Como foi o ciclo até a Copa de 2018

Conturbado. Além de problemas entre parte da torcida e a federação, que eclodiram durante a Eurocopa, houve três treinadores. Niko Kovac estava no comando desde 2013 e comandou a fraca campanha na Copa do Mundo do Brasil, quando os croatas foram eliminados ainda na fase de grupos, com uma vitória e duas derrotas. A carta de demissão chegou no começo da campanha das Eliminatórias da Euro, em setembro de 2015. A Croácia havia empatado com Itália e Azerbaijão e perdido para a Noruega. Além disso, Kovac havia sido publicamente criticado por Luka Modric.

O experiente Ante Cacic foi chamado para corrigir o curso e conseguiu classificação para a França, com o segundo lugar no grupo da Itália, apesar de não ter contado com o apoio maciço da torcida em muitas partidas, graças a hooliganismo, cantos racistas contra a Noruega e uma suástica desenhada no gramado no duelo com os italianos. A campanha na Eurocopa começou muito bem. A Croácia liderou o grupo, com direito a derrotar a Espanha, mas foi eliminada por Portugal, na prorrogação das oitavas de final.

Cacic foi mantido para as Eliminatórias da Copa do Mundo e começou a campanha com empate contra a Turquia. Vieram quatro vitórias seguidas até a derrota para a Islândia, fora de casa. Recuperou-se batendo Kosovo, por um magro 1 a 0, e voltou a perder, para a Turquia. Empatou com a Finlândia, na sequência. Com apenas quatro pontos em 12 possíveis, e diante de uma final de campeonato contra a Ucrânia por vaga na repescagem, a Federação Croata tomou a controversa decisão de demitir Cacic, que também tinha problemas de relacionamento com jogadores e torcida.

Zlatko Dacic assumiu as rédeas para a partida decisiva contra a Ucrânia, fora de casa, e conseguiu a vitória por 2 a 0. Na repescagem, contra a Grécia, encaminhou a vaga com goleada por 4 a 1 na primeira partida. O empate por 0 a 0 na volta colocou a Croácia na Rússia.

Como joga

A qualidade técnica disponível chama a atenção para um time que não está nem entre os grandes, nem entre os favoritos. O meio-campo e o ataque estão recheados de jogadores de clubes importantes da Europa, dando a Zlatko Dalic várias alternativas para formar sua equipe titular. Como o antecessor, Dalic opta pelo 4-2-3-1, mas com uma mudança sensível e crucial: Modric foi adiantado para atrás do atacante, em uma tentativa de posicionar toda a sua qualidade técnica o mais próximo possível das zonas de decisões do gramado.

Antes, Modric exercia a mesma função do Real Madrid. Mais recuado, armando as jogadas desde trás e auxiliando na saída de bola. Agora é Rakitic quem faz isso. A grande dúvida de Dalic é quem complementa o trio do setor mais qualificado da Croácia. O natural seria escolher Marcelo Brozovic, da Internazionale, ou Mateo Kovacic, do Real Madrid. Mas Dalic teme que o time fique desequilibrado, com muito espaço nas costas dos meias.

Como não há um cão de guarda no elenco, a escolha natural seria Brozovic, que terminou bem a temporada na Itália, atuando mais recuado. Ainda assim, não prima pelo poder de marcação. Contra o Brasil, Dalic preferiu Milan Badelj, da Fiorentina, um pouco mais pegador. Nada o impede de usar as duas formações: Badelj contra equipes mais fortes, e Brozovic ou Kovacic contra outras que não ofereçam tantas ameaças ofensivas, como a Islândia.

