Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Os quatro anos foram sob o comando de Hernán Darío Gómez, e com competições importantes em todos eles. O Panamá manteve um bom nível na Copa Ouro. Em 2015, passou por Trinidad Tobago, nos pênaltis, e perdeu para o México nas semifinais. Dois anos depois, foi eliminado pela Costa Rica, ainda nas quartas de final. A grande novidade do ciclo foi a participação na Copa América do Centenário. E a campanha começou bem, com vitória sobre a Bolívia por 2 a 1, gols de Blas Pérez. Mas vieram derrotas para Chile (4 a 2) e Argentina (5 a 0), os cachorros grandes do grupo, e os panamenhos não chegaram às quartas de final.

A campanha para a Rússia começou no final de 2015. O Panamá ficou no grupo B da quarta rodada das eliminatórias, ao lado de Haiti, Jamaica e Costa Rica. Classificou-se para o hexagonal final, mas sem inspirar tanta confiança. Afinal, havia perdido duas vezes para os costarriquenhos, que voltariam a ser adversários na fase seguinte. Dando a lógica, pelo menos uma seleção já estaria à sua frente – sem contar Estados Unidos e México, naturalmente mais poderosos.

Mas o que ninguém esperava era a péssima campanha dos Estados Unidos. Três seleções entraram com chances na última rodada. Os americanos conseguiram a façanha de perder de Trinidad Tobago, que já estava eliminado e, mesmo assim, fez 2 a 0 ainda no primeiro tempo. Pulisic descontou. A viagem do Tio Sam para a Rússia ainda estaria de pé, pelo menos pela repescagem, se Honduras ou Panamá não vencessem os seus jogos. O México bem que tentou retribuir o favor de quatro anos antes, quando os EUA derrotaram os panamenhos e jogaram os mexicanos na repescagem, mas os hondurenhos viraram com dois gols no começo do segundo tempo.

Enquanto isso, o Panamá sofria. Johan Venegas havia aberto o placar para a Costa Rica, aquela mesma Costa Rica. Gabriel Torres fez um gol que não foi bem um gol, mas a arbitragem validou, então a partida estava empatada. Ainda não era suficiente para os panamenhos, que seguiam atrás de Honduras e EUA. Aos 43 minutos do segundo tempo, veio o êxtase. O zagueiro Román Torres, que sabe-se lá por que estava no ataque, recolheu a bola nas costas da zaga e encheu o pé para concretizar o sonho de uma nação: o Panamá estava na Copa do Mundo.

Como joga

O Panamá tem sido testado em diversas formações. Na campanha das eliminatórias, Darío Gómez armou a equipe em um 4-4-2, misturando a experiência de Tejada ou Pérez com Gabriel Torres, um pouco mais veloz. Nos amistosos de março, o colombiano aproveitou o encontro com dois times europeus para testar uma das modas da atualidade, o 5-4-1 que ficou famoso com Antonio Conte. Apesar da derrota por 1 a 0 para a Dinamarca, o desempenho foi encorajador. No entanto, na partida seguinte, contra a Suíça, veio o choque de realidade: 6 a 0.

Nos últimos jogos de preparação antes da estreia contra a Bélgica, Dário Gómez promoveu mudanças menos drásticas em relação ao time que classificou o Panamá. Colocou Gabriel Gómez na frente dos zagueiros, entre as linhas de defesa e meio-campo, com Pérez ou Tejada isolados na frente: o tal do 4-1-4-1. Não veio nenhuma vitória diante de Irlanda do Norte e Noruega, mas pelo menos a defesa, ponto forte do hexagonal final, com apenas dez gols sofridos, voltou a funcionar. Empate por 0 a 0 com os norte-irlandeses e derrota por 1 a 0 para os noruegueses.

A equipe panamenha é bastante limitada. Se a defesa virou trunfo no hexagonal, o ataque foi bastante econômico, com apenas nove gols marcados nas dez partidas. Além disso, a maioria das referências da equipe está envelhecida: Jaime Penedo (36 anos), Felipe Baloy (37), Román Torres (32), Gabriel Gómez (34), Blas Pérez (37) e Luis Tejada (36). Não há nenhum jogador em grandes ligas europeias e o maior grupo vem da Major League Soccer: seis.

Os nomes na defesa devem variar. Baloy, pela idade avançada, e Román Torres, por ter sofrido uma lesão recente, talvez não joguem todas as partidas. Fidel Escobar, 23 anos, é o mais novo do setor e atuou com frequência nas eliminatórias. Harold Cummings, do San José Earthquakes, é a outra opção. O comando do ataque provavelmente terá Pérez, pelo menos no começo. Ele pode revezar com Tejada, de acordo com as exigências físicas, ou perder espaço para Gabriel Torres.

