Como foi o ciclo da seleção até a Copa

A Alemanha sabia que seu ciclo marcaria uma transição logo após a conquista da Copa do Mundo de 2014. Philipp Lahm e Miroslav Klose se aposentaram da equipe nacional, assim como o reserva Per Mertesacker. Mas antes as preocupações se limitassem a isso. Vários outros foram os entraves de Joachim Löw, entre a queda de desempenho de protagonistas (como Bastian Schweinsteiger), as lesões frequentes de potenciais titulares (Marco Reus, Ilkay Gündogan) e as frustrações de talentos que não cumpriram tudo aquilo que prometiam (sim, estou falando principalmente de Mario Götze).

Mesmo com estas questões, a Alemanha ainda conta com uma grande oferta de bons jogadores, em processo de renovação constante. E não foi tão difícil se classificar à Eurocopa. O problema estava em alguns resultados que indicavam certas indagações, como as derrotas históricas para Polônia e Irlanda, assim como um monte de tropeços em amistosos – que incluíram derrotas para Argentina, Estados Unidos e França entre 2014 e 2015, este último em meio ao caos dos atentados no Stade de France. Empatar com a Austrália também não animava. Já na preparação à Euro 2016, derrotas para Inglaterra e Eslováquia.

Neste cenário, era natural que alguns ficassem com um pé atrás sobre a campanha da Alemanha na Eurocopa. E, de fato, o Nationalelf esteve distante de encantar. Fez algumas partidas burocráticas e contou com alguns brilhos individuais, em especial de Toni Kroos. Mas, ainda que aquém de seu melhor, foi derrubando a concorrência. Deu o troco na Eslováquia nas oitavas e também superou a Itália nas quartas, num jogo duríssimo, só resolvido nos pênaltis. Por fim, a queda na semifinal, em que dominaram a posse de bola e foram bem menos efetivos que a França. Após a eliminação, mais algumas aposentadorias, como de Schweinsteiger e Podolski – dois nomes importantes no ciclo vitorioso até 2014, mas longe de contar com a mesma influência.

O sorteio das Eliminatórias para a Copa de 2018 facilitou a vida da Alemanha. Pegou um grupo fraco, no qual manteve os 100% de aproveitamento. Foi uma campanha realmente arrasadora, em que as vitórias garantidas por lampejo se transformaram em frequentes goleadas acachapantes na reta final. Até parecia que o Nationalelf se acertava, jogando por música – em especial, no massacre por 6 a 0 contra a Noruega. Concomitantemente, nos dois últimos anos, Löw soube aproveitar as competições continentais para ajustar o elenco. Os Jogos Olímpicos serviram para garimpar atletas, mesmo que alguns dos principais nomes da geração não tenham vindo ao Rio de Janeiro. Já a Copa das Confederações foi claramente um laboratório, mas que serviu para oferecer certezas a Löw e até mesmo projetar algumas peças à escalação titular. E enfim, surgia o Mundial.

Se há uma desconfiança sobre a Alemanha, é por conta dos amistosos a partir de novembro. O problema é que o time não mostrou muito nestas partidas. Ok, eles não são definitivos, mas servem de termômetro. E o do Nationalelf esteve frio na maior parte dos compromissos. Exceção feita à partidaça contra a Espanha, em empate por 1 a 1 que ficou barato pela intensidade de ambos os times, não se viu mais o “modo Copa” no time de Joachim Löw. As cornetas soaram com a apática atuação na derrota ante a Áustria. Quando a Arábia Saudita poderia ter servido de sparring, o triunfo por 2 a 1 contou com um sufoco dos germânicos.

Ainda é um conjunto muito forte. E ainda é uma seleção que costuma se transformar em um monstro a cada Mundial. Mas o desempenho recente, unido à queda de alguns jogadores importantes, deixa uma pulga atrás da orelha. A Alemanha precisa ligar o “modo Copa” logo na estreia, porque o Grupo F pode não dar margem a manobras. Se ligar, vai ser difícil de segurar os tetracampeões.

Como joga

Conjunto. Mesmo com grandes nomes em quase todas as posições, a Alemanha se destaca por seu trabalho coletivo. E o sistema de jogo parece melhor assimilado em 2018 do que era em 2014, vide as mudanças que ocorreram durante o Mundial do Brasil. É um time que sabe trabalhar os passes, encontra espaços em defesas mais fechadas e pode atacar verticalmente. São vários astros, mas todos também operários. Da marcação pressão às aproximações dos pontas, há um repertório indiscutível.