No ataque, a questão é encontrar o encaixe certo. Mario Mandzukic é o coringa. Costuma ser o centroavante na seleção croata, mas jogou bem pelas pontas na Juventus. Caso centralize, Andrej Kramaric atuaria pela direita. Nesse cenário, os dois podem trocar posições durante a partida, confundindo a defesa. Deslocado para os flancos, Manduzkic abriria espaço para outro camisa 9. Nikola Kalinic, por exemplo. Mas, como o jogador do Milan teve uma temporada decepcionante na Itália, Ante Rebic, do Eintracht Frankfurt, pode ganhar essa briga. Ainda há o jovem Marko Pjaca, da Juve.

O que sobra de talento nas posições avançadas falta na defesa. Sime Vrsaljko é peça chave no apoio ao ataque, mas, também por isso, pode deixar espaços na defesa. A outra lateral é ocupada por Ivan Strinic. O miolo de zaga oferece uma dúvida. Domagoj Vida, do Besiktas, deve ser titular. Seu companheiro pode ser Dejan Lovren, que terminou bem a temporada pelo Liverpool, mas é muito propenso a falhas, ou Verdan Corluka, veterano de 32 anos que tem convivido com muitas lesões recentemente. Fez apenas oito partidas na última campanha do Lokomotiv Moscou.

Time base: Subasic; Vrsaljko, Vida, Lovren (Corluka) e Strinic; Badelj (Brozovic), Rakitic e Modric; Perisic, Kramaric e Mandzukic. Técnico: Zlatko Dalic.

O dono do time

Luka Modric

Luka Modric (dir.) contra a marcação do Brasil (Photo by Alex Livesey/Getty Images)

Não convém desagradar a Luka Modric. Manda prender e manda soltar na seleção croata, autoridade que vem da sua excelência técnica. Modric está em todas as listas de melhores meias do mundo, tetracampeão europeu pelo Real Madrid, sempre sendo muito influente. É o facilitador, aquele armador que carimba todas as bolas, desde a saída até a armação ofensiva, movimentando-se por todo o campo. Tem mais de cem partidas pelo time nacional, que defende desde 2006. Foi absoluto na campanha das Eliminatórias para a Copa do Mundo, exceto quando estava machucado. Em nove partidas, marcou um gol e deu três assistências. Números modestos perto do que pode fazer com a bola nos pés. Para tentar aumentá-los, Zlatko Dalic adiantou sua principal estrela para um papel atrás do atacante, tentando fazer com que ele seja mais decisivo no famoso terço final do gramado.

O bom coadjuvante

Ivan Perisic

Ivan Perisic, da Croácia, no jogo contra a Grécia na repescagem (Photo by Srdjan Stevanovic/Getty Images)

Perisic é experiente. Tem 29 anos e já defendeu Borussia Dortmund e Wolfsburg, antes de chegar à Internazionale, em 2015. Desde então, tornou-se um dos principais jogadores do clube italiano, o que se reflete nos números. O ponta esquerda conseguiu duplos-duplos nas últimas duas temporadas, com 11 gols e 10 assistências em ambas. Nas eliminatórias, atuou 90 minutos em todos os jogos, menos contra a Ucrânia, em casa, quando nem entrou em campo, e na última partida da repescagem, diante da Grécia, substituído aos 41 minutos do segundo tempo. Pela esquerda, tem a função de direcionar a bola que receber do qualificado meio-campo croata para os outros atacantes – ou diretamente para o fundo das redes. 

Fique de olho

Andrej Kramaric

Kramaric, da Croácia (Photo by Srdjan Stevanovic/Getty Images)

De todos os atacantes que Zlatko Dalic levou à Rússia, nenhum marcou mais vezes na última temporada do que Andrej Kramaric. Foram 13 gols e seis assistências na campanha do ótimo terceiro lugar do Hoffenheim, inclusive seis tentos seguidos em um intervalo de cinco rodadas. E não é de hoje que impressiona. Tem sido um jogador muito útil desde que chegou à Alemanha, em 2016, primeiro emprestado pelo Leicester, depois contratado em definitivo. Em 2016/17, colocou 15 bolas na rede, o sexto maior artilheiro daquela edição da liga alemã. Kramaric pode atuar em todas as posições do ataque, o que o torna uma peça muito útil para o treinador.

