Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Uma campanha medíocre não bastou para Roy Hodgson ficar sem emprego. Foram necessárias duas: não contente em ser eliminada como lanterna do seu grupo na Copa do Mundo do Brasil, com a Costa Rica na liderança, a Inglaterra também perdeu nas oitavas da Eurocopa para a Islândia, cuja população inteira de aproximadamente 300 mil habitantes não entra entre as dez cidades inglesas mais populosas. Após a derrota, Hodgson renunciou ao cargo de treinador da seleção, embora seu contrato estivesse chegando ao fim de qualquer maneira – e a federação tivesse condicionado a renovação ao objetivo mínimo de alcançar as quartas de final.

A FA buscou um treinador com perfil parecido para substituir Hodgson. Experiente, inglês, com carreira sólida em times pequenos e médios, mas sem grandes títulos: Sam Allardyce. Era o trabalho dos sonhos de Big Sam. Mas acabou sendo um pesadelo. O treinador foi demitido em apenas dois meses e uma partida no comando da Inglaterra – vitória por 1 a 0 sobre a Eslováquia, 100% de aproveitamento – depois que foi flagrado negociando uma comissão para representar investidores estrangeiros que queriam lucrar com transferências na Premier League com repórteres infiltrados do jornal Telegraph. Ele também deu dicas de como circundar as regras da própria federação que o empregava, além de tecer críticas deselegantes a seu predecessor e a Gary Neville, que havia sido o assistente de Hodgson.

Gareth Southgate, técnico do sub-21, relutou a assumir as rédeas do time principal depois da Eurocopa, mas aceitou comandar as partidas restantes de 2016, dando à federação um pouco de tempo para ponderar quem seria o próximo treinador. Em novembro, depois de duas vitórias e dois empates, foi confirmado no cargo, com um contrato de quatro anos. Com um histórico de trabalhar jovens, deu sequência à renovação do time. A média de idade era de 26 anos na Copa de 2014. Caiu para 25,3 na Euro de 2016 e subiu levemente para 25,5 na convocação para a Rússia – um crescimento pouco significativo considerando que as caras novas que já haviam sido introduzidas na competição francesa estão dois anos mais velhos.

Southgate precisou trabalhar sem as referências da chamada Geração de Ouro. Gerrard e Lampard, que já haviam se aposentado do futebol internacional depois da Copa do Mundo de 2014, receberam a companhia de Wayne Rooney, em 2017. Com sangue novo, a Inglaterra classificou-se sem problemas para a Copa do Mundo da Rússia, aproveitando o grupo fácil em que havia sido sorteada. Justamente por ter uma equipe jovem, sem estrelas tão midiáticas quanto no passado, finalmente entra em um Mundial com expectativas mais baixas, o que pode ajudá-la a evitar mais um vexame.

Como joga

A Inglaterra se classificou para a Copa do Mundo usando o 4-2-3-1, mas, desde a última partida do grupo, contra a Lituânia, Southgate tem usado uma formação com três zagueiros, que já havia sido testada em amistoso contra a Alemanha, em março do ano passado. Acredita ser uma alternativa melhor para dar segurança para um elenco jovem, no equilíbrio entre uma defesa mais sólida e a posse de bola. A aposta é arriscada porque os zagueiros ingleses não são exatamente craques. Tanto que, nos últimos amistosos, Southgate colocou o lateral Kyle Walker pela direita da defesa. John Stones ocupa a posição central. À esquerda, Harry Maguire tem atuado com mais frequência, mas ainda há as opções de Gary Cahill, Phil Jones ou o recuo de Eric Dier. Nas alas, o titular pela direita é Kieran Trippier, com Trent Alexander-Arnold no apoio. À esquerda, a posição era de Danny Rose, mas, depois de uma temporada prejudicada por lesões, Ashley Young aparece à frente.

O meio-campo permite várias formações. Sempre haverá um volante, Dier ou Jordan Henderson, ou os dois ao mesmo tempo em partidas com uma estratégia mais defensiva. Ao lado dele, Southgate tem à disposição Ruben Loftus-Cheek, para melhorar o passe, ou Jesse Lingard, opção de velocidade. Contra seleções em que dominará a posse de bola, como provavelmente acontecerá contra Panamá e Tunísia, também pode recuar Dele Alli e abrir espaço no ataque. Fabian Delph oferece cobertura tanto para o meio-campo, quanto para a defesa, depois de uma temporada como lateral esquerdo do Manchester City.