Time base: Jaime Penedo; Adolfo Machado, Fidel Escobar, Román Torres (Felipe Baloy) e Luis Ovalle; Gabriel Gómez, Armando Cooper, Aníbal Godoy, Édgar Bárcenas e José Luis Rodríguez; Blas Pérez (Luis Tejada). Técnico: Hernán Darío Gómez

O dono do time

Blas Pérez

Blas Pérez (Foto: Getty Images)

Sempre que marca um gol, Blas Pérez aponta os dois dedos indicadores aos céus e os levanta acima da cabeça. Faz um chifre. A homenagem é ao pai “Toro” Pérez, torcedor folclórico por comparecer a todos os jogos da seleção panamenha, falecido em 2012, quando a comemoração característica do principal atacante do Panamá começou a ser feita. Chamá-lo de veterano é subestimar a importância de Pérez para o time nacional. Defende-o desde 2001 e já passou das cem partidas. Junto com Luis Tejada, é o maior artilheiro da história da seleção, com 43 gols. Listar os clubes que defendeu exigiria muitas linhas, mas vamos dizer, exageradamente, que ele já jogou em quase todos os países de língua espanhola do mundo: Uruguai, México, Espanha, Colômbia, Bolívia, Guatemala, além do próprio Panamá, claro. Teve passagens pelo Emirados Árabes Unidos e pelos Estados Unidos.  Sua melhor fase foi pelos colombianos Centauros, Deportivo Cali e Deportivo Cúcuta. Por este último, foi vice-artilheiro da Libertadores de 2007, com oito gols, atrás de Salvador Cabañas. Está desde o ano passado no guatemalteco Municipal.

O bom coadjuvante

Felipe Baloy

Felipe Baloy, capitão do Panamá (Foto: Getty Images)

Rosto conhecido dos brasileiros – pelo menos no sul do país. Felipe Baloy foi zagueiro do Grêmio entre 2003 e 2004, depois de chegar à semifinal da Libertadores com o Independiente Medellín. Em 2005, foi para o Atlético Paranaense e participou da campanha que levou o Furacão à final sul-americana, embora tenha sido vendido ao Monterrey antes de disputá-la. Passou os anos seguintes da sua carreira no México, onde conquistou duas vezes a liga nacional, pelo Monterrey e pelo Santos Laguna. Ainda defendeu o Monarcas e o Atlas, antes um rápido retorno ao futebol colombiano, pelo Rionegro Águilas. O xerifão voltou ao Panamá e, ano passado, juntou-se a Pérez no Municipal, da Guatemala.  O capitão do time é um dos líderes do grupo de veteranos que está desde sempre no time nacional.

Fique de olho

Fidel Escobar

Uma equipe com vários jogadores veteranos precisa de alguns moleques para correr. Fidel Escobar, 23 anos, é um deles. Deve ser titular, já que Ramón Torres está voltando de lesão, Baloy é um desses de idade já avançada e o treinador esboça um esquema com três zagueiros, pelo menos como alternativa. Escobar tem um potente pé direito e sabe o que fazer com a bola. Foi vice-campeão da Copa da Concacaf sub-20, em 2015, e passou pelo time B do Sporting. Desde a metade do ano passado, está emprestado ao New York Red Bulls, da Major League Soccer. Mas tem apenas oito jogos na MLS e frequentemente ainda é repassado à equipe B dos nova-iorquinos.   

Personagem

Román Torres

“Esta é a resposta”, afirmou Román Torres, em uma entrevista coletiva da seleção panamenha, logo depois de se levantar e mostrar a barriga para os jornalistas. Um relatório da Fifa informou que o zagueiro é o jogador mais pesado entre os 736 que estarão na Rússia, com 99 quilos. Em vez de enrolar, preferiu entregar provas factuais para a imprensa – e de fato, ele parece bem em forma. Com um penteado chamativo, que sua filha o impediu de cortar depois da classificação do Panamá, Torres tem sido um dos melhores zagueiros da Concacaf e defende o time nacional desde 2005. É um dos decanos do elenco, com mais de 100 partidas disputadas. Está no Seattle Sounders há três anos e teve sangue frio para converter o último pênalti da disputa contra o Toronto, na decisão de 2016, que garantiu o primeiro título da Major League Soccer para o seu clube. Mal sabia ele que aquele momento estaria longe de ser o mais importante da sua carreira. A três minutos do fim, Torres fez o gol da vaga na Copa do Mundo, na vitória por 2 a 1 sobre a Costa Rica. Tem os dois tentos tatuados em seu corpo e esperar acrescentar um desenho fazendo história no Mundial. E se marcar, podemos até esperar uma dancinha porque, além de tudo, ele tem um bom gingado.