Personagem

Dejan Lovren

Dejan Lovren, da Croácia (Photo by Srdjan Stevanovic/Getty Images)

“Zenica foi atacada porque era uma cidade maior, mas nas pequenas vilas foi onde as coisas mais horríveis aconteceram. Pessoas morrendo brutalmente. O irmão do meu tio foi morto na frente das pessoas com uma faca. Eu nunca falo sobre meu tio porque é muito difícil falar sobre isso, mas ele perdeu seu irmão, um dos membros da família. Nós tínhamos tudo, para ser honesto. Nunca tivemos problemas. Tudo corria bem com os vizinhos, com os muçulmanos, com os sérvios. Todos conversavam muito bem entre eles e aproveitavam a vida, tudo era como eles queriam. E, então, a guerra começou”.

Dejan Lovren tornou-se jogador de futebol profissional. Defendeu Lyon, Southampton e disputou uma final de Champions League pelo Liverpool. Estará na Copa do Mundo representando a Croácia, mas a sua origem é a Bósnia. Tinha três anos quando eclodiu a guerra que levou mais de 100 mil pessoas à morte. Fugiu para a Alemanha, onde passou parte da infância, mas não recebeu permissão para morar no país permanentemente. Chegou à Croácia, estabeleceu-se e deu início à sua carreira no futebol. A seguir, parte do depoimento do zagueiro a um documentário sobre a sua grande história de vida para a televisão do Liverpool. A obra completa, publicada em 207, pode ser encontrada aqui.

“Eu me lembro das sirenes. Eu estava com tanto medo porque pensava em bombas. Eu lembro que a minha mãe me levou para o porão. Não sei quanto tempo ficamos lá. Acho que até as sirenes serem desligadas. Depois, eu lembro que minha mãe, meu tio, a mulher do meu tio, entramos em um carro e dirigimos para a Alemanha. Deixamos tudo para trás: a casa, a lojinha com a comida, deixamos tudo. Pegamos uma mala e fomos para a Alemanha. Tivemos sorte. Eu e minha família tivemos sorte. Nosso avô trabalhava na Alemanha e tinha os papéis. Senão, não sei o que teria acontecido. Talvez eu tivesse visto eu e meus pais debaixo da terra. Lembro-me de um dos meus melhores amigos na escola – seu pai era um soldado – chorando todos os dias. Eu pensava: ‘Por quê?`. E ele disse: ‘Meu pai morreu’. Então, sabe, poderia ter sido o meu pai.

Meu pai e minha mãe pediam permissão para ficar mais tempo na Alemanha, mas, a cada seis meses, eram recusados. As autoridades diziam: ‘Quando a guerra acabar, vocês podem voltar’. Era difícil. Não tínhamos futuro na Alemanha. Então, chegou o dia: ‘Você tem dois meses para preparar suas malas e voltar’. Para mim, foi difícil porque eu tinha todos meus amigos na Alemanha, minha vida começou lá. Eu tinha tudo, era feliz, jogava pelo pequeno clube que meu pai treinava. Era simplesmente bonito. Minha mãe disse: ‘A Alemanha é nossa segunda casa’. E é verdade. A Alemanha nos recebeu. Não sei que país teria feito isso, naquele momento, com os refugiados da Bósnia.

Eu falava croata, mas não o verdadeiro croata. As palavras certas e tudo mais. Então, quando cheguei à Croácia, aos 10 anos, foi difícil. Eu não entendia, eu não sabia escrever, todo mundo me perguntava: ‘Por que seu sotaque é diferente do nosso?’. E mesmo hoje eu falo croata com sotaque alemão. As crianças estavam apenas se divertindo. Não queriam me magoar de propósito, mas, para mim, depois de tudo que passei, era um problema, e claro que tive problemas na escola por causa disso. Algo em mim não permitia que as pessoas rissem da minha cara e eu brigava na escola. Eu lutava, lutava. Vou lutar até o fim. Os professores explicavam: ‘Ele veio de outro país, vocês precisam ter um pouco de compreensão’.

