Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Presente na Copa do Mundo de 2010, a Dinamarca não manteve a força em 2014. Em um grupo equilibrado com Itália, República Tcheca, Bulgária e Armênia, além do saco de pancadas Malta, até alcançou a segunda colocação, mas não anotou pontos para chegar à repescagem. E os torcedores tinham motivos para se preocupar depois do que aconteceu nas eliminatórias da Euro 2016, quando a equipe ficou abaixo de Portugal e da Albânia, antes de sucumbir à Suécia no clássico ocorrido na repescagem. O fracasso resultou em mudanças profundas. Morten Olsen, antigo capitão da ‘Dinamáquina’ de Sepp Piontek e técnico da seleção desde 2000, decidiu encerrar seu ciclo. O norueguês Age Hareide assumiu a prancheta, com a dura missão de dar novos ares ao time.

Apesar das desconfianças iniciais, a Dinamarca foi um dos times que mais cresceu nas Eliminatórias para a Copa de 2018. Seu grupo, mais uma vez, era relativamente equilibrado, sem uma potência que incomodasse. Ainda assim, a primeira metade da campanha foi morna, com apenas duas vitórias em cinco rodadas. Ao longo do último ano, no entanto, a seleção dinamarquesa foi o time que mais cresceu na competição. Emendou quatro triunfos consecutivos, goleando a líder (e até então invicta) Polônia por 4 a 0 em Copenhague e derrotando Montenegro em Podgorica. O problema é que os pontos perdidos no início não permitiram alcançar os poloneses. Ao final, o empate contra a Romênia em Bucareste levou os nórdicos à repescagem.

Ao final, a Irlanda incomodou menos do que se previa. Após o empate por 0 a 0 em Copenhague, os irlandeses até saíram em vantagem em Dublin. Contudo, a Dinamarca contou com Christian Eriksen. O camisa 10 fez uma das melhores atuações individuais destas Eliminatórias, daquelas que entram para a história e marcam a carreira de qualquer jogador. Muito bem municiado, chamou a responsabilidade para si e definiu o duelo com uma série de golaços. Balançou as redes três vezes, em vitória por 5 a 1 que poucos imaginariam. Uma resposta contundente rumo à Copa.

Neste ano é que a Dinamarca não tem empolgado muito. Os amistosos preparatórios são modestos. Ganharam do Panamá, além de empatarem por 0 a 0 com Chile e Suécia. Vale mais para observações e testes do que para injetar um ânimo maior do que o vivido em Dublin. De qualquer maneira, a equipe está há mais de um ano sem perder. Desde novembro de 2016, são sete vitórias e seis empates.

Como joga

Pelas características dos jogadores à disposição, o 4-3-3 é uma escolha natural à Dinamarca. O esquema conta com dois volantes mais voltados à contenção, liberdade aos pontas para atacar e o universo girando ao redor de Christian Eriksen, aquele que manda prender e soltar na equipe. Nada mais justo o protagonismo dado ao grande diferencial da seleção e que, de fato, tem feito a diferença. A campanha nas Eliminatórias é a maior prova. No mais, aconteceram pequenas variações táticas a partir disso, mas nada muito drástico. O sistema com três zagueiros, priorizado no início da empreitada rumo à Rússia, acabou enterrado pelos resultados pouco convincentes.

Kasper Schmeichel é o titular absoluto no gol. Um goleiro que tem os seus deslizes, mas já demonstrou diversas vezes que pode atuar em alto nível. A campanha de tiro curto pode ajudá-lo nisso. Na defesa, dois laterais mais conservadores, com Henrik Dalsgaard e Jens Stryger Larsen, dois atletas de experiência limitada em alto nível. Já no miolo de zaga, enquanto Simon Kjaer porta a braçadeira de capitão, fica a interrogação sobre quem será seu parceiro. Andreas Bjelland atuou na maior parte das vezes na posição, mas se lesionou no final da temporada e, apesar de integrar a pré-lista, transpareceu limitações e acabou cortado – o que causou trocas de farpas públicas com o treinador. Há alternativas interessantes para substituí-lo, ao menos. Jannik Vestergaard, Andreas Christensen e Zanka Jörgensen são os candidatos.

