Torino River

Grande Torino e Máquina do River não tiveram duelo que definiria o melhor do mundo

A década de 1940 foi manchada pelo conflito na Segunda Guerra Mundial, cuja influência no futebol impediu a realização das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Alguns dos craques do momento não puderam brilhar em Mundiais, mas não deixaram de desfilar suas habilidades por suas equipes. Bases das seleções argentina e italiana, River Plate e Torino tiveram no período grandes esquadrões e eram informalmente (e com razão) reconhecidos como os melhores daquele tempo, mas nunca tiveram a chance de se enfrentarem em seu auge para definir qual era de fato o número um. As ideias sobre qual dos dois foi o melhor ficaram então somente no plano da hipótese, da preferência pessoal, e a única certeza é que o vencedor da partida que nunca aconteceu poderia tranquilamente ser definido como o melhor do mundo.

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La Máquina precedeu o Futebol Total e brilhou em período de concorrência

“Você joga contra La Máquina com a intenção de vencer, mas, como um admirador do futebol, eu preferiria ficar nas arquibancadas e assisti-los jogar.” – Ernesto Lazzatti, ídolo do Boca Juniors nas décadas de 1930 e 1940.

O ano de 1941 foi o prenúncio do grande time que mais brilharia no futebol argentino durante toda a década. Importantíssimo na história do River e da seleção argentina, o atacante Carlos Peucelle se aposentou naquele ano e passou a exercer um papel de formador de atletas nos Millonarios. A mesma habilidade que mostrava dentro do campo para encontrar os melhores espaços e ditar o ritmo como jogava o ataque do River foi repetida na hora de garimpar talentos, e os jogadores escolhidos por Peucelle na base levariam o clube a seu período de maior glória.

Peucelle não via o futebol como um espaço em que o individualismo tinha mais importância que o coletivo. Não acreditava em variações de esquema, para ele existia apenas um possível: 1-10, o goleiro e dez à frente, que marcavam juntos, atacavam juntos e jogavam em função de apenas um objetivo em comum, o do time como um todo. Talvez essa filosofia tenha sido essencial no que viria a ser La Máquina. Uma equipe que não tinha a pressa para definir um jogo. Cujos atletas não encarnavam um espírito de heroísmo para se consagrarem como salvadores da pátria e brilharem mais que os outros.

Era um time paciente, que tocava muito a bola, se movimentava bastante no ataque, com trocas de posições entre os jogadores, e sabia o momento certo de dar o bote no adversário. Não à toa ganhou o apelido de “Caballeros de la Angustia”. Juan Carlos Muñoz, um dos expoentes da equipe, explica a alcunha: “Nos chamavam assim porque não buscávamos o gol. Nunca pensávamos que não poderíamos marcar um gol contra nossos rivais. Íamos para o jogo e jogávamos da nossa maneira. Geralmente, levava um bom tempo para que o gol viesse, e a angústia era porque os jogos não eram definidos rapidamente. Dentro da área, é claro, queríamos fazer o gol, mas no meio de campo nos divertíamos. Não havia pressa, era instintivo”.

A formação ofensiva de La Máquina do River Plate: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau

A formação ofensiva de La Máquina do River Plate: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau

A partir de 1942, já com o quinteto formado por Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera, Ángel Labruna e Félix Loustau como titular (na teoria), o estilo de jogo que consagrou o time surgiu de vez. Apesar de, entre 1942 e 1946, essa combinação completa ter entrado em campo em apenas 18 partidas, foram esses os nomes que se tornaram os de grande destaque e são lembrados quase sempre em conjunto. Se você parar para pensar que a comunicação da época era muito mais escassa que a que temos hoje e que, ainda assim, um grupo de cinco jogadores que atuou em conjunto menos de 20 vezes entrou para o imaginário popular e é lembrado com clareza até hoje, dá para ter uma ideia da magnitude daquela equipe e do tipo de coisa que esses cinco eram capazes de fazer.

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A criação do termo “La Máquina” aconteceu logo no primeiro ano em que os cinco atuaram juntos pela primeira vez. Na temporada anterior, ainda com Peucelle como atleta, o clube havia levado o título do Campeonato Argentino, se recuperando de um início instável e conseguindo vitórias difíceis. O time de 1942, no entanto, venceu encantando. O toque de bola ritmado, sem pressa, constante como uma engrenagem e que manipulava o adversário e o deixava sem reação fez o jornalista uruguaio Ricardo Lorenzo Rodríguez, o “Borocotó”, da revista El Grafico, enxergar ali uma máquina, logo após o massacre por 6 a 2 sobre o Chacarita Juniors.

