Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Presente nas Copas de 2002 e 2006, a Polônia não fez campanhas muito empolgantes. E viveria uma entressafra a partir das Eliminatórias para o Mundial de 2010, mesmo que compensasse com aparições na Eurocopa. No qualificatório para a África do Sul, os poloneses foram completamente decepcionantes. Tudo bem que o Grupo 3 era equilibrado, mas terminar em quinto, à frente apenas de San Marino, não é algo positivo. O time somou apenas três vitórias, duas delas contra os nanicos. Ficaram abaixo de Eslováquia, Eslovênia, República Tcheca e Irlanda do Norte. Após sediarem a Euro 2012, quando não empolgaram, a chance para a Copa de 2014 pintou novamente em uma chave complicada. De novo, apenas três vitórias, duas contra os samarineses e outra contra a Moldávia. Sem vencer Inglaterra, Ucrânia ou Montenegro, os alvirrubros passaram longe do Brasil.

As perspectivas melhoraram ao longo do ciclo posterior. Especialmente quando chegou o atual técnico da Polônia, Adam Nawalka, responsável por aguçar o senso coletivo da equipe e tirar o melhor de alguns protagonistas, principalmente Robert Lewandowski. A caminhada rumo à Euro 2016 foi marcante. Na mesma chave que a Alemanha, a Polônia ficou apenas um ponto atrás dos favoritos, conquistando uma vitória inédita e histórica sobre os vizinhos. Fizeram uma campanha elogiável na França, terminando com a pontuação dos próprios alemães em seu grupo e eliminando a Suíça nas oitavas de final, antes de caírem nos pênaltis para Portugal. Então, viria o novo desafio nas Eliminatórias para a Copa de 2018.

Mesmo sem ser cabeça de chave, a Polônia se beneficiou do sorteio. Fugiu dos grandes, em grupo que tinha também Dinamarca, Montenegro, Romênia, Armênia e Cazaquistão. O início arrasador da campanha, com seis vitórias e um empate nas sete primeiras rodadas, foi fundamental à classificação. Bateram os dinamarqueses em Varsóvia, além de superarem romenos e montenegrinos fora. A goleada sofrida na visita à Dinamarca não atrapalhou. Desta maneira, apesar de ainda poder perder a vaga no compromisso final, a Polônia suou, mas provocou a festa em sua torcida com o triunfo por 4 a 2 sobre Montenegro, graças a dois gols no fim.

Durante os amistosos preparatórios, os resultados não impressionaram. Os poloneses tropeçaram em seus principais compromissos, com empates contra Uruguai e Chile, além de derrotas para México e Nigéria. Vitórias, apenas diante de Coreia do Sul e Lituânia. Individualmente, momentos anteriores do ciclo, sobretudo na Euro 2016, eram bem superiores. Mas há potencial para crescer na Copa e chegar aos mata-matas.

Como joga

Nawalka é um treinador sem amarras táticas. A Polônia viveu sua boa campanha na Eurocopa escalada no 4-4-2, com proteção e liberdade aos dois atacantes. Durante as Eliminatórias, optou por 4-2-3-1, em que o jogo se centrava na capacidade de definição de Robert Lewandowski. Já nos últimos amistosos, o treinador faz experimentações. Testou, inclusive, um 3-4-3 que pode servir de alternativa durante as partidas, mexendo suas peças. A intenção é dar mais proteção a uma defesa que tem suas dúvidas e aproveitar melhor as características dos principais jogadores.

O gol é a posição mais tranquila da Polônia, apesar de certa indefinição entre Szczesny e Fabianski. Na defesa, independentemente da formação, Piszczek deve participar. Mesmo com a idade pesando contra seu vigor físico, é uma liderança vital. Glik também entra nesta cota de segurança, esteio no miolo de zaga, mas vem de lesão e por muito pouco não foi cortado. É dúvida entre os titulares, ao menos para as primeiras partidas. Ao seu lado, tem Pazdan, grata surpresa na Eurocopa, mas que não manteve o nível dos clubes. E se for necessário, o brasileiro Thiago Cionek tende a ocupar qualquer lacuna no setor. Pela esquerda, Rybus, rodado com a equipe nacional.

