Como foi o ciclo

Com tudo que Vicente Del Bosque conquistou pela seleção espanhola, os títulos da Copa do Mundo de 2010 e da Eurocopa de dois anos depois, seria talvez muito cruel que sua passagem fosse encerrada com a tragédia do Brasil. Então atual campeão do mundo, a Espanha conseguiu a façanha de ser moralmente eliminada logo na estreia, ao ser goleada por 5 a 1. O que aconteceu a seguir foi consequência daquele jogo. A humilhação em Salvador escancarou o desgaste do tiki-taka, que havia dado à seleção três troféus seguidos de grandes competições, a teimosia de Del Bosque em não buscar alternativas e as divergências internas dentro do elenco.

O prestígio do treinador fez com que ele não fosse demitido e começasse o ciclo da Copa do Mundo seguinte. De cara, perdeu Xavi Hernández e Xabi Alonso. Os primeiros jogos foram complicados. Derrotas para a França, Alemanha e Holanda em amistosos e para a Eslováquia pelas Eliminatórias da Eurocopa. Mas a Espanha ganhou os outros nove jogos do grupo e se classificou sem problemas para o torneio europeu. A renovação existiu, mas não foi drástica: 13 jogadores que estiveram no Brasil foram convocados.

Mas, de fato, havia chegado a hora de Del Bosque ir embora. A Espanha foi segunda colocada do seu grupo, atrás da Croácia, e perdeu para a Itália de Antonio Conte logo nas oitavas de final. O treinador pediu demissão, e a Federação Espanhola buscou Julian Lopetegui, antigo comandante de seleções de base do país e de passagem de dois anos pelo Porto. Ele conseguiu injetar sangue novo na equipe, com as ascensões de Asensio, Isco, Saúl e Iago Aspas. Os resultados não poderiam ser melhores: nenhuma derrota em 18 partidas, classificação à Copa diretamente à frente da Itália e um rendimento que chegou à Rússia na curva ascendente.

No entanto, na semana da estreia, Lopetegui, que tinha contrato com a Federação Espanhola até 2020, anunciou que treinaria o Real Madrid depois da Copa do Mundo. A decisão, e principalmente a maneira como ela foi tomada, sem informar os dirigentes da entidade das negociações, pegou mal com a chefia. A dois dias da estreia contra Portugal, Lopetegui foi demitido do cargo de treinador da Espanha. O diretor esportivo Fernando Hierro assumiu as rédeas e tentará fazer o que pode para salvar o torneio da seleção.

Como joga

Controle, controle e controle. A Espanha pode estar de cara nova, mas a sua principal característica foi mantida: ter a bola, sempre buscar ter a bola. Não fica muito difícil com um meio-campo tão qualificado. O volante Busquets tenta fornecer o equilíbrio na transição entre a defesa e o ataque. Thiago ou Koke ajudam a dar o ritmo, e Iniesta é o epicentro de tudo que acontece. Um pouco mais à frente e para os lados, Isco, pela esquerda, e David Silva, pela direita, são os meia-atacantes. A convocação permite variar a característica do ataque. Se quiser mais agressividade e menos cadência, pode optar por Asensio, Aspas ou Lucas Vázquez.

A posição de centroavante ainda é uma incógnita. Embora esteja em boa fase, Diego Costa nunca se adaptou direito ao estilo de toque de bola incessante da Espanha. Prefere atacar espaços, arrancar com campo para correr ou mesmo brigar com os zagueiros por bolas mais longas. A alternativa seria usar um atacante mais móvel pelo centro, como Aspas. Ou mesmo Asensio. Em 2017, contra a Itália, entrou em campo com seis meias: Busquets, Iniesta, Silva, Isco, Koke e Asensio. Foi uma das melhores exibições desta equipe, vencendo os italianos por 3 a 0.

O elenco espanhol é um dos mais talentosos da Copa do Mundo, mas, do meio-campo para trás, falta reposição. Começando por Busquets. Um segundo volante de características parecidas não foi levado à Copa. Em caso de ausência do jogador do Barcelona, o reserva seria Thiago, que joga em todas as posições do setor. A defesa é de primeira linha, com Carvajal, Sergio Ramos, Piqué e Jordi Alba. No entanto, em caso de lesão, a qualidade cai principalmente no miolo de zaga com Nacho ou Azpilicueta.

Time base: David de Gea; Carvajal, Sergio Ramos, Piqué e Jordi Alba; Sergio Busquets, Iniesta e Thiago (Koke); Isco, David Silva e Diego Costa. Técnico: Fernando Hierro

O dono do time

Andrés Iniesta

Iniesta, após seu último jogo pelo Barcelona (Foto: Getty Images)

É o fim de um longo e soberbo recital de excelência técnica. A última vez (provavelmente) que teremos a oportunidade de assistir a Andrés Iniesta atuar no mais alto nível competitivo. Aos 34 anos, o meia já empacotou suas tralhas para jogar no Japão. Mas, antes, tem a missão de liderar a Espanha no campeonato em que ela pretende se reinserir como grande força do futebol internacional, depois de duas campanhas bem fracas. É um dos poucos remanescentes da Eurocopa de 2008, quando a sequência espanhola de títulos começou, ao lado de Sergio Ramos, David Silva (àquela época, ainda muito jovem) e Pepe Reina (um excepcional animador de vestiário). O fôlego não é mais o mesmo, as pernas não obedecem como antes, mas a mente segue afiada e genial. Com tantos meias talentoso no elenco, nenhum possui tanta capacidade de tirar o fôlego da plateia quanto Don Andrés, autor do gol do título mundial de 2010.

