Gracias, Maestro Tabárez

“Eu não treino estrelas, eu treino pessoas. Entendo que a atenção que recebem da mídia internacional significa que são jogadores mais propensos a serem idolatrados e a serem vistos em um pedestal de idealização, mas isso não muda o fato de que treino pessoas, como sentimentos, além de afazeres e obrigações em comum. O futebol é um esporte coletivo, não individual. Quando quero ver estrelas, eu olho para o céu. Se você está disposto a formar um grupo sólido, deve começar dando o mesmo respeito ao famoso e àquele que não é. Felizmente, na seleção uruguaia provamos que isso é possível. Quando esses jogadores badalados têm senso de grupo e liderança positiva, as coisas acontecem de maneira mais fácil”.

A análise feita por Óscar Washington Tabárez, durante entrevista concedida à revista The Blizzard em dezembro de 2013, resume a essência desta seleção uruguaia. Em mais de uma década à frente da Celeste, o Maestro soube tirar o melhor de seus melhores jogadores, mas não por formar uma equipe em função de seus craques. Pelo contrário, um dos maiores méritos do treinador está justamente em deixar os astros ainda mais em função do coletivo, como se viu nesta Copa do Mundo. Edinson Cavani, Luis Suárez e Diego Godín não indicavam qualquer vaidade ao se esfolarem a cada bola, ao correrem até a exaustão. Eram o exemplo de um Uruguai que marcou o seu caminho na Rússia, ainda que o sonho tenha terminado precocemente.

A derrota para a França nas quartas de final oferece um anticlímax final a tudo o que os uruguaios desejavam. Edinson Cavani fez falta ao time, lesionado. E contra um adversário que não teve uma atuação brilhante, mas suficientemente correta, a vontade dos charruas não bastou diante dos erros pontuais. Ficam as lágrimas de quem caiu em suas limitações. Fica, de qualquer forma, o reconhecimento por aquilo que proporcionou o Maestro Tabárez. Naquele que talvez tenha sido seu último jogo à frente da Celeste, há outras marcas que permanecem. E estas não necessariamente se percebem dentro das quatro linhas. É o que um canal de televisão definiu como ‘orgumildad’, neologismo que mistura as noções de orgulho e humildade. O sentimento que aproxima os jogadores e sua gente.

Até meados da década passada, afinal, a relação entre a população uruguaia e a seleção tinha se rompido. Os torcedores estavam fartos de jogadores que davam mais importância aos empresários do que à camisa celeste, com motins internos. Que vinham de participações patéticas nas competições internacionais. Que não mostravam a fome que se pedia e, quando caíam no estereótipo da tal ‘garra charrua’, descambavam para a violência. Tabárez, quando retornou à Celeste, após a queda do time para a Austrália na repescagem da Copa do Mundo de 2006, tinha um intuito. Seu objetivo era unir dois traços fundamentais do futebol uruguaio. Sim, queria a vontade que tanto caracteriza o país, mas sem que isso resultasse em deslealdade. E que se preservasse a qualidade, dentro da realidade que se impunha, mas resgatando aqueles valores que conduziram o Paysito às suas maiores glórias, entre as décadas de 1920 e 1950. Nasazzi ou Scarone, Obdulio ou Schiaffino: garra e talento podiam e deviam se fundir em torno de um objetivo maior. Estavam presentes nos principais jogadores, sem se negar a dar um carrinho ou buscar o gol.

“Uma das virtudes que acredito para ser técnico é ser profissional. Quando alguém te oferece um contrato, espera que você treine um time e tenha um bom desempenho. O caminho que adoto é a filosofia de grupo: compartilho informações, instituo uma atmosfera de respeito e tento obter o mesmo profissionalismo das pessoas que trabalham comigo, jogadores de futebol e assistentes. Eu quero que isso seja uma característica que distinga meu time, não apenas algo a mais”, ressaltou Tabárez, à Blizzard.