No meio, William Kvist é o principal motivo de discussão. Aos 33 anos, o veterano jogou pouco com o Copenhague no Campeonato Dinamarquês, mas permanece como um homem de confiança na seleção, por sua qualidade na saída de bola e a proteção que oferece. Ao seu lado, formando uma dupla de volantes, há Thomas Delaney, que foi um dos protagonistas do Werder Bremen e acabou contratado pelo Borussia Dortmund. Suas chegadas à frente, aliás, tendem a ser valiosas. E, se necessário, há a sombra de Lasse Schöne no banco, um organizador melhor. Já na armação, como centro de gravidade do time, Christian Eriksen é primordial para acelerar o jogo e aproveitar os espaços.

Por fim, o ataque aproveita a mobilidade de seus pontas. Apesar do porte físico avantajado, Yussuf Poulsen ajuda a potencializar os contra-ataques pela direita, enquanto Pione Sisto certamente dará trabalho às defesas adversárias, partindo para cima e abusando dos dribles. Na linha de frente, Nicolai Jörgensen caiu de nível no Feyenoord, em comparação à temporada do título holandês, mas ainda é quem mais pode contribuir ao time. No mais, há opções como Andreas Cornelius, um jogador de mais força física; Martin Braithwaite, que teve bons momentos no Toulouse, oferecendo velocidade; e o talentoso Kasper Dolberg, grande aposta do Ajax.

Com o que tem em mãos, a Dinamarca consegue aplicar um estilo de jogo mais direto, apostando em bolas longas e na velocidade em suas transições. Depende bastante do quarteto de frente nas ações ofensivas, o que também garante liberdade, com um Eriksen ainda mais incisivo do que se vê no Tottenham. E há uma qualidade para se aproveitar o jogo aéreo, tanto por um exímio cobrador nas bolas paradas quanto pela qualidade pelo alto de muitas de suas peças.

Time base: Schmeichel, Dalsgaard, Kjaer, Zanka (Christensen), Stryger Larsen; Kvist, Delaney, Eriksen; Poulsen, Jörgensen, Sisto. Técnico: Åge Hareide.

Dono do time

Christian Eriksen

Eriksen, da Dinamarca

A resposta você leu em diferentes pontos desse texto. O que Christian Eriksen jogou pela Dinamarca nos últimos tempos é algo excepcional. O camisa 10 sempre foi tratado como uma joia pela seleção, disputando a primeira Copa do Mundo aos 18 anos. Ao longo dos últimos dois ciclos, ganhou importância, embora as atuações decisivas não fossem tão constantes assim – por mais que tenha sido fundamental à presença na Euro 2012, por exemplo. Mas nada comparado ao que aconteceu nestas Eliminatórias. Mais do que decidir, Eriksen carregou a Dinamarca em diversos momentos. A partir da quarta rodada do Grupo E, até a repescagem, o meia disputou nove jogos. Contribuiu com dez gols e quatro assistências, arrebentando principalmente nas goleadas contra Polônia e Irlanda. Permanece como um jogador de criação, mas sua importância na definição cresce. E ele se deu muito bem com a precisão de seus arremates.

Bom coadjuvante

Kasper Schmeichel

Kasper Schmeichel bloqueia Wayne Rooney (Foto: AP)

Kasper tinha 12 anos de idade quando acompanhou o pai, Peter, na única Copa do Mundo disputada pela lenda. Certamente deve se lembrar das sensações da campanha na França, que terminou com o eletrizante (e, para eles, frustrante) revés por 3 a 2 ante o Brasil. Aos 31 anos, enfim, terá a chance de escrever sua própria história nos Mundiais. E se fazer preponderante, algo necessário em um grupo tão parelho. A temporada atual do Leicester deixou desconfianças sobre Schmeichel. O camisa 1 foi criticado por algumas saídas em falso e lances nos quais demorou a reagir, dando a impressão que vários dos gols sofridos eram defensáveis. Mas cabe lembrar que, meses antes, ele protagonizou façanhas enormes com as Raposas. Campeão da Premier League em 2015/16, acumulou milagres na campanha e conseguiu ser ainda mais espetacular em 2016/17, melhor do time na jornada até as quartas de final da Liga dos Campeões. A Copa, aquela mesma que certamente marcou sua infância, agora também deve ser decisiva à sua carreira.