Coadjuvante

David de Gea

A vez de David de Gea chegou na Eurocopa de 2016. Mesmo com Casillas convocado, foi titular nas quatro partidas da Espanha. Não deu muita sorte. Continuou atuando desde o início nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, com nove aparições em dez jogos – deu lugar a Reina na rodada final contra Israel – e chega à Rússia na melhor fase da sua carreira. A sua temporada pelo Manchester United foi a melhor de um goleiro na Europa, rivalizando com Jan Oblak, do Atlético de Madrid. Defesas improváveis e milagrosas foram a diferença entre derrotas e empates, empates e vitórias. É um daqueles goleiros com capacidade para garantir pontos quase sozinho, o que pode ser muito útil para a seleção espanhola no Mundial.

Fique de olho

Saúl Ñíguez

Saúl, da Espanha, comemora (Photo by Adam Nurkiewicz/Getty Images)

Saúl trocou de base na capital espanhola: do Real para o Atlético. Subiu de categoria e ganhou sua primeira chance entre os adultos em um jogo da Liga Europa, em 2012. Passou uma temporada no Rayo Vallecano para amadurecer e explodiu na temporada 2015/16, quando anotou contra o Bayern de Munique o primeiro de uma série de golaços que seriam sua marca registrada. Não tem muita experiência na seleção principal, mas conta com boa carreira nos times inferiores, campeão europeu sub-19 de 2012 e vice em 2017, quando foi artilheiro do certame com cinco gols. Habilidoso, pode atuar pelos lados do campo ou por dentro e está preparado para sua primeira grande competição pela Espanha, depois de entrar em campo três vezes nas eliminatórias.

O técnico

Fernando Hierro 

A bomba caiu no colo de Fernando Hierro e ele não tem muitos predicados para lidar com ela. Ex-jogador de muito sucesso pelo Real Madrid, presente em quatro Copas do Mundo com a Espanha, sua única experiência como treinador foi um oitavo lugar com o Real Oviedo na segunda divisão. Além disso, foi auxiliar de Carlo Ancelotti quando Zidane deixou a comissão técnica do italiano para comandar o Castilla. Entre 2007 e 2011, foi diretor esportivo da Federação Espanhola, cargo para o qual retornou no final do ano passado. Também tem uma breve passagem administrativa pelo Málaga. Com a saída abrupta de Lopetegui, tem a missão de tentar costurar um vestiário que, em condições normais, já não é dos mais fáceis.

O personagem

Marco Asensio

Marco Asensio, do Real Madrid (Foto: Getty Images)

Quando Marco Asensio tinha oito anos, seus pais encontraram-se com Florentino Pérez e profetizaram: “Um dia meu filho jogará pelo Real Madrid”. O pequeno garoto Marco, batizado em homenagem a Van Basten pela mãe holandesa, era fanático pelos merengues, com direito a dormir abraçado a uma pelúcia do gigante europeu. A mãe, porém, nunca pode ver o sonho do filho se concretizar. Morreu de câncer, em 2011, anos antes de ele assinar pelo Real Madrid. Tocar nesse assunto ainda causa lágrimas ao jovem. Asensio foi contratado, em dezembro de 2014, e terminou a temporada emprestado ao Mallorca. Na sequência, foi emprestado ao Espanyol. Integrou a equipe principal do Real Madrid apenas em 2016 e logo mostrou o que poderia fazer com dois gols na Supercopa da Europa, contra o Sevilla. Virou peça importante do elenco e ganhou ainda mais espaço no ano seguinte, sempre entrando em momentos críticos para ajudar a mudar a sorte do Real. Um desses jogos foi nas quartas de final da Champions League contra o Bayern de Munique, o que motivou uma declaração interessante do diretor bávaro Michael Reschke: “Quem contratou Asensio por € 3,5 milhões merece um monumento”.

Uma história da seleção em Copas

Brutagueño, da Espanha

A seleção dinamarquesa foi a grande sensação da Copa do Mundo de 1986. Já vinha ganhando fama e cultivando o apelido de “Dinamáquina” desde a Eurocopa de dois anos antes, quando caiu apenas nas semifinais. No México, em sua primeira aparição em Mundiais, passou por cima de todo mundo, com 100% de aproveitamento na fase de grupos, vencendo as camisas pesadas da Alemanha Ocidental e do Uruguai (por 6 a 1), além da Escócia de Alex Ferguson. Mas, nas oitavas de final, encontrou com a Espanha e entrou em curto-circuito.

