Como foi o ciclo da seleção até a Copa

A classificação argentina para a Copa foi bastante turbulenta, conquistada apenas na última rodada das Eliminatórias. Um reflexo do caos que o país viveu no seu futebol, e aí incluindo a seleção. Depois de chegar ao final da Copa do Mundo de 2014, a Argentina mudou o seu comando em campo. Saiu Alejandro Sabella, entrou Gerardo Martino. Uma escolha que parecia fazer sentido, já que o treinador tinha experiência com seleções ao levar o Paraguai às quartas de final da Copa do Mundo de 2010, além de ter treinado o Barcelona na temporada anterior – sem sucesso, é verdade.

Com Gerardo Martino, a Argentina fez seis jogos nas Eliminatórias com uma derrota, dois empates e três vitórias, nessa ordem. Jogou duas Copas América, em 2015 e 2016. Nas duas, chegou até a final, mas acabou derrotada pelo Chile nos pênaltis. Na segunda derrota, Messi deixou o campo chorando e, depois do jogo, disse na zona mista que se aposentaria da seleção. Outros jogadores pareciam que seguiriam o mesmo caminho, como Sergio Agüero e Javier Mascherano. As incertezas que a Asociación del Fútbol Argentino (AFA) vivia fora de campo entraram no gramado. Não se sabia nem qual seria o time a partir dali.

Só que não foi pela campanha que o técnico deixou o cargo. Às vésperas dos Jogos Olímpicos do Rio, a federação argentina passava por uma disputa de poder, que ainda não se sabia como iria acabar. Mais do que isso, a desorganização fez com que o time não pudesse contar com jogadores importantes e a cada momento ficava mais difícil montar a equipe. Em uma reunião dentro da federação, Martino manifestou seu descontentamento. Decidiu ali se demitir.

Sem Martino, a federação recorreu a Edgardo Bauza, ex-jogador e técnico campeão da Libertadores por LDU e San Lorenzo. Estava no São Paulo quando foi chamado. Depois de deixar o clube brasileiro esperando a sua decisão, aceitou o convite. O problema é que Bauza representava uma quebra muito grande em relação a estilo de jogo. Pragmático, Bauza costuma montar times pouco atrativos, baseados em sistemas defensivos sólidos e transições rápidas. E sua primeira missão foi trazer de volta jogadores como Messi para a seleção.

O desempenho de Bauza no comando da Argentina não foi bom. O time venceu três vezes, empatou duas e perdeu outras três. Foi contratado em agosto de 2016, mas demitido em abril de 2017, depois de poucos meses no cargo e com a seleção argentina em quinto lugar nas Eliminatórias, ameaçada de não se classificar. A última cartada da AFA foi em Jorge Sampaoli. Um treinador com o histórico favorável, que tinha sido algoz da Argentina na Copa América de 2015 dirigindo o Chile. Parecia o treinador certo para a seleção, mas o tempo era curto. Foi apresentado em junho de 2017, com apenas quatro jogos das Eliminatórias para levar a Argentina à Copa do Mundo.

Apesar de estrear bem contra o Brasil em um amistoso, vencendo por 1 a 0 – primeira derrota de Tite no comando do Brasil – e de vencer Cingapura em amistosos por goleada, Sampaoli sofreu nas Eliminatórias. Foram três empates seguidos contra Uruguai, Venezuela e Peru. Chegou ao último jogo, contra o Equador, em Quito, precisando de uma vitória. Foi quando Lionel Messi colocou a bola embaixo do braço e venceu o jogo para a Argentina por 3 a 1, marcando os três gols. Vaga na Copa garantida.

Como joga

Jorge Sampaoli é da escola Marcelo Bielsa de treinadores. É um técnico que gosta de times ofensivos, com muitas trocas de passes e que domina a posse de bola. Isso é na teoria, porque a prática engoliu Sampaoli no caos da Argentina. Nos seus primeiros jogos, ele tentou atuar em uma formação tática que usa com frequência, a linha de três zagueiros e um meio-campo muito preenchido, com jogadores ofensivos como alas. Só que isso foi ruindo e as más atuações levaram o técnico a rever esse conceito. Voltou com a linha de quatro e tratou de fazer tentar o time encaixar o seu modelo de jogo.

