Como foi o ciclo da seleção até a Copa

A Bélgica saiu da Copa 2014 pensando em melhorar o desempenho para a Eurocopa da França, mas o resultado final foi até mais decepcionante do que o que se viu no Brasil. Depois de superar a primeira fase, passou pela Hungria com facilidade nas oitavas de final, mas caiu diante do surpreendente Gales, de Gareth Bale. Com isso, Wilmots ganhou o famoso bilhete azul e a Bélgica passou a procurar um novo técnico. A escolha foi surpreendente, o espanhol Roberto Martínez.

O treinador vinha de um trabalho ruim na segunda temporada no Everton, mas teve bons momentos no seu primeiro ano no clube de Liverpool. Ele levou Thierry Henry como assistente e passou a tentar mudar um pouco a forma do time jogar. A classificação veio com muita tranquilidade e de forma invicta. Foram 10 jogos, com nove vitórias e um empate, com 43 gols a favor e apenas seis contra. Tudo bem, alguém dirá, os adversários não foram lá do mais alto nível: a segunda colocada no grupo foi a Grécia, a terceira foi a Bósnia. Depois, Estônia, Chipre e Gibraltar, times que estão entre os mais fracos do continente.

Nos amistosos, os resultados também foram ótimos. O time está se entendendo melhor e conseguindo bons resultados, melhorando o desempenho abaixo do esperado, como era até 2016. Martínez perdeu apenas um jogo desde que assumiu, o seu primeiro, em um amistoso com a Espanha, em Bruxelas. Vitória espanhola por 2 a 0, com dois gols de David Silva. Desde então, nenhuma derrota.

Por isso, o time chega com ainda mais expectativa do que 2014. O desafio será justamente como aquele primeiro jogo de Hazard. Já deu para perceber que a Bélgica é forte, capaz de vencer muitos times. Como só enfrentou a Espanha entre os mais fortes do mundo nos últimos dois anos, não há parâmetro para saber a real força da Bélgica. O desafio é vencer os maiores, como a própria Espanha, Brasil, Alemanha. Veremos se será capaz disso.

Como joga

O técnico Roberto Martínez trabalha em um esquema 3-4-3, tentando aproveitar algumas das melhores características dos seus jogadores. Na Copa 2014, Witsel jogava em um 4-2-3-1. A principal diferença para 2018 é a saída de um dos meias centrais para a entrada de um zagueiro, adiantando os laterais para serem alas. Aliás, o ala do lado esquerdo é um atacante, Yannick Carrasco. No lado direito, é o lateral Thomas Meunier que faz a função.

Na defesa, em condições normais, a linha será formada por Alderweireld, Kompany e Vertonghen. No centro do campo, Axel Witsel continua como titular, mas Marouane Fellaini virou reserva. Kevin De Bruyne é quem atua por ali, recuado da posição mais avançada da Copa passada. No ataque, Mertens, Eden Hazard e Romelu Lukaku formam um trio bastante goleador.

Ofensivamente, a Bélgica é um time muito perigoso e capaz de enfrentar as defesas mais fortes com os jogadores que tem. Já defensivamente, o potencial de sofrer gols também é alto. O que significa que precisará quase sempre marcar muito para vencer, algo que pode ser complicado nos jogos de mata-mata.

Time-base: Thibaut Courtois; Toby Alderweireld, Vincent Kompany e Jan Vertonghen; Thomas Meunier, Axel Witsel, Kevin De Bruyne e Yannick Carrasco; Dries Mertens, Eden Hazard e Romelu Lukaku. Técnico: Roberto Martínez.

O dono do time

Eden Hazard

Eden Hazard, o nome da Bélgica (Foto: AP Photo/Francois Mori)

O camisa 10, Eden Hazard, é o grande nome da seleção belga. Sua temporada não foi tão boa quanto a anterior, mas é um dos melhores da Premier League. É um jogador criativo e habilidoso, que sai das pontas para o meio. Chega em 2014 como o capitão do time e precisando mostrar que consegue ir bem também em um palco como a Copa do Mundo. No Brasil, ele salvou o time de atuações fracas. Na Rússia, ele espera ter mais suporte para, enfim, brilhar.