Os resultados, obviamente, seriam essenciais para que o plano de Tabárez se concretizasse. E eles aconteceram a partir de 2010, nos gols de Forlán, no desespero heroico de Suárez, na liderança de Lugano, na picardia de Loco Abreu. Confirmaram-se um ano depois, na Argentina, com a conquista da Copa América – este torneio que parece mesmo um destino manifesto à Celeste, e que tempos em tempos retorna às mãos dos charruas para referendar as suas grandes gerações. O legado do Maestro, todavia, era mais por aquilo que retomava no Uruguai: a noção de que a seleção voltava a representar definitivamente a cultura e a identidade do Paysito.

“O futebol nos define mais intensamente que nossas próprias raízes como país e nos ajuda também a acreditar. Os êxitos de Tabárez e a sua geração serviram para reciclar times que foram absolutamente perdedores. O futebol sempre foi um cartão de visitas de nosso país ao mundo e hoje este cartão representa um orgulho a nós. Quando a seleção ganha, vivemos como se fossem as festas de fim de ano”, analisa o sociólogo Leonardo Mendiondo, em reportagem de Danilo Costas ao site Ecos.

Visão complementada pelo historiador Gerardo Caetano: “Com esta seleção de Tabárez, o Uruguai alcançou algo que não acontecia faz tempo, a reconciliação entre equipe e sociedade. A cor, os carros com bandeiras e as caras pintadas são manifestações, signos vitais de que a relação entre o povo e a seleção está em uma condição notável. Não tem tanto a ver com os resultados, mas com os valores que Tabárez conseguiu transmitir. Primeiro e principal, o conceito de planificação. O Uruguai é um país onde a planificação não abunda, ninguém pode criticar Tabárez por sua falta de visão a longo prazo. Além disso, esse processo terminou com o tema dos repatriados, as renúncias, o vedetismo das estrelas. Esta seleção representa os valores que a sociedade uruguaia estima, como a estratégia, a serenidade e o trabalho em equipe”.

As noções de coletividade propostas por Óscar Tabárez se reproduzem em campo. Um time que defende de maneira uniforme, com cada um fazendo sua parte para brigar pela bola. Um time que ataca com inteligência, explorando as virtudes de cada jogador e tentando se aproximar do gol através disso. É um Uruguai consciente de suas limitações, mas também de suas forças, e que cumpriu ótimas campanhas ao longo do último ciclo. São três Copas do Mundo consecutivas, algo que não acontecia desde a década de 1970. Três presenças consecutivas nos mata-matas, algo inédito aos charruas. E rumo a 2018, bastante diferente do sofrimento de outras Eliminatórias, os orientais passaram distantes da repescagem. Tiveram o apoio dos seus, como evidenciado no último amistoso antes da viagem à Rússia, no Centenario.

A seleção adulta, de qualquer forma, é apenas uma parte do amplo contexto. É o ápice do que Tabárez chama de ‘El Proceso’, a planificação que rege o funcionamento da federação como um todo. O Maestro elaborou uma espinha dorsal de trabalho, compartilhando métodos e filosofias entre diferentes categorias. O investimento na formação de jovens jogadores se tornou parte fundamental, algo inescapável em um país de apenas 3,5 milhões de habitantes. Pode se falar que o treinador se apegou a alguns jogadores mais do que deveria, independentemente da fase em seus clubes – e isso cobrou o seu preço, como se viu contra a França. Mas não se nega a confiança que o veterano desfruta de todos, jogadores e torcedores. Os questionamentos são pertinentes, mas o respeito prevalece.

“Nos últimos anos, eu senti um reconhecimento, algo como uma resposta positiva, e isso não tem precedentes em meu país. A única coisa que eu posso comparar a isso é o que experimentei com os torcedores do Boca Juniors, depois de conquistar o Apertura em 1992, o primeiro título nacional em 11 anos. Mas o que eu considero mais importante, pelo que ouço e pelo que sinto, é que esse reconhecimento está além de vencer um jogo de futebol. Há uma imagem que este grupo de jogadores tem mostrado nos últimos anos e isso repercute em toda a população, os jovens, as mulheres, os setores onde o futebol não era tão importante”, avaliou Tabárez, à Blizzard.

