Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Depois de uma campanha fraca na Copa do Mundo do Brasil, lanterna de um grupo longe de ser o mais difícil da competição (Bélgica, Argélia e Rússia), a Coreia do Sul contratou o técnico alemão Uli Stielike, que teve consideravelmente mais sucesso como jogador do que como treinador. Mas ele deu uma ajeitada na equipe. No começo de 2015, quebrou um jejum de 27 anos sem uma final de Copa da Ásia. Na decisão de Sydney, porém, perdeu para a dona da casa Austrália.

Ainda foi um bom resultado, e mais otimismo apareceu com a boa campanha na Olimpíada do Rio de Janeiro, liderando o grupo que tinha a Alemanha e México, embora a derrota para Honduras, nas quartas de final, tenha deixado um gosto amargo. Havia com o que trabalhar para o futuro. No entanto, o entusiasmo do começo do ciclo não chegou às Eliminatórias Asiáticas.

A Coreia do Sul passou com 100% de aproveitamento na segunda fase do torneio, quando os grandes times do continente enfrentam seleções mais fracas. Venceu todos os jogos contra Laos, Mianmar, Kuwait e Líbano. Na terceira rodada, quando o bicho pega de verdade, caiu no grupo de Irã, Síria, Uzbequistão, China e Catar. E aí, as coisas começaram a dar errado.

O time nunca engrenou. Nunca venceu duas partidas seguidas. Nunca ganhou fora de casa. Perdeu para Irã, China e Catar longe dos seus domínios, além de empatar com a Síria. Conseguiu se manter na briga graças aos resultados em Seul. Depois de perder para o Catar, por 3 a 2, Stielike foi demitido. A Coreia do Sul recorreu ao auxiliar Shin Tae-yong, que trabalhava nas categorias de base e comandou a campanha no Rio de Janeiro. Estava na seleção desde 2015.

Shin Tae-yong não conseguiu manter o aproveitamento da seleção sul-coreana em casa e apenas empatou com o Irã, partida que poderia dar mais respiro para a rodada final. A Coreia do Sul precisava segurar o Uzbequistão, fora de casa, e torcer contra uma surpresa síria diante do líder Irã, em Teerã. No fim, com algum susto de serem jogados para a repescagem, dois empates nesses jogos classificaram os sul-coreanos para a Copa do Mundo pela nona vez seguida.

Mas a equipe inspira pouca confiança. As duas partidas oficiais de Shin Tae-yong à frente da seleção terminaram em 0 a 0. Os amistosos não ajudaram muito, mesmo sem enfrentar nenhuma grande potência. As únicas vitórias foram contra Letônia, Moldávia e Honduras. Houve derrotas para Irlanda do Norte, Polônia Bósnia e Senegal, além de empates com Jamaica e Bolívia.

Como joga

Shin Tae-yong gosta de equipes ofensivas. E ele até tem alguma qualidade na criação em jogadores como Son Heung-min e Hwang Hee-chan. Mas precisa encontrar o equilíbrio do time, mesmo sem contar com boas peças defensivas. Ao contrário do meio-campo e do ataque, que possuem jogadores de grandes ligas, como Itália, Alemanha e Inglaterra, a defesa inteira joga na Ásia e apenas Park Joo-ho já se aventurou na Europa, defendendo o Basel, o Mainz e o Borussia Dortmund, antes de chegar ao Ulsan Hyundai.

Os problemas defensivos são apenas a primeira solução que o treinador precisa buscar. Há outras tão urgentes quanto. Não existe um centroavante talentoso para empurrar a bola às redes. Os três atacantes convocados (Son, Hwang e Kim Shin-wook) têm, entre eles, apenas 33 gols pela seleção em 131 partidas combinadas. A opção mais provável é por um ataque móvel com Son e Hwang.

Outra questão é o posicionamento do capitão Ki Sung-yueng. O ex-jogador do Swansea sabe o que faz com a bola, mas não tem dinâmica para exercer uma função mais defensiva que daria equilíbrio à equipe. As lesões não ajudam. Jogadores que poderiam ser importantes como o meia Lee Chung-yong, Kwon Kyung-won e o lateral esquerdo Kim Jin-sun estão fora da convocação.