Minha mãe trabalhava no Walmart, ganhando € 350 por mês. Meu pai trabalhava pintando casas. Tínhamos uma situação difícil com dinheiro. Minha mãe disse: ‘Não podemos pagar as contas da eletricidade’, e por uma semana não tivemos dinheiro. Eu lembro que o meu pai levou meus patins de gelo porque eu adorava patinar no gelo durante o inverno. Um dia eu perguntei para a minha mãe: ‘Onde eles estão?’. Ela respondeu, chorando, que meu pai os havia vendido porque não tínhamos dinheiro naquela semana. Ele os vendeu por € 45. Meus patins de gelo: vendidos. Era um momento difícil para os meus pais.

É como se a guerra tivesse acontecido ontem. É um assunto sensível, as pessoas ainda evitam falar sobre isso. Minha mãe me disse (antes do documentário): ‘Não conte para eles’. E eu disse: ‘Vou contar’. E ela chorou novamente. Espero que seja mais fácil para a próxima geração, para minha filha e para meu filho. Talvez esqueçam e sigam em frente. Não sei se um dia vão entender minha vida ou o que eu passei porque vivem em mundos completamente diferentes. Se minha garotinha me pede um brinquedo, às vezes eu respondo que não tenho dinheiro. É difícil entender por que digo isso, mas ela precisa entender que nada é fácil. Estou trabalhando duro para ela. Ela precisa entender que não precisa de 20 brinquedos. Às vezes, precisa de apenas um ou dois para ser feliz.

Quando vejo o que está acontecendo hoje em dia (com a crise de refugiados), eu me lembro da minha situação, da minha família e como as pessoas não nos queriam em seus países. Eu entendo que as pessoas quiram se proteger, mas outras pessoas não têm casas. Não é culpa delas. Estão lutando para viver, para salvar suas crianças. Querem um lugar seguro para as crianças e para seus futuros. Eu passei por tudo isso e sei pelo que algumas famílias estão passando. Deem uma chance a elas. Você consegue saber quais são pessoas boas e quais não são”.

Técnico

Zlatko Dalic comanda a Croácia (Photo by Catherine Ivill/Getty Images)

Zlatko Dalic não foi um jogador de futebol muito importante, nem tinha um currículo proeminente de treinador antes de assumir a seleção croata. O primeiro trabalho foi no Varteks, clube em que pendurou as chuteiras e defendeu na maior parte da carreira como profissional. Chegou à final da Copa da Croácia de 2006 contra o Rijeka em um emocionante thriller: perdeu o jogo de ida por 4 a 0 e fez 5 a 1 na volta. Foi derrotado no gol marcado fora de casa. Passou pelo próprio Rijeka e pelo também croata Slaven Belup, além do Dínamo Tirana, da Albânia, antes de desembarcar na Arábia Saudita, onde foi vice-campeão nacional e conquistou a copa pelo Al Hilal.  Em 2014, chegou ao Al Ain, dos Emirados Árabes. Após levantar os títulos da liga e da copa, chegou à decisão da Champions League asiática, em 2016, mas perdeu para o Jeonbuk Hyundai, da Coreia do Sul. Assumiu a Croácia no fim da campanha das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Garantiu a vaga derrotando a Ucrânia e depois a Grécia na repescagem.