Fique de olho

Andreas Christensen

O talento de Andreas Christensen não é segredo à Dinamarca. O garoto que iniciou a carreira no Brondby logo despontou nas seleções de base, o que aumentou sua visibilidade para as divisões menores do Chelsea. Seguiu fazendo a sua formação em todas as categorias da equipe nacional. E se conquistar seu espaço em Stamford Bridge seria difícil, o jovem aproveitou muito bem os empréstimos ao Borussia Mönchengladbach, se colocando entre os melhores zagueiros do Campeonato Alemão. Ainda em 2015, estreou na seleção, com Morten Olsen, e se manteve como titular durante boa parte do trabalho de Age Hareide, até o comandante optar pelo canhoto Andreas Bjelland. Com o polêmico corte do titular, fica a lacuna no 11 inicial. E o momento não poderia ser mais favorável ao defensor de 22 anos, em corrida com Zanka. Christensen aproveitou-se dos entraves de Antonio Conte com David Luiz e se tomou conta da posição no Chelsea. Apesar da temporada ruim do clube, seu desempenho individual foi acima das expectativas e tende a tomar conta da posição por muito tempo. Tentará o mesmo na seleção.

Personagem além da bola

Pione Sisto

Pione Sisto, da Dinamarca (Foto: Getty Images)

Sisto poderia muito bem ter entrado nesta lista como “bom coadjuvante”. O ponta esquerda do Celta atravessa boa fase e é preponderante à seleção, especialmente pela velocidade que imprime, bagunçando defesas. Não à toa, foi o fiel escudeiro de Eriksen nos 5 a 1 sobre a Irlanda, que valeram a vaga na Copa. Sua história de vida, porém, merece um pouco mais de atenção.

Os pais de Sisto saíram do Sudão do Sul, uma região de constantes entraves geopolíticos – e, então, ainda parte integrante do Sudão. Viviam em Uganda quando o garoto nasceu em 1995, mas, quando ele tinha apenas dois meses, deixaram a fazenda onde moravam e partiram como refugiados em longa jornada até Hoejslev Stationsby, vilarejo no norte da península da Dinamarca. Por lá, a família de nove filhos adaptou-se à nova realidade, logo ganhando oportunidades. Os pais incentivavam os estudos aos rebentos, embora logo Pione tenha despontado no futebol.

Aos sete anos, Sisto se juntou ao Tjørring, clube de outra cidadezinha da região. O talento evidente atraiu o interesse do Midtjylland e, quando tinha 15 anos, acertou sua mudança à equipe da primeira divisão. Foram três anos na base, até se profissionalizar e se tornar uma das sensações do Campeonato Dinamarquês. Morten Olsen já cresceu os olhos nos prodígios, mas haveria outro entrave: por mais que morasse na Dinamarca desde a tenra infância, não tinha a cidadania local. Seu status mudou apenas em 2014 e, no ano seguinte, já ganhou a primeira convocação. Agora, está pronto à Copa.

Técnico

Age Hareide

Como defensor, Age Hareide teve uma carreira respeitável. Defendeu a seleção da Noruega por dez anos, foi ídolo do Molde e se tornou um dos raros estrangeiros a se aventurar no Campeonato Inglês durante a década de 1980, defendendo Manchester City e Norwich. Porém, a aptidão à beira do campo é ainda maior. Iniciou sua trajetória como técnico antes mesmo de pendurar as chuteiras, conciliando funções no Molde. Foi campeão norueguês. Depois, partiu à Suécia e assumiu o Helsingborgs, com o qual também foi campeão nacional. E, no próximo emprego, à frente do Brondby, também faturou o Campeonato Dinamarquês, tornando-se o primeiro técnico da história a conquistar as três ligas escandinavas. Sairia para dirigir o Rosenborg e, de novo com a faixa no peito, seu caminho natural era a seleção norueguesa. Seus resultados na equipe nacional, vivendo uma entressafra, deixaram a desejar. Sem a classificação a duas Eurocopas e a uma Copa do Mundo, deixou o emprego em 2008 e sua fama se perdia em meio ao declínio de trabalhos pouco animadores. Em 2012, decidiu se aposentar. No entanto, tal qual um Jupp Heynckes, aceitou uma proposta do Malmö em 2014 e, vejam só, foi campeão nacional pela quinta vez na carreira. Era a referência necessária para a Dinamarca buscá-lo após o adeus do lendário Morten Olsen. Um tanto quanto falastrão e de decisões firmes, Hareide renovou o ambiente em sua nova equipe. Faz o simples e tem consciência das limitações. Desta maneira, os dinamarqueses se tornaram mais fortes e voltaram à Copa.