Por fim, Shin Tae-yong vem testando formações com três zagueiros em amistosos. Mas perdeu da Bósnia e da Polônia com esse sistema tático e deve utilizar um 4-4-2 mais tradicional na Copa do Mundo. No momento, há mais dúvidas que certezas em relação à estratégia sul-coreana.

Time base: Kim Seung-gyu; Yong Lee, Jang Hyun-soo, Jung Seung-hyeon e Park Joo-ho; Ki Sung-yueng, Jung Woo-young, Lee Jae-sung e Koo Jae-cheol (Lee Seung-woo); Son Heung-min e Hwang Hee-chan. Técnico: Shin Tae-yong.

O dono do time

Son Heung-min

Son Heung-min (Foto: Getty Images)

Son é a estrela da companhia, o jogador mais conhecido e talentoso da seleção sul-coreana. Desde que chegou ao Tottenham, do Bayer Leverkusen, em 2015, estabeleceu-se como titular de uma das melhores equipes de uma liga difícil e ainda é um dos artilheiros – atrás de Harry Kane, claro. Marcou 21 vezes na temporada retrasada e 18 na última. Além do faro artilheiro, é rápido e habilidoso, bom de dribles curtos e rápidos. A estreia na seleção foi em 2010, quando ainda tinha apenas 18 anos. Já soma 67 partidas e 21 tentos pelo time nacional. Foi titular na Copa da Ásia e em sete das dez partidas da rodada decisiva das Eliminatórias Asiáticas. Mas contribuiu com apenas uma bola na rede e ainda não conseguiu brilhar pela seleção como faz no norte de Londres. 

O bom coadjuvante

Ki Sung-yueng

Outro jogador com experiência no futebol inglês. E britânico. Saiu da Coreia do Sul para defender o Celtic, em 2010, e, depois de uma passagem rápida pelo Sunderland, ficou quatro anos no Swansea. Não conseguiu evitar o rebaixamento dos galeses nesta temporada e anunciou que deixará o clube, ainda sem destino definido. Entre ser volante e meia central, contribui com bons passes e visão de jogo, embora não seja muito forte na marcação. Fez oito jogos nas Eliminatórias Asiáticas e marcou dois gols. Usa a braçadeira de capitão do time nacional, que já defendeu mais de 100 vezes. É de longe o jogador mais experimentado no futebol de seleções do elenco que Shin Tae-yong levou à Rússia. 

Fique de olho

Hwang Hee-chan

O Red Bull Salzburg fez uma campanha memorável na Liga Europa, chegando às semifinais. Foi derrotado apenas pelo Olympique Marseille. Um dos motivos foi o talento do jovem Hwang Hee-chan, que ainda tem apenas 22 anos. Fez um gol importante contra a Lazio, nas quartas de final, e cavou pênaltis contra Real Sociedad e Borussia Dortmund. Contribuiu com cinco tentos na trajetória do seu clube a mais um título folgado na Bundesliga austríaca. Ainda é jovem e tem muito a melhorar, mas já conta com a confiança do treinador da Coreia do Sul. Fez sete jogos na reta final das Eliminatórias Asiáticas, quatro como titular, e vem atuando com frequência nos amistosos de preparação.

Personagem

Lee Seung-woo

Lee (Foto: Getty Images)

