Por Leandro Stein e Bruno Bonsanti

Como foi o ciclo da seleção até a Copa

A Costa Rica saiu com muito moral da Copa do Mundo de 2014. O sucesso no Brasil, peitando tantas seleções grandes, rendeu uma comoção gigantesca na volta dos heróis ao país. Mas era preciso manter os pés no chão, até porque o técnico Jorge Luis Pinto deixou o comando dos Ticos. O velho ídolo Paulo Wanchope chegou ao seu lugar, mas não durou, ao (literalmente) sair no braço com um steward, durante um compromisso da seleção olímpica. Então, Óscar Ramírez assumiu seu lugar a partir de 2015.

Assim, em meio às mudanças, o ciclo não foi tão auspicioso assim. A equipe caiu na fase de grupos da Copa América Centenário e, na Copa Ouro, caiu nas quartas de final em  2015 e nas semifinais em 2017. As Eliminatórias na Concacaf, ao menos, talvez sejam as mais fáceis do planeta. E nela, mesmo com algumas atuações pouco convincentes, os costarriquenhos se garantiram com tranquilidade.

A Costa Rica entrou na quarta fase e sobrou. Em um grupo supostamente “chato”, ganharam cinco dos seis jogos e empataram o outro. Ficaram bem acima de Panamá, Haiti e Jamaica. Já no hexagonal final, três vagas diretas e uma na repescagem. Os Ticos ficaram abaixo apenas do México, embora o caldeirão de San José não tenha sido tão preponderante quanto antes.

Dos 16 pontos conquistados, os mais importantes foram os seis sobre os Estados Unidos. Durante a primeira metade do hexagonal, show de Joel Campbell nos 4 a 0 no Estádio Nacional. E os Ticos também aprontaram na visita à Red Bull Arena. Marco Ureña destruiu o US Team a partir dos contra-ataques, determinando a vitória por 2 a 0. A classificação se consumou com uma rodada de antecedência, graças ao gol derradeiro de Kendall Watson, aos 50 do segundo tempo, no empate por 1 a 1 contra Honduras.

Já os amistosos preparatórios deixaram algumas desconfianças. Apesar das vitórias sobre Escócia e Irlanda do Norte, os costarriquenhos perderam quatro jogos, incluindo aí uma goleada contra a Espanha e um revés ante a Inglaterra em que não viram a cor da bola. É um time que precisa de um nível de concentração muito alto, o que não se viu nestes compromissos sem caráter competitivo.

Como joga

A Costa Rica fez sucesso na Copa do Mundo de 2014 graças à força de sua defesa. O time compacto atuava no 5-4-1 e segurou adversários muito mais renomados desde o início da competição. Pode não ser o estilo de jogo mais agradável de ver do ponto de vista ofensivo, mas não se nega o contágio causado pelo esforço de cada atleta em manter o padrão tático. A ideia não mudou muito desde então, embora a execução dela não tenha repetido o alto nível de excelência nas competições posteriores ao Mundial do Brasil.

Keylor Navas é o goleiro indiscutível. No miolo de zaga, Óscar Duarte e Giancarlo González são os principais nomes, buscando o espaço nas grandes ligas europeias – o primeiro com o Espanyol e o segundo com o Bologna. Já nas laterais, Cristian Gamboa e Bryan Oviedo são importantes não apenas para conter os pontas, mas também para partir em velocidade. E duas peças importantes são os cabeças de área, Celso Borges e David Guzmán, com grande presença física.

Já na linha de frente, o problema está entre as várias dúvidas, apesar dos nomes. Bryan Ruiz teve uma temporada fraca com o Sporting e Christian Bolaños vem de uma lesão recente. Pesa o renome de ambos. Já na frente, o encarregado de comandar o ataque é Marco Ureña, um centroavante exigente e de potência. Contudo, o herói nas Eliminatórias quase virou desfalque ao Mundial por uma fratura na face. E há também as dúvidas quanto Joel Campbell, um jogador importantíssimo em 2014, mas que não mostra bom nível por seus clubes há tempos. Pode entrar no lugar de Ureña ou dos meias, dando velocidade. Contra a Inglaterra, porém, não se saiu bem quando poderia mostrar serviço.