A Espanha, aliás, era quem havia eliminado a Dinamarca na Eurocopa de 1984, nos pênaltis. Vinha em uma fase competente, a melhor desde os anos sessenta quando foi campeã europeia. A equipe treinada por Miguel Muñoz, histórico treinador do Real Madrid, tinha nomes como Andoni Zubizarreta e Míchel, além de um jovem Emilio Brutagueño, que se faria conhecido mundialmente naquele torneio. A campanha em casa na Copa anterior havia sido uma decepção. Ganhou da Iugoslávia, mas perdeu da Irlanda do Norte e empatou com Honduras na primeira fase. No triangular seguinte, perdeu da Alemanha Ocidental, ficou no 0 a 0 com a Inglaterra e foi eliminada antes das semifinais, perdendo a chance de igualar seu melhor resultado em Mundiais, o quarto lugar em 1950.

No México, a campanha foi melhor. A Espanha estreou perdendo do Brasil, por 1 a 0, gol de Sócrates, mas se recuperou ganhando a revanche contra os norte-irlandeses e derrotando a Argélia. Nas oitavas de final, cruzou com a Dinamarca, mas faltou óleo na máquina. Jesper Olsen chegou a abrir o placar, e Brutagueño empatou ainda no primeiro tempo. Marcou o seu segundo depois do intervalo. E o seu terceiro. E o seu quarto. Quatro gols da revelação do Real Madrid, e um de Goikoetxea, destruíram os sonhos dos dinamarqueses. A Espanha acabaria eliminada pela Bélgica, na disputa de pênaltis.

Participações em Copas: 14 (1934, 1950, 1962, 1966, 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014)

Melhor resultado: campeã (2010)

Como o futebol explica o país

O Camp Nou vazio para Barcelona x Las Palmas (Foto: Getty Images)

Em 1º de outubro do ano passado, o Barcelona encarou o Las Palmas, em um Camp Nou silencioso, melancólico, sem torcida, enquanto o Santiago Bernabéu foi tomado por bandeiras da Espanha para a partida contra o Espanyol. Os cenários simbolizavam posturas distintas das duas maiores instituições do futebol espanhol sobre um mesmo assunto: a Independência da Catalunha.

Naquele domingo, o povo catalão foi às urnas para um referendo oficioso sobre a separação da região. A votação não foi autorizada pelo governo central de Madri. Cenas de repressão e violência da polícia nacional tomaram conta das redes sociais. Mais de 700 pessoas ficaram feridas. O Barcelona pediu que o jogo contra o Las Palmas (que usou uma bandeira da Espanha na camisa) fosse adiado, mas não encontrou simpatia nas instituições. Encontrou um meio-termo fechando os portões do estádio para equilibrar a necessidade de entrar em campo com eventuais problemas de segurança.

Mais tarde, a torcida do Real Madrid tomou partido. Contra o também catalão Espanyol, cuja postura em relação à Independência da Catalunha é oficialmente neutra, as arquibancadas do Bernabéu foram tomadas por bandeiras espanholas, cujas instruções diziam “Somos todos o 12º homem e somos todos Espanha”. Uma mensagem de unificação. “Que viva a Espanha”, cantaram.

As bandeiras da Espanha no Bernabéu (Foto: Getty Images)

As repercussões do caso foram graves. O então presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, foi destituído e precisou sair do país para não ser preso. Está oficialmente foragido, embora de vez em quando ainda dê umas entrevistas. Outros dirigentes não tiveram tanta sorte, o que motivou o técnico Pep Guardiola a utilizar um laço amarelo em seu paletó durante partidas do Manchester City, na última temporada, em solidariedade a esses políticos.

Três dias depois, Gerard Piqué apresentou-se para defender a seleção espanhola e, como bandeira do Barcelona, foi vaiado por torcedores. “Eu cogitei sair (da seleção) porque no final temos que considerar todas as opções, mas acredito que o melhor é continuar. Sair agora iria supor dar razão a estas pessoas que entendem que o melhor é vaiar e não vou lhes dar esse luxo”, afirmou.

Esta é uma questão altamente divisiva na Espanha. Os jogadores evitam tomar partido, principalmente os que atuam pela seleção – que já tem uma certa separação entre atletas de Barcelona e Real Madrid sem precisar de problemas políticos.  A mensagem de La Liga, por exemplo, é que o Barça não poderia mais disputar o Campeonato Espanhol em caso de separação, enquanto a autoridade esportiva catalã disse que o clube poderia atuar em qualquer liga europeia, até mesmo a italiana ou a inglesa.

O que a Copa significa para a seleção

A chance de se reafirmar. A Espanha foi a grande seleção do futebol mundial entre 2008 e 2012, com os títulos de duas Eurocopas e da Copa do Mundo de 2010. Mas as decepções no Brasil e na França colocaram a pulga atrás da orelha: será que voltou a ser aquele time que até tem bons jogadores, mas fica mais amarela que roja nas horas decisivas? Com sangue novo e uma boa sequência de resultados, os espanhóis estão loucos para responder que não.

Jogos da Copa

Sexta-feira, 15/06 – 15h – Portugal x Espanha

Quarta-feira, 20/06 – 15h – Irã x Espanha

Segunda-feira, 25/06 – 15h – Espanha x Marrocos

Ficha técnica

Seleção espanhola
Infogram