“Se Leo estiver OK, o time estará mais sob o controle dele do que meu”, afirmou Sampaoli se referindo a Messi. O que indica que o time da Argentina vai circundar ao redor do seu craque, camisa 10 e capitão. Além do número, Messi exerce também o papel de 10 na Argentina, atrás do centroavante no 4-2-3-1. No gol, Willy Caballero parece o favorito a jogar por ser o mais experiente, já que Sergio Romero, titular do time foi cortado por lesão. Franco Armani é quem vive a melhor fase, mas pouco jogou pela seleção argentina, embora venha merecendo um espaço. Nahuel Guzmán, que foi convocado para o lugar de Romero, não deve ser mais que um reserva.

Há dúvidas no time, que tem deficiências defensivas. O melhor nome é Nicolás Otamendi, do Manchester City, que atuou com muita qualidade no clube e é o mais confiável dos zagueiros. No meio-campo, Lucas Biglia é titular, mas o seu parceiro ainda está em aberto. Sampaoli indicou que Giovani Lo Celso, do PSG, deve ser o escolhido, mas ele pode optar pela experiência e capacidade de marcação de Javier Mascherano também.

O ataque é o ponto forte do time. São muitos nomes de qualidade. Sergio Agüero larga como favorito para comandar o setor, mas Gonzalo Higuaín tenta recuperar o posto. Ángel Di María pode entrar pelas pontas, dando criatividade. Paulo Dybala pode também atuar pelos lados, embora prefira fazer a função que é justamente de Messi. Teve boa temporada na Juventus. E ainda tem Cristian Pavón, do Boca Juniors, um jogador que já mostrou muita qualidade.

Time-base: Willy Caballero; Gabriel Mercado, Federico Fazio, Nicolás Otamendi e Nicolás Tagliafico; Lucas Biglia e Giovani Lo Celso; Paulo Dybala (Cristian Pavón), Lionel Messi e Ángel Di María; Sergio Agüero. Técnico: Jorge Sampaoli.

Dono do time

Lionel Messi

Lionel Messi, capitão e craque da Argentina (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)

Como não poderia ser diferente, o grande craque da Argentina é Lionel Messi, discutivelmente o melhor jogador do mundo. Será a quarta Copa do Mundo do jogador, que foi reserva em 2006 e já era o protagonista em 2010 e 2014. A capacidade técnica e de decisão de Messi é evidente, mostrada ao longo dos anos. Aos 30 anos, ele tem uma gama de recursos ainda melhor do que nas outras Copas, adicionando elementos para ser não só o artilheiro voraz que se tornou, mas também o melhor passador possível, como foi nesta temporada e já tinha mostrado ser em outros momentos. Para isso, porém, os seus companheiros precisam ajuda-lo convertendo as chances que ele criar, assim como os espaços que ele irá abrir.

Somando jogos por clube e seleção na temporada, Messi fez 58 partidas e marcou 50 gols, fazendo 14 assistências. Contando só o Campeonato Espanhol, foram 12 passes para gols. E mais do que isso, foi o jogador que mais fez passes chave na liga, com 87. Mais do que qualquer um. O segundo foi Lucas Pérez, do Deportivo La Coruña, com 79. Messi se tornou um grande passador, mas a diferença entre Barcelona e Argentina é que para ele ser decisivo também com gols, do seu lado no clube catalão tinha Luis Suárez, que também fez 12 assistências na liga.

Messi sabe que a responsabilidade pesa sobre ele. Por mais que Diego Maradona diga que o seu herdeiro da camisa 10 não tenha que provar nada para ninguém, o capitão argentino sabe que essa é provavelmente a sua melhor chance de ganhar uma Copa do Mundo. Em 2022, é possível que ele ainda tenha condições de jogar, aos 34 anos, mas dificilmente ele terá condições físicas tão boas quanto ele tem hoje, ainda que seja difícil prever o que acontecerá daqui quatro anos. Por isso, devemos esperar um Messi que jogue tudo que puder, aposte todas as suas fichas.

Bom coadjuvante

Ángel Di María

Ángel Di María, da Argentina (Photo by Gabriel Rossi/Getty Images)

Entre os companheiros de Messi, Di María é quem melhor se encaixa no papel de coadjuvante. O jogador do Paris Saint-Germain é bastante versátil e tem sido importante no clube parisiense, sendo um ponta criador. Na Ligue 1, fez 51 passes para finalizações. É um jogador que gosta de atuar pelas pontas e deve ser o titular no lado esquerdo. É rápido e inteligente, embora sofra de um mal que todo o time argentino sofre: a mentalidade. O camisa 11 é um tecnicamente excelente, mas mentalmente sente muito os jogos. Daí a importância de ter ao seu lado atletas que podem tornar o time mais forte, assim como o técnico, que os lidere.