Time base: Keylor Navas, Gamboa, Acosta, González, Duarte (Watson), Oviedo; Bryan Ruiz, Guzmán, Celso Borges, Bolaños; Ureña. Técnico: Óscar Ramírez.

Dono do time

Keylor Navas

Keylor Navas, da Costa Rica (Photo by Alex Livesey/Getty Images)

Manuel Neuer recebeu o prêmio de melhor goleiro da Copa do Mundo de 2014, mas não seria exagero condecorar Keylor Navas. O paredão costarriquenho foi decisivo desde a fase de grupos, quando os Ticos surpreenderam no grupo da morte. Já nas oitavas de final, contra a Grécia, teve uma atuação estupenda. Sucumbiu apenas ante a Holanda, nos pênaltis, em duelo no qual outro goleiro foi protagonista, Tim Krul. O sucesso no Mundial, assim como o bom trabalho no Levante, levaram o arqueiro para o Real Madrid. E, em quatro anos, a realidade de Navas mudou bastante. Oscilou algumas vezes na temporada e tomou gols defensáveis, mas também cresceu em partidas-chave para o tricampeonato continental dos merengues. Na seleção, é ainda mais primordial, por tudo o que pode representar. As chances de classificação passam por suas luvas.

Bom coadjuvante

Marco Ureña

Marco Ureña, da Costa Rica (Photo by Jeff Zelevansky/Getty Images)

Se Keylor Navas é o nome de confiança atrás, Marco Ureña exerce o mesmo papel na frente. O centroavante de 28 anos participou da Copa do Mundo de 2014 e até marcou um gol na vitória sobre o Uruguai, mas quase sempre vinha do banco. Acabou se tornando a opção principal a partir das Eliminatórias e, com sua força física, se tornou uma peça importante para abrir espaços. Seus melhores momentos vieram na reta final da campanha, com gols contra os Estados Unidos e o México. Também potencializa os companheiros que chegam de trás e, neste início com o Los Angeles FC, se destaca pelas assistências.

Fique de olho

David Guzmán

David Guzmán, da Costa Rica (Photo by Alex Livesey/Getty Images)

Guzmán não é exatamente um nome novo na seleção costarriquenha. O volante é convocado desde 2010. Não foi convocado à Copa do Mundo de 2014, mas passou a integrar o ciclo desde o início. E, por não ser um atleta do futebol europeu, defendendo atualmente o Portland Timbers, pode surpreender. É titular praticamente indiscutível desde 2015, ocupando o lugar que no Mundial foi de Yeltsin Tejeda. Além do poder de marcação, também potencializa os contra-ataques, com sua qualidade nos lançamentos longos. Também possui precisão nas bolas paradas.

Personagem
Óscar Duarte

Nicarágua e Costa Rica possuem uma relação tensa em suas fronteiras. Há uma disputa histórica sobre os direitos de cada lado quanto ao Rio San Juan, que marca parte da fronteira entre os dois países. Entre os atritos causados pela pesca e pelo policiamento no local, o assunto foi parar numa corte de justiça internacional em 2009, que deu ganho de causa majoritariamente à Costa Rica. Entretanto, logo depois, a Nicarágua fez uma dragagem em longo trecho do rio, em novo embate por conta dos desdobramentos ambientais. O conflito voltou a se estender na justiça, até que se definisse o pagamento de uma indenização pelo governo nicaraguense. Disputas que só renovam as animosidades

O zagueiro Óscar Duarte está no meio desse fogo cruzado. O jogador do Espanyol nasceu em Catarina, uma cidade da Nicarágua, mas se mudou na infância para a Costa Rica. Acaba se tornando um elo entre os dois lados, unindo os países. Em sua cidade natal, o defensor é personagem cultuado, com nicaraguenses se permitindo vestir a camisa costarriquenha e torcendo pelos “inimigos”. Algo impensável, considerando todos os problemas. Neste contexto, o atleta possui a consciência de seu papel.

