O jogo havia acabado de terminar em Istambul. O Milan havia aberto 3 a 0, no primeiro tempo, mas sofrera o empate do Liverpool. Jerzy Dudek tentava estudar os cobradores de pênalti dos adversários, quando Jamie Carragher abordou o goleiro polonês e disse: “coloque pressão neles, faça algo na linha de Grobbelaar. Você se lembra de Groobbelaar. Tente tirar a concentração deles”. Caso Dudek conhecesse um pouco da história do Liverpool, é claro que ele se lembraria de Groobbelaar, que completa 60 anos nesta sexta-feira.

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Dudek realmente honrou a memória do ex-goleiro do Zimbábue, que vestiu a camisa do Liverpool 628 vezes. Se usou as “pernas de espaguete”, as mesmas que tiraram a concentração de Graziani na final europeia de 1984, apenas na cobrança de Kaká, que converteu, pulou descontroladamente em cima da linha nas batidas desperdiçadas de Serginho e Pirlo, antes de defender a decisiva, de Shevchenko.

A tática de Grobbelaar naquele jogo contra a Roma recebeu críticas por supostamente ferir o espírito esportivo, mas era mera consequência da sua personalidade expansiva, um goleiro da mesma linha excêntrica de René Higuita e Jorge Campos. Veterano do exército na Guerra Civil da Rodésia, era confiante o bastante para chegar a um clube do tamanho do Liverpool, no auge das suas conquistas e, com apenas 24 anos, expressar publicamente que queria colocar Ray Clemence, na época uma lenda que defendia as metas vermelhas há 14 anos, no banco de reservas. Dizia que Clemence estava muito velho (33) e que deveria dar lugar a um goleiro mais jovem. Clemence de fato foi embora para o Tottenham e abriu espaço para Grobbelaar ser titular.

Grobbelar, ex-goleiro do Liverpool (Foto: Getty Images)

Grobbelar, ex-goleiro do Liverpool (Foto: Getty Images)

A contratação do jogador foi realizada por Paisley justamente porque a comissão técnica sentia que faltava alguém para cobrir Clemence. O técnico foi assisti-lo em uma partida do Crewe Alexandra, clube em que Grobbelaar estava emprestado do Vancouver Whitecaps, da liga americana, e ficou impressionado. “Ele não apenas parou todos os chutes como os agarrou. Eu poderia ter ido embora antes do intervalo”, disse.

Com a saída de Clemence, Grobbelaar assumiu o posto de titular, em uma temporada de transição para o Liverpool. Outros jogadores que viriam a ser importantes, como Ian Rush, Ronnie Whelan e Mark Lawrenson, dariam seus primeiros passos pelo Liverpool. O começo dessa nova fase foi naturalmente acidentado. Foram apenas seis vitórias nas primeiras 16 rodadas daquele Campeonato Inglês, com mais seis empates e quatro derrotas.

E, então, chegou o confronto contra o Manchester City, no Boxing Day. Grobbelaar foi muito mal naquela partida. Falhou em dois gols. Em um deles, saiu desastrado debaixo das traves, obrigando Phil Thompson a cometer um pênalti, em cima da linha. Muito antes do goleiro-líbero de hoje em dia, personificado em Manuel Neuer, o Liverpool incentivava que o seu camisa 1 saísse do gol para cortar lançamentos e passes. Desta vez, deu bem errado.

Nos vestiários, esperava-se que Paisley, que já não estava muito satisfeito com o comportamento de Grobbelaar, abandonasse seu estilo tímido de administração para dar uma bronca. No entanto, o treinador minimizou as falhas, alegando que a defesa deveria ter cortado aquelas bolas antes que elas chegassem ao gol. Guardou as palavras mais duras para uma conversa privada.

“Paisley me puxou na área dos chuveiros do vestiário e disse: ‘O que você acha dos seus seis primeiros meses?’. Eu disse: ‘Poderiam ter sido melhores’. E ele disse: ‘Sim, você tem razão. Se você não parar com as suas palhaçadas, você vai se ver jogando pelo Crewe Alexandra novamente’. E foi embora. Percebi que não poderia fazer todas as coisas que eu costumava fazer: sentar no travessão e andar pelo gramado plantando bananeira, brincar. Ele me fez perceber os meus erros e garantiu que eu os corrigisse”, disse, em entrevista à TV do Liverpool.