No departamento “Novos Messis”, Lee Seung-woo ficou responsável pelo setor sul-coreano. A comparação, no seu caso, faz um pouco mais de sentido porque ele chegou a La Masia, aos 13 anos, e bateu recordes do craque argentino nas categorias de base. No Campeonato Asiático sub-16 de 2014, carregou a Coreia do Sul até a final, contra a Coreia do Norte, e embora não tenha conseguido o título, saiu com os troféus de artilheiro e melhor jogador do torneio. Nessa mesma época, porém, seu desenvolvimento encontrou um forte obstáculo. Lee foi um dos pivôs da punição da Fifa ao Barcelona por irregularidades na contratação de jovens. Não pode jogar nem treinar com os catalães até completar 18 anos – o que aconteceria apenas em 2016. Ao mesmo tempo, teve alguns problemas de comportamento, como chutar uma placa de publicidade enquanto defendia a seleção ou dar declarações meio pretensiosas, o que não pega bem em seu país de origem. Quando retornou à Espanha, começou a jogar pelo Juvenil A, treinado à época por Gabri García. Em 2017, deveria fazer o salto para o Barcelona B, mas, com o seu desenvolvimento prejudicado pela punição, não seria provável que conseguisse muitos minutos na equipe secundária dos gigantes espanhóis.

Em agosto de 2017, Lee acabou sendo vendido para o Verona, por € 1,5 milhão, com uma cláusula de recompra, procedimento padrão do Barcelona quando vende suas promessas. Nem na campanha do rebaixamento do clube italiano o meia-esquerda habilidoso conseguiu muito tempo em campo. Jogou 16 vezes, apenas três como titular, e duas foram na Copa Itália. Com as lesões de Lee Keun-ho e Kwon Chang-hoon, ganhou uma chance na lista final dos 23, mesmo sem ter defendido a Coreia do Sul principal antes dos amistosos de preparação para o Mundial. Sua estreia foi contra Honduras, no final de maio. Atuou 85 minutos. Jogou mais dois contra a Bósnia. Chega à Rússia tendo sido muito pouco testado pelo técnico. E ainda longe de cumprir a promessa de quando comia a bola nas categorias de base.

Técnico

Shin Tae-Yong

Shin Tae-Yong, técnico da Coreia (Foto: Getty Images)

O treinador de 49 anos tem uma grande conquista no começo da sua carreira. Em 2010, no seu primeiro trabalho de verdade, levou o Seongnam ao título da Champions League asiática e jogou o Mundial de Clubes. Perdeu da Internazionale na semifinal e enfrentou o Internacional na disputa pelo terceiro lugar (também perdeu). Juntou-se à seleção sul-coreana em 2015 e começou sua passagem pelas categorias de base. Comandou a campanha na Olimpíada do Rio de Janeiro, quando a Coreia do Sul liderou o grupo que tinha Alemanha e México (dois adversários da chave da Copa do Mundo), com um time bem ofensivo, que fez 8 a 0 em Ilhas Fiji e empatou com os alemães por 3 a 3. Mas foi derrotado nas quartas de final por Honduras, por 1 a 0. Em 2017, levou a seleção sub-20 às oitavas de final do Mundial da categoria. Foi escolhido para substituir Uli Stielike na reta final das eliminatórias e conseguiu a vaga, com dois empates por 0 a 0. Apesar de ter um estilo ofensivo, a seleção sul-coreana ainda não fez um gol sob o comando de Shin Tae-yong em partidas competitivas. Mas também não tomou. 

Uma história da seleção em Copas

Com exceção da vez em que jogou a Copa do Mundo em casa, e com uma boa ajuda da arbitragem chegou às semifinais, a história da Coreia do Sul na competição é discreta. A edição russa será a nona seguida do país que, além daquela campanha com Guus Hiddink, caiu na fase de grupos seis vezes e chegou às oitavas de final na África do Sul. Antes dessa sequência, os sul-coreanos haviam disputado o Mundial em uma única oportunidade, em 1954. E, digamos, não estavam prontos para o desafio.

A Palestina, ainda sob influência britânica e cheia de jogadores do Reino Unido, foi a primeira seleção asiática a ter a chance de disputar a Copa do Mundo. Nas eliminatórias para 1934, caiu em um triangular com Egito e Turquia. Os turcos se retiraram e a vaga acabou definida em dois jogos contra os egípcios, que venceram por 7 a 1 e 4 a 1. Em 1938, ainda como Índias Orientais Holandesas, a Indonésia inaugurou a história asiática em Mundiais. A Índia ganhou o direito de jogar a Copa de 1950, no Brasil, mas desistiu. A Coreia do Sul estava pisando em território praticamente desconhecido. E não era um time fraco porque, dois anos depois, conquistaria a primeira edição da Copa da Ásia, sendo bicampeã na edição seguinte, em 1960.