“É bom para mim ver como as pessoas se unem, porque você sabe de todos os problemas que aconteceram no passado e de todas as diferenças entre os dois países, mas é sempre bacana mostrar que o futebol pode unir esta gente”, afirma Duarte. “Não é apenas um sentimento. Eu nasci na Nicarágua e não importa o que qualquer um diga, isso não vai mudar. Eu posso dizer que estou representando os dois países. Não fico surpreso que as pessoas na Nicarágua torçam por mim. Eu nasci em Catarina. Acho que é normal. Não vejo por que deixariam de torcer para alguém na Copa do Mundo só porque me mudei a um país diferente. Quando você vê que esse pessoal está feliz e grato, é realmente bom”.

Duarte disputou sua primeira Copa do Mundo em 2014, provocando o orgulho em nicaraguenses e costarriquenhos. Possui amigos na seleção nacional dos vizinhos e já visitou os jogos da equipe, de desempenhos modestos na Concacaf. A alternativa a Catarina e ao resto da Nicarágua é deixar as rixas de lado. O futebol pode ser maior.

Técnico

Óscar Ramírez

Óscar Ramírez possui uma longa experiência na seleção. Ex-meio-campista, defendeu por anos Alajuelense e Saprissa, dois dos principais clubes do país. Também figurou nas convocações por 12 anos, disputando a Copa de 1990. El Machillo iniciou sua carreira no banco de reservas em 2002, inicialmente como assistente. Trabalhou ao lado de seu ex-companheiro Hernán Medford, entre 2006 e 2008. Depois disso, assumiu clubes locais, com seu trabalho mais relevante à frente do Alajuelense, conquistando títulos nacionais. Em 2015, foi nomeado assistente de Paulo Wanchope, mas, ante o incidente envolvendo o ex-atacante, acabou promovido uma semana depois. Ao contrário do antecessor, resolveu resgatar as bases de Jorge Luis Pinto. Por enquanto, vai funcionando para cumprir alguns objetivos, mas surpreender na Copa pela segunda vez é missão árdua.

Uma história da seleção nas Copas

Quando disputou a sua primeira Copa do Mundo, em 1990, a Costa Rica contava com um elenco totalmente nacional. Todos os convocados pelo mítico Bora Milutinovic se dividiam entre os clubes do país. No entanto, a boa campanha na Itália ajudou a chamar a atenção. Os Ticos venceram Escócia e Suécia, além de dificultarem a vida do Brasil. Caíram apenas para a Tchecoslováquia, sucumbindo ao artilheiro Tomáš Skuhravý, autor de três gols no duelo em Bari. Tão chamativa quanto o desempenho, aliás, foi a estratégia no uniforme: como o duelo contra os brasileiros aconteceu em Turim, os costarriquenhos vestiram uma atípica camisa com listras verticais em branco e preto, clara referência à Juventus para conquistar a torcida local.

Os bons resultados na Itália renderam bons frutos aos protagonistas da Costa Rica. O lateral José Carlos Chaves atraiu as atenções na Tchecoslováquia e seguiu ao Inter Bratislava. Juan Cayasso, por sua vez, assinou com o Stuttgarter Kickers. Já o Dinamo Zagreb partiu para cima do defensor Ronaldo González Brenes e do atacante Hernán Medford. Reserva ao longo da campanha, Medford marcou o gol da vitória sobre a Suécia. E mesmo sem durar na Croácia, fez uma carreira nomádica pela Europa. Passou ainda por Rapid Viena, Rayo Vallecano e Foggia, até retornar ao Saprissa em 1994.

Nenhum deles, porém, se deu tão bem quanto o goleiro Luis Gabelo Conejo. Suas atuações na fase de grupos foram tão boas que ele acabou eleito um dos melhores da posição na Copa, ao lado de Sergio Goycochea. Lesionado, passou ileso da goleada contra a Tchecoslováquia. E arrumou as malas para a Espanha, assinando com o Albacete. Passou quatro anos no clube, transformando-se em ídolo da torcida. Conquistou o acesso à primeira divisão e disputou mais três temporadas na elite, retornando à Costa Rica para encerrar a carreira. Pois sua história no futebol espanhol renderia ainda mais.

