Jogar no Leste Europeu é uma experiência muito comum a vários jogadores brasileiros. O destino é, normalmente, a Ucrânia e a Rússia, dois países mais ricos entre as ligas daquela região. Mas há muitos brasileiros espalhados por Romênia, Polônia, Áustria. Estônia, porém, é incomum. Foi o destino escolhido por João Morelli para continuar a sua carreira, depois de jogar no Ituano e estar na última temporada no Middlesbrough sub-23.

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Revelado pelo Ituano, João Morelli é um meia que foi para o Midddlesbrough pela parceria com o Ituano. Jogou pelo time sub-23 do Boro, pelo qual fez 37 jogos, oito gols e fez duas assistências. Queria ter chance de jogar entre os profissionais. Foi quando surgiu o Levadia, time da Estônia que fez uma proposta para levá-lo por empréstimo por uma temporada.

“O Middlesbrough tem uma política de empresar os jogadores mais jovens pra times profissionais menores. Um olheiro de lá, que é inclusive brasileiro, recebeu essa proposta e a intenção era ganhar experiência, aparecer um pouco mais. Mesmo sendo um país menor, é rime profissional. O que me fez ir é tentar crescer como jogador e como pessoa. Conversei com meus empresários eles concordaram com tudo e resolvi aceitar”, disse João Morelli.

Se adaptar ao novo país não foi muito difícil, mas ele conta que o frio é intenso. Tanto que os companheiros sempre brincam com ele sobre a temperatura no Brasil. “Eles sempre comparam com o clima do Brasil, porque até eles que são daqui reclamam do frio. Eles sempre mencionam praia, calor, essas coisas. Eles perguntam sobre a temperatura no Brasil, se eu moro na praia, se eu vou para a praia direto (risos)” ,conta.

Na Inglaterra, João começou jogando como centroavante e depois passou a atuar pela ponta, onde foi melhor. Na Estônia, acredita jogar na sua melhor posição. “Aqui eu vou jogar de meia, um segundo atacante. É a posição que eu mais gosto mesmo. Gosto de receber a bola no meio-campo e ter espaço para dar passes, como um número 10 mesmo, um jogador mais clássico. Eu driblo bastante, mas a posição de camisa 10 é minha preferida”, conta.

Apesar da posição ser de camisa 10, ele veste o número 11 no Levadia. “Não ligo muito para número. O meu aqui é 11, sempre gostei de jogar com a 11 também. Como tinha essa camisa, eu disse que queria e peguei, mas não sou supersticioso com isso”, ele conta. Não com número, mas quando se trata de dia de jogo, sempre há alguma superstição.

“Ah, todo jogador tem um pouco de superstição, né? Nos dias de jogos faço sempre as mesmas coisas. Acordo, como as mesmas coisas, faço as mesmas coisas, repito sempre. Isso dá mais confiança, mais tranquilidade também”, diz ainda o brasileiro.

O início foi ótimo. Na sua estreia no Campeonato Estoniano, o Levadia venceu por 7 a 0. Ele marcou o último gol, de pênalti. Uma falta que ele sofreu e cobrou para estrear balançando as redes, depois de ter entrado no segundo tempo. Depois de duas vitórias e um empate, o time lidera a liga.

Estilo de toque de bola

É muito comum ver jogadores jovens atuando por clubes menores. Na Inglaterra, é comum que times como o Middlesbrough emprestem jogadores para times da terceira ou até quarta divisão. Um estilo de jogo mais físico, mai corrido e de menos toque de bola, algo que não combina muito com o estilo de João Morelli. E algo que ele encontrou, curiosamente, na Estônia.

Eu esperava um pouco menos até por não conhecer, mas quando eu cheguei aqui, no primeiro treino eu já percebi que a qualidade de passe deles é muito boa. O que me impressionou foi a qualidade de jogar com a bola no chão, inclusive o goleiro, que sai jogando com os pés se o time é pressionado. Eu me identifico muito com um jogo assim, com bola no pé, a minha característica se encaixa muito com o jogo daqui”, contou o meia.

