos na final da Copa dos Campeões de 1985, e a tragédia de Hillsborough, que matou 96 e deixou 766 feridos, mudaram para sempre o futebol do país. O relatório Taylor recomendou estádios com assentos em todos os setores, acabando com o que aqui no Brasil acostumamos a chamar de “geral”. Desde então, não se pode ter estádios com setores onde a torcida pode ficar em pé na primeira e segunda divisão inglesas, graças a uma rígida política adotada pelo Estado para ter segurança nos estádios. Passados quase 25 anos, torcer de pé ainda é proibido por lá, mas a situação está em vias de ser alterada.

Ter assentos em todos os lugares dos estádios foi mudada uma tradição de décadas, em favor da segurança, com o relatório Taylor. Só que a pressão começou a crescer no sentido oposto e, gradativamente, toda proporções bastante grandes. Torcedores, clubes e até parte da imprensa especializada falam sobre essa questão e levantam a possibilidade, especialmente olhando o que se faz na Alemanha, país que está sendo olhado como modelo na Europa neste momento também pelo futebol, já que teve dois finalistas na última Liga dos Campeões. Faltava que o governo aceitasse rever esse ponto, algo que não tinha acontecido até agora. O governo aceitou debater a questão e na Inglaterra isso significa muito.

A questão da segurança nos estádio se tornou um problema de Estado, e assim foi resolvido depois de Hillsborough. Há uma lei que proíbe que os estádios da primeira e segunda divisão tenham áreas para ficar em pé. Isso porque as pessoas morreram esmagadas nas grades, que cercavam o campo como jaulas. Porque essa era a forma que os torcedores eram vistos: animais, selvagens, que precisavam ser contidos. As orientações do relatório Taylor permitiram estádios mais confortáveis e principalmente mais seguros, com assentos em todos os lugares e sem qualquer grade separando a arquibancada do campo de jogo (e que aumentou os preços dos ingressos, algo que também está se discutindo hoje em dia, mas isso é conversa para outro texto). A proibição em ter um setor para torcer de pé, como acontece na Alemanha, por exemplo, sempre incomodou os torcedores.

Um dos pontos que ajuda na argumentação pela volta dos setores para torcer de pé é que o desastre de Hillsborough, a tragédia de disparou o gatilho da segurança acima de tudo, teve uma grande reviravolta. Em Heysel, os hooligans foram apontados como vilões pelas mortes. Os ingleses ficaram proibidos de participar das competições europeias por cinco anos e o governo assumiu a questão e ajudou a vilanizar os torcedores. O mesmo acabou acontecendo em Hillsborough, quatro anos depois. Muito por culpa do governo de Margaret Thatcher, que criminalizou os torcedores, mas não olhou para a raiz dos problemas, a organização e a segurança dos jogos de futebol.

Só que sempre houve relatos que contradiziam essa versão oficial dada pelo governo e pela polícia. Em setembro de 2013, um novo relatório sobre a tragédia culpou as autoridades, não os torcedores, por aquele triste incidente. Esse foi um episódio com tamanha repercussão negativa para o governo que o primeiro ministro David Cameron teve que ir a público pedir desculpas às famílias das 96 vítimas, considerados “vândalos” (sentiu que os governos tem muitas coisas parecidas mesmo tão distantes geográfica e temporalmente, né?). Com o governo tão desmoralizado, a pressão de torcedores e até dos clubes, não dava mais para se apoiar apenas na questão de segurança para sequer considerar debater a questão dos lugares de pé nos estádios.

Um porta-voz do departamento de cultura, mídia e esporte afirmou que o governo irá conversar com os representantes da Football League, a liga que comanda a segunda, terceira e quarta divisões inglesas (respectivamente, Championship, League One e League Two). A posição do governo, porém, ainda é a mesma, defendendo que todos os assentos sejam sentados. Os clubes já têm uma solução para propor: o chamado “rail seating”, que é uma espécie de geral, com mais preocupações de segurança. Esse setor teria assentos em todos os lugares, mas eles seriam retráteis para os torcedores poderem torcer em pé se quiserem. Além disso, barras de ferro seriam instaladas a cada duas fileiras, como há na geral da Arena do Grêmio, para evitar que em caso de tumulto as pessoas corram riscos.

A Associação de Torcedores de da Inglaterra tem uma campanha por lugares de pé com segurança há algum tempo. Muitos torcedores ficam de pé nas cadeiras dos estádios atualmente, o que, por si, é um risco, já que não já espaço para isso. A polícia, uma das que poderia ser contra a volta dos setores de pé, não mostra oposição, embora diga que uma confusão dos torcedores nesse setor seja mais difícil de controlar.

Torcer de pé ficou muito vinculado a Hillsborough, mas cada vez mais a voz das arquibancadas pede a volta dos desses setores. O governo pode manter a posição, mas terá que ter argumentos melhores que apenas a segurança. O exemplo da Bundesliga já mostrou que é possível ter um setor para os torcedores poderem ficar de pé sem riscos. O futebol pode ser seguro sem precisar se transformar em um concerto de música clássica ou uma peça de teatro.