No meio-campo, Krychowiak não desfruta do mesmo moral de dois anos atrás. As passagens frustradas por PSG e West Brom abalaram a reputação do meio-campista. Ainda é alguém importante por sua presença física e pela qualidade de distribuir o jogo, principalmente com os passes longos, mas não parece tão imprescindível. Até porque, pela faixa central, outras alternativas cresceram. Karol Linetty subiu de produção desde que chegou à Sampdoria, se tornando um dos melhores jovens da Serie A. Já Zielinski tem trajetória parecida. Pinçado pelo Napoli há dois anos, virou uma importante engrenagem no meio-campo celeste. Pode entrar como ponta direita, meia central ou à frente da defesa.

Caso Nawalka adote a linha de quatro no meio-campo, as possibilidades aumentam. Rybus avança à ala esquerda, mas também pode dar lugar a Rafal Kurzawa. Pela direita, com Piszczek mantido na zaga, quem pode entrar na ala é Bereszyński. E há uma disputa para ver quem fica como ponta, mais próximo do ataque. Grosicki é muitas vezes útil à seleção, mas pode ser preterido na esquerda por Milik, que tem mais aptidão ao ataque. Já o bom e velho Kuba não vive suas melhores fases, até por uma lesão recente. Por isso mesmo, Zielinski se tornou mais frequente no posto durante as Eliminatórias. O que não se questiona é a preponderância de Lewandowski como homem de referência.

São várias formas de jogar e de fazer o time girar. O desafio de Nawalka será justamente tornar o seu esquema, seja qual for, em uma opção funcional. Os problemas pontuais são variados e geram desconfiança sobre o rendimento da Polônia. Terá que superar estes detalhes em prol do coletivo.

Time base: Fabianski (Szczesny), Piszczek, Glik (Cionek), Pazdan, Rybus; Linetty, Krychowiak; Kuba, Zielinski, Grosicki (Milik); Lewandowski. Técnico: Adam Nawalka.

Dono do time

Robert Lewandowski

Robert Lewandowski (Foto: Getty Images)

Dezesseis gols. Dezesseis absurdos gols em uma única edição de Eliminatórias. O que Robert Lewandowski fez na classificação da Polônia à Copa do Mundo é inédito. Nunca nenhum atleta havia atingido tal marca. E que possa se questionar a força dos adversários, ainda assim a média de 1,6 tento por partida assusta demais. Mostra a importância do centroavante na engrenagem, o que aumentou diante da ausência de Milik. O problema fica para a falta de repertório, se o centroavante não estiver bem. E, convenhamos, seus apagões foram mais comuns do que antes na temporada com o Bayern de Munique. O artilheiro precisará mostrar bem mais do que se viu nos jogos de mata-matas da Champions, quando não conseguiu ser tão efetivo. Nos amistosos recentes, também, não marcou tanta diferença. De qualquer forma, é um dos melhores da posição. Um cruzamento vadio ou uma falta na entrada da área podem ser suficientes para o centroavante decidir.

Bom coadjuvante

Fabianski ou Szczesny

O goleiro Szczesny (Foto: Getty Images)

Goleiro não é o problema da Polônia. A equipe pode não contar com alguém que figure entre os melhores do mundo, mas há duas alternativas bem dignas na posição. E por isso mesmo existe uma incerteza sobre quem começará jogando. Fabianski foi o titular durante a maior parte do ciclo e sempre deu conta do recado, importante na Eurocopa. Szczesny, por sua vez, vem em crescente nos clubes, depois de estourar na Roma e suplantar Buffon à altura na Juventus durante parte da temporada. Será uma escolha por detalhes. Na reta final das Eliminatórias, Szczesny jogou um pouco mais e também foi titular em um dos amistosos. Nos últimos compromissos, porém, ambos têm se revezado no posto. Independentemente de quem atuar, pode se destacar na Copa do Mundo. Mais do que isso, será essencial para resguardar uma defesa que nem sempre se protege bem e ainda pode contar com o desfalque de Kamil Glik. O titular fatalmente será uma liderança importante dentro de campo, entre dois atletas rodados.