Técnico

Hernán Darío Gómez

Hernán Darío Gómez (Foto: Getty Images)

O veterano de 62 anos tem um currículo respeitável como treinador de seleções. Levou a sua Colômbia para a França, em 1998. Quatro anos depois, quebrou o jejum do Equador, classificando-o para a primeira Copa do Mundo de sua história. Alcançaria o mesmo ineditismo com o Panamá. Como Henri Michel, dirigirá três países diferentes em Mundiais – ainda está longe de Bora Milutinovic e Carlos Alberto Parreira, com cinco cada um. Só tem um probleminha. Nas duas campanhas anteriores, os times de Gómez não foram muito bem. Tiveram campanhas idênticas: uma vitória e duas derrotas, ambas terminando na fase de grupos.  Em uma chave difícil, com Inglaterra e Bélgica, será que encerra esse tabu na Rússia?

Uma história da seleção em Copas

É a estreia do Panamá. Então, vamos falar sobre a vez em que o país chegou perto da inédita vaga. Até algum tempo atrás, aparecer no hexagonal final da Concacaf já era uma vitória para o país que começou a disputar as eliminatórias em 1978. A primeira participação foi em 2006, quando acabou como lanterna, com apenas dois pontos, embora os resultados começassem a aparecer na Copa Ouro, com o segundo lugar, um ano antes. No classificatório para a África do Sul, foi eliminado ainda na segunda rodada, para El Salvador. A oportunidade veio para o torneio brasileiro de 2014.

Não foi exatamente uma campanha brilhante do Panamá, que terminou o hexagonal com apenas uma vitória, sobre Honduras. Mas também era um time difícil de ser batido e conseguiu cinco empates. Chegou à última partida com oito pontos. O México, na posição da repescagem, tinha 11, depois de vencer o confronto direto da rodada anterior.

Os mexicanos perderam da Costa Rica por 2 a 1. O saldo deles caiu para dois gols negativos. O Panamá empatava com os Estados Unidos até os 38 minutos do segundo tempo, quando Luis Tejada fez 2 a 1. Àquela altura, os panamenhos tinham os mesmos 11 pontos do México e também dois gols negativos de saldo. Mas venciam no segundo critério de desempate, gols marcados: 10 a 7. Estavam na repescagem, eliminando o gigante da Concacaf. Mas os americanos foram cruéis. Graham Zusi marcou aos 48 e Aron Johannsson ainda virou a partida. A derrota por 3 a 2 para os EUA foi difícil de digerir. Demorou longos quatro anos.

Como o futebol explica o país

A torcida do Panamá comemora a vaga

Amílcar Hernández nasceu em Colón, no Panamá, mas passou a maior parte da sua carreira na Colômbia, onde defendeu Independiente Medellín e América de Cali. Em 2016, aos 33 anos, decidiu retornar para a sua cidade de origem e defender o clube que o projetou ao futebol, o Árabe Unido. Em Colón, onde Amílcar Hernández nasceu, Amílcar Hernández morreu. Em sua casa, jogando dominós. Os assassinos acertaram-no com 12 tiros, em abril de 2017. Foi levado ao hospital, porém não resistiu. Não resistiu para realizar o seu sonho. Não sobreviveu para ver a seleção panamenha, que ele defendeu 85 vezes, estrear na Copa do Mundo.

Considerando que a América Latina concentra grande parte da violência do mundo, o Panamá é um dos países mais seguros da região. Uma pesquisa do Instituto Igarapé, organização sem fins lucrativos sediada no Rio de Janeiro, listou as 50 cidades com o maior número de homicídios em 2016. Há várias brasileiras e mexicanas, inclusive uma americana (Baltimore), mas nenhuma panamenha. Entre os 20 países com mais assassinatos, há 17 americanos e três africanos. O Panamá também não está nessa relação. Por outro lado, ele tem um sério problema com gangues, muitas envolvidas com o narcotráfico, uma vez que o Panamá fica em localização estratégica para a transferência de drogas a partir da Colômbia para os EUA.

A Unidade Anti-Gangue da Polícia Nacional contou 204 gangues no país e descobriu que, nas regiões onde elas mais existem, o número de homicídios também cresce. O principal problema está na província em que fica a Cidade do Panamá, capital e cidade mais populosa. Em segundo lugar, aparece Colón. Sua província conta com 35 gangues e teve 40 homicídios em 2016. Ainda não se sabe o motivo do assassinato de Amílcar Hernández. Reportagem do Guardian afirma que a polícia mantém o caso aberto e não o discute. A hipótese mais provável é que tenha sido algum tipo de rixa. Com quem e por qual motivo são perguntas ainda sem respostas.

O que sabemos com certeza é que Hernández participou ativamente da campanha do Panamá nas Eliminatórias da Concacaf. Disputou seis partidas, três como titular, e morreu um mês depois da última, contra os Estados Unidos, em 29 de março. Pouca gente recebeu a notícia com tanta dor quanto o técnico Hernán Darío Gómez. Porque o destino é um tremendo cretino com ele: era assistente técnico de Francisco