Não à toa, a Alemanha pode atuar em diferentes sistemas. O 4-2-3-1 é o mais comum, mas Löw também confiou no 3-4-2-1 durante parte do ciclo, sobretudo na Copa das Confederações. O mais importante é que o banco de reservas não deixa nada a desejar em relação ao time titular e permite estas trocas. Que, neste momento, não haja no Nationalelf um craque para se candidatar à Bola de Ouro pelo que jogou na reta final da temporada europeia, o alto nível é uniforme, mesmo que algumas das lideranças não estejam na melhor das formas – física ou técnica.

No gol, Manuel Neuer continua como um nome intocável, apesar da lesão que o tirou dos gramados por nove meses. É o capitão e o cara que salvou o time tantas vezes, inclusive na Copa de 2014. Apesar da falta de ritmo, mostrou que está bem nos testes contra a Áustria e Arábia Saudita. Resta saber se mantém a sequência, considerando que as falhas costumam ser raras em sua carreira. Se precisar, há Marc-André ter Stegen na retaguarda, de excepcional temporada no Barcelona, mas também destaque quando ganhou oportunidade na seleção, inclusive na Copa das Confederações.

Kimmich e Hector são laterais de pouca rodagem na seleção, mas dignos. O primeiro é peça essencial na engrenagem, tanto pelo apoio no ataque quanto na qualidade técnica, enquanto o segundo cumpre sua função, embora falte um jogador que tome o lado esquerdo da defesa faz um bom tempo. Já no miolo de zaga, a dupla de Hummels e Boateng. Os dois valem demais pelos passes e lançamentos, também participando do jogo ofensivo. Fica a dúvida quanto à lentidão recente, um dos problemas do Bayern de Munique. Se for necessário, Niklas Süle está mais do que apto para entrar.

Toni Kroos é o vértice do time. Jogando à frente da zaga, o meio-campista dita o ritmo da Alemanha, cria oportunidades com sua qualidade nos passes e ainda pode ser uma arma nos chutes de longe. Ao seu lado, Sami Khedira, regularíssimo nestes anos de seleção por todo o preenchimento que garante à faixa central. Leon Goretzka e Ilkay Gündogan são mais duas opções, enquanto Emre Can acabou se tornando o principal desfalque por lesão, ao passar boa parte da reta final da temporada com um problema nas costas.

A trinca de meias é onde há uma dúvida maior sobre a titularidade. Thomas Müller pode até oscilar no Bayern de Munique, mas cresceu na reta final da temporada. Já na seleção, é quase sempre determinante e fez ótimas eliminatórias. A ponta direita é dele. Nos outros dois postos, existem possibilidades. Mesut Özil possui seu lugar cativo com Löw, só que não se saiu bem com o Arsenal e sustenta problemas físicos. Julian Draxler costuma esquentar banco no PSG, mas correspondeu bem na seleção quando precisou ser protagonista, como na Copa das Confederações. E há Marco Reus, um diferencial técnico, independentemente do corpo de vidro.

Löw pode escalar Draxler ou Reus na esquerda e Özil ou Reus pelo centro, dependendo do que pedir à sua equipe. Contra a Arábia Saudita, o camisa 10 sequer apareceu no banco, com Reus pelo centro, transitando e se aproximando como um segundo atacante. Por características, talvez esta seja a formação que mais potencialize a presença de Timo Werner no comando de ataque, um centroavante de velocidade, mais associativo. O treinador ainda conta com Mario Gómez e Julian Brandt como alternativas para reforçar o setor. Uma pena que não tenha escolhido Leroy Sané, o melhor alemão da temporada 2017/18 por clubes. Além de ser um ponta mais agudo, de jogadas de linha de fundo, o jogador do Manchester City poderia ser mais um talento individual a desequilibrar jogos duros. Entre a falta de encaixe e o mau rendimento, perdeu espaço para Brandt – um bom jogador, mas um patamar abaixo de seu concorrente. Se os germânicos fracassarem, o desfalque intencional virará uma crítica contundente ao comandante.

Time base: Neuer, Kimmich, Hummels, Boateng, Hector; Kroos, Khedira; Müller, Reus (Özil), Draxler; Werner. Técnico: Joachim Löw.

