Em seis temporadas completas como treinador, Pep Guardiola podia se orgulhar e dizer que nunca tinha sido goleado. Sua pior derrota aconteceu há algumas semanas, 3 a 0 contra o Borussia Dortmund na Allianz Arena. Tropeço feio, mas não propriamente um massacre. Bem diferente do que aconteceu contra o Real Madrid nesta quarta-feira. Outras duas vezes um time do treinador havia tomado quatro gols, mas sempre descontando. A vitória dos merengues por 4 a 0 foi, sim, uma grande humilhação. E dá até para dizer que ficou barato, já que, pelas chances perdidas, era mais fácil crer que os espanhóis aumentassem a vantagem do que os alemães diminuíssem.

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A pior derrota da carreira de Guardiola, em uma semana duríssima após a perda do amigo Tito Vilanova. Após o jogo, o catalão assumiu sua culpa. “É uma noite difícil para nós. Sigo orgulhoso da minha equipe. Nós não jogamos bem. Fomos bem em Madri, mas não no primeiro tempo aqui. Eu me equivoquei e é minha responsabilidade. Quando se perde de 4 a 0, diga o que diga, não tem razão. Eu gosto de ter a bola, eles colocavam muita gente para recuperá-la e sair no contra-ataque. Quando você joga mal, não compete. Quando você não funciona ofensivamente, defensivamente também se nota”, afirmou. “Foi um grande erro do técnico. Conheço os jogadores, como jogamos. Os jogadores sempre correm, dão tudo. O motivo é que não aproveitamos nossa qualidade”.

Guardiola tem razão. Assumir os erros do time pode parecer demais, principalmente quando o nervosismo ficou evidente. Mas é fato que o time não funcionou coletivamente. Os poucos lances de perigo foram resultado de jogadas individuais, muito difíceis de acontecer contra o paredão montado por Carlo Ancelotti. E o Bayern foi vulnerável justamente no ponto mais vulnerável: o contra-ataque. O Real Madrid sabia o que fazer, o Bayern tinha consciência disso e não pensou em mudar seu padrão de jogo para surpreender os rivais.

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Assim como o treinador diz bem que a culpa da derrota não é necessariamente da posse de bola. Pode ser um sistema de jogo mais manjado, mas continua eficiente quando bem executado. Robben e Ribéry são os aceleradores do time que cadencia, mas hoje não funcionaram, muito bem anulados. Faltaram inversões ou toques rápidos que abrissem as brechas na duas linhas de quatro homens dos espanhóis. E não dava para ficar tão exposto à velocidade de Cristiano Ronaldo e Gareth Bale com uma defesa tão lenta. A forma como o galês vence Jérôme Boateng na corrida, no lance do terceiro gol, é emblemática. Ainda assim, os méritos muito maiores são do Real Madrid e de Ancelotti, que soube ler a situação e ser mais eficiente.

Guardiola, sobretudo, terá que aprender a lidar com as críticas internas. Franz Beckenbauer, que já tinha soltado o verbo contra o atual treinador, fez com mais ênfase depois da partida: “O Bayern não está bem, é algo que sabemos há semanas. Desde agosto, quando começou a temporada, até umas semanas atrás, jogaram com o máximo nível e com a máxima concentração. Depois, começaram uma fase de debilidade e pouca concentração que dura até agora. A decepção é imensa”. Da mesma forma atacou Karl-Heinz Rummenigge: “É melhor não dizer nada. O Real nos dominou claramente, foi um fracasso”.

Não é pelo atropelamento que Guardiola será demitido tão precocemente pelo Bayern, longe disso. Afinal, seu time vinha conseguindo ser mais espetacular que o de Jupp Heynckes, embora tenha se mostrado com um poder de decisão muito menor. É preciso repensar opções, algumas decisões que deixaram o time tão vulnerável. A eliminação para o Real Madrid, qualquer fosse a circunstância, iria abalar o Bayern. Da forma como aconteceu, serve para acordar que não existe time dominante sem uma renovação constante na forma de pensar o jogo.