Fique de olho

Piotr Zielinski

Reserva na Eurocopa, Zielinski participou de apenas 45 minutos da competição, saindo do banco contra a Ucrânia, na rodada final da fase de grupos. A partir das Eliminatórias, no entanto, transformou-se em uma das grandes certezas da seleção polonesa. Titular em todos os dez jogos na campanha, era o principal garçom, com seis assistências ao longo da jornada. E, ainda que tenha atuado majoritariamente como meia central no tridente de apoio a Lewandowski, pode desempenhar outras funções, principalmente mais recuado no meio-campo, onde costuma atuar pelo Napoli. Não foi titular em toda a Serie A, mas se provou importante em diferentes momentos. Tende a ganhar mais espaço com Carlo Ancelotti, especialmente se os celestes mudarem o esquema tático. Uma boa oportunidade para se firmar, portanto, será na própria Copa do Mundo. A criatividade nos passes e nos dribles são diferenciais. Além disso, o jovem de 24 anos ajudará a oferecer fluidez à equipe, podendo também entrar como ponta.

Personagem além da bola

Jakub Blaszczykowski

Kuba (Foto: Getty Images)

Merecidamente, Kuba disputará sua primeira Copa do Mundo. O veterano estreou pela seleção em março de 2006, mas não teve tempo hábil para mostrar seus predicados e participar do Mundial daquele ano. Ao longo da última década, o ponta transformou-se em um dos mais bem sucedidos jogadores poloneses e também uma clara referência à equipe nacional. As seguidas lesões atrapalharam sua sequência recente. Nada que fizesse o técnico Adam Nawalka abrir mão do veterano, aos 32 anos. Não tem mais a velocidade de outros tempos, mas sua qualidade ainda vale demais ao time.

A Copa representa o ápice da carreira de Kuba na seleção e, caso ele participe de todos os jogos na fase de grupos, fará história. Atualmente, ele soma 99 partidas com a camisa alvirrubra. É o terceiro atleta que mais atuou pelo país. No entanto, pode igualar Grzegorz Lato com mais uma partida e, com outras duas, empatar o recorde de Michal Zewlakow. Reconhecimento e tanto a quem possui uma história de vida trágica.

Quando tinha dez anos, Kuba enfrentou uma dor intraduzível. Presenciou a morte de sua mãe, Anna, assassinada a facadas. O autor do crime atroz era Zygmunt Blaszczykowski, pai do garoto.

“Eu brincava, a janela estava aberta e, de repente, ouvi uma conversa. Sabia quem era. Gelei e percebi eles discutindo. E escutei: ‘Sua vadia!’. Então, vieram os gritos. Corri assim que me levantei. Vi que minha mãe estava deitada em uma vala e podia ver como meu pai ia embora. Fui para casa e gritei: ‘A mamãe está na vala!’. Segui até ela e comecei a tocá-la, senti um cheiro peculiar. Pensei que era leite. Peguei sua mão e toquei na ferida com dois ou três dedos. Sabia que aquilo não era bom. Acho que minha mãe morreu em meus braços. Deu seus três últimos suspiros e nada mais. Silêncio. Eu corri de meias, porque sequer tive tempo de calçar sapatos, para chamar a ambulância. Quando voltei, todos estavam lá. Fiquei chocado. Não havia mais nada. Depois disso, não me lembro de mais nada”, reconta Kuba, em sua biografia.

Zygmunt foi preso e condenado a 15 anos de cadeia. Kuba, juntamente com seu irmão mais velho, Dawid, passou a viver com a avó. Neste momento, pensou em abandonar o futebol e, por dois meses, chegou a se desligar do clube no qual treinava.

O grande incentivador da carreira de Kuba é outro ídolo da seleção polonesa, Jerzy Brzeczek. Tio materno, o meio-campista defendeu a seleção por 42 jogos, de 1992 a 1999, e usou a braçadeira de capitão. Ainda na ativa, convenceu o menino a retomar seu objetivo nos gramados e tratar as oportunidades como uma maneira de superar a dor. Ainda assim, era bastante difícil. Quando tinha 14 anos, Kuba cortou sua própria pele com um vidro. As cicatrizes da depressão permanecem até hoje.

