Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Mesmo sem a vaga no Mundial, as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014 terminaram como um feito para a Islândia. A quem nunca tinha passado perto da classificação desde que entrou na competição, e nas duas edições anteriores do qualificatório (2006 e 2010) só havia conquistado uma vitória em cada, disputar a repescagem já representava demais. Os islandeses deixaram Noruega e Eslovênia pelo caminho, caindo só depois de dificultarem a vida da Croácia nos dois confrontos decisivos. Poderia ser apenas um ponto fora da curva. Com o tempo, ficou claro que se tornava uma consolidação.

O trabalho de Lars Lägerback à frente da equipe era louvável. O treinador sueco montou um sistema de jogo muitíssimo eficiente e colhia os frutos da competente formação realizada nas categorias de base da federação. Não seria exagero dizer que este ciclo rumo ao Mundial de 2018 começou bem antes, especialmente quando a Islândia disputou o Campeonato Europeu Sub-21 em 2011. Muitas daquelas peças seriam mantidas e dariam a cara atual da seleção.

Entre uma Copa e outra, haveria uma Euro. Haveria a história por se cumprir, primeiro nas eliminatórias, sobretudo ao terminar na segunda colocação de um grupo que viveu a queda precoce da Holanda. Méritos totais dos islandeses, que já estavam contentes com a mera participação na França, mas não se dariam por satisfeitos. Avançaram na segunda posição do Grupo F (à frente de Portugal, cabe lembrar), superaram a Inglaterra nas oitavas e só pararam de maneira honrosa contra a França. Uma injeção de confiança vital, pensando em 2018.

O elenco sofreu poucas modificações em relação à Eurocopa – afinal, a limitação de opções realmente não permite ir muito além. Apesar da perda de uma referência, como Eidur Gudjohnsen, a atenção maior as islandeses ajudou outros países a abrirem os olhos para o futebol da ilha e facilitou o intercâmbio. Rumo à Rússia, a Islândia precisou enfrentar um dos grupos mais cascudos das Eliminatórias, com três adversários que também estiveram na Euro 2016 – Croácia, Turquia e Ucrânia. Somente o primeiro colocado avançaria diretamente. Pois os nórdicos triunfaram na empreitada.

O Grupo I manteve o equilíbrio e a indecisão durante maior parte da campanha. Os quatro principais concorrentes chegaram com chances até a reta final da disputa. Mas a campanha excelente da Islândia preponderou. Além de vencer os cinco compromissos em casa, o time treinado por Heimir Hallgrímsson contou com outras chaves. As vitórias arrancadas nos minutos finais, como a virada insana sobre a Finlândia e o triunfo cardíaco sobre a Croácia, valeram demais. Além disso, exceção feita na visita aos croatas, os nórdicos também arrancaram pontos importantes nos confrontos diretos longe de seus domínios. O jogo-chave aconteceu em Eskisehir. Contra uma Turquia que também necessitava da vitória, os islandeses foram bem mais competentes e deram um chocolate por 3 a 0. Caminho aberto para que o conto de fadas se consumasse na rodada final, diante da torcida em Reykjavik, com o esperado triunfo sobre Kosovo. A Croácia ficou com a repescagem.

Desde a classificação à Copa do Mundo, os resultados da Islândia não são bons. Perderam amistosos contra México, Peru e Noruega, além de empatarem com Gana no compromisso final antes do Mundial. Mais alarmante do que os resultados em si, é o número de gols sofridos, algo incomum para o padrão dos nórdicos: foram 11 apenas nestes quatro compromissos. Cabe ressaltar que foram feitos testes na escalação, apesar da manutenção do sistema de jogo. Espera-se que seja apenas um desleixo, já que a 15 presentes na Euro estarão também na Copa.

Como joga

A Islândia possui uma das mentalidades coletivas mais fortes desta Copa do Mundo. Tudo depende basicamente do trabalho em conjunto, para que proteja a sua própria área e encontre brechas em cima dos erros do adversário. A força dos islandeses está em suas limitações, porque sabem tirar o melhor a partir disso e se tornar uma equipe extremamente competitiva. É o que se viu ao longo dos últimos anos.