Dono do time

Marco Reus

Marco Reus (AP Photo/Kerstin Joensson)

Talvez “dono do time” não seja o termo adequado aqui. “Dono do time” é uma pecha que cairia melhor a Manuel Neuer, capitão e nome de maior confiança da seleção alemã, mesmo voltando de lesão apenas agora. Ou ainda a Toni Kroos, o cara que faz o time orbitar ao seu redor e cresceu demais na última Copa do Mundo, para muitos o melhor do Nationalelf. Mas escolherei Marco Reus, não porque vai ser exatamente “dono”, mas porque pode muito bem se tornar protagonista no Mundial – apesar de todos os riscos que esta aposta implica, considerando que ainda tem que confirmar a titularidade.

A forma física de Reus é tão frágil que o temor ao torcedor da seleção alemã é o de que ele se lesione em qualquer jogo da fase de grupos – ou mesmo antes disso. Mas não se nega a diferença que o atacante faz no time. Tecnicamente, não há qualquer outro que possa assumir uma responsabilidade que certamente caberá a ele (ainda mais com a ausência de Leroy Sané): a de partir para cima da defesa adversária e resolver em um lance. É um jogador de drible e arrancadas para cima dos marcadores, ainda que isto dependa da confiança sobre as suas condições. Mais do que isso, é alguém que cria, que joga para o time, que facilita a vida de outros companheiros. E que pode resolver com sua qualidade nas finalizações.

Outra coisa que pesa: a fome de Reus pela Copa do Mundo. Deve ter sido muito duro ao atacante perder o Mundial de 2014 às vésperas e ver os companheiros (em particular o amigo Mario Götze) brilhando no Brasil – e, de lambuja, se ausentar também na Eurocopa. Quatro anos depois, mesmo com a falta de sequência neste primeiro semestre de 2018, há a chance de redenção. E agora que estará na Rússia, não se duvida que o craque tentará fazer que esta seja a Copa de sua vida – porque, afinal, nunca se sabe o que acontecerá no futuro, ainda mais o seu. Se tem alguém que pode saborear esta Copa com um sabor especial, este é o camisa 11. Joachim Löw sabe a maneira como ele é capaz de desequilibrar e, não à toa, reiterou a confiança quando muitos treinadores não se arriscariam. Que me perdoem os milagres de Neuer e os lançamentos de Kroos (assim como os leitores, caso esta se torne uma aposta frustrada), mas talvez este seja um Mundial para se assistir às virtudes de Reus.

Bom coadjuvante

Joshua Kimmich

Quando Philipp Lahm se aposentou, até parecia que a seleção alemã sofreria por anos com sua ausência. Não era apenas um capitão e um líder que se despedia naquele momento, mas um dos melhores laterais da história – e em qualquer um dos lados que entrasse, um pouco mais pela direita. Löw quebrou muito a cabeça para preencher a lacuna. Sebastian Rudy, Kevin Grosskreutz e Emre Can foram recuados para aquele posto; Antonio Rüdiger, Matthias Ginter e Benedikt Höwedes entraram para dar mais proteção; e até sistemas com três zagueiros foram experimentados. Até que, já durante a Euro 2016, Joshua Kimmich entrasse. Tomasse conta da posição e virasse o digno herdeiro de Lahm. O jovem versátil passou a temporada de 2015/16 quase inteira atuando como zagueiro ou meio-campista, mas foi deslocado por Pep Guardiola para a lateral – como já tinha jogado, inclusive, nos tempos de RB Leipzig. Ficou, também no clube usado com mais frequência, por Carlo Ancelotti. E mesmo fazendo em 2017/18 apenas seu “primeiro ano completo” como lateral, já pode ser considerado um dos melhores do mundo na posição. Protege bem, chega à linha de fundo, ajuda na saída de bola, tem qualidade nos lançamentos e nos cruzamentos. Muitas boas jogadas do Nationalelf podem ser criadas por ali.