No ataque, Harry Kane é incontestável. Raheem Sterling é quase. O trio ofensivo mais provável tem os dois ao lado de Alli. Mas Southgate também tem um cartel de opções no setor. Pode variar para o 3-4-3, tirando um dos meias e colocando Rashford ou Welbeck. Outra escalação teria dois centroavantes de ofício, com Jamie Vardy ao lado de Kane. Há uma dúvida no gol. Sem Joe Hart, em péssima fase, Pickford e Butland estão revezando entre si nos amistosos. O goleiro do Everton deve começar como titular.

Time base: Pickford; Walker, Stones e Maguire (Jones); Trippier, Henderson (Dier), Lingard e Young; Alli, Sterling e Kane. Técnico: Gareth Southgate.  

O dono do time

Harry Kane

Harry Kane, da Inglaterra (Photo by Catherine Ivill/Getty Images)

Depois de David Beckham, John Terry, Steven Gerrard e Wayne Rooney, a responsabilidade de ser o capitão da Inglaterra caiu nos ombros de Harry Kane. Uma honra e ao mesmo tempo um fardo em uma seleção que sofre com avalanches de críticas da imprensa e a pressão de nunca conseguir atingir as expectativas. Nada que seja novo para Kane. Entre ser rejeitado pelo Arsenal e achar que nunca jogaria no Tottenham, quando ficou encostado no empréstimo ao Leicester, sempre lidou com adversidades na carreira. E as superou com muita classe. Não é coincidência que seja titular incontestável do time de Southgate. Há quatro temporadas, marca mais de 20 gols pela Premier League. Foi artilheiro duas vezes e só não foi três por causa da fase excepcional de Mohamed Salah. Porque na última campanha alcançou sua melhor marca na liga inglesa, com 30 tentos anotados. Apesar de capitão, Kane não está nem próximo de ser o jogador mais experiente com a camisa da seleção. Sua estreia foi em 2015 e, no total, soma apenas 24 jogos pela Inglaterra. E 13 gols.

O bom coadjuvante

Jordan Henderson

Henderson, capitão da Inglaterra (Photo by Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Nos amistosos deste ano que não tiveram Kane em campo, contra Holanda e Costa Rica, a braçadeira de capitão caiu no braço de Jordan Henderson, função que ele executa também no Liverpool. A titularidade de Henderson não é absolutamente garantida, mas no momento aparece à frente de Eric Dier. Só não jogou na campanha classificatória quando estava machucado. Sua origem é como meia, aquele que corre o campo inteiro, entre as duas áreas, às vezes pelo lado direito. O começo no Liverpool foi difícil, mas conseguiu ganhar a confiança do clube e de parte da torcida, atuando mais como volante. Na seleção inglesa, é o ponto de equilíbrio entre a transição da defesa ao ataque quando as laterais estiverem congestionadas.

Fique de olho

Marcus Rashford

Rashford, da Inglaterra

Não estamos dando dicas de apostas neste guia, mas deem uma olhada na cotação de um gol de Marcus Rashford contra a Tunísia. O atacante do Manchester United é o tal do iluminado. Marcou nas suas estreias pela Premier League, Liga Europa, Champions League e da própria seleção inglesa. O jovem de 20 anos não é a primeira escolha nem no seu clube, nem no time nacional. Mas foi sempre utilizado por José Mourinho no Manchester United porque, quando entrava em campo, muitas vezes era o único cara produzindo algo diferente no ataque vermelho. Saindo do banco de reservas, pode causar o mesmo impacto na equipe de Southgate, com sua velocidade e capacidade de finalização.

Personagem

Raheem Sterling

Sterling, do Manchester City

Raheem Sterling nasceu em Kingston, na Jamaica, uma antiga colônia britânica. Aos dois anos, perdeu o pai, assassinado a tiros em uma região das mais violentas. Como poucas lembranças ficaram marcadas em sua memória, Sterling preferiu marcar o corpo. Tem um rifle tatuado na perna direita porque, segundo ele, “prometeu nunca tocar em uma arma”. Também é a perna com a qual ele chuta (em inglês, “shoot” vale para atirar e para chutar), então “há um significado mais profundo”. Convenhamos que sua tatuagem não é avessa a controvérsias, mas nada que justifique a reação histérica de tabloides que chegaram a pedir que fosse cortado da Copa do Mundo. Apenas o último capítulo de uma perseguição que examina cada atitude que ele toma e se intensifica quando o jovem está representando o time nacional. Acusam-no de ser mão de vaca e de esbanjar dinheiro ao mesmo tempo, ou de parecer cansado em uma festa às 3h, ou de tomar café da manhã um dia depois de perder o prêmio de Melhor Jogador Jovem da temporada. Dos 23 convocados para a Rússia, ele é o único que não nasceu na Inglaterra.