Apoiado pela avó e pelo tio, Kuba se reergueu. O ponta permaneceu no Raków Częstochowa até os 17 anos, quando se transferiu à base do Górnik Zabrze. Profissionalizou-se pelo Czestochowa, depois seguiu ao Wisla Cracóvia e, 11 anos depois do crime, assinava com o Borussia Dortmund, o grande clube de sua vida.

Zygmunt saiu da prisão em 2011, mas faleceu poucos meses depois, às vésperas da Euro 2012. Kuba e Dawid compareceram ao funeral.

“Não é fácil. Porém, é algo que eu nunca esqueci e nunca esquecerei. Faz parte de mim para o resto da minha vida. Fiquei completamente abalado, mudou e moldou a minha vida. É um ponto importante na minha biografia. Só voltei a sorrir quando tinha uns 15, 16 anos”, afirmou Kuba, em 2015. “Enfrentei muitos problemas na minha vida. Sei de tudo pelo que passei e já vi o pior. O futebol me ajudou a superar. Foi o meu primeiro amor. Graças a Deus posso estar sentado aqui hoje e falar sobre tudo”.

A cada gol de Kuba, o mesmo gesto se repete. O polonês levanta o seu dedo indicador e olha aos céus. Há uma saudade que o acompanha, sempre.

Técnico

Adam Nawalka

Jogador do Wisla Cracóvia por dez anos, Nawalka foi meio-campista da seleção polonesa que disputou a Copa do Mundo de 1978. Permaneceu no clube até 1985, quando passou a atuar nos Estados Unidos. E, mesmo defendendo um dos maiores times de seu país, não fez o pé de meia para a seguir a vida após se aposentar. Morando na região de Nova York, passou a trabalhar em uma empresa de cabos elétricos de alta tensão, cortando galhos. Quando voltou à Polônia, após a queda da Cortina de Ferro, começou a vender carros que vinham da antiga Alemanha Oriental, mas também trabalhou com roupas e produtos de beleza. Só depois é que iniciou sua carreira de técnico, fazendo a formação na Itália. Estagiou na Roma com Fabio Capello, antes de rodar no comando de diversos clubes poloneses. Sua grande chance veio em 2007, quando se tornou auxiliar de Leo Beenhakker na seleção, graças à fluência em inglês. Depois, teve sucesso à frente do Górnik Zabrze. Projetou-se suficientemente para ser convidado a assumir a seleção após o fracasso nas Eliminatórias para a Copa de 2014 e transformou os alvirrubros. É um treinador tido como durão e supersticioso, mas mudou a cara da equipe e trouxe alternativas. A Copa do Mundo será a oportunidade para referendar o bom trabalho.

Uma história da seleção nas Copas

Willimowski

Não é sempre que um jogador anota quatro gols em um mesmo jogo de Copa do Mundo. Mais exatamente, apenas sete vezes em Mundiais alguém balançou o filó tantas ou mais vezes. O pioneiro é um polonês. Ernest Willimowski maltratou o goleiro Batatais, no célebre confronto com o Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1938. O centroavante anotou três gols e ainda sofreu um pênalti durante os 90 minutos regulamentares, em empate por 4 a 4 que levou o duelo em Estrasburgo à prorrogação. No tempo extra, porém, ficaria difícil segurar a genialidade de Leônidas. Willimowski até marcou mais um, mas os brasileiros fizeram dois e asseguraram a classificação com um impensável 6 a 5 no placar.

Frio e dono de um oportunismo notável, habilidoso driblador, exímio finalizador, capaz de dominar a área apesar de seu 1,70 m: todos os predicados sobre Willimowski se confirmam através de seus números impressionantes. Levando em conta apenas os jogos oficiais, o atacante marcou 554 gols, que o colocam como 10° maior artilheiro da história, segundo o RSSSF. Se forem somados os amistosos também, a marca chega aos 1.175 tentos – o que é relevante, considerando o período acidentado no qual atuou. Já pela seleção polonesa, foram 22 gols em 21 partidas. Trajetória que acabou diretamente influenciada pela Segunda Guerra Mundial.