Fique de olho

Timo Werner

Timo Werner é abraçado por Joachim Löw (Foto: DFB)

Há uma mística que envolve os atacantes alemães em Copas do Mundo. É impressionante como os germânicos conseguem se transformar nos Mundiais, com grandes jogadores cruzando fronteiras e se tornando lendários. Depois da aposentadoria de Miroslav Klose, e mesmo antes disso, Thomas Müller se transmutou em duas Copas. Mas considerando as oscilações recentes do atacante (que, além do mais, não é exatamente o homem-gol) o espírito talvez se apodere de Timo Werner. O jovem de 22 anos deverá ser o titular na Rússia. Estreou no Nationalelf há pouco mais de um ano, mas tomou conta da posição, com boas atuações principalmente na Copa das Confederações e na reta final das Eliminatórias. Possui faro de gol, ótima capacidade na finalização e velocidade, algo que se vê a cada partida do RB Leipzig. Além do mais, é um jogador que beneficia os companheiros e cria oportunidades, com o expressivo número de 15 assistências nas duas últimas edições da Bundesliga, o que pode beneficiar Müller ou Reus. Pela idade, tem chão para muitos outros Mundiais.

Personagem

Mario Gómez

Mario Gomez, centroavante da seleção alemã (Foto: AP Photo/Martin Meissner)

Mario Gómez é um centroavante com suas limitações. Compensa por sua fome de gol e a enorme vontade. Aos 32 anos, alguns podem até questionar a sua convocação, mas com a concorrência de Sandro Wagner e Nils Petersen, não há muitas dúvidas que é o mais indicado para ser a opção de área dentro do elenco. E que as aparições nos últimos amistosos não tenham rendido tanto, a fase no Stuttgart referenda. Sentindo-se à vontade na velha casa, o matador jogou demais no segundo turno da Bundesliga. Anotou oito gols e serviu duas assistências em 16 partidas, que não só livraram os suábios dos riscos de rebaixamento, como quase os levaram à zona de classificação à Liga Europa.

E o anúncio de Joachim Löw era tudo o que Gómez esperou ouvir nos últimos quatro anos. Convocado desde 2007, o centroavante foi reserva na Copa do Mundo de 2010. Em sua segunda Euro, em 2012, foi titular em parte da fase de grupos, marcando gols importantes. No entanto, a frustração maior aconteceria às vésperas do Mundial de 2014. Sofrendo com as lesões em sua passagem pela Fiorentina, incluindo problemas ligamentares no joelho, o veterano mal participou do ciclo preparatório. De casa, precisou ver os companheiros lutando rumo à final e conquistando o tetra. Então, fez uma promessa a si mesmo: estaria na Rússia e dedicaria cada um de seus dias a este objetivo.

“Em todos os meus anos como profissional, acho que esqueci por que queria jogar futebol e por que isso me fazia feliz. Na Itália, eu estava sentado com minha esposa em casa em Florença, assistindo à Alemanha conquistar a Copa do Mundo de 2014. Quando você é jovem, o dever pela seleção faz você sempre sentir aquilo como… um dever. Estava sempre lá, era normal, fazia parte do trabalho. Deveria ser especial, mas eu nunca vi dessa maneira. E então, eu vi os rapazes levantarem o troféu no Brasil. Eu não estava lá por causa de uma lesão. E eu sabia que eu não gostaria de perder um momento desses novamente. Então, na Itália, eu tomei uma decisão – cheguei a uma conclusão, realmente. Eu disse a mim mesmo que não queria que as coisas acabassem daquela maneira. Eu precisava jogar por meu país de novo”, escreveu Mario Gómez, ao Players’ Tribune.

“Eu foquei em ficar saudável e em forma para a Euro 2016. Muitas pessoas achavam que eu não faria parte do time, mas provei que estavam erradas. Comecei a competição como titular e marquei dois gols. Vesti a camisa da seleção muitas vezes, mas, naquele verão, significou algo a mais. Logicamente, é um pouco diferente agora. Sou um dos caras mais velhos da equipe. Eu tento ser um irmãozão, como Kevin Kurányi e Miroslav Klose eram comigo. Eu me lembro da primeira partida e ficava olhando para aqueles caras. Mais do que tudo, eu quero estar no elenco durante a Copa do Mundo de 2018. Neste momento, cada instante que estou em campo pela seleção é especial”, complementou.

Um ano e meio depois da publicação da carta, o esforço valeu a pena. Mario Gómez é um dos 23 da Alemanha, o mais velho, às vésperas de completar 33 anos.

