Andre Gray, atacante do Watford, passou férias em Zanzibar. Visitou um museu do movimento dos negros por direitos civis e ficou chocado com antigas celas que ainda mantém as correntes que prendiam os escravos. “Abre o seus olhos”, afirma, ao Telegraph. “Ir para a África e ver coisas assim é difícil, mas faz você pensar”. E Gray pensa muito: busca livros, descobre novos personagens, assiste a documentários e programas de televisão. Construiu uma consciência sobre o assunto a tal ponto que decidiu transferi-la da cabeça para as costas.

Após nove sessões de oito horas de tatuagem, ao longo de três anos, Gray marcou a sua pele com dez ícones do movimento negro. Alguns nomes muito famosos, como Nelson Mandela, Muhammad Ali, Rosa Parks, Malcolm X, Bob Marley e Martin Luther King, além de os Panteras Negras e Huey Newton, um de seus co-fundadores.

Também estão no desenho Tommie Smith e John Carlos, os atletas americanos que levantaram o braço, com o punho fechado, uma saudação black power e associada aos Panteras, no pódio dos 200 metros rasos da Olimpíada do México, em 1968, no auge da luta dos negros americanos por direitos civis – Martin Luther King havia sido assassinado apenas seis meses antes.

O seu preferido, porém, é Marcus Garvey, ativista jamaicano do começo do século 20 que incentivava negros a retornarem para a África, da onde suas famílias foram retiradas à força para trabalhar como escravos. Chegou a fundar uma companhia naval, a Black Star Line, para facilitar o trajeto. “Ele foi a primeira pessoa que realmente começou a tentar lutar por direitos iguais”, afirma Gray.”Mais interessante para mim, criou um barco, que também está na tatuagem, para levar afro-americanos de volta à África de outros países. Ele foi uma pessoa que outros famosos ativistas dos direitos civis admiravam e tinha ascendência jamaicana, que nem eu”.

Gray teve uma infância complicada, antes de se firmar no Burnley e se tornar a contratação mais cara do Watford, por £ 18,5 milhões. Era envolvido com gangues de Wolverhampton, onde cresceu, e tem consciência de que, não fosse o futebol, provavelmente teria sido preso. “Era apenas parte do pacote de onde eu cresci e do estilo de vida que eu levava. Eu tenho um amigo que não foi preso. Era normal e não era visto como grande coisa. Era parte da vida de onde eu vim”, explicou. Esta época da sua vida também está registrada em seu corpo, mas de outra maneira: Gray tem uma cicatriz no lado esquerdo do rosto, resultado de uma facada que levou em 2011.

Em setembro do ano passado, foi suspenso por quatro jogos por causa de tuites homofóbicos que havia publicado em 2012, quando tinha apenas 21 anos. Arrepende-se deles. “Eu já havia mudado muito antes dos tuites serem expostos. Eu não conseguia imaginar que eu havia escrito aqui porque eles não representam a pessoa que eu sou hoje. Eu não sabia que eles estavam ali, achei que eram falsos”, afirmou.

O estudo da luta dos negros por direitos civis resultou em muito crescimento pessoal para o jogador do Watford. Afirma que seu primeiro instinto, quando alvo de racismo, era partir para a briga. Mas, agora, prefere seguir o exemplo do protesto silencioso, como de John Carlos e Tommie Smith. Como da sua tatuagem.