Uma história da seleção em Copas

O time da Croácia contra a Austrália, na Copa de 2006 (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

A Croácia formou sua seleção depois da dissolução da Iugoslávia, no começo dos anos noventa. Logo, não tem uma vasta história em Mundiais. A primeira participação é a mais lembrada, também porque foi a melhor de todas – e excepcional, em um contexto geral. Na Copa do Mundo da França, o time liderado por Davor Suker classificou-se no grupo da Argentina e eliminou a Romênia, nas oitavas de final. A expectativa era que encerrasse uma campanha já muito boa nas quartas, contra a Alemanha. Mas venceu por 3 a 0. Na semifinal, chegou a abrir 1 a 0 contra a dona da casa, antes de levar a virada, com dois gols de Lilian Thuram. E ainda bateu a Holanda na disputa do terceiro lugar.

Foi a primeira de três classificações seguidas para a Copa do Mundo. Mas a seleção nunca mais conseguiu impressionar, eliminada na fase de grupos das duas edições seguintes. Em 2006, no grupo do Brasil, a Croácia poderia chegar às oitavas de final se vencesse a Austrália, na rodada final. O empate por 2 a 2 decretou sua eliminação, em uma partida que ficou marcada pela bobagem do árbitro inglês Graham Poll.

Poll advertiu o zagueiro Josip SImunic com o cartão amarelo, aos 16 minutos do segundo tempo. E mostrou outro para ele aos 45, após uma entrada no meio-campo que poderia muito bem merecer vermelho direto. Mas ninguém entendeu direito por que o jogador não foi excluído da partida. Aos 48, Simunic, que aparentemente estava tresloucado naquela noite em Stuttgart, recebeu o terceiro amarelo, por reclamação, e foi finalmente expulso. O árbitro foi culpado por não manter o controle da partida, já que outros dois jogadores, o croata Dario Simic, e o australiano Brett Emerton, também foram mandados para o chuveiro mais cedo. E por não saber as regras do jogo. “Nós tínhamos quatro árbitros e o que não é compreensível é que ninguém interveio. Foi um blecaute. Um deles deveria ter intervido, invadido o gramado e dito: ‘pare, pare!’”, disse Joseph Blatter, presidente da Fifa, na época.

No relatório oficial da partida, a Fifa anulou o segundo amarelo que Simunic recebeu. Graham Poll obviamente não apitou mais naquele Mundial e, quatro dias depois da partida, anunciou que estava se aposentando da arbitragem internacional – antes que a arbitragem internacional o aposentasse. Pensou em encerrar a carreira completamente, mas continuou trabalhando na Inglaterra por mais um ano. Parou ainda antes do planejado, aos 43 anos. Seu último jogo foi a final dos playoffs da Championship de 2007, entre Derby County e West Brom.

Como o futebol explica o país

Zdravko Mamic, dirigente croata (Photo by Srdjan Stevanovic/Getty Images)

A presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, visitou a Argentina em março de 2018 e deu uma declaração que, sem um histórico para informá-la, pareceria inofensiva, uma platitude comum a políticos. “Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos croatas buscaram e encontraram na Argentina o espaço de liberdade em que puderam provar seu patriotismo”, afirmou. O problema: muitos desses croatas que se mudaram após a queda do Terceiro Reich eram não apenas simpatizantes nazistas como membros da Ustasa, inclusive Ante Pavelic, líder do movimento fascista que governou o país dos Balcãs durante a guerra e promoveu o extermínio de quase 400 mil pessoas, entre sérvios (a maioria, de 320 mil a 340 mil), judeus (em proporção, mais da metade do total da população judaica que vivia no território croata) e ciganos.

As declarações foram condenadas por partidos de oposição, parte da imprensa independente e grupos judaicos. Grabar-Kitarovic, que se defendeu dizendo que foi interpretada “maliciosamente” e que não quis glorificar um regime totalitário, chegou ao poder em janeiro de 2015, após vencer as eleições presidenciais do ano anterior. A chefe de estado pertence ao grupo político do partido conservador União Democrática da Croácia (HDZ), que também venceu o pleito parlamentar e assumiu maioria do congresso. O primeiro governo, liderado por Tihomir Oreskovic, entrou em colapso em outubro de 2016, entre muitas controvérsias. Uma delas foi o seu ministro da Cultura.