Técnico

Joachim Löw

Joachim Löw, técnico da Alemanha

Entre os treinadores com mais partidas à frente de uma seleção na história, Joachim Löw superou as expectativas desde sua chegada ao comando da Alemanha. Por mais que tivesse sua trajetória à frente de clubes de relevo na virada do século, como Stuttgart e Fenerbahçe, o antigo assistente de Jürgen Klinsmann se encarregava de uma missão delicada ao substituir o velho craque após a Copa do Mundo de 2006. Pois Löw não apenas melhorou o trabalho de seu antecessor, como também hoje é muito mais reconhecido que ele pelas aptidões na casamata. Soube lapidar uma geração muito boa e, apesar das decepções em três competições consecutivas, eternizou o seu nome com a conquista da Copa do Mundo em 2014. E não se nega que o técnico possui os seus méritos. Soube tirar a carga de responsabilidade dos germânicos, sem sentir qualquer pressão ao longo da campanha no Brasil e captando o clima do Mundial melhor do que qualquer outro time, assim como consertou seus próprios erros na reta final da campanha.

Löw possui suas teimosias, disso não há dúvidas. Às vezes prefere copiar o modelo tático do Bayern de Munique, geralmente a base da seleção, a fazer o simples para tirar o melhor dos jogadores à disposição. Da mesma forma, se apega demais a alguns de seus homens de confiança e aos seus dogmas, como se viu na atual convocação, em que preferiu abrir mão do talento de Leroy Sané ante a postura do prodígio. Mas não se nega que estes 12 anos à frente do Nationalelf são bem sucedidos. Apesar das frustrações em algumas derrotas decisivas, o nível de desempenho é muito alto. Resta saber como vão ser os próximos capítulos desta empreitada. Mesmo em 2014, Löw chegou a caminhar em uma linha tênue próxima da frustração. Repetir o sarrafo que ele mesmo ajudou a estabelecer não é das questões mais simples, entre as transições dos últimos quatro anos e as atuações vacilantes em certos momentos.

Uma história da seleção nas Copas

Uwe Seeler

Uma estatística interessante acompanha a seleção alemã nas Copas do Mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Desde 1954, o Nationalelf sempre conta no elenco com um jogador que foi campeão mundial ou que ainda será. A passagem de cetro aconteceu edição a edição, de craque a craque. E é uma pena pensar que uma das maiores lendas da história do futebol germânico acabe caindo num limbo, mesmo com quatro Copas no currículo. Uwe Seeler protagonizou a Alemanha todas as vezes em que esteve na competição. No entanto, entre o milagre de Berna em 1954 e o sonho de Munique em 1974, acabou se tornando um monstro sem a taça.

Seeler tinha o futebol correndo em suas veias. Era filho de um jogador muito popular do Hamburgo, Erwin Seeler, e seu irmão mais velho, Dieter, também calçou chuteiras profissionalmente. Sua estreia em jogos oficiais aconteceu em 1953, aos 17 anos, e logo marcou quatro gols sobre o Holstein Kiel. A chave para que rapidamente se tornasse titular no Hamburgo, assim como observado pela seleção alemã. Era um centroavante completo. Posicionava-se bem, sabia usar o seu corpo, era eficiente nas finalizações, esbanjava potência. Nem por isso deixava de ter habilidade. E, mesmo baixinho, era famoso por sua capacidade no jogo aéreo, em especial pelos gols acrobáticos que conseguia marcar.

Sua estreia no Nationalelf aconteceu em 1954. Porém, meses após a conquista da Copa do Mundo, em outubro, durante um amistoso contra a França. Logo se tornou um dos homens de confiança de Sepp Herberger e disputou seu primeiro Mundial em 1958, aos 21 anos de idade. Balançou as redes duas vezes, ambas na fase de grupos, e ajudou os alemães ocidentais a alcançarem as semifinais. Já em 1961, época em que arrebentava com o Hamburgo, o camisa 9 recebeu uma proposta para deixar o país. Juntaria-se à Internazionale de Helenio Herrera, que investia alto para montar um esquadrão. Preferiu recusar a oportunidade de ganhar milhões na Itália e (quem sabe) conquistar o bicampeonato europeu para, entre outros motivos, não correr o risco de se afastar da seleção, em tempos que atletas em atividade fora do país não costumavam ser chamados.