Fique de olho

Giovani Lo Celso

Giovani Lo Celso, da Argentina (Photo by Gabriel Rossi/Getty Images)

Aos 22 anos, Giovani Lo Celso chega à Copa com muita moral com o técnico Jorge Sampaoli e com boas chances de ser o titular no meio-campo. Um meia ofensivo de origem, foi recuado no Paris Saint-Germain por uma necessidade do time e passou a ser, algumas vezes, o jogador mais recuado do meio-campo. Na Argentina, deve ser o companheiro de Lucas Biglia para começar as jogadas do time. Tem potencial para brilhar, especialmente com a bola. Sem a bola, o seu desafio vai ser manter o equilíbrio defensivo do time. É o mais jovem dos 23 convocados pela Argentina, mas com potencial de ser jogador para mais de uma Copa como titular.

Personagem

Franco Armani

Franco Armani, da Argentina (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)

Convocado pela primeira vez aos 31 anos, Franco Armani foi um meteoro que surgiu na reta final do ciclo da Copa. Sua carreira foi bastante discreta na maior parte do tempo. Iniciou no Ferro Carril Oeste, em 2006, e em 2008, foi para o Deportivo Melo, um time de terceira divisão. Em 2010 se mudou para o Atlético Nacional. E essa transferência mudou a sua vida.

O goleiro era pouco conhecido mesmo entre os argentinos até dois anos atrás. Só que em 2016, atuando pelo envolvente Atlético Nacional, Armani ganhou popularidade e ficou conhecido em todo o continente. Conquistou 13 títulos na Colômbia, chamando muito a atenção de um dos gigantes do país, o River Plate.

Se mudou para a Argentina em janeiro de 2018 e, desde então, suas atuações têm sido no mais alto nível. Desde 2016 passou a ser cotado para a seleção argentina e também para a colombiana, pela qual poderia se naturalizar pelo tempo morando no país. O jogo contra o Boca Juniors pela Supercopa Argentina foi um marco, com muitos elogios ao poder de decisão do goleiro, algo que os Millonarios sentiram muita falta nos últimos anos.

Com atuações de alto nível e o goleiro da Albiceleste, Sergio Romero, questionado, Armani passou a ser cogitado não só para ser convocado, mas para ser titular. Com o corte do goleiro do Manchester United, essa possibilidade passou a ser ainda mais cogitada.

Técnico

Jorge Sampaoli

Jorge Sampaoli, técnico da Argentina (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Quando era treinador do Chile, Sampaoli era visto como um grande nome para assumir a Argentina. Até ali, sua carreira tinha três grandes trabalhos: a Universidad de Chile, que ele transformou em uma equipe forte na América do Sul; a seleção chilena, que ele fez vencedora; e o Sevilla, onde ficou só uma temporada, mas que causou um impacto positivo em termos de desempenho. Tudo isso o qualificou para ser o técnico da Albiceleste. Um desafio muito duro, como se mostrou nos meses seguintes ao assumir o cargo.

Isso demorou mais para acontecer do que provavelmente os torcedores gostariam. Depois de deixar o Chile, ele ainda treinou o Sevilla antes de assumir a Argentina. O problema foi que ele chegou com pouco tempo para montar o time e demorou para perceber que não seria possível fazer tudo do jeito que ele imaginava. Sampaoli levou tempo para conseguir fazer o time se encontrar e, taticamente, ainda é uma seleção longe de estar confortável.

Terá na Rússia o seu maior desafio na carreira. O Chile é uma seleção que ele conseguiu levar longe, com a melhor geração da história do país, e não eliminou o Brasil na Copa de 2014, na casa brasileira, por um triz – ou alguns diriam uma bola na trave de Mauricio Pinilla. Ganhou a Copa América pela Roja e fez história. No seu país, o time ainda tem sofrido. Os 6 a 1 sofridos diante da Espanha em março deixaram muitas desconfianças. Sampaoli terá o papel de fazer as coisas funcionarem e tirar o melhor de um grupo que é claramente talentoso, mas passa longe de ser um time tão coletivamente forte quanto o rival Brasil, ou mesmo a Alemanha. Transformar a Argentina em um time é o grande trabalho de Sampaoli.

História da seleção na Copa

O dia mais triste da Argentina

Diego Maradona, da Argentina, no jogo contra a Nigéria na Copa 1994 (Foto: Ben Radford/Allsport)

Um dos grandes gols da história das Copas, combinada com uma comemoração marcante, significaram um momento de uma alegria quase incontrolável. Dias depois, porém, aquelas cenas seriam revertidas em uma tristeza que tomaria conta do país – e até do mundo, de certa forma. O maior representante de um futebol mágico, fantasioso, quase impossível, caía em uma situação controversa até hoje: o doping por efedrina. Os últimos momentos de Diego Maradona em uma Copa do Mundo são momentos de enorme tristeza e também de revolta.