Para que essa estrutura funcione, nada melhor que o 4-4-2, que por vezes até se transforma em 4-5-1 contra adversários de maior peso. Um esquema que permite a oito ou nove jogadores trabalharem de maneira compacta e comporem um paredão diante dos adversários. Além disso, os atacantes também podem pressionar a saída de bola, tornando mais difícil romper a defesa islandesa. Ali está o coração do time, que parte ao ataque principalmente em contragolpes e bolas longas. Outro recurso constante são as bolas paradas, inclusive os arremessos laterais longos.

Considerando a falta de opções no plantel, a seleção islandesa é daquelas para escalar de cor. O goleiro é Hannes Halldórsson, que por vezes oscila, mas também opera seus milagres. Kári Árnasson e Ragnar Sigurdsson fizeram uma excelente parceria no miolo de zaga durante os últimos anos, apesar da parca experiência nas grandes ligas. Sverrir Ingi Ingasson, parceiro de Ragnar no Rostov, é uma alternativa. Na lateral direita, a escolha é pelo veloz Birkir Már Saevarsson. Já na esquerda, se projeta Hördur Magnússon, de maior presença física.

A chave do time, de qualquer forma, se concentra no meio-campo. Aron Gunnarsson é o capitão e carregador de piano à frente da zaga. Ao seu lado, geralmente conta com Gylfi Sigurdsson, principal talento do elenco, embora exista uma preocupação com suas condições físicas após se lesionar no final da temporada. Desta maneira, é possível que um atacante seja sacado para que Emil Hallfredsson recheie a faixa central, com bom passe, e dê liberdade a Gylfi. Pelos lados, Jóhann Gudmundsson e Birkir Bjarnason, dois extremos disciplinados, mas também com faro de gol e boa contribuição ofensiva. Os contra-ataques dependem bastante de ambos.

Já na frente, a Islândia precisa lidar com uma ausência sentida, entre as lesões que a atrapalharam. Herói na Eurocopa, Kolbeinn Sigthórsson sofreu uma contusão grave no joelho e passou a temporada inteira fora, voltando apenas em maio, com duas partidas disputadas pelo Nantes. A falta de ritmo pesou contra e ele foi descartado da convocação final. Assim, a principal referência é mesmo Alfred Finnbogason, artilheiro do Augsburg. Em seu apoio, oferecendo muita velocidade, há Jón Bödvarsson, do Reading.

Time base: Halldórsson, Saevarsson, Árnasson, Ragnar Sigurdsson, Magnússon; Jóhann Gudmundsson, Gunnarsson, Gilfy Sigurdsson, Bjarnason; Bödvarsson (Hallfredsson), Finnbogason. Técnico: Heimir Hallgrímsson

Dono do time

Gylfi Sigurdsson

O camisa 10 é o craque do time, não tem muito como fugir. Oferece a criatividade e a qualidade na ligação tão necessárias à Islândia. Se entrar no tradicional 4-4-2, se empenha um pouco mais na marcação pela faixa central. Mas o treinador pode privilegiar o seu talento (e suas condições físicas) no 4-5-1, que diminui as exigências sem a bola. Com isso, ganha liberdade para atacar, não apenas oferecendo bolas preciosas aos companheiros, como também definindo com precisão de média e longa distância. Com a carreira consolidada nas grandes ligas, principalmente por sua passagem no Swansea, não fez uma boa temporada de estreia no Everton. Além disso, a lesão no joelho que sofreu em março era um claro motivo de preocupação. Sua presença na lista final representou um grande alívio aos compatriotas. Sabem que, se alguém puder resolver qualquer jogo em um lance, o cara mais indicado é o meia.

Bom coadjuvante

Jóhann Berg Gudmundsson

Gudmundsson foi o jogador que mais cresceu em relevância desde a Eurocopa. O reconhecimento, aliás, foi imediato após a competição. O meia deixou o Charlton, rebaixado na Championship, para assinar com o Burnley. Não atuou tanto em sua primeira temporada em Turf Moor, atrapalhado por uma lesão no joelho, mas estourou na última Premier League, um dos destaques na campanha sensacional feita pelo time de Sean Dyche. Tomando conta da ponta direita, mas por vezes utilizado na esquerda, o camisa 17 auxiliava na composição defensiva e desequilibrou no ataque – somando dois gols e oito assistências. Mais emblemático ainda, apareceu em jogos grandes, balançando as redes de Liverpool e Manchester City. Nas Eliminatórias, também ajudou bastante na reta decisiva, com gols nas duas últimas rodadas, contra Turquia e Kosovo. Seu trabalho, ao lado de Bjarnason, valerá demais à Islândia. Os dois motores da equipe atuam pelos lados.

Fique de olho

Albert Gudmundsson

O velho Albert Gudmundsson, nascido em 1923, foi o primeiro futebolista profissional da Islândia. A partir da década de 1940, atuou por vários clubes de relevo da Europa, em lista que inclui passagens por Rangers, Arsenal, Milan e Nice. Após sua aposentadoria, entrou para a política, se tornando inclusive Ministro das Finanças e das Indústrias, além de ter concorrido à presidência. Um de seus filhos é Ingi Björn Albertsson, que seguiu o caminho no futebol. Nunca jogou fora do país, mas se tornou o maior artilheiro do Campeonato Islandês e defendeu a seleção por oito anos, marcando o gol da primeira vitória na história das Eliminatórias. Sua filha, Kristbjörg Ingadóttir, também manteve a linhagem e jogou pela seleção feminina. Casou-se com Gudmundur Benediktsson, outro jogador da seleção local. Ao se aposentar, além de técnico, também abraçou a carreira como narrador. ‘Gummi Ben’ ganhou fama internacional por suas narrações estridentes, passando toda a emoção pelo feito na Eurocopa.

Da união, nasceu em 1997 mais uma criança batizada como Albert Gudmundsson. Ele é, portanto, filho de Gummi Ben e Kristbjörg, neto de Ingi Björn, bisneto do primeiro Albert. Agora, fazendo jus às duas ramificações da árvore genealógica, o atacante de 20 anos chega à seleção. Foi uma das últimas adições da equipe nacional, observado principalmente nos amistosos do começo do ano. Os três gols anotados contra a Indonésia deixaram ótima impressão. No futebol holandês desde os 16 anos, o jovem despontou no segundo quadro do PSV, mas fez as suas aparições no time que conquistou o Campeonato Holandês nesta temporada. Com muita mobilidade, pode atuar como ponta ofensivo ou segundo atacante. Deverá ser usado algumas vezes durante a Copa do Mundo, principalmente saindo do banco de reservas. Dará a oportunidade para que Gummi Ben narre um gol do próprio filho na Copa do Mundo. Seria inesquecível.

Personagem além da bola

Aron Gunnarsson

O capitão da Islândia é um personagem e tanto, algo perceptível já por sua aparência. O homem de barbas longas e músculos saltados lembra um bocado a imagem que se tem dos vikings. Uma noção que se amplia quando, diante dos torcedores, começa a bater palmas e urrar, puxando o tradicional cântico do “BOOM, BOOM, HÚH!” – como ele mesmo define. Uma tradição que, a bem da verdade, é relativamente recente. Começou mesmo durante as eliminatórias da Euro, durante a visita da Holanda a Reykjavik. Tornou-se uma febre a partir da Eurocopa, copiada por outros clubes e seleções.

A história de Gunnarsson, no entanto, vai além das aparências. É realmente um grande personagem. Nascido em Akureyri, uma cidadezinha de 18 mil habitantes na costa da Islândia, ainda assim considerada “a capital do norte”, precisou se virar como podia para jogar futebol. O inverno rigoroso era um claro empecilho nesta empreitada. Com a neve tomando conta da região durante a maior parte do ano, o jeito era se virar em campinhos acidentados nos poucos meses de trégua. O primeiro clube do garoto tinha um nome sugestivo: Thór, em homenagem ao deus do trovão.

Quando o inverno pegava, Gunnarsson ia às quadras fechadas e, como outros jovens, jogava handebol. E, bem, ele também era muito bom com a bola nas mãos. Tinha uma carreira promissora no esporte com ampla penetração na Islândia, mas quando precisou escolher, aos 15 anos, preferiu calçar chuteiras. Seu irmão mais velho, Arnór Gunnarsson, optou por seguir nas quadras e chegou a jogar dois Mundiais com a seleção local. A força desenvolvida nas quadras, ao menos, ajudaram de certa maneira os longos lançamentos laterais feitos por Aron. O número 17, que usa nos clubes e usará na Copa do Mundo, é uma referência direta à camisa que também veste Arnór.

Abandonar o handebol, porém, tinha uma explicação plausível. Pouco tempo depois, já no time principal do Thór, Aron Gunnarsson ganhou a oportunidade de se mudar à Holanda e se juntar ao AZ. Tinha 17 anos e era nome frequente nas seleções de base. Em 2008, por fim, viveu o sonho de estrear na equipe principal da Islândia – um orgulho que nem o roubo de sua scooter atrapalhou. Foi quando as coisas realmente começaram a acontecer para o meio-campista. No mesmo ano, assinou com o Coventry City, jogando na Inglaterra, terra de seus ídolos. E em 2011, após se destacar no Europeu Sub-21, desembarcou no Cardiff City, seu clube atual – com o qual deve voltar à Premier League na próxima temporada.

Já na seleção, Gunnarsson aprendeu ainda mais o sentido de liderança. Já portava a braçadeira no Europeu Sub-21 e, como uma referência à maioria absoluta dos companheiros que ganharam espaço no time adulto, manteve a faixa no braço. Tinha apenas 23 anos quando a usou pela primeira vez, em 2013. Fez falta na repescagem rumo à Copa de 2014, quando, lesionado, se ausentou das partidas contra a Croácia. Pôde dar a volta por cima rumo a 2016 e a 2018. Certamente, será um grande personagem também na Rússia.

Técnico

Heimir Hallgrímsson

Qualquer introdução sobre a história de Hallgrímsson depende da menção a Lars Lägerback. O treinador que revolucionou o futebol na Islândia tem muitos méritos no processo. Montou um time competitivo, soube pinçar bons jogadores, deu confiança ao elenco, provocou uma união com a torcida. E foi ele também quem encontrou o seu sucessor. O sueco era professor do curso de técnicos da Uefa, em que Hallgrímsson aprendia as artes do ofício. Ex-jogador de clubes islandeses e também dentista, foi convidado por Lägerback para trabalhar na seleção. Atuou como seu assistente até meados de 2013, quando o comandante principal, já garantindo a transição, passou a dividir funções com o novato – uma experiência, aliás, que o veterano tivera em seus tempos à frente da Suécia. Naturalmente, após a Euro 2016, Hallgrímsson assumiu o controle.

Algo comum entre os islandeses, Hallgrímsson é uma pessoa bastante aberta. A ponto de permitir que os torcedores opinem sobre suas decisões à frente da seleção em uma mesa de bar. Ao longo dos últimos dois anos, além de trabalhar a confiança de seus jogadores e manter as bases anteriores, consegue até oferecer algumas alternativas de jogo. Mais do que isso, se empenha bastante em descobrir novos talentos, em caça mais do que necessária para ampliar o escopo de um plantel com suas claras limitações. Considerando a idade de alguns atletas, com nove já superando a casa dos 30 anos, pensar no futuro também é uma tarefa primordial.

Uma história da seleção nas Copas

A Islândia nunca disputou uma Copa do Mundo. No entanto, possui as suas histórias em Eliminatórias – e, indo além do quase em 2014 ou da classificação em 2018. Após ter a admissão negada pela Fifa em 1954, a Islândia iniciou sua trajetória na competição rumo a 1958. Pegou um grupo dificílimo, contra Bélgica e França. Pois um dos jogos envolvendo os islandeses contou com certo pioneirismo – não deles. Na goleada dos belgas por 8 a 3, Rik Coppens inventou a cobrança de pênalti “em dois lances”, que depois se tornaria célebre com Johan Cruyff.

Nas três Copas seguintes, a Islândia não disputou as Eliminatórias. Voltou em 1974. E, curiosamente, cruzou com o próprio Cruyff. Os nórdicos acabaram se tornando os fiéis da balança para que a Laranja Mecânica de Rinus Michels fosse à Alemanha Ocidental. Em uma disputa acirrada com a Bélgica, a Holanda só confirmou a classificação no saldo de gols. Para isso, pesaram as goleadas por 5 a 0 e 8 a 1 sobre os islandeses, contra os dois 4 a 0 assinalados pela Bélgica. Curiosamente, pelas dificuldades de deslocamento à ilha, tanto a ida quanto a “volta” aconteceram em estádios belgas ou holandeses.

Holanda e Bélgica voltaram ao grupo da Islândia nas Eliminatórias para a Copa de 1978. Desta vez, ambas as seleções viajaram juntas para Reykjavik – e venceram. Em compensação, os islandeses conquistaram sua primeira vitória na competição. Diante de sua torcida, derrotaram a Irlanda do Norte por 1 a 0. O supracitado Ingi Björn Albertsson anotou o gol sobre Pat Jennings.

Em 1982, a Islândia já foi melhor e venceu seus dois compromissos contra a Turquia, além de empatar com Tchecoslováquia e Gales, em campanha digníssima. Pois os galeses teriam pesadelos bem piores com os nórdicos quatro anos depois. A derrota por 1 a 0 em Reykjavik logo na primeira rodada, de certa forma, custou a classificação à Copa de 1986. Em um grupo parelho com apenas quatro seleções, a Espanha se classificou diretamente e a Escócia avançou à repescagem graças ao saldo de gols superior ao de Gales.

O principal feito rumo ao Mundial de 1990 foi segurar dois empates com a União Soviética, inclusive na visita a Moscou, além do 0 a 0 contra a Áustria em Reykjavik. Para a Copa de 1994, vieram duas vitórias sobre Hungria, com o histórico triunfo por 2 a 1 em Budapeste. Depois de uma campanha de vitórias apenas sobre Liechtenstein nas Eliminatórias de 1998, os nórdicos acumularam quatro triunfos para 2002, vitimando a República Tcheca em Reykjavik. Um dos maiores nomes da história do futebol local, com longas passagens por Stuttgart e Hertha Berlim, Eyjólfur Sverrisson anotou dois gols no triunfo por 3 a 1. Pavel Nedved, Karel Poborsky, Tomas Rosicky, Milan Baros e Jan Koller estavam em campo naquela ocasião.

Por fim, as campanhas nas Eliminatórias para as Copas de 2006 e 2010 foram bem mais fracas. Na primeira, a Islândia conquistou apenas quatro pontos, todos contra a incipiente Malta. Já no caminho para a África do Sul, só venceram a Macedônia, embora o empate por 2 a 2 contra a Noruega em Oslo, com gol derradeiro de Eidur Gudjohnssen, tenha rendido a comemoração. De certa forma, a falta de resultados abriu as portas para a chegada de Lars Lägerback em 2011. A partir de então, os islandeses não precisariam mais contar nos dedos as raras vitórias. Elas elevariam seu patamar a outras pretensões.

Como o futebol explica o país

A Islândia não parece um terreno muito fértil ao futebol. E, realmente, fica difícil dizer que é. A ilha de 350 mil habitantes tem uma óbvia limitação por conta de sua população reduzida. Como se isso não bastasse, o inverno rigoroso dificulta a prática do esporte em parte do ano, quando grossas camadas de neve tomam o território. Pois esta superação dos islandeses, de fazer acontecer e chegar a uma Copa do Mundo, traz grandes significados além do esporte em si. Ela também permite entender também o modo de vida e a cultura do país nórdico.

Diante das limitações, a Islândia conta com um forte senso de coletividade, que repercute não apenas nas políticas públicas, mas também na própria relação entre seus habitantes. E o esporte consegue capitalizar esta características, com um incentivo muito grande às práticas desde o sistema escolar. É uma maneira de motivar hábitos mais saudáveis na população e mesmo auxiliar na educação. O futebol entra neste mecanismo, como outras modalidades, em menção especial ao handebol.

Os jovens islandeses são incentivados a praticar múltiplos esportes. Há um treino físico muito intenso proporcionado no sistema escolar. E quando os adolescentes chegam a certa idade, ganham liberdade para escolher a modalidade à qual querem se dedicar. Há uma cultura de treinamentos e de disciplina relacionada. O trabalho coletivo promovido também promove uma mentalidade em comum.

O futebol, mesmo sem ter um grande investimento por trás, é bastante popular na Islândia. Ao todo, 23 mil dos 350 mil habitantes são registrados como jogadores na federação, a maioria crianças e adolescentes. Entre homens adultos, são três mil futebolistas, que se dividem em clubes majoritariamente amadores. O Campeonato Islandês conta com cinco divisões, sendo a última regionalizada. Somente a elite é semiprofissional. Além disso, a maioria dos clubes da primeira divisão são poliesportivos, com departamentos de handebol, hóquei no gelo e outras modalidades.

Além de escolas e clubes, o futebol se firmou na Islândia graças a ações da própria federação. Desde a década passada, a entidade começou a construir campos de grama sintética cobertos, que pudessem receber treinos e jogos durante o inverno, quando a neve toma o cenário. São 30 campos espalhados pelo país, sete deles cobertos, assim como 150 quadras com dimensões não-oficiais. A partir dos quatro anos de idade, as crianças já podem ser orientadas por um professor credenciado.

Claramente, esta política de apoio mobiliza a população ao redor do futebol. Mas o mais importante é a maneira como a federação entende este investimento. Ela sabe que, mais do que praticantes, necessita também de pessoas com uma boa formação para educá-las. Não à toa, há também o apoio para que os profissionais locais façam os cursos da Uefa para treinadores, mesmo para atuar na base. Foi assim, por exemplo, que o técnico Heimir Hallgrímsson se projetou.

A partir disso, a qualidade na formação vista nas categorias de base dos clubes e das seleções atingiu um nível alto. A equipe nacional passou a se destacar nos torneios europeus. Já o Breidablik se tornou uma referência entre os clubes, pela maneira como capta talentos e os prepara. Conjuntamente, os atletas de elite se aproveitaram do intercâmbio fora do país. Vários dos convocados que comporão a seleção na Copa do Mundo de 2018 chegaram a clubes estrangeiros ainda na adolescência – de países como a Inglaterra e a Holanda.

Outro episódio particular, aliás, aconteceu em 2008. A crise financeira causada pela quebra dos três principais bancos da Islândia derrubou o governo, causou protestos, aumentou o desemprego e causou uma emigração massiva. No futebol, se refletiu também com a saída de alguns dos principais jogadores do campeonato nacional. No entanto, contou com uma mobilização massiva pela recuperação. Resultou em uma transformação nacional, que respingou dentro de campo.

Entre outras coisas, o novo governo incentivou o turismo e iniciativas inovadoras no mercado de trabalho – inclusive levando os desempregados a atuarem em escolas e clubes. Também houve uma preocupação com os serviços de bem-estar social e saúde da população, em especial das crianças, algo relacionado à prática esportiva. Já no futebol, sem os atletas mais experientes, jovens começaram a ser lançados cada vez mais cedo no nível principal, o que acelerou o processo de amadurecimento. A recuperação paulatina do país, a partir de 2011, acaba coincidindo logo depois com o sucesso da seleção. A seleção islandesa, dentro deste contexto, não deixa de ser um “cartão postal” do novo momento.

“Alguém disse que é um conto de fadas. Eu digo que é por um lado, mas não por outro. Esse é o resultado do trabalho duro de muita gente. Todo mundo evoluiu. Falam muito sobre o meu papel e que eu irei me tornar presidente, mas tudo isso acontece porque somos um grupo de pessoas que trabalhamos incrivelmente duro em um ótimo ambiente. E temos jogadores muito bons”, afirmava o técnico Lars Lägerback, ante as boas campanhas protagonizadas a partir de 2012. Discurso ao futebol que vale à sociedade.

O trabalho duro, dentro do senso coletivo, se vê na maneira uniforme como a seleção islandesa atuou nos últimos anos. E não se limita às quatro linhas. Ele transborda nas arquibancadas, com o apoio da multidão que abraça a nação e a acompanha nas grandes competições. Depois da invasão na Eurocopa, mais de 60 mil pessoas requisitaram ingressos à Copa do Mundo. O grito do trovão, que romperá os ares de tempos em tempos durante os jogos na Rússia, lembra como a nação se une. Também rugirá entre as dezenas de milhares que ficarão em casa, mas sairão às ruas, baterão recordes de audiência e torcerão juntos, como uma só massa. Uma família de 350 mil irmãos, juntos em diferentes circunstâncias.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A seleção se torna o maior expoente da Islândia. Ainda que o país possa ser exaltado por elementos de sua cultura ou de suas belezas naturais, a presença do país menos populoso a disputar um Mundial se torna um grande chamariz. Assim, antes de mais nada, o papel da equipe será também transmitir a identidade da ilha. Mas há uma competição a se disputar e, com seu estilo de jogo tão arraigado, os nórdicos buscam uma campanha que possa emular o que se viu a Eurocopa. Repetir o sucesso será bem difícil e o fato de ser a surpresa se dissolveu. Mas dá para encarar os adversários da chave e, quem sabe, sonhar com outra aparição nos mata-matas.

Jogos na Copa

Sábado, 16/06 – 10h – Argentina x Islândia

Sexta-feira, 22/06 – 12h – Nigéria x Islândia

Terça-feira, 26/06 – 15h – Islândia x Croácia

Ficha técnica

 

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