Mais maduro e vivendo o melhor momento da carreira, Seeler voltou a uma Copa do Mundo em 1962. Balançaria as redes mais duas vezes, levando a seleção às quartas de final, mas a queda para a Iugoslávia deixou um gosto de decepção. O ciclo seguinte seria transformador. A Alemanha Ocidental adentrava em uma nova era no futebol, com a criação da Bundesliga. Ao mesmo tempo, o centroavante também encarava novas responsabilidades. Ainda em 1962, ganhou a braçadeira de capitão. Além disso, mudou o seu estilo de jogo, não tão prolífico no Hamburgo, ajudando mais na construção. E chegaria ao Mundial de 1966 como o líder de uma das favoritas à taça. Foram mais dois tentos, importantes na caminhada até a final, mas insuficientes diante da derrota para a Inglaterra em Wembley. A taça estava nas mãos de Bobby Moore, e não do Panzer.

Em 1968, Seeler decidiu se aposentar da seleção, às vésperas de completar 32 anos. Mas foi convencido por Helmut Schön a reconsiderar a ideia rumo à Copa do Mundo de 1970. Convocado, o centroavante disputou o seu quarto Mundial. Mais do que isso, recuperou a braçadeira de capitão e retomou o seu lugar entre os titulares. Formava uma dupla de ataque formidável ao lado de Gerd Müller, dois tanques prontos para destruir as defesas adversárias. Exatamente o que aconteceu.

Curiosamente, Seeler fez sua Copa mais goleadora quando sua carreira entrava em ostracismo. Anotou dois gols na fase de grupos, contra Marrocos e Bulgária. Voltou a marcar nas quartas de final, desfrutando a revanche contra a Inglaterra. E ainda estaria em campo na mítica semifinal contra a Itália, ajudando a romper espaços para Gerd Müller, que ratificava a artilharia do Mundial. Ainda assim, os três gols germânicos foram insuficientes contra os quatro italianos e os azzurri seguiram à final no México. Seu último jogo por Copas aconteceu dias depois, na decisão do terceiro lugar, vencida sobre o Uruguai.

Seeler aposentou-se da seleção em setembro de 1970, em jogo de despedida contra a Hungria. Seguiria atuando profissionalmente até 1972, quando viu os antigos companheiros conquistarem a Eurocopa pela primeira vez. E quatro anos mais tarde certamente se orgulhou dos seus pupilos, com Franz Beckenbauer segurando o troféu após a vitória sobre a Holanda no Estádio Olímpico de Munique. Com 21 jogos em Mundiais, o Panzer é o quarto jogador com mais participações no torneio. Seus nove gols ainda o deixam no mesmo patamar de nomes como Eusébio, Jairzinho e Paolo Rossi. Além do mais, anotou tentos em quatro edições diferentes do torneio, algo que somente Pelé e Klose foram capazes.

Seeler teria o seu “herdeiro” na falta de sorte. Karl-Heinz Rummenigge jogou muito em Copas do Mundo, mas foi astro da Alemanha Ocidental justamente no intervalo entre o bi e o tri. Anotou três gols como novato em 1978; Bola de Ouro por duas vezes no início da década, seriam mais cinco tentos em 1982, quando precisou aceitar o vice – depois de atuar no sacrifício nas semifinais e, na prorrogação, ser um dos heróis no épico contra a França; por fim, mais tarimbado, balançou as redes uma vez em 1986, em gol que quase valeu a reação contra a Argentina na final, encerrada quando Jorge Burruchaga desempatou a cinco minutos do fim. Rummenigge, ao menos, possui uma Eurocopa no currículo, em 1980. Gosto de ser campeão negado ao maior dos Panzer alemães.

Como o futebol explica o país

Gundogan e Özil com Erdogan

Não é de hoje que a seleção alemã possui parte de seu talento concentrada entre imigrantes ou filho de imigrantes. Se há ídolos do passado que não nasceram no país, nos últimos Mundiais este grupo de atletas se tornou fundamental. Neste Mundial, a lista é engrossada por Rüdiger, Boateng, Khedira, Kroos, Gündogan e Gómez. Porém, há discussões que surgiram ao contexto durante o ciclo de preparação à Copa do Mundo.

Em meio à crise de imigrantes, com milhares de refugiados entrando na Alemanha e a esfera política discutindo a pertinência da aceitação, Boateng se transformou em bode expiatório. Em 2016, o zagueiro virou alvo de comentários discriminatórios de Alexander Gauland, líder do Alternativa para a Alemanha (AfD), que se posiciona contra a imigração. O político afirmou que “as pessoas gostam de Boateng como jogador de futebol, mas não gostariam de tê-lo como vizinho”, embora tenha feito mea-culpa depois, dizendo que não desejava ofender o defensor.