Uma história da seleção nas Copas

Peter Moller e Allan Nielsen (Foto: Getty Images)

Quando se fala da Dinamarca em Copas do Mundo, o assunto quase sempre é o mesmo: a Dinamáquina de 1986. O time de Sepp Piontek, de fato, trazia inovações e um talento pulsante, que marcou aquele Mundial – assim como outras aparições internacionais. A vitória sobre o Uruguai na fase de grupos está entre as mais avassaladoras já vistas na competição, embora Butragueño não tenha se importado com isso nas oitavas de final, quando a Espanha despachou a sensação. Só que muitas vezes se esquecem que a melhor campanha dos dinamarqueses em Copas é outra: em 1998. Ok, Rivaldo acabou com as expectativas nas quartas de final. Mas houve outra partidaça da Dinamarca antes disso, para levá-los até Nantes.

Durante a fase de grupos, a Dinamarca não empolgou. Conquistou uma vitória magra sobre a Arábia Saudita, empatou com a África do Sul e perdeu para a França. Os quatro pontos, ao menos, eram suficientes para a classificação. O problema é que as oitavas de final não seriam nada fáceis. De certa forma, os papéis se inverteram em relação a 1986: os dinamarqueses pegaram justamente a sensação da fase de grupos, a Nigéria, que terminou na liderança de sua chave. No chamado “grupo da morte”, as Super Águias bateram Espanha e Bulgária, em resultados já suficientes para a classificação antecipada. Só perderam no compromisso final, ante o Paraguai.

A Nigéria parecia em uma crescente, após fazer boa Copa em 1994 e conquistar o ouro olímpico em 1996. Mais do que isso, contava com um timaço de Jay-Jay Okocha, Nwankwo Kanu, Victor Ikpeba, Finidi George, Sunday Oliseh, Taribo West e outros coadjuvantes, sob as ordens de Bora Milutinovic. Só que a Dinamarca também tinha seus predicados. No gol, um dos melhores da história, Peter Schmeichel. A defesa tinha os serviços de operários, com destaque ao lateral esquerdo Jan Heintze. Thomas Helveg oferecia seu dinamismo pelo centro. Já no quarteto ofensivo, além de Martin Jörgensen e Peter Möller, os irmãos Laudrup davam alma aos alvirrubros.

O favoritismo estava do lado da Nigéria. Mais do que o bom desempenho até ali, a imprensa considerava aquele como o melhor representante africano da história das Copas, pelos feitos recentes e pela qualidade individual. Até mesmo Bora Milutinovic subiu no salto. O rodado treinador chegou a dizer, antes de pegar a Dinamarca, que “pensava no jogo importante que teria em Nantes”. Morreu pela boca no Stade de France, onde ocorreu o confronto pelas oitavas.

A verdade é que, independentemente de qualquer temor, a Dinamarca acabou com a Nigéria. Ou melhor, Michael Laudrup acabou com a Nigéria. Em apenas 12 minutos, a peleja se abria. Depois de um ótimo lançamento de Jörgensen, o capitão/camisa 10/craque apenas ajeitou para Möller fuzilar e inaugurar a contagem aos três. Já aos 12, o goleiro Rufai bateu roupa e Brian Laudrup aproveitou o rebote. No segundo tempo, Brian quase anotou um golaço, em cruzamento fechado que bateu no travessão. Mas seria Michael quem resolveria, numa cavadinha soberba com a parte de fora do pé para Ebbe Sand. O centroavante, que acabara de sair do banco, tirou West da jogada com um toque de cabeça e balançou o filó. Por fim, em novo erro de Rufai, Helveg marcaria o quarto. Só depois que as Super Águias descontariam, com Babangida. Tento nada honroso na lavada por 4 a 1.

“A Nigéria tinha grandes jogadores e, em um bom dia, talvez tivessem nos vencido com facilidade. Mas quando a pressão não está sobre a Dinamarca, jogamos melhor. Nós surpreendemos a Nigéria. Eles tentaram de tudo, mas era impossível, jogamos muito bem aquela partida. A goleada nos deu confiança que poderíamos mais. A autoconfiança da equipe chegou ao ápice”, relembra Michael Laudrup. Bem, confiança não foi problema contra o Brasil. De qualquer maneira, a comemoração esteve do outro lado.

Participações em Copas: 4 (1986, 1998, 2002, 2010)
Melhor resultado: 
quartas de final (1998)

Como o futebol explica o país

A comemoração mais famosa da Dinamarca nas Copas do Mundo aconteceu contra o Brasil. Brian Laudrup balançou as redes de Taffarel e, em meio à euforia, deitou-se no chão fazendo pose. Imitava a ‘Pequena Sereia’, estátua localizada em Copenhague e um dos principais pontos turísticos do país. O monumento, por sua vez, faz referência à história infantil escrita por Hans Christian Andersen, dinamarquês que deixou como legado quase quatro mil contos de fadas, muitos deles célebres. Uma das mais famosas, afinal, faz referência ao mar. E a geografia particular, que certamente influenciou Anderssen, também tem seu peso ao futebol do país.