O bom coadjuvante

Kevin de Bruyne

De Bruyne, da seleção belga (Foto: Getty Images)

Fez a melhor temporada da sua carreira atuando pelo Manchester City e chega com muita moral na Rússia. É um jogador discreto, dentro e fora de campo, mas consegue ser decisivo com seus passes e o controle de jogo que ele tem. No esquema 3-4-3 da Bélgica, o jogo e o ritmo passam muito pelos seus pés, que é quem dará velocidade ou cadência ao time. Sua principal virtude é o passe, o que torna a Bélgica muito perigosa, já que tem Mertens e Hazard saindo da ponta para o meio.

Fique de olho

Yannick Carrasco

O talentoso atacante foi para o futebol chinês em janeiro, o que surpreendeu muita gente. Aos 24 anos, é um jogador muito incisivo, que gosta de atuar pelos lados do campo. No esquema tático de Martínez, se tornou um ala pela esquerda e tem ido muito bem. Com a bola, torna a Bélgica muito perigosa por aquele lado, especialmente em parceria com Hazard. O desafio será para defender, já que ele não é exatamente alguém que tem essa característica.

Personagem

Vincent Kompany

Lukaku com Kompany (abaixado) na Copa de 2014 (Photo by Jamie McDonald/Getty Images)

Kompany chega à Copa do Mundo como um dos líderes da Bélgica. Aos 32 anos, joga no Manchester City, onde é capitão do time. Além de ser um ótimo zagueiro, o belga tem um lado que é notável: é engajado em causas sociais. “Eu nunca pensei que eu poderia aproveitar toda essa riqueza sem dar a ela um bom uso”, afirmou o jogador, em entrevista à CNN, em 2015. “Eu sempre disse para a minha mãe: ‘Quanto mais rico eu ficar, melhor para muitas pessoas, então não se preocupe com isso’. Eu guardei desde que eu tinha 17 anos, sempre fiz isso. Eu comecei cuidando da minha família, então comecei a cuidar das pessoas do meu bairro, de onde eu vim, e eu agora sou feliz em dizer que eu coloco mais de mil crianças para jogar futebol toda semana”.

Os companheiros de seleção belga o apelidaram de “Obama”. É conhecido por estar sempre lendo livros na concentração e nos vestiários. Não tem medo de dar opiniões e costuma se posicionar em questões sociais. Sua visão de mundo não vem do nada. Ele é filho de um refugiado do antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo, que se tornou embaixador anos mais tarde. Sua mãe era líder sindical. Ela teve câncer quando ele jogava pelo Hamburgo, na Alemanha, e morreu.

Ele tirou forças disso. Em uma visita ao Congo para ações humanitárias, ele diz que ganhou novas perspectivas. “Me fez perceber que eu tive 20 anos com a minha mãe. Algumas crianças sequer viram seus pais”, ele disse. “Tudo que eles me disseram se tornou ainda mais importante naquele momento… De repente, tudo que eles me disseram começou a fazer sentido”.

Kompany se formou em administração, mesmo jogando futebol. Tornou-se embaixador da SOS Children’s Villages, uma organização não-governamental que oferece apoio e ajuda crianças órfãs. E Kompany diz que contribui não apenas porque é um jogador de futebol rico. “Não apenas jogadores, grandes corporações, governos, qualquer um – e você não precisa ganhar muito dinheiro para fazer algo pela pessoa ao seu lado. Eu não comecei a fazer isso porque eu sou jogador de futebol, minha família fazia isso antes e nós não tínhamos muito dinheiro. Eu acho que é algo que é parte da sua educação para o bem”, disse o zagueiro em entrevista ao South China Morning Post, em um evento de caridade.

Kompany tanto não tem medo de dar sua opinião que até quando o assunto é futebol, ele não se furta a entrar em questões polêmicas. Como, por exemplo, quem é o melhor jogador de todos os tempos. Para ele, não há dúvida: “O melhor jogador de todos os tempos é Pelé”.