O dia 30 de junho de 1994 foi o dia que Diego Maradona foi excluído da Copa do Mundo por doping. Efedrina, uma substância que melhora o desempenho. Um dopante. Não era cocaína, uma droga social, aquilo que o tinha feito pagar a pesada pena de 15 meses de suspensão pouco antes.

Tudo começa em 1991, quando Maradona foi pego no antidoping pela primeira vez por uso de cocaína. Foi suspenso por 15 meses, o que acabou com a sua carreira na Itália. Não pelo Napoli, que o queria por lá, mas porque ele se sentia perseguido no país. Era março de 1991 quando foi suspenso, e só voltaria a campo em 1992. Deixou o Napoli e escolheu voltar à Espanha. Foi para o Sevilla, onde se juntou a Carlos Billardo, seu técnico no triunfo da seleção argentina na Copa de 1986. A sua temporada não foi das melhores. Mas ele planejava uma volta, triunfante como deveria ser para alguém do seu nível.

“Eu estou cansado daqueles que dizem que eu estou gordo e não sou mais o grande Maradona. Eles verão o verdadeiro Diego na Copa”. Conseguiu. Conseguiu tanto que a Argentina, comandada por um Maradona em forma, física e técnica, atropelou a Grécia por 4 a 0 na estreia, com direito a uma atuação de gala do eterno 10. Inclusive com um golaço. Um gol para a eternidade. Uma comemoração em fúria, como se lembrando dos críticos que o chamaram de gordo e que ele nunca mais seria o mesmo. Ele estava ali, produziu uma exibição do mais alto nível.

Na segunda partida pela competição, a Argentina jogaria contra a Nigéria e Maradona estava sofrendo com um resfriado, estava com o nariz entupido, e pediu ajuda a Fernando Signorini, seu treinador pessoal. Foi ele que, junto com Daniel Cerrini, tiveram a missão de colocar o maior craque argentino em forma nos 12 meses anteriores à Copa do Mundo nos Estados Unidos. Cerrini era um personagem controverso. Esteve envolvido em um escândalo de doping, em 1989. Signorini suspeitava dos métodos que o preparador usava para ter feito Maradona emagrecer e voltar a se sentir bem e confiante.

Antes do jogo contra a Nigéria, Maradona tomou um coquetel de remédios para combater seus problemas de sinusite, seu peso e sua dieta. A Argentina venceu os Super Águias e Diego foi sorteado para o antidoping. Foi pego: efedrina. Uma substância usada para melhorar a respiração de asmáticos, além de ser usada também para perda de peso, mas proibida pelas normas.

O camisa 10 enfurecido de dentro de campo converteu-se em uma figura abatida no hotel Sheraton Park Plaza, em Dallas, no Texas. Calmamente, ele falou. “Eles [Fifa] cortaram minhas pernas. Isso foi algo bem sujo. Eu gostaria de acreditar em [João] Havelange e [Sepp] Blatter, mas depois disso… Bem, eu não quero dizer mais nada”. As palavras do craque da Argentina reverberaram. Ele foi banido da Copa por doping. Era fácil condená-lo: um drogado, ex-usuário de cocaína. Mas o doping foi por efedrina. A insinuação de uma conspiração era a sua forma de se defender. De atacar aqueles que o atacavam.

Para Marcela Mora y Araujo, especialista em futebol argentino e tradutora da autobiografia do craque, Maradona não estava errado em culpar a organização da Copa nos Estados Unidos e a Fifa, embora ele também tenha sua parcela de culpa. “De quem é a culpa pelo incidente da efedrina? Bem, provavelmente Maradona, seus médicos e o comitê organizador da Copa e a Fifa em medidas iguais. Provavelmente. Uma enquete pode dizer outra coisa, mas esse é o meu palpite”, disse.

A narrativa era fácil de ser absorvida: Maradona caiu no doping porque tentava uma volta depois de ser pego no doping e usou substâncias ilegais para ficar em forma. Foi a justificativa para tirá-lo da Copa. Mas quando o Comitê Executivo da Copa do Mundo se reuniu em Zurique para julgar o caso, eles concluíram que ele não usou conscientemente a substância para melhorar o seu desempenho.