A Dinamarca é composta pela Jutlândia, península ao norte da Alemanha, e um conjunto de 443 ilhas. Entre estas, há a Zelândia, onde se localiza Copenhague. Dada as particularidades de seu território, a navegação é fundamental ao desenvolvimento dos povos que viveram na atual Dinamarca. Foi através dos mares que os vikings conquistaram diferentes territórios, da América do Norte à França e à Grã-Bretanha. E se as águas eram um caminho em comum aos dinamarqueses, seria por lá que a bola de futebol chegaria. Em meio à rota de comércio com o Reino Unido, marinheiros britânicos introduziram o esporte no país já durante a década de 1870, um dos primeiros locais da Europa continental a entrar em contato com o esporte.

Na época, existia uma certa “anglofilia” entre os dinamarqueses das classes mais altas, que completavam seus estudos no Reino Unido. Assim, ficou fácil espalhar a modalidade pelo país, entre seus colégios e suas universidades. O primeiro clube de futebol da Europa continental, aliás, nasceu em Copenhague: o KB. Já em 1889, surgiu a DBU, a federação local, também pioneira fora da Grã-Bretanha. Em 1904, a entidade participou da fundação da Fifa. Além disso, a Dinamarca era destino frequente das excursões dos clubes britânicos. Intercâmbio que impulsionou também a seleção, que ficou com a prata nos dois primeiros torneios de futebol realizados nos Jogos Olímpicos, em 1908 e 1912.

Naqueles primórdios, o ideal de amadorismo prevalecia no futebol dinamarquês. Como tinha sido antes na Inglaterra, o comando do esporte estava nas mãos da aristocracia local, por mais que surgissem clubes formados por trabalhadores desde o surgimento do Frem, em 1886. A popularização do esporte era inescapável, atraindo torcedores e levando à construção do estádio Idraetsparken em 1911. Ainda assim, o profissionalismo era rechaçado, em resistência ajudada também pela geografia. Em uma nação com áreas urbanas relativamente limitadas, o intercâmbio de clubes era menor e não existia tanta pressão para mudar o sistema.

Apesar do desenvolvimento do futebol e da própria urbanização crescente na Dinamarca a partir da década de 1920, o que ampliava o número de clubes, a DBU manteve sua resistência. Os campeonatos se descentralizaram de Copenhague e contavam com os mares nas viagens das equipes entre as ilhas e a península, mas nada que rompesse o modelo amador. Após a Segunda Guerra Mundial, a federação chegou ao limite de banir os jogadores profissionais da seleção, para tentar suportar os opositores à intransigência. As limitações eram claras, por mais que o time mostrasse qualidade, com a prata olímpica em 1960 e a participação na Euro 1964. Neste momento, o talento dos atletas locais ficava mais claro e eles começaram a buscar novos rumos. Não à toa, a Holanda, uma comum rota comercial pelos mares desde séculos antes, virou o destino.

A mudança do cenário só aconteceu em 1978, com a pressão dos melhores jogadores do país. Enfim, o profissionalismo foi adotado e ajudou a impulsionar a própria seleção, que viveu o seu ápice nos anos 1980. Já no início dos anos 1990, o Campeonato Dinamarquês se transformou na Superliga, arraigando o regime profissional. Uma nova era que teria um símbolo logo em seguida: a Euro 1992, conquistada na Suécia. Campanha que, curiosamente, também começou pelos mares, com a travessia de balsa entre Copenhague e Malmö. Talvez fosse um sinal.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A Dinamarca, apesar de campanhas marcantes, tem uma história relativamente breve em Copas do Mundo. Sustentar essa reputação seria bastante importante ao país. A seleção já contou com equipes mais marcantes, mas possui suas armas para buscar os mata-matas e, com um confronto acessível, até sonhar com as quartas de final. Além disso, o Mundial pode mudar a concepção sobre alguns atletas importantes, para se marcar na história.

Jogos na Copa

Sábado, 16/06 – 13h – Peru x Dinamarca

Quinta-feira, 21/06 – 9h – Dinamarca x Austrália

Terça-feira, 26/06 – 11h – Dinamarca x França

Ficha técnica

Infogram