Estrutura

Quando se fala em estrutura dos clubes de futebol, qualquer comparação com a Inglaterra parece pequena. Mas o brasileiro não tem reclamações quando se trata do que o Levadia oferece aos jogadores.

“Em relação à Inglaterra, não dá para comparar, lá eu acho que é a melhor do mundo inteiro. Aqui é uma estrutura simples, não é aquela abundância como você vê na Inglaterra, mas você tem tudo”, disse Morelli. “Tem tudo, não tem do que reclamar. Te dão todo suporte necessário. É diferente do Brasil. Por mais que aqui seja um clube pequeno em relação aos outros países, é uma estrutura completa.”

Uma das curiosidades é que Tallin, capital estoniana e onde fica o Levadia, é uma cidade muito fria. Por isso, as nove primeiras rodadas do Campeonato Estoniano são disputados em gramado sintético. Mas esqueça os que você conhece.

João Morelli diz que o que se vê nos campos por lá é algo completamente diferente do que vem à cabeça quando se pensa em gramado sintético. “Nessa época do ano, não tem nem grama normal, os primeiros nove jogos são em campos artificiais. A qualidade dos campos artificiais é algo que nunca vi. É macio, é gostoso de jogar”, conta.

João Morelli no Levadia, da Estônia: um brasileiro no Leste Europeu

João Morelli no Levadia, da Estônia: um brasileiro no Leste Europeu

Data Fifa

A Estônia é um país sem muita tradição no futebol. A seleção nunca se classificou para qualquer grande competição, seja Eurocopa, seja Copa do Mundo. O jogador mais importante e conhecido da seleção atual é Ragnar Klavan, zagueiro e capitão do time, que atua pelo Liverpool, um dos grandes clubes do mundo.

A seleção tem como base o Flora Tallin, o grande clube do país. O Levadia por vezes tem convocados, mas desta vez não teve nenhum jogador na lista. João conta que os jogadores ficam ansiosos para os jogos da seleção.

Eles ficam na expectativa de serem convocados, inclusive três ou quatro eram convocados e não foram. Um porque está machucado, outros dois estão mais veteranos, outro não estava jogando. Mas teve um para o sub-21. Mas a expectativa deles é grande. Eles ficam querendo ser convocados e ficam chateados quando não são”, explica. “A gente acaba torcendo por eles, mesmo não sendo daqui”.

A Estônia não vai muito bem das pernas nas Eliminatórias. O time está no Grupo H, mas é só a quinta colocada entre seis seleções. A líder é a Bélgica, com 13 pontos, seguida por Grécia, com 11, Bósnia, com 10, e Chipre, com quatro. A Estônia é a quinta com quatro pontos, enquanto a última colocada é Gibraltar, uma seleção amadora.

Torcida pelo Boro e objetivo de voltar

A experiência em jogar em um país tão diferente é algo que João Morelli espera que sirva para dar experiência e melhorar o seu jogo. Mas não só isso. “É uma experiência que eu espero que me ajude a crescer como pessoa também”, conta o jogador, que se comunica em inglês a cidade e com os companheiros.

“Uma das maiores ideias desse empréstimo é pegar experiência profissional, voltar mais completo para o time que eu estava, o Middlesbrough. É um time gigante, mesmo sem estar entre os maiores do país”, contou. Ele diz que acompanha o time, que vai mal na Premier League.

“Acompanho todo jogo, está tenso mesmo, mas é a Preier League. Eu espero que o Middlesbrough fique. O time já mostrou várias vezes que pode jogar com times grandes, enfrentar frente a frente. Futebol é muito difícil. Mas se Deus quiser, o time vai conseguir escapar do rebaixamento sim. Individualmente é bom, alto nível, acho que consegue. Pela qualidade que tem”.

Seja na Premier League ou não, João Morelli espera voltar para a Inglaterra no fim do ano com uma experiência diferente na carreira e pronto para o que vier. Quem sabe para conseguir uma chance no time profissional do Boro.