O histórico de Maradona pesou para a sua punição imediata nos Estados Unidos, condenado no calor de um jogo. Em um país que tinha uma guerra contra as drogas,. Maradona era símbolo de cocaína, do que a organização americana queria afastar. Sua punição foi algo decidido sem nem pensar. “Um ex-drogado só pode ser culpado”. No fim, Maradona foi punido, junto com Cerrini, por 15 meses de suspensão.

Maradona confiou em pessoas que o traíram, incluindo alguém suspeito como Cerrini, com seus trabalhos com dietas e vitaminas. A Argentina foi negligente com o seu maior craque, quando deveria acompanhar cada passo dele para garantir que ele teria a melhor volta possível. O próprio Maradona deveria saber que era preciso tomar cuidado. Tratado como a estrela que era, tinha liberdade para fazer o que quisesse, como quisesse. Abriu o seu círculo para quem pode ter falhado com ele. E a organização da Copa não teve dúvida em trata-lo como um drogado, mesmo que o doping tenha sido por outra substância.

O dia mais triste da história da Argentina nas Copas não foi uma derrota. Nem foi um jogo. Foi 30 de junho de 1994, quando Maradona foi impedido de estender o seu legado de glórias em Copas do Mundo. Traído por quem o cercava, por dirigentes, por ele mesmo.

Como o futebol explica o país

Claudio Tapia, presidente da AFA (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)

“O futebol está em uma crise terminal, pior do que estava antes. Os dirigentes do futebol argentino querem levar vantagem e não fazem as coisas seriamente. Eles vão atrás apenas de um paliativo para o problema, e não levam as coisas a sério”. As palavras fortes são de Mauricio Macri, presidente da Argentina, em janeiro de 2017. Foi quando o presidente cortou uma relação quase umbilical que o futebol do país tinha com o governo. A AFA viveu uma das suas maiores crises da história entre 2015 e 2017. E embora a situação tenha amenizado, chegamos a 2018 com a situação controlada, mas ainda problemática. O futebol na Argentina é uma paixão insana e emocional, gerido por incompetentes, corruptos ou pelos dois.

A crise foi desencadeada com a morte de Julio Grondona, em 2014. O dirigente ficou à frente do futebol argentino de 1979 até sua morte em 2014. Foi também vice-presidente da Fifa de 1988 até sua morte. Foi ainda o principal dirigente da América do Sul nesse período, sendo altamente influente e, como o Fifagate mostrou em 2015, se tornou uma espécie de Don Corleone da Conmebol.

Com a morte de Grondona, assumiu Luis Segura como interino e em 2015 haveria novas eleições. A eleição de 2015, porém, acabou em uma enorme confusão: apesar de ter 75 votantes, surgiram 76 votos. O caso não foi devidamente esclarecido. Em junho de 2016, a Fifa fez uma intervenção na AFA depois que Segura foi acusado de “grave fraude administrativa”. Foi substituído pelo interventor Damián Dupiellet. Em março de 2017, finalmente aconteceu uma eleição que foi vencida por Claudio Tapia, um ilustre desconhecido que preside o também desconhecido Barracas Central, um pequeno clube da terceira divisão, mas bem relacionado nos bastidores. Como é comum quando o poder é ameaçado, ele foi a solução de consenso para que as coisas mudem para continuar como estão. Mais ou menos como acontece no Brasil.

O futebol argentino é isso, uma potência capaz de produzir talentos em profusão, tendo Lionel Messi como a sua maior estrela. Os argentinos trazem algo muito parecido com o Brasil: clubes tradicionais, torcedores apaixonados – discutivelmente os que mais demonstram sua paixão na América do Sul. Tudo isso misturado com uma inacreditável desorganização, corrupção e capacidade auto-destrutiva.

O que a Copa do Mundo significa para aquela seleção

A Copa significa redenção. Para Messi, para Sampaoli, para a Argentina. A Albiceleste não ganha um título, no futebol profissional, desde 1993. É uma prova de fogo para todo mundo envolvido. A Argentina foi finalista da Copa em 1990 e em 2014, depois de viver decepções, de diversas maneiras, em 1994, 1998, 2002, 2006 e também 2010. Tem a Alemanha atravessada na garganta. Messi tem a Copa do Mundo como sua última fronteira a ser conquistada. Nas palavras do próprio Messi, é a última chance da sua geração. Então, a Copa do Mundo vale tudo para a Argentina.

Jogos na Copa

Sábado, 16/06 – 10h – Argentina x Islândia

Quinta-feira, 21/06 – 15h – Argentina x Croácia

Terça-feira, 26/06 – 15h – Argentina x Nigéria

Ficha técnica

Guia da Copa 2018 – Argentina
Infogram