O formato do Mundial da Suíça foi um pouco complicado. Embora houvesse os tradicionais grupos com quatro equipes, nem todos enfrentariam todos. Houve apenas dois confrontos para cada, entre cabeças de chave e as outras seleções que não eram cabeças de chave. Por isso, a Coreia do Sul escapou de enfrentar a Alemanha Ocidental, mas encarou a Hungria. Aquela Hungria. Puskás e companhia não tiveram dó: 9 a 0. A Turquia foi a segunda adversária e também mostrou pouca piedade: 7 a 0. A primeira campanha sul-coreana em Copas terminou com duas derrotas, 16 gols sofridos e nenhum marcado.

Como o futebol explica o país

Desfile das duas Coreias unidas, na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang (Photo by Maddie Meyer/Getty Images)

O momento foi histórico. Às 9h30, horário local, em 26 de abril de 2018, Kim Jong-un tornou-se o primeiro líder norte-coreano a pisar o solo da Coreia do Sul, desde a guerra da década de cinquenta. Encontrou-se com o presidente do país vizinho, com o qual tecnicamente ainda mantém relações hostis, Moon Jae-in, na linha de demarcação da zona desmilitarizada que separa a península. Apertaram as mãos efusivamente, tiraram fotos nos dois lados da fronteira e foram conversar sobre desnuclearização, desarmamento e uma tentativa de levar paz às Coreias.

O esporte desempenhou um papel muito importante nesse processo de aproximação. Especialmente os Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, no começo do ano. Contra todos os prognósticos, a Coreia do Norte aceitou enviar uma delegação para a competição. Mais do que isso, os países participaram da cerimônia de abertura sob uma mesma bandeira e também disputaram o Hóquei no Gelo feminino unidos, apenas como Coreia. O que também já aconteceu no futebol.

O evento foi o Mundial sub-21 de 1991. As duas Coreias haviam garantido vaga por meio do Campeonato Asiático sub-20 do ano anterior. A proposta de unificar a península momentaneamente para a disputa do torneio de base em Portugal foi rapidamente aceita pela Fifa. Cada país teve metade dos 18 convocados. O técnico foi norte-coreano. O assistente, sul-coreano. A seleção foi representada pela mesma bandeira branca com o mapa da península em azul, sob a qual marcharam na Olimpíada de Inverno.

E a Coreia fez uma boa campanha. Caiu no Grupo A, ao lado de Portugal, Argentina e Irlanda. Estreou contra os argentinos, vencendo por 1 a 0, gol do norte-coreano Cho In-chol. Empatou com os irlandeses, por 1 a 1, e perdeu dos anfitriões, por 1 a 0. Conseguiu a segunda vaga nas quartas de final. O adversário foi ingrato. A seleção brasileira contava com jogadores como Paulo Nunes, Élber e um tal de Roberto Carlos na lateral esquerda. A campanha coreana terminou com goleada por 5 a 1, mas já havia entrado na história. Porque a próxima vez que se juntariam para uma competição esportiva seria apenas no hóquei do gelo feminino de Pyeongchang, 27 anos depois.

O que a Copa significa para a seleção

Apagar a sensação de que chegou à Copa do Mundo por inércia é o primeiro objetivo. Para isso, precisa pelo menos fazer jogo duro contra as outras seleções do grupo, que parecem muito mais fortes no momento. Porque chegar às oitavas de final parece muito improvável. Entre a qualidade incontestável da Alemanha, o bom toque de bola do México e a força física e organização da Suécia, a Coreia do Sul parece um degrau abaixo. 

Jogos na Copa

Segunda-feira, 18/06 – 09h – Suécia x Coreia do Sul

Sábado, 23/06 – 12h – Coreia do Sul x México

Quarta-feira, 27/06 – 11h – Coreia do Sul x Alemanha

Ficha técnica

Seleção sul-coreana
Infogram