“Eu acho que você sempre pode ter o debate, Maradona, você coloca Messi agora. Eles não estão longe um do outro”, disse. “Pelé tem mais de mil gols, o que é difícil atingir. Ele sempre foi parte de grandes times, mas ele sempre foi o melhor jogador nos grandes times”, declarou ainda o zagueiro.

Técnico

Roberto Martínez

O técnico tem uma longa história na Inglaterra, mesmo sendo espanhol. Volante, jogou por Zaragoza, Balaguer e em 1995 foi para a Inglaterra defender o Wigan. Ficou por lá até 2001 e ainda passou por Motherwell, Walsall, Swansea e Chester como profissional. Iniciou a carreira de técnico no Swansea, em 2007, antes de dirigir o Wigan em 2009. Foi por lá que ganhou fama como treinador, conquistando inclusive a Copa da Inglaterra em 2012/13. Naquela mesma temporada, o clube foi rebaixado, mas ele “caiu para cima” e foi contratado pelo Everton. Ficou até 2016, demitido por resultados ruins. Foi quando surgiu a oportunidade de treinar a Bélgica. Sua campanha até agora tem sido excelente, mas os desafios ainda não foram dos maiores. Na Copa do Mundo, Martínez terá a chance de levar um talentoso grupo da Bélgica a um novo patamar.

Uma história da seleção em Copas

Ceulemans, da Bélgica

A expressão “boa geração belga” se tornou comum nos últimos anos, mas a grande geração belga mesmo foi a que jogou a Copa do Mundo de 1986. No México, os belgas conseguiram mostrar um excelente futebol e tinham um bom time em campo, ainda que tenham demorado a engrenar. Na estreia, contra os anfitriões, derrota para o México por 2 a 1. Venceram o time mais fraco do grupo na sequência, o Iraque, e empataram por 2 a 2 com o Paraguai no terceiro jogo. Classificaram-se em terceiro lugar.

Foi nas oitavas de final que as coisas ficaram mais interessantes. A adversária era a União Soviética, que tinha sido algoz dos belgas quatro anos antes, em 1982. Igor Belanov marcou 1 a 0 para os soviéticos aos 27 minutos, mas Enzo Scifo empatou no início da segunda etapa, aos 11. Belanov voltou a colocar os soviéticos em vantagens, aos 25 minutos, antes de Jan Ceulemans empatar. O placar de 2 a 2 levou a disputa para a prorrogação. O jogo continuou espetacular. Stéphane Demal marcou para a Bélgica, fazendo 3 a 2, mas Belanov marcou mais uma vez para empatar de novo em 3 a 3. Nicolaas Claesen, porém, marcou o gol da classificação belga: 4 a 3.

O duelo, então, foi contra a Espanha. Os belgas abriram o placar com Ceulemans aos 35 minutos do primeiro tempo do jogo em Puebla, no estádio Cuahtémoc. Só que Juan Señor empatou o jogo de forma dramática, aos 40 minutos. Mesmo depois da prorrogação, não houve vencedor. Na disputa por pênaltis, os espanhois erraram um, com Eloy. Os belgas foram impecáveis: acertaram as cinco cobranças e o time avançou à semifinal.

No gigantesco estádio Azteca, com mais de 114 mil pessoas, a Bélgica teve um desafio monumental: a Argentina. E contra o camisa 10 dos albicelestes, a ótima geração belga de 1986 não teve chance. Maradona marcou dois gols, aos seis e aos 18 minutos do segundo tempo, cravando 2 a 0 no placar e a classificação argentina à decisão, contra a Alemanha.

Restou à Bélgica disputar o terceiro lugar. Diante da França, derrotada pelos alemães, os belgas também não conseguiram ir bem. A França venceu por 4 a 2 e levou o terceiro lugar. Mesmo assim, esse foi o melhor resultado da história da Bélgica em Copas do Mundo. Algo que nenhuma outra geração, por mais que ganhe o apelido de ótima, conseguiu. Pelo menos até agora.