Nas arquibancadas, a torcida da seleção alemã demonstrou seu apoio a Boateng. Em amistoso contra a Eslováquia, diferentes cartazes e faixas foram levados pela torcida em Augsburg, demonstrando o carinho ao berlinense – filho de mãe alemã e pai ganês. “Jérôme, seja nosso vizinho” e “Jérôme, mude-se para perto de nós” eram algumas das mensagens mais comuns. Além disso, outros jogadores da seleção saíram em defesa do companheiro.

E, demonstrando o senso crítico da torcida alemã, em outra questão ligada à imigração e à política, um episódio notável aconteceu há poucas semanas, quando Mesut Özil e Ilkay Gündogan se encontraram com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. A ocasião foi vista como um apoio dos dois atletas, descendentes de turcos, ao político. Não à toa, choveram críticas à exposição de ambos.

Além das contestações vindas da Alemanha pelas posturas antidemocráticas e repressoras de Erdogan em seu governo, as relações diplomáticas entre os países pioraram bastante ao longo dos últimos anos – entre outros motivos, pelo reconhecimento do genocídio armênio, pelo asilo político a opositores do regime turco e pela proibição de um plebiscito pró-Erdogan em cidades alemãs. Tensões explicitadas também por Angela Merkel, discursando contra a entrada da Turquia na União Europeia.

A própria federação alemã criticou abertamente a decisão de Gündogan e Özil. “O futebol e a DFB defendem valores que não são respeitados pelo senhor Erdogan. É por isso que não é bom que nossos jogadores se deixem serem manipulados para sua campanha eleitoral. Ao fazerem isso, nossos jogadores certamente não ajudaram o trabalho de integração da DFB”, afirmou o presidente Reinhard Grindel. Em sua defesa, Gündogan afirmou que “não deveria ser indelicado com o presidente da pátria de sua família” e que foi um “gesto de polidez e respeito ao cargo do presidente, bem como às origens turcas”. Emre Can, outro turco-alemão convidado, optou por não participar do evento.

Como resultado, Gündogan foi vaiado nos amistosos preparatórios da seleção alemã, principalmente no compromisso com a Arábia Saudita em Leverkusen. Demonstra o posicionamento de parte da torcida, embora não dê para afirmar se os responsáveis pelas vaias também são descendentes de turcos ou não. Joachim Löw e Mats Hummels criticaram os ataques dos torcedores. Já o diretor de seleções Oliver Bierhoff, um dos que rebateram os jogadores após a foto, analisou que a situação “fugiu do controle” e pediu unidade às vésperas do Mundial.

Após a partida, Gündogan também se defendeu: “Os meus companheiros estavam interessados e conversei com eles sobre o assunto. Eles queriam entender o que aconteceu. Mas o mais importante são as discussões que tive com os líderes da federação, expliquei que compartilho 100% os valores alemães. Algumas reações me afetaram, incluindo ataques pessoais. Nos últimos anos, fizemos muito para promover a integração na Alemanha. Não tenho apenas um lado turco, eu nasci e fui criado em Gelsenkirchen, uma cidade com muitos imigrantes. Por isso, choca ouvir que nós não estamos integrados. É difícil lidar com as vaias dos próprios torcedores. Para mim, é importante falar. Quero que as coisas voltem a normal, não quero me esconder. Cada um tem sua maneira de lidar com a situação. Quero focar nas coisas básicas novamente”. É ver como se desdobrará o assunto também na Rússia.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

Quatro Copas do Mundo alcançando ao menos as semifinais. A Alemanha possui um aproveitamento assustador neste século. E a cobrança é grande para manter o nível, até considerando a qualidade o elenco. Os insucessos recentes dos campeões mundiais na defesa de seus títulos (Itália e Espanha que o digam) geram certos receios, assim como as oscilações nos amistosos. Mas, se engrenar, como sempre acontece em Mundiais, é time para chegar longe.

Jogos na Copa

Domingo, 17/06 – 12h – Alemanha x México

Sábado, 23/06 – 15h – Alemanha x Suécia

Quarta-feira, 27/06 – 11h – Alemanha x Coreia do Sul

Ficha técnica

Infogram