Zlatko Hasanbegovic era uma figura conhecida em pequenos grupos de extrema-direita. Historiador, minimiza os crimes da Ustasa e pertenceu a grupos radicais, na época da dissolução da Iugoslávia, em 1992, que queriam anexar grandes partes da Bósnia. Durante seu mandato, surgiu uma fotografia da década de noventa em que ele usava um boné com a letra “U”, símbolo do movimento fascista. Cortou verbas públicas para veículos pequenos de imprensa e chegou a justificar a agressão de um jornalista. Elogiou um documentário que reduzia drasticamente o número de mortos no campo de concentração Jasenovac, onde ocorreu a maioria dos assassinatos durante a Segunda Guerra Mundial na Croácia. Com a queda do governo de Oreskovic, Hasanbegovic também saiu. Andrej Plenkovic assumiu como primeiro-ministro, cargo que ocupa desde então.

Uma reportagem da agência AP identifica a Croácia como um dos países europeus, junto com Hungria e Polônia, que incorporaram ideias de extrema-direita ao seu discurso político majoritário. Um processo que começou em 2013, quando o país aderiu à União Europeia, e criou um clima que respingou no futebol. O zagueiro Josip Simunic comemorou vaga na Copa do Mundo de 2014 com cantos nazistas: o grito “nossa terra”, seguido pela resposta “pronto”, símbolos da Ustasa. Ele foi punido com dez partidas de suspensão pela Fifa, o que na prática o excluiu da competição brasileira. Nas Eliminatórias para a Eurocopa de 2016, uma suástica foi desenhada no gramado do estádio em Split. A Federação Croata reagiu banindo a sua torcida de jogos fora de casa.

A punição não fez nada para aplacar a ira que já existia contra a federação. No cerne do problema, está Zdravko Mamic, considerado o homem mais poderoso do futebol local. Vice-presidente da entidade e principal executivo do Dínamo Zagreb. A acusação da torcida, cujos ultras não são exatamente os caras mais bacanas do mundo, é que Mamic utiliza o futebol para ganhar dinheiro e poder. Durante a Eurocopa da França, torcedores croatas interromperam a partida contra a República Tcheca atirando sinalizadores em campo – e trocando uns socos nas arquibancadas –, em protesto contra o dirigente.

Devem, porém, ter ficado muito alegres com a notícia que surgiu cerca de dez dias antes da abertura da Copa do Mundo. Mamic foi condenado a seis anos e meio de prisão por corrupção, confirmando o que os torcedores do Dínamo Zagreb suspeitavam. A acusação que levou à sentença é que ele e o irmão Zoran embolsaram US$ 17,3 milhões e sonegaram US$ 1,8 milhão em impostos. O dinheiro saiu de transferências irregulares do Dínamo, entre elas, a ida de Luka Modric para o Tottenham. Durante o julgamento, Modric mudou o seu depoimento para defender Mamic e também virou alvo da raiva da torcida. O mesmo tribunal condenou o jogador do Real Madrid por perjúrio. Dejan Lovren, outro que caiu na rede de influências do dirigente, também está sendo investigado. A Croácia pode ir longe na Copa da Rússia, mas o clima com seus torcedores não é dos melhores.

O que a Copa significa para a seleção

A Croácia não tem um bom retrospecto em Copas do Mundo, apesar de sempre possuir alguns jogadores interessantes. Com exceção do terceiro lugar de 1998, coleciona apenas eliminações na fase de grupos. O elenco atual é o mais talentoso desde aquele liderado por Suker, com atletas importantes de vários clubes grandes da Europa e alguns de primeira classe. O desafio é conseguir jogar coletivamente e deixar os problemas externos fora de campo para atingir todo o seu potencial – e isso pode significar até mesmo um lugar nas quartas de final.

Ficha técnica

Seleção croata
Infogram