Em 2010, um goleiro excepcional surgia no Saprissa e já figurava na seleção. Conejo aproveitou para indicá-lo ao Albacete, que aceitou a sugestão e correu atrás do negócio. Era Keylor Navas. Aos 24 anos, o arqueiro chegou ao Albacete, onde ficou por um ano, até ser repassado ao Levante. Navas, aliás, continuaria se reencontrando com Conejo. O veterano era o treinador de goleiros da seleção. Preparou bem o seu pupilo, tão fantástico no Brasil quanto o antecessor foi na Itália 24 anos antes.

Como o futebol explica o país

Para um país da América Central, região onde quase todo mundo já conviveu com golpes militares, o fato de a Costa Rica ter abolido o seu exército, em 1948, já a torna especial. Mas também tem altos índices em economia, educação pública, igualdade de gênero, liberdade de imprensa, estabilidade e democracia em comparação aos seus vizinhos. No entanto, como em muitos outros lugares, a última eleição mostrou um país mais dividido do que se imaginava.

O candidato do Partido da Restauração Nacional, Fabricio Alvarado, ganhou o primeiro turno, com 24,99% dos votos. Evangélico, tornou o casamento homossexual um tema central da campanha, depois que a Corte Interamericana de Direitos Humanos exigiu que todos os seus países membros, inclusive a Costa Rica, que a sedia em San José, reconhecesse direitos plenos a casais do mesmo sexo. “Não há nada mais progressista do que defender a vida e a família”, disse o candidato.

Mas o favoritismo de Fabricio Alvarado assustou. Houve uma intensa movimentação em redes sociais para apoiar o seu adversário, Carlos Alvarado (não são parentes), ex-ministro do Trabalho da situação, escritor e com apenas 38 anos. Defendeu o casamento sexual e uma agenda a favor da educação pública e de energias renováveis. Deu certo. Mais pessoas foram foram votar no segundo turno do que no primeiro. E, apesar de as pesquisas terem projetado uma briga voto a voto entre ambos, Carlos Alvarado venceu com 60%.

Ainda assim, um pastor evangélico super conservador ganhou o primeiro turno e recebeu uma expressiva votação no segundo. “Quase 40% dos costarriquenhos votaram por um candidato profundamente anti-homossexual, do Partido Evangélico Nacional da Restauração, recentemente criado. Isso tem fortes implicações em um país historicamente secular”, escreveu Rachel Bowen, professora-associada de Ciência Política na Universidade de Ohio, para o site The Conversation. “Nos 15 anos em que estudei a política da América Central, surgiram profundas fraturas na democracia costarriquenha: as mesmas tensões sociais e religiosas que se manifestaram nas eleições de 2018”.

Discursando após ganhar a eleição, Carlos Alvarado reconheceu a divisão do país e prometeu trabalhar para unificá-lo – começando com os elogios que dirigiu ao adversário, apesar das profundas diferenças políticas. Em questões concretas, disse que pretendia preencher até metade do seu gabinete com membros da oposição, proporcionalmente à representação no Congresso. E, realmente, além do dele, outros três partidos dos sete partidos com deputados eleitos foram contemplados. “O que nos une é muito maior do que o que nos divide”, disse o novo presidente. E em um país tão apaixonado por futebol, há poucas coisas melhores para promover a união do que uma Copa do Mundo.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A Costa Rica parece ter uma aptidão para surpreender em Copas. Desta vez, parece de novo correr por fora no Grupo E. Mas os adversários estão ressabiados depois de 2004. Se conseguir manter o padrão de jogo e pegar embalo, dá para brigar pela segunda colocação, mesmo como azarão. Ter um goleiro fantástico é fundamental em Mundiais e, neste sentido, Keylor Navas pode fazer a diferença.

Jogos na Copa

Domingo, 17/06 – 9h – Costa Rica x Sérvia

Sexta-feira, 22/06 – 9h – Brasil x Costa Rica

Quarta-feira, 27/06 – 15h – Suíça x Costa Rica

Ficha técnica

Infogram