O River Plate terminou aquela temporada com seis pontos de vantagem em relação ao segundo colocado San Lorenzo e com as melhores defesa e ataque da competição, fruto da filosofia que tinha de todos atacando quando tivessem a bola e todos defendendo quando sem ela. Apesar do grande intervalo entre os dois períodos, por esse motivo muitos veem “La Máquina” como uma equipe predecessora ao Futebol Total da Holanda de Rinus Michels.

Apesar do grande futebol apresentado e do reconhecimento unânime de que foi o maior time argentino da década de 1940, o River Plate não era o único forte concorrente a títulos no país. Tanto é que, após o sucesso do bicampeonato, passou as outras duas temporadas na segunda colocação, vendo o Boca Juniors ser bicampeão, por diferenças ínfimas de um e dois pontos, nesta ordem. A atualização na sala de troféus viria em 1945, com a aposta no ídolo Peucelle para desbancar os xeneizes. Com apenas quatro derrotas em 30 jogos, La Máquina voltou a levantar a taça na primeira temporada do novo treinador, vendo o arquirrival no retrovisor, com quatro pontos a menos.

Carlos Peucelle em seus tempos de jogador, no River

Carlos Peucelle em seus tempos de jogador, no River

Peucelle entendia a cabeça dos jogadores. Apesar de não valorizar a individualidade, colocava os atletas como os grandes responsáveis pelas façanhas de uma equipe. Quando era elogiado por ser um maestro regendo o River, virava os holofotes para seus jogadores. “Estive dentro de campo por 17 anos e nunca vi que o que se produz dentro de um jogo venha de um treinador de fora. Sempre saiu dos jogadores”, disse uma vez. Essa maneira de enxergar os papéis dos envolvidos em uma partida casava bem com a liberdade de que gozavam os atletas do River para jogar do modo como gostavam. Talvez por isso o sucesso tenha sido imediato com Peucelle.

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A temporada seguinte acabou sendo a última em que o quinteto consagrado esteve junto no River. No final de 1946, após ficar com a terceira colocação do Argentino, Adolfo Pedernera deixou o clube, que teria ainda mais uma glória antes do fim daqueles anos dourados. A saída de Pedernera abriu espaço para que uma promessa do clube muito jovem ganhasse espaço. Aos 21 anos, Alfredo Di Stéfano retornou de empréstimo do Huracán, em que havia se destacado em 1946 com dez gols em 25 jogos, e tomou o lugar que havia ficado vago. Sob a liderança técnica da Flecha Loira, que terminou como artilheiro com 27 gols (quase um terço dos 90 marcados pela equipe), o River venceu a competição em 1947 com relativa tranquilidade. Apesar da permanência de Di Stéfano até 1949, a equipe já não tinha mais a mesma cara que nos anos anteriores, e o auge chegou ao fim mesmo nesta temporada de retorno do ídolo.

Guerra e tragédia aérea brecaram os anos dourados do Grande Torino

Entre 1942 e 1949, não houve nenhum time na Itália capaz de brecar o Torino. A única coisa que impediu o clube de levar o Campeonato Italiano em dois desses anos foi a Segunda Guerra Mundial, que paralisou a competição entre 1943 e 1945. Até o início do período mais vencedor da história do Toro, a fase não era lá tão boa. O time não era páreo para a rival Juventus em Turim, e o título nacional não vinha desde 1928. Foi a chegada de Valentino Mazzola, definido por Enzo Bearzot como o melhor jogador italiano de todos os tempos, que começou a mudar a sorte do clube. Como não existia a Copa dos Campeões e a guerra impedia os amistoso internacionais, o time grená não pode colocar um troféu internacional em sua galeria naquele tempo, mas não havia lá grande dúvida de que o faria com certa facilidade caso pudesse participar de algum certame com equipes dos  países vizinhos.

O único título italiano conquistado pelo Torino até então havia sido no longínquo ano de 1928. A contratação de Mazzola, disputado de forma acirrada justamente com a rival Juventus, era o indicativo de que o Toro chegava para a temporada 1942/43 com o objetivo de mudar de patamar. O resultado do investimento foi imediato, e em 1943 o clube levou o título do Campeonato Italiano e da Copa da Itália, sendo o primeiro clube do país a fazer a dobradinha. A campanha histórica colocava o time como um dos favoritos a levar o torneio novamente na temporada seguinte, mas a intensificação dos conflitos da guerra no território italiano forçaram a paralização do futebol no país, que ficou nessa situação por dois anos.

