A mão que tira é a mesma que dá. A definição do título da Premier League foi irônica. O Manchester United evitou a confirmação da conquista do City, ao virar o dérbi do último final de semana. E neste domingo, entregou o troféu em uma bandeja para o grande rival ao perder do West Brom, em casa, por 1 a 0. Como o City havia derrotado o Tottenham, no sábado, sagrou-se campeão do Campeonato Inglês com cinco rodadas de antecedência.

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O título, quinto da história do Manchester City, é especialmente emblemático para o técnico Guardiola. Havia uma desconfiança, beirando a curiosidade, a respeito do encontro entre o seu estilo de jogo característico e o ritmo acelerado da Premier League. Ele conseguiria fazê-lo funcionar na liga que, para mim e para muitos, é a mais difícil do planeta? Conseguiria vencê-la sem abrir mão das suas convicções?

Conseguiu. E com sobras. Claro que Guardiola fez alguns ajustes. A primeira temporada foi de aprendizagem. O terceiro lugar foi um resultado aceitável, mas o mais importante foram as lições que surgiram dos piores momentos. O próprio espanhol afirmou que era difícil exercer o tipo de domínio que ele prega. A bola viaja muito pelo ar, alguns rebotes são incontroláveis. O jogo nunca para de correr na Inglaterra.

O estilo de jogo de Guardiola é comparado com uma linguagem. Internalizá-lo equivale a aprender francês ou russo. Alguns movimentos são diferentes. Os pontas, por exemplo, precisam se acostumar a um posicionamento muito próximo às linhas laterais para abrir o gramado. Precisam aprender que nem sempre tocarão na bola. O mesmo acontecesse com o centroavante. Os zagueiros têm que desvendar como contribuir com a construção do jogo ofensivo a partir da defesa. Tomar as decisões corretas nos passes e nas interceptações.

Isso demanda um pouco de tempo e ficou mais fácil com a janela de transferências do ano passado, quando o Manchester City dispensou jogadores envelhecidos, como Zabaleta e Kolarov, contratou três laterais e trouxe Bernardo Silva para compor o elenco. Em janeiro, acrescentou Aymeric Laporte. Com um elenco mais condizente com o futebol que queria apresentar, e com um estágio mais avançado de aprendizagem da sua linguagem, Guardiola produziu resultados incríveis e, por vezes, mágicos.

A campanha é a mais dominante da história da Premier League. A primeira derrota apareceu apenas no meio de janeiro, para o Liverpool, em Anfield. Antes disso, o City teve 22 jogos de invencibilidade e 18 vitórias seguidas. A primeira metade da campanha só não foi perfeita por causa de um empate com o Everton, na segunda rodada, quando teve um jogador expulso no final da etapa inicial e, mesmo assim, conseguiu o empate e ficou próximo da virada.

Alguns momentos foram de pura magia. Como o primeiro dérbi contra o Manchester United, em que o placar de 2 a 1 não representou o tamanho da superioridade do City. Ou o primeiro tempo contra o Everton, já no fim de março. Sem contar as goleadas: 5 a 0 no Liverpool, 6 a 0 no Watford, 7 a 2 no Stoke City. Marcou 93 vezes em 33 partidas, média próxima a um três tentos por rodada, e tem condições de quebrar o recorde de melhor ataque da Premier League, entre outros.

O comandante e melhor jogador da campanha foi Kevin de Bruyne. Mas alguns coadjuvantes merecem ser mencionados. A evolução de Sterling foi nítida. Embora tenha caído de rendimento na segunda metade da campanha, o jovem de 23 anos fez 17 gols na Premier League, de longe sua temporada mais artilheira. Sané também se estabeleceu como um jogador mais regular. Otamendi provou que pode ser um zagueiro de alto nível.

Em nove temporadas como técnico, Guardiola foi campeão nacional pela sétima vez. Perdeu apenas para o Real Madrid de Mourinho de 2011/12 e para o Chelsea de Antonio Conte, na última temporada. Este, porém, é um título especial por ter provado que a sua linguagem é universal. Funciona na Espanha, onde foi criada, na Alemanha e até mesmo na Inglaterra, com toda as suas peculiaridades e hostilidades. Guardiola não apenas triunfou no país que inventou o futebol, mas o fez de maneira incontestável. Diante disso, pouco importa que ele tenha comemorado o título jogando golfe, graças a uma derrota do Manchester United. A conquista não se resume a este final de semana, ou a este resultado, mas a meses de larga superioridade em relação aos seus rivais.