Os próprios jogadores, afinal, também tratam de sustentar esta imagem além do que acontece dentro de campo. Desde 2010, existe uma organização fomentada por eles, que ajuda a descobrir e a incentivar a prospecção de jogadores no interior do Uruguai. Mais recentemente, em 2016, o elenco se uniu para brigar por aquilo que achava um contrato de patrocínio mais justo para o fornecimento de material esportivo às equipes nacionais, peitando justamente Paco Casal, o empresário que mandava na Celeste em tempos passados. A briga resultou em um aumento no ganho relacionado aos direitos de imagem dos futebolistas da seleção. E o primeiro pagamento, recebido em maio de 2017, acabou destinado aos atletas da segunda divisão uruguaia, que sofriam com atrasos salariais. Posturas que vão no sentido oposto da primeira passagem de Tabárez pela Celeste, na virada dos anos 1980 para os anos 1990, quando o estrelismo dos craques se tornou justamente uma das ruínas e da desunião.

“No início do século passado, nós desfrutamos de uma supremacia não só no futebol, mas também no sistema democrático, na educação pública, no bem-estar social, na noção de pobreza. Naqueles dias, ser pobre significava comer um ensopado todos os dias, oposto a certas formas de ser pobre hoje em dia, que me fazem sentir envergonhado. Então a questão a se perguntar era clara: como podemos entender as reais chances do Uruguai como país no futebol? A análise foi bem clara: em um país de terceiro mundo, uma terra que exporta jogadores, temos que determinar um perfil de equipe. Não poderíamos apenas viver com base na glória do passado. Foi suficiente para olharmos para aos melhores times, ver como jogavam e o que faziam. É simples assim. Não basta olhar para eles, mas entendê-los e, depois, definir o perfil de jogador que se encaixe neste estilo”, aponta Tabárez.

Além de táticas e estruturas, uma das maneiras que Tabárez consegue tirar o máximo do time é mexendo com a mente dos jogadores. É pedindo um esforço extra para os companheiros e para as famílias, é explicitando que todos no Uruguai esperam esta gana a mais. Ao longo dos últimos meses, os charruas passaram a se doar mais – pelo próprio Maestro. O exemplo estava claro à beira do campo, de bengala, aos 71 anos. A doença degenerativa que limita os movimentos do treinador é a mesma que escancara a sua dedicação à Celeste. Uma dedicação que se reflete no gramado, entre 11 homens entregues, que honram os ensinamentos do mestre. É como se o veterano se tornasse o ancião de um povo que compreendesse todos os uruguaios. É como se fosse o avô de uma enorme família celeste.

A grande imagem de Tabárez aconteceu na estreia do Uruguai na Copa do Mundo, contra o Egito. O treinador não se conteve quando José María Giménez anotou o gol da vitória agônica, nos instantes finais do segundo tempo. Num reflexo natural, instintivo, largou a bengala e levantou-se urrando “Uruguay Nomá”, Uruguai e nada mais, o grito de um povo. As limitações nunca o impediram de seguir firme à beira do campo, instruindo seus jogadores e oferecendo seu apoio. Não são empecilho para que continue pensando com clareza, algo que se percebe há anos, ao longo do processo.

“Mais além das limitações que eu posso ter, igualmente reflito muito sobre a vida, sobre o final, e há um poema da Madre Teresa que é um canto de fé, de otimismo. Por isso é preciso seguir adiante e não se queixar. Conheci muita gente com problemas mais sérios, então eu seria um egoísta se ficasse me lamentando”, refletiu em entrevista ao jornal La Nación, em janeiro. “Se chega o momento e vejo algo que me impede de seguir, seria o primeiro a assumir. Mas estou animado com a ideia de fazer um grande Mundial na Rússia”.

A serenidade de Tabárez não se abalou. Pelo contrário, deu novos exemplos de sua visão além do horizonte, da maneira como entende o momento. De como sabe qual a representatividade da Copa do Mundo e desta seleção ao Uruguai. Algo que se manteve nesta sexta, depois da eliminação diante da França, falando também sobre a sua continuidade na equipe nacional.