Quatro anos depois da morte do pai, a senhora Sterling, Nadine, mudou-se para o noroeste de Londres, na sombra do Estádio de Wembley. A região não era muito mais acolhedora do que a Jamaica, e Raheem teve problemas de comportamento. Precisou estudar em uma escola especial. A aura das gangues pairava sobre sua cabeça. Tanto que, quando estava no Queens Park Rangers, Arsenal, Chelsea e Fulham interessaram-se. Mas Nadine queria tirá-lo de Londres, facilitando a transferência para o Liverpool, quando o filho tinha apenas 15 anos. A ascensão foi rápida. Estreou com Brendan Rodgers e na seleção inglesa ainda adolescente. Em certo momento, defendia essas duas instituições gigantes do país ganhando £ 2 mil por semana porque o técnico norte-irlandês temia que um aumento influenciasse no seu comportamento.

Em 2013/14, compôs o tridente ofensivo que quase quebrou o jejum de títulos ingleses dos Reds, ao lado de Luis Suárez e Daniel Sturridge. Com a saída do uruguaio para o Barcelona, e com Sturridge fadado a lesões sucessivas, teve atuações de gente grande liderando o ataque vermelho na temporada seguinte. Mas, então, a ambição falou mais alto. Não queria esperar o Liverpool se reconstruir. Recusou o contrato proposto que lhe daria um significativo aumento e, aos 20 anos, tornou-se o jogador inglês mais caro da história (naquele momento) ao ser vendido para o Manchester City por £ 49 milhões. O começo no novo clube foi difícil, mas, eventualmente, chegou Pep Guardiola. O treinador espanhol pegou aquele talento bruto e transformou Sterling, que tinha na finalização seu principal gargalo, em uma máquina de fazer gols. Foram 18 na Premier League e 23 em todas as competições, de longe as melhores marcas da sua carreira. Mesmo ainda muito jovem, parece mais maduro para lidar com o desafio de ser o segundo atacante mais importante da Inglaterra na Copa do Mundo.

Técnico

Gareth Southgate

Gareth Southgate, técnico da Inglaterra (Photo by Catherine Ivill/Getty Images)

Southgate teve uma carreira de relativo sucesso como jogador. Por Crystal Palace, Aston Villa e, principalmente, Middlesbrough, do qual chegou a ser o capitão. Conquistou a Copa da Liga de 2003/04, o primeiro título da história do Boro, e estava no time que chegou à decisão da Copa da Uefa de 2006. Aquela partida contra o Sevilla, na Holanda, foi o seu último jogo como profissional. E o começo da carreira como treinador. Assumiu o comando no Riverside Stadium com a saída de Steve McLaren para a seleção inglesa. Ficou duas vezes no meio da tabela e, na terceira temporada, foi rebaixado. Acabou demitido no começo da campanha na Championship, e a trajetória continuou apenas em 2013, quando assumiu a seleção inglesa sub-21. Com a saída de Roy Hodgson, não estava propenso a substituí-lo, nem interinamente, mas mudou de ideia quando Sam Allardyce foi demitido. No fim daquele ano, aceitou ser confirmado como treinador principal da Inglaterra até a Eurocopa de 2020. Se tudo der certo.

Uma história da seleção em Copas

A relação da Inglaterra com Copas do Mundo não chega nem a ser ambígua. É uma coleção de decepções, com uma exceção, em 1966, quando, em casa, e com aquele gol controverso na final contra a Alemanha, conseguiu o seu único título. De resto, a única semifinal foi em 1990. Muito pouco para um time que sempre é colocado entre os mais importantes e que, bem, inventou essa nossa brincadeira. Nenhuma campanha simboliza melhor o histórico inglês do que a primeira, em 1950.

Antes daquele torneio, a Inglaterra não gostava de se misturar em competições internacionais, já que tomava como fato que era o melhor time do mundo mesmo. Comandada por Stanley Matthews, craque de bola, chegou ao Brasil como favorita. E começou bem a campanha, vencendo o Chile, por 2 a 0. Mas, na segunda rodada, viria a partida que virou parâmetro de zebras por muito tempo. No Estádio Independência, os Estados Unidos, com um elenco semi-profissional, com um professor e um diretor de funeral, venceram a poderosa Inglaterra por 1 a 0.

