O monumento ao Marquês de Pombal é tradicionalmente o ponto central de grandes manifestações populares em Lisboa. Do alto de um pedestal de aproximadamente 40 metros de altura, o marquês repousa o braço esquerdo sobre o leão – símbolo do poder – e olha para a Baixa, área da cidade que ajudou a construir após um terremoto abalar Portugal, em 1755. A estátua pode ser vista de vários pontos do município e é referência, ainda, pelo entroncamento viário que se forma ao redor da praça onde está localizada, também dedicada ao importante estadista português.

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Quando Marquês de Pombal (cujo nome de batismo era Sebastião José de Carvalho e Melo) faleceu, em 1782, às vésperas de completar 83 anos de idade, o futebol ainda não havia sido inventado. O homem que aboliu a escravatura em Portugal nem poderia imaginar que se tornaria símbolo da festa de um clube, séculos depois.

No domingo (20), quando o Benfica conquistou seu 33º título português e consolidou-se como o maior campeão nacional da história (são 27 títulos do Porto e 18 do Sporting), o marquês vestiu a “camisola encarnada”, como os portugueses costumam dizer. Em meio à gigantesca festa que tomou conta das ruas de Lisboa, tendo a praça como seu ponto central, a estátua foi vestida com uma camisa do time, de tamanho gigante, com o número 33 estampado.

Duas pessoas podem ser apontadas como as principais responsáveis pelo feito. E não são o corajoso rapaz que aceitou o desafio de pendurar-se numa grua e subir tamanha altura para o trabalho de vestir a estátua, nem o sujeito que controlava a máquina. Os responsáveis atendem pelo nome de Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus. Ainda que polêmicos e longe de causarem unanimidade até mesmo entre os próprios torcedores, o presidente e o técnico do Benfica tiveram papéis fundamentais no triunfo da equipe.

Quando a temporada passada terminou, com o Benfica atingindo um inusitado trivice-campeonato, ao perder o Campeonato Português, a Liga Europa e a Taça de Portugal, as estruturas do clube pareciam ruínas prestes a desabar. Assim como Jorge Jesus desabara, de joelhos, ao ver Kelvin fazer o histórico gol que deu o título nacional ao Porto.

A estátua do Marquês de Pombal vestiu a camisa do Benfica

A estátua do Marquês de Pombal vestiu a camisa do Benfica

O contrato do treinador havia chegado ao fim juntamente com o término da temporada e a pressão para que ele não fosse renovado era enorme. Mas foi aí que Filipe Vieira começou a articular aquela que seria a grande reviravolta: depois de alguns dias de silêncio, surpreendeu ao anunciar a renovação com Jorge Jesus por mais dois anos.

Nesta semana, o presidente comentou o assunto durante um encontro com deputados benfiquistas. Ele revelou que, na época, imaginava que mudar tudo seria uma espécie de suicídio. “Sempre acreditei que, apesar do que tinha acontecido, este era o caminho. E que o futuro iria nos compensar por tudo o que nos tirou. E a verdade é que hoje celebramos mais um título, porque tivemos o mérito de não desistir e porque, quando caímos, tivemos a capacidade de nos levantar”, disse.

Mas manter Jorge Jesus no cargo não foi o único ponto que dá a Filipe Vieira uma grande parcela de culpa na conquista do título. Ele também soube administrar conflitos internos, como a briga entre o próprio treinador e o atacante paraguaio Óscar Cardozo. Fora de campo, fez negócios importantes. Um deles foi o golpe certeiro ao optar pela transmissão exclusiva dos jogos em casa da equipe pela Benfica TV. A decisão transformou o que era apenas um canal oficial do clube em uma promissora empresa.

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A própria Benfica TV foi o veículo pelo qual se pôde ver um Jorge Jesus diferente das temporadas anteriores. Provavelmente por decisão interna, o técnico optou várias vezes por fazer declarações exclusivas ao canal, ao invés de entrevistas com jornalistas dos mais variados meios de comunicação. Claro que, para a imprensa, isso não é nada agradável. Mas, pensando pela ótica do clube, evitou que Jesus criasse polêmicas e desgastes.

O treinador pareceu mais humilde nesta temporada. A todo momento, reiterava que a prioridade da equipe era a conquista do título nacional. Por isso, não sofreu tanta pressão quando veio a eliminação na Liga dos Campeões. E, meio “sem querer, querendo”, foi levando as outras competições paralelamente e obtendo sucesso em todas: está na semifinal da Liga Europa e da Taça da Liga e na final da Taça de Portugal.

Jorge Jesus parece ter aprendido com os erros do passado. O nítido desgaste dos jogadores no final da temporada 2012/13 não aconteceu agora, quando o treinador optou por um revezamento maior de atletas – e também pôde contar com um elenco mais recheado, outro mérito do presidente.

Foi curioso ver as reações distintas dos dois homens fortes do Benfica quando da confirmação do título, com a vitória por 2 a 0 sobre o Olhanense. Assim que o árbitro apitou o final do jogo, Filipe Vieira limitou-se a cumprimentar as pessoas que estavam próximas a ele, sem nem sequer levantar-se de seu assento no camarote. Já Jesus, que não pôde ficar no campo durante a partida por causa de uma suspensão, fez a festa como um torcedor – e chegou até a ser confundido com um deles, como mostra esse hilário vídeo publicado aqui na Trivela. A diferença de comportamento deve-se à personalidade distinta dos personagens, mas é provável que o fato de a mãe do presidente ter morrido dias antes também tenha colaborado para diminuir sua euforia.

É óbvio que somente o presidente e o treinador não são capazes de fazer um time campeão. Há méritos – e muito – para os jogadores. O que a coluna quis mostrar foi como as ações de dois tomadores de decisões, muitas vezes contestados (e muitas vezes com razão), foram fundamentais para tirar o clube de uma grande crise e levá-lo ao topo do futebol nacional.

Ao fazer o que fez no monumento ao Marquês de Pombal, a torcida encarnada criou um grande símbolo. Ter um local tão importante para os portugueses literalmente vestido com a camisa do Benfica mexe fundo no orgulho dos torcedores e, de quebra, causa inveja nos rivais. Guardadas as devidas proporções, é como o país que vence a guerra e hasteia a sua bandeira no território inimigo. Pelo menos até o próximo Campeonato Português, o marquês – que morreu antes de o futebol nascer – será benfiquista.

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