“Hoje meu contrato terminou e não vou falar sobre o tema, não me corresponde. Nunca gostei de fazer lobby. O único que realmente terminou foi um sonho. Mas depois que esta Copa acabe, virão Copa América, Eliminatórias. Virão outros sonhos e é preciso persegui-los para concretiza-los. A derrota em um país de grande cultura futebolística se sente, é lógico. Mas depois chegará a hora de considerar outras coisas. Dói, mas não temos o direito de sermos dramáticos, nossa realidade é esta e nesta oportunidade não pudemos superar”, afirmou o Maestro, durante coletiva de imprensa. “Não se termina nada, por sorte o futebol continua. Em um país que sonha sempre, é disso que se trata. Nenhuma atividade humana em paz convoca tanta gente como a Copa do Mundo. É uma festa. O mundo reconheceu certas coisas, sabem o que somos como país, que todas as coisas nos custam mais”.

Independentemente do resultado ou das escolhas de Tabárez, a reverência se transborda além de Montevidéu ou das fronteiras do Uruguai. E uma cena fica, não apenas por aquilo que gerou no momento, mas pela maneira como será lembrada pelos próprios protagonistas no futuro. Logo após a vitória sobre o Egito, um vídeo viralizou nas redes sociais. Mostrava crianças indo à loucura em uma escola, ao comemorar o tento heroico. Uma imagem que chegou até o treinador. E que o Maestro conhece tão bem, em diferentes âmbitos. Para ele, será um momento que talvez aqueles pequenos nunca mais esquecerão, que poderão até transmitir aos filhos e netos, algo que representa a retomada do fio da cultura futebolística uruguaia.

Óscar Tabárez decidiu ser técnico depois de pendurar as chuteiras, em carreira modesta como defensor. Percebeu como muitos jovens atletas tratavam de ouvi-lo, como muitos pediam opiniões ou explicações. Logo após o fim da trajetória nos gramados, tendo três filhas para sustentar, assumiu uma sala de aula e passou a lecionar a crianças no subúrbio de Montevidéu. A história, por mais conhecida que seja, é definitiva ao comportamento do Maestro como treinador. Seguiu com o giz na mão até 1987, conciliando a docência com as seleções de base e clubes menores. Só deixou a profissão quando assumiu em tempo integral o Peñarol – com o qual foi campeão da Libertadores com contornos épicos. Logo depois, viria a seleção principal, o Boca Juniors, o Milan e tantos outros trabalhos. O treinador, sem saber o que era, manteve a ‘orgumildad’ como uma lição perene.

“Eu acho que sigo aprendendo. Todos os dias, eu aprendo algo, especialmente quando se trata de futebol. Não sou eu que sento e dou lições aos meus jogadores. Dito isso, no futebol, eu acredito que ser um treinador é também ser um educador, porque antes de mais nada você está lidando com um grupo de pessoas. Eu penso muito ao vê-los encarando novos desafios e superando as expectativas. Penso por que isso acontece e quais as qualidades especiais que eles têm para produzir tal efeito. Neste processo de análise, eu aprendo. Alguns dizem que é se tornar mais experiente. Experiência, se você me pergunta, não é apenas esperar o tempo passar. Algumas vezes você associa experiência com idade, mas não há uma relação inequívoca entre os dois. Pessoas jovens que capitalizam rapidamente os eventos que acontecem podem ser experientes. Tudo é relativo. Mas há sempre uma chance para aprender, isso é certo”, filosofou o Maestro, à Blizzard.

Certo é que, continue Tabárez ou não no comando da seleção, o Uruguai também quer continuar aprendendo com ele. Discute-se uma forma de seguir absorvendo o que o Maestro tem a oferecer, talvez em um cargo de consultoria na federação. Mas isso não se limita ao futebol. Não são poucas as falas, em meio às coletivas, em que o veterano enfatiza o investimento na educação. Durante os últimos dias, então, surgiu uma petição para que uma escola pública no Uruguai leve o nome de Óscar Washington Tabárez – algo que, segundo os criadores da campanha, representa de maneira muito mais fiel a importância do técnico do que uma estátua ou um monumento. Os ensinamentos do Maestro a um povo, e à sua forma de se conceber através do futebol, ficam além de seus 12 anos de Celeste, de seu recorde absoluto de jogos entre os treinadores de seleções ou das campanhas nos quatro Mundiais. É muito mais profundo. É sentimento, e sentimento não se apaga, se leva como experiência.