Foi um resultado vexatório, mas poderia ter sido apenas um tropeço ocasional de uma campanha gloriosa, se a Inglaterra não tivesse também perdido da Espanha, por 1 a 0, gol de Telmo Zarra. A estreia inglesa em Copas do Mundo terminou ainda na primeira fase. A primeira de tantas vezes em que não conseguiu atingir as expectativas no grande palco do futebol mundial.

Como o futebol explica o país

Sergei Skripal era um coronel de inteligência militar da Rússia. Em 1995, foi abordado pelo serviço secreto britânico, aquele do James Bond, e começou a passar informações sobre espiões russos para Londres. Descoberta a sua traição, foi sentenciado a 13 anos de prisão, mas Moscou o liberou em troca de prisioneiros que estavam nos Estados Unidos. Fixou residência em Salisbury, sudoeste da Inglaterra. Em 4 de março deste ano, o agente duplo e sua filha Yulia foram encontrados desacordados no banco de um parque da cidade. A investigação concluiu que haviam sido envenenados por um gás com agente nervoso. O Reino Unido culpou a Rússia pelo ataque. O país de Vladimir Putin, sede da Copa do Mundo de 2018, negou as acusações.

Os dois sobreviveram, mas o que veio a seguir foi uma grave crise diplomática entre os países a pior desde a Guerra Fria. Dezenas de diplomatas foram expulsos nos dois lados, e o Reino Unido começou a averiguar a fortuna de magnatas russos que viviam sob as suas leis – processo que acabou afetando Roman Abramovich, dono do Chelsea. O ministro das Relações Exteriores britânico, Boris Johnson, chegou a dizer que Putin usaria a Copa do Mundo para se fortalecer da mesma forma que Adolf Hitler usou a Olimpíada de 1936, o que é a própria definição de jogar gasolina na fogueira. Chegou a haver a especulação de que a seleção inglesa boicotaria a competição. Mas obviamente isso não aconteceu. A primeira-ministra britânica, Theresa May, porém, disse que nenhum membro do governo ou da Família Real comparecerá ao torneio de futebol.

Dentro de casa, May está muito ocupada com as negociações da saída do Reino Unido da União Europeia. O processo batizado de Brexit foi aprovado em votação popular, em 2016, e deve ser completado até março de 2019. Não é algo fácil. May precisa lidar com o parlamento apresentando emendas e mudanças antes de conversar com Bruxelas. A questão principal é sobre quão grande será o envolvimento britânico com o bloco econômico depois da saída. Por exemplo, a Suíça não faz parte da UE, mas, para ter acesso ao seu mercado comum e outros acordos, precisa garantir a livre circulação de cidadãos europeus. Além das preocupações econômicas, restringir a entrada e saída de estrangeiros foi um dos argumentos mais fortes da campanha pró-Brexit.

Isso deixa o futuro do futebol inglês em estado de incerteza. Atualmente, jogadores com passaporte europeu podem atuar livremente no país, enquanto os de fora precisam corresponder a alguns critérios para conseguir o visto de trabalho. Caso fosse exigido que membros da União Europeia seguissem os mesmos parâmetros, 332 jogadores da Premier League, segunda divisão inglesa e elite da Escócia não conseguiriam a permissão, na época da votação. Entre eles, nomes como N’Golo Kanté e David De Gea, dois dos melhores jogadores da liga inglesa. Mesmo cancelando o acordo de livre circulação com o bloco, pode ser negociada uma exceção para jogadores de futebol. Mas, por enquanto, a verdade é que ninguém sabe como isso será.

O que a Copa significa para a seleção

Experiência, acima de tudo. Pela primeira vez em muito tempo, a Inglaterra entra na Copa do Mundo com expectativas baixas. Tem uma equipe jovem e promissora, mas ainda pouco experimentada nos grandes palcos. Por isso, uma queda precoce talvez não seja um desastre tão grande quanto foi no passado. Graças ao grupo e ao cruzamento, tem boas possibilidades de chegar às quartas de final – o que já seria bom o bastante.

Jogos na Copa

Segunda-feira, 18/06 – 15h – Tunísia x Inglaterra

Domingo, 24/06 – 09h – Inglaterra x Panamá

Quinta-feira, 28/06 – 15h – Inglaterra x Bélgica

Ficha técnica

Seleção inglesa
Infogram