Willimowski nasceu em Kattowitz, que fazia parte do Império Alemão em 1916. Seu nome de batismo é Ernst Otto Pradella. Após seu pai morrer durante a Primeira Guerra Mundial, foi criado pela mãe. Então, em 1922, parte da região da Silésia foi unificada à Polônia. Já adolescente, adotaria o sobrenome do padrasto, Willimowski, assim como a identidade polonesa, embora preferisse se referir como silésio.

Formado pelo Fc Kattowitz, Willimowski estourou no Ruch Wielkie Hajduki (atual Ruch Chorzów), virando um dos maiores astros do futebol polonês. Conquistou quatro vezes o campeonato nacional e por três vezes foi seu artilheiro. Autor de 10 gols em uma mesma partida, atribuía o talento ao “talismã” no pé direito, com seis dedos. Convocado para a seleção a partir de 1934, a indisciplina o tirou dos Jogos Olímpicos de 1936, mas ganharia notoriedade na Copa de 1938. Um jogo bastou para escrever sua história. Até hoje, é o único atleta a marcar quatro gols em um jogo contra a seleção brasileira. Deslumbrados, dirigentes brasileiros lhe ofereceram um contrato para vir jogar no país, o que lhe interessou, mas acabou impedido pela federação polonesa.

Em 1939, porém, a Segunda Guerra Mundial estourou a partir da anexação da Polônia pelo Terceiro Reich. E, de ídolo nacional, herói na vitória sobre a Hungria apenas quatro dias antes do conflito, Willimowski foi considerado um traidor por recobrar sua cidadania germânica. Primeiro, ele voltou para Kattowitz, onde as autoridades nazistas formaram um esquadrão com jogadores locais para tentar insuflar sobre os silésios uma identidade alinhada com o novo poder central. Já em 1940, o atacante rompeu de vez os seus laços com a Polônia, ao se mudar para a Saxônia e se juntar ao PSV Chemnitz. Atuar em um clube alemão, no fim das contas, ajudou-o a não combater na guerra. Era o caminho para escapar dos riscos em uma Europa assolada. “Por que meu pai aceitou defender o Terceiro Reich? Porque ele não queria morrer”, declarou sua filha, Sylvia Haarke, em entrevista concedida em 2007.

Naquele momento, Willimowski se tornou um dos grandes craques do futebol no Terceiro Reich. Em 1941, passou a ser convocado por Sepp Herberger para a seleção alemã. Chegou a disputar um amistoso contra a Romênia em plena Silésia, aclamado na goleada por 7 a 0 dos germânicos. Além disso, formava uma parceria de ataque avassaladora com Fritz Walter. Contudo, em 1943, a equipe nacional interrompeu suas atividades diante dos desdobramentos da guerra. O artilheiro passou a se dedicar apenas à carreira nos clubes, transferido ao Munique 1860. Pior, ainda viu sua mãe ser levada ao campo de concentração de Auschwitz, após se envolver amorosamente com um judeu russo. A influência do filho a salvou da câmara de gás.

Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, Willimowski ainda tentou retornar à Silésia. Foi impedido pelo novo regime que se instaurava, por ter “traído a pátria”. Então, o atacante permaneceu na Alemanha. Considerado pária, perambulou por pequenos clubes, até conseguir se estabelecer no VfR Kaiserslautern, o segundo time da cidade. Embora sua equipe não disputasse a taça, o artilheiro marcou 70 gols em 90 jogos no Campeonato Alemão entre 1951 e 1955. Aos 38 anos, tinha bola para estar na Copa do Mundo de 1954, mas acabou ignorado pelos germânicos, o que se transformou em uma grande decepção na sua vida. O Nationalelf, treinado novamente por Sepp Herberger, tinha como base justamente os rivais do 1. FC Kaiserslautern. “É provavelmente o único jogador no mundo que marcou mais gols do que teve chance de fazê-los. Para mim, foi o melhor atacante da história”, escreveu em sua biografia o ex-companheiro Fritz Walter, capitão na conquista em Berna. Pela Alemanha, o silésio somou 13 gols em suas oito aparições.