Paisley tomou uma decisão arriscada nos dias seguintes: tirou a braçadeira de capitão de Phil Tompson, que havia assumido o posto de Emlyn Hughes, e a passou para Graeme Souness. Acreditava que a pressão de ser capitão estava sobrecarregando o zagueiro. O Liverpool estava na 12ª posição e, depois daquela derrota, arrancou para o título: 20 vitórias nas 25 rodadas seguintes, e o primeiro título inglês de Grobbelaar, que o conquistaria mais cinco vezes, além de três Copas da Inglaterra, três Copas da Liga Inglesa e uma Copa dos Campeões.

A grande noite de Grobbelaar  foi em Roma. A final de 1984 terminou 1 a 1. Antes da disputa de pênaltis, o técnico do Liverpool, Joe Fagan, sucessor de Paisley, aproximou-se do ouvido do goleiro. “Ele colocou o braço em volta de mim e disse: ‘Ouça, nem eu, nem os treinadores, nem o presidente, nem os diretores, nem os seus colegas, nem os torcedores, ninguém irá culpá-lo se você não conseguir defender um pênalti’. Isso me deu muita confiança, tirou um peso gigantesco dos meus ombros. Enquanto eu me distanciava, ele disse: ‘Tente tirar a concentração deles’. E foi isso que eu fiz. Tentei com dois jogadores e os dois eram da seleção italiana, Bruno Conti e Graziani”, contou.

Steve Nicol abriu os trabalhos perdendo um pênalti para o Liverpool. Di Bartolomei converteu o seu, e Phil Neal empatou. Conti mandou por cima do travessão. Souness, Righetti e Rush acertaram as redes. Chegou a vez de Francesco Graziani. Grobbelaar preparou-se para a cobrança balançando as pernas, como se estivesse prestes a desmaiar. E Graziani também bateu por cima.

“Eu fui em direção à rede e a mordi com meus dentes. Pensei: ‘Estou em Roma, o prato nacional é o espaguete, então vou fazer as pernas de espaguete’. Pulei para o lado direito e a bola triscou o travessão. Eu deveria ter cobrado o quinto pênalti, mas demorei um minuto e meio e, quando vi, Alan Kennedy estava colocando a bola na marca”, afirmou, ao site da Uefa. “O resto é história. Alan colocou a bola no ângulo esquerdo e foi isso, um dos sentimentos mais mágicos que você pode sentir na sua vida”.

O fim da carreira de Grobbelaar foi muito menos encantador. Saiu do Liverpool, em 1993, e começou a perambular por outros clubes ingleses. Quando era jogador do Southampton, um ano depois de deixar Anfield, explodiu uma bomba: um dos seus sócios disse ao The Sun que ele estava envolvido em um esquema de manipulação de resultados. De acordo com a revista FourFourTwo, o tabloide havia grampeado o quarto de hotel do ex-jogador do Liverpool e o flagrou admitindo ter entregado partidas em troca de dinheiro.

Grobbelaar foi absolvido na Justiça e entrou com um processo contra o The Sun que, além das controvérsias de Hillsborough, é propriedade de Rupert Murdoch, empresário da comunicação que se envolveria, anos depois, em um escândalo de telefones hackeados com seu outro veículo, o News of The World. O ex-goleiro ganhou £ 85 mil de indenização, mas, na apelação, a Corte decidiu reduzir esse valor para £ 1 e o obrigou a pagar £ 500 mil em custos legais para o The Sun. Grobbelaar teve que declarar falência.

Treinou equipes da África do Sul, onde nasceu, em Durban, tentando recuperar a poupança, e sonhava em treinar o Liverpool, mas sua carreira como técnico nunca decolou. “Eu cheguei à Inglaterra com £ 10 no meu bolso e, depois da decisão da Justiça, fiquei com £ 1. Mas que vida eu tive com essas £ 9!”, afirmou, à FourFourTwo.