Como o futebol explica o país

A Bélgica viveu recentemente um escândalo de corrupção em Bruxelas. Em junho de 2017, o prefeito Yvan Mayeur e um aliado embolsaram cerca de € 112 mil desde 2008, discretamente, em reuniões que nunca aconteceram. Os encontros seriam, supostamente, da Samusocial, uma agência que cuida de pessoas em situação de rua. Traduzindo em miúdos: o prefeito e seu aliado estavam metendo a mão em dinheiro que era para pessoas sem teto. Diante do escândalo, o prefeito foi obrigado a renunciar. Se você acha que esse foi um caso isolado, está enganado.

O sistema político da Bélgica é um tanto complicado. São 11 milhões de pessoas governadas por seis parlamentos e governos. A ideia é, assim, distribuir o poder entre as comunidades regionais e comunidades linguísticas. Há os que falam holandês, os que falam francês e pequenas comunidades que falam alemão. Se você acha que o Brasil tem um número excessivo de cargos políticos, bom, a Bélgica é um pesadelo nesse sentido. Só em Bruxelas, cidade com pouco mais de um milhão de habitantes, há um parlamento e um governo com 166 ministros, prefeitos e conselheiros da cidade. O modelo belga é de tentar um  consenso entre os diversos grupos, de diferentes interesses. O resultado foi essa proliferação de cargos. Com uma estrutura complexa e burocrática, você pode imaginar o que acontece, não é mesmo?

São muitas instituições se sobrepondo, cada uma delas com responsabilidade e recursos. Bruxelas tem 200 agências de serviços públicos com cerca de 1.400 funcionários no total. Com isso, os partidos políticos têm em suas mãos uma excelente forma de fazer politicagem do pior tipo, com distribuição de cargos. Voltamos ao exemplo do caso de corrupção citado acima: o presidente da Samusocial é alguém com um salário polpudo de € 204 mil, quase tanto quanto o Primeiro Ministro do país. Faz sentido?

Calma, tem mais: os membros do Partido Socialista, poderoso na comunidade de língua francesa do país, deram a alguns dos seus principais integrantes cargos na Samusocial, incluindo o irmão do prefeito Yvan Mayeur. E o escândalo que fez o prefeito renunciar foi o fio de novelo de uma série de problemas éticos que foram encontrados nas agências públicas. Prefeitos das assembleias municipais são conhecidos como “barões” por causa do poder que exercem nas suas regiões. Isso cria uma relação de dependência, porque muita gente se beneficia da estrutura e ajuda a reeleger esses políticos para ter acesso a moradia, emprego ou algum outro recurso. Um paternalismo muito presente na política belga.

Há um outro problema. Com o poder tão fragmentado, tratar de questões maiores, nacionais, é uma enorme dificuldade. É preciso lidar com toda a estrutura para implantar mudanças, o que torna tudo lento e burocrático em excesso. Não quer dizer que nada por lá funcione, mas há seus problemas, inclusive de corrupção e paternalismo, que torna a política belga, em parte, parecida com a do Brasil – e, na verdade, com qualquer estrutura que seja muito burocrática.

O vídeo abaixo mostra um pouco como funciona a Bélgica. Veja que passa longe da simplicidade e é um sistema muito burocrático:

O que a Copa significa para a seleção

A Bélgica busca finalmente dar um passo adiante em uma Copa do Mundo. Em 2014, jogando menos do que se esperava, chegou às quartas de final e fez um jogo fraco contra a Argentina. Acabou eliminada sem mostrar o seu potencial. O que os Diabos Vermelhos querem é justamente superar essa barreira e ser um time além de talentoso: ser capaz de derrotar equipes fortes. É um passo que a Bélgica ainda não deu.

Jogos na Copa

Segunda-feira, 18/06 – 12h – Bélgica x Panamá

Sábado, 23/06 – 09h – Bélgica x Tunísia

Quinta-feira, 28/06 – 15h – Inglaterra x Bélgica

Ficha técnica

Guia da Copa 2018 – Bélgica
Infogram