Como o futebol explica o país

A Revolta de Varsóvia marca um dos principais momentos da Segunda Guerra Mundial e da história da Polônia. Em agosto de 1944, a população da cidade e o exército polonês organizaram a maior resistência de toda a guerra. Tentavam libertar a região do domínio dos nazistas e aguardavam o avanço do exército soviético. Um esforço militar que durou 63 dias e resultou na morte de 200 mil civis, além de deixar 700 mil refugiados. Os poloneses perderam a batalha, mas ganharam um símbolo dos esforços contra os alemães na libertação consumada meses depois.

A revolta é comemorada como um feriado nacional na Polônia. E o futebol se envolve neste cenário. As partidas do Campeonato Polonês guardam um minuto de silêncio na data. Entretanto, os ultras do país deixam ainda mais clara a sua posição, além dos estádios. Durante os últimos anos, a torcida do Legia Varsóvia (um clube com relações umbilicais com o exército, fundado durante a Primeira Guerra Mundial) passou a sair às ruas. Levou sinalizadores e bandeiras para marcar a data. Uma exaltação à história, mas que também marca o ultranacionalismo evidente nas arquibancadas.

A história contemporânea da Polônia, afinal, é marcada por extremos. Os clubes acabam sendo mais uma parte do contexto entre invasões e supressões, embora as últimas três décadas sejam preponderantes em seu ambiente. Por mais que a estrutura do futebol local tenha sido determinada pelo modelo estatal comunista, os estádios acabaram se transformando em palcos de oposição ao regime. A maioria das torcidas caminhou à extrema direita durante a reabertura do país, após a queda da Cortina de Ferro.

Manifestações políticas são comuns nos estádios da Polônia. Diversos grupos de ultras se posicionam através de bandeirões e mosaicos. Demonstram o seu nacionalismo, exaltam personagens históricos, criticam decisões das autoridades. Um episódio emblemático aconteceu em 2015. Para se solidarizar com os refugiados sírios, a Uefa passou a destinar €1 de cada ingresso à causa. A torcida do Lech Poznan boicotou a rodada por se contrapor a isso. A postura gerou diversas críticas. Semanas depois, os seguidores do Legia tomaram outra atitude. Para evitar o boicote, pediram para que a Uefa destinasse a arrecadação em seu estádio a famílias polonesas em situação de risco na região de Donbass, na Polônia, que também vivia um conflito civil.

O extremismo nas arquibancadas da Polônia suscita uma série de questões. Inclusive, o racismo e o antissemitismo. A postura do Legia Varsóvia no caso dos refugiados, que pode significar patriotismo a uns, representa xenofobia a outros. Visões que constituem um barril de pólvora, entre os espetáculos durante as partidas e os casos de violência envolvendo os ultras – costumeiros, por exemplo, em duelos por competições continentais com clubes ucranianos, até alinhados ideologicamente, mas opostos por fronteiras.

Os estádios, no fim das contas, acabam representando um recorte da sociedade. O atual cenário político na Polônia é dominado pelo PiS, partido de direita tido como populista, mas acusado de autoritarismo e de ferir o Estado de Direito. Os atritos com a Alemanha e com a União Europeia colocam até mesmo em risco a permanência no bloco continental. A direção do apoio popular será fundamental para definir os rumos do governo polonês.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

Cabeça de chave no sorteio, a Polônia tem certa responsabilidade em seus ombros. A estratégia de evitar amistosos e subir no Ranking da Fifa deu certo, mas o grupo equilibrado está distante de oferecer facilidade. Se repetir o time dos anos 1970 parece difícil, a meta é evitar as frustrações de 2002 e 2006, quando os poloneses caíram na fase de grupos. Dependerá bastante de seus protagonistas.

Jogos na Copa

Terça-feira, 19/06 – 12h – Polônia x Senegal

Domingo, 24/06 – 15h – Polônia x Colômbia

Quinta-feira, 28/06 – 11h – Japão x Polônia

Ficha técnica

 

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