Mazzola e o Grande Torino

Mazzola e o Grande Torino

O intervalo sem competições acabou não se tornando um problema para o Torino, que venceu não só o Italiano que marcou o reinício das atividades como também as três edições seguintes. O domínio nacional já apontava o time como uma grande potência, e os amistosos internacionais apenas corroboravam a tese daqueles que viam o clube como o melhor de seu tempo. A Copa dos Campeões ainda não existia, então o Toro não podia confirmar sua soberania na Europa com um título, mas havia o consenso de que nenhuma outra equipe no continente era melhor que a grená. Os jogos realizados pela seleção italiana no período eram outro fator que evidenciavam a força do Torino. O clube era a base da Azzurra, que, por exemplo, com sete atletas do time, venceu a forte Áustria em 1946 por 3 a 2. No ano seguinte, com nove dos titulares sendo jogadores do time de Turim, aplicou 5 a 2 na Suíça. Contra a Hungria, dez torineses em campo ajudaram a Itália a levar a vitória por 3 a 2.

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Com Mazzola como grande destaque, o Torino havia se estabelecido como a grande potência italiana e desbancado completamente a rival Juventus, que dominava antes desse período. A temporada 1948/1949 havia começado com o Toro como óbvio favorito, e o time havia chegado à reta final na liderança, com quatro pontos de vantagem em relação à Internazionale. Mas todo esse domínio foi encerrado em 4 de maio de 1949. Voltando de Portugal, aonde havia ido para um amistoso com o Benfica, o time inteiro foi vítima de um acidente aéreo, sem sobreviventes, em choque com a Basílica de Superga, próxima de Turim. No mesmo dia, os clubes italianos e a Federação decidiram declarar o clube como o campeão daquele ano, e ali acabava a história de glória de um time que vencia tudo e que não via no horizonte algum indício de ponto final para o momento que vivia.

O encontro tardio

O encontro entre River Plate e Torino que tantos gostariam de ter visto aconteceu em 1949, mas não nas circunstâncias esperadas e da maneira como os dois times mereciam. No mesmo mês da tragédia que abateu o clube italiano, o presidente do River à época, Antonio Vespucio Liberti, se prontificou a levar os Millonarios até Turim para a disputa de um jogo beneficente para arrecadar dinheiro para os familiares das vítimas da Tragédia de Superga. Em 26 de maio, o time principal do River Plate, já diferente e enfraquecido em relação àquele que havia brilhado nos anos anteriores, jogou contra um combinado de jogadores italianos, que levou o nome de Torino Simbolo, e empatou em 2 a 2, com Labruna e Di Stéfano fazendo os gols dos argentinos.

Ingresso do jogo beneficente entre o River e o combinado que representou o Torino

Ingresso do jogo beneficente entre o River e o combinado que representou o Torino

Para La Máquina do River Plate, nunca houve um torneio sul-americano para que se confirmasse oficialmente quem era o dono do continente na época, muito menos alguma competição a nível mundial. Já o Torino brilhou antes do início da Copa dos Campeões e ainda teve uma guerra e uma tragédia no meio do caminho para inviabilizarem feito parecido. Infelizmente, a conjuntura da época dificultou um encontro entre as duas equipes. O período talvez mais concomitante do auge dos dois esquadrões foi justamente aquele dos anos em que a Segunda Guerra Mundial paralisou as atividades esportivas na Itália.

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Fica então para a imaginação quem seria o virtual vencedor daquele que seria o grande jogo da década de 1940. Ezio Loik e Mazzola formavam uma dupla mortal e certamente levariam muito perigo ao capitão e goleiro Soriano, mas o Toro teria dificuldade em tomar o controle da partida, diante de um time tão dinâmico e cerebral quanto o River. Independentemente do resultado que sairia desse embate, ambos merecem ser lembrados pelo que fizeram em tudo o que disputaram. Os atletas das duas equipes foram base para suas seleções, também consideradas as melhores daquele período e maiores favoritas às Copas que nunca aconteceram. Duplamente “injustiçados”, não puderam ser oficialmente melhores do mundo, mas o reconhecimento que perdura não deixa negar o valor do que construíram. Quem precisa de uma taça, então?