Como foi o ciclo da seleção até a Copa

O italiano Alberto Zaccheroni era o técnico no Brasil, mas deixou o cargo depois do Mundial. O mexicano Javier Aguirre assumiu, mas comandou o time por poucos jogos. Trabalhou na Copa da Ásia de 2015, com três vitórias na fase de grupos e eliminação precoce para os Emirados Árabes Unidos. Logo depois, ele foi demitido, mas não pela derrota: Aguirre foi indiciado como um dos participantes de um escândalo de manipulação de resultados na Espanha quando era treinador do Zaragoza. Foi escolhido o bósnio Vahid Halilhodzic como substituto.

A classificação japonesa para a Copa veio com alguma tranquilidade, ao menos em termos de resultados. Conseguiu vitórias cruciais contra a Arábia Saudita, no primeiro runo, e Austrália, os concorrentes por uma vaga, e garantiu o primeiro lugar do seu grupo e a vaga direta à Copa – e ainda complicou a Austrália, perdendo, já classificado, para os sauditas, o que empurrou os australianos à repescagem. Mas o desempenho em campo não animava e as críticas em relação às escolhas de Halilhodzic surgiam. Ele causou polêmica ao abrir mão de jogadores como Keisuke Honda, Shinji Kagawa e Shinji Okazaki. Mais do que isso, foi contestado por promover a titular Hotaru Yamaguchi, então na segunda divisão do país, do Cerezo Osaka, em 2016.

Além do desempenho não ser bom e os questionamentos sobre os jogadores escolhidos, havia outro descontentamento, que culminou em um problema ainda maior: o estilo de jogo implantado pelo técnico. Somado a tudo isso, Halilhodzic levou uma equipe muito enfraquecida para a Copa do Extremo Oriente. Poucos jogadores tinham experiência em seleção. O time tomou um 4 a 1 da Coreia do Sul e o técnico elogiou o desempenho do adversário. As críticas relacionadas ao seu estilo de jogo e suas opções, mais uma vez, cresceram.

A Federação Japonesa (JFA) decidiu pela demissão de Halilhodzic em abril de 2018, a meses da Copa. O escolhido também não inspira lá muita confiança: o experiente Akira Nishino, de 63 anos, que exercia o cargo de diretor técnico na JFA. Ele não trabalhava como técnico desde 2015, quando deixou o Nagoya Grampus. Alguns o enxergam como um treinador ultrapassado, mas a sua missão é clara desde o dia que foi anunciado: resgatar um estilo de jogo japonês, de passes curtos e domínio de posse de bola. Halilhodzic trabalhava com mais contra-ataques, força física e muita marcação, trabalhando a bola sempre em transições muito rápidas defensivas e ofensivas.

Os resultados da seleção japonesa em 2018 também não empolgam. Em março, ainda com Halilhodzic, o Japão empatou com Mali por 1 a 1 e perdeu da Ucrânia por 2 a 1. Em maio, já com Nishino, perdeu para Gana por 2 a 0, da Suíça por 2 a 0 e venceu o Paraguai por 4 a 2, já na preparação para a Copa do Mundo. O time está no Grupo H, que tem Polônia, Colômbia e Senegal, e sai atrás de todos os adversários na disputa por uma vaga.

Como joga

O Japão variou bastante no seu esquema tático ao longo da campanha. Jogou em 4-3-3, 4-2-3-1 e até em um 4-1-4-1 com Vahid Halilhodzic. Com Akira Nishino, o time ainda não encontrou a melhor forma de jogar. A sua abordagem defensiva no início de carreira no comando da seleção sub-23 do Japão em 1996 foi convertida em um estilo bastante agressivo e ofensivo, que caracterizou os clubes que comandou. Por isso, é de se imaginar que a seleção japonesa traga essa característica, dos seus melhores momentos como técnico.

O treinador ressaltou mais de uma vez que quer resgatar o estilo de jogo japonês, com velocidade, agilidade e passes rápidos e curtos. O controle do jogo no meio-campo é chave e o técnico pode usar um esquema 4-2-3-1, dando liberdade aos jogadores de frente. Ofensivamente, pode ser uma arma importante. Defensivamente, expor demais.

Time-base: Eiji Kawashima; Hiroki Sakai, Maya Yoshida, Tomoaki Makino e Yuto Nagatomo; Makoto Hasebe e Ryota Oshima; Genki Haraguchi, Keisuke Honda e Takashi Usami; Yuya Osako. Técnico: Akira Nishino.

O dono do time

Maya Yoshida

A seleção japonesa tem estrelas como Keisuke Honda, Shinji Kagawa e Shinji Okazaki, mas nem se sabe se todos serão titulares. Um dos pilares do time, até pelo modo como o técnico gosta de trabalhar ofensivamente, é o zagueiro Maya Yoshida. Jogador de 29 anos, atua pelo Southampton e é um dos pilares do time. É o jogador mais importante da linha de defesa. São seis anos de Premier League, o que dá experiência a ele em termos de alto nível, ainda que em um time que não está entre os seus melhores, mas enfrenta jogadores dos melhores do mundo.

O bom coadjuvante

Genki Haragushi

Um dos jogadores que mais ganhou espaço no ciclo do Japão rumo à Rússia foi Genki Haragushi. É um atleta com um ótimo preparo físico e tem ótima capacidade de dribles. Pode atuar tanto na ponta direita quanto no centro do meio-campo. Era considerado um jogador pouco esforçado nos tempos de J-League, mas atualmente, aos 26 anos, é completamente diferente. Foi para a Alemanha em 2014, para defender o Hertha Berlim, e jogou na temporada passada no Fortuna Düsseldorf, que subiu da segunda para a primeira divisão. Tornou-se um jogador de muito trabalho em campo, dribles, velocidade e esforço também na marcação – o que ajuda a equilibrar o time.

Fique de olho

Yuya Osako

O atacante ganhou muito espaço. Aos 28 anos, é inclusive favorito a começar a Copa como titular no ataque, como centroavante, à frente até de Shinji Okazaki. O jogador do Colônia não é um exímio marcador de gols, mas se movimenta muito, abre espaços e trabalha bem na construção de jogadas, algo que pode ajudar muito no estilo de jogo. Ele até funciona mais como um construtor de jogadas do que como um finalizador nato. Por isso, ele pode fazer com que os companheiros de lado de campo e até os que vem mais de trás possam marcar gols.

Personagem

Makoto Hasebe

O capitão do Japão tem 34 anos e joga na Alemanha, no Eintracht Frankfurt, e é o grande líder da equipe. Ele lançou um livro, chamado Kokoro o totonoeru (“Treinando a mente”), que vendeu mais de um milhão de cópias. O mais interessante é que ele doou US$ 1,65 milhão para a Unicef, fruto dos direitos autorais do livro e de um evento que ele organizou. Os fundos são para ajudar pessoas afetadas pelo Tsunami de 2011. As doações financiaram a construção de uma escola de educação infantil.

Desde 2007, Hasebe contribui com a Unicef. Ele fazia isso de forma anônima e só mudou a postura a pedido do Comitê Japonês da Unicef. Ele passou a trabalhar como embaixador da entidade, em uma época que também já tinha crescido em fama e reconhecimento mundial. “Assim que comecei a estabelecer uma posição responsável e de rendimentos, eu pensei que seria bom fazer algo assim”, afirmou o treinador.

Técnico

Akira Nishino

Um técnico muito conhecido no Japão e com um currículo extenso no futebol. Tem 63 anos e foi jogador tanto na universidade quanto no Hitashi, em uma época que o esporte no país passava longe de ter o tratamento profissional. Foi entre 1978 e 1990, pouco antes da transformação que o Japão viu no seu futebol nos anos 1990 – e que o clube fosse rebatizado como Kashiwa Reysol.

Como técnico, foi treinador do sub-20 em 1991/92 e o time sub-23 de 1994 a 1996. Foi quando conseguiu o que ficou conhecido no Japão como “Milagre de Miami” com a vitória sobre o Brasil na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Era uma tática bem defensiva na época, mas essa não seria a sua marca na carreira. O bom trabalho o credenciou para clubes japoneses.

Treinou o Kashiwa Reysol de 1998 a 2001 e ganhou uma Copa da Liga Japonesa. Veio então seu trabalho mais significativo, o Gamba Osaka, de 2002 a 2011. Foi campeão da J-League, em 2005, duas vezes da Copa do Imperador (2008 e 2009), a Copa da Liga Japonesa (2007) e o seu título mais conhecido, a Liga dos Campeões da Ásia, em 2008. Foi quando o time, muito ofensivo e envolvente na campanha continental, enfrentou o Manchester United no Mundial de Clubes. Perdeu, mas proporcionou um jogo muito aberto: 5 a 3 para os ingleses.

Depois do Gamba Osaka, sua trajetória sofreu uma queda. Treinou rapidamente o Vissel Kobe, em 2012, e ficou quase dois anos sem trabalhar. Depois, dirigiu o Nagoya Grampus por duas temporadas, em 2014 e 2015. Desde então, não trabalhava como técnico e tinha o cargo de diretor técnico na JFA. Por isso, há desconfianças se o seu método ainda é bom o suficiente para o maior evento de futebol do planeta, com um nível que exige o máximo.

Uma história da seleção em Copas

Atualmente o Japão é uma potência na Ásia, mas nem sempre foi assim. A primeira Copa do Mundo do Japão só foi disputada em 1998. Antes disso, em 1996, o país já tinha comemorado conquistar o direito de ser sede da Copa do Mundo de 2002, em parceria com a Coreia do Sul. Mas os japoneses não queriam que sua primeira Copa fosse só em 2002. E fez isso acontecer quatro anos antes.

Poderia até ser antes. Em 1993, nas Eliminatórias, um gol sofrido nos acréscimos contra o Catar, em Doha, fez o Japão ficar atrás da Coreia do Sul e perder a vaga no Mundial dos Estados Unidos. Os japoneses lembram do episódio como “Agonia de Doha”. Nas Eliminatórias para 1998, o Japão ficou atrás da Coreia do Sul, em segundo lugar do Grupo B, e precisou disputar a repescagem contra o Irã.

Em um duelo sofrido, disputado em jogo único na Malásia, os dois times empataram em 2 a 2. Tudo indicava que a vaga seria decidida nos pênaltis, mas faltando dois minutos para o fim da prorrogação, Masayuki Okano marcou o que era, na época, o gol de ouro e decidiu o duelo. O Japão estava na Copa. O Irã foi empurrado para a repescagem com a Austrália e acabou se classificando, também de forma dramática.

A estrela Kazu Miura (sim, aquele, que ainda joga depois dos 50 anos) ficou fora daquela Copa e foi a grande ausência da seleção japonesa na época. Na Copa do Mundo, o desempenho foi sofrível. Derrota na estreia contra a poderosa Argentina por 1 a 0, derrota para a Croácia também por 1 a 0 e, por fim, uma derrota para a Jamaica por 2 a 1. O ponto positivo foi o gol de Masashi Nakayama. O brasileiro Wagner Lopes, naturalizado japonês, esteve no elenco que disputou aquele Mundial.

Como o futebol explica o país

Escândalos políticos não são exatamente incomuns no Japão. No mais recente, o Primeiro Ministro do Japão, Shinzo Abe, tem o seu governo em crise depois de caso de nepotismo e suspeitas de favorecimento e há inclusive a expectativa que ele renuncie em breve. A reputação e o governo de Abe foram gravemente afetados por suspeitas de favorecimento na venda de terras para um grupo ultranacionalista de escolas de ensino infantil. Segundo as denúncias, a esposa de Abe, Akie, facilitou a venda com um desconto no valor da terra de 70%.

Akie tinha o cargo de diretora honorária no grupo de escolas de jardim de infância Moritomo Gakuen. Na mensagem, ela endossou as tentativas da escola de promover “o orgulho nacional por meio da educação moral”, além de elogiar a “paixão” demonstrada pelo presidente do grupo, Yasunori Kagoike. Esse tipo de abordagem educacional remete ao militarismo pré-guerras, no início do século 20 e gerou muitas críticas, especialmente tendo uma figura tão importante criando facilidades irregulares para a compra do terreno.

A polêmica vai além, porque essa escola, que comprou o terreno, chegou a mandar comunicado para pais dos seus alunos tratando chineses e coreanos como inferiores. A escola se retratou depois, pedindo desculpas pelo incidente. O colégio também faz as crianças cantarem o hino nacional para homenagear o Rescrito Imperial sobre Educação, de 1890, banido depois da guerra justamente por ser considerado algo que levou ao tipo de comportamento pré-guerra. Além disso, todas as manhãs e leva as crianças de três e sete anos em visitas a bases militares com fotos de membros da família imperial.

Yasunori Kagoike, presidente do grupo educacional, é parte de um grupo Nippon Kaigi, de Osaka, um grupo ultraconservador que tem entre seus membros justamente Shinzo Abe e diversos ministros do seu governo. O escândalo tem afetado a popularidade do Primeiro Ministro, que já não andava bem. Segundo a Nippon TV, o apoio ao governo Abe, em uma pesquisa recente, é de 26,7%. É a menor desde que ele assumiu o cargo, em dezembro de 2012.

Abe negou o envolvimento nos escândalo. Disse, inclusive, que se provarem que ele participou, renunciará ao cargo. Só que as coisas podem piorar mesmo que as provas demorem a aparecer. A baixa popularidade pode afetar o Partido Democrático Liberal nas eleições do próximo ano. Por isso, há a expectativa que ele renuncie ao cargo até o dia 20 de junho, quando encerra a atividade parlamentar. Isso mesmo: no meio da Copa.

O que a Copa significa para a seleção

O Japão quer se afirmar em palco mundial. Seu grupo não é dos mais fortes, embora o time japonês esteja enfraquecido e, teoricamente, pior que todos os seus adversários. Avançar em um grupo com Polônia, Colômbia e Senegal seria um grande feito para o time e que igualaria as melhores campanhas da seleção, em 2002 e 2010. Ir além disso é realmente um sonho.

Ficha técnica

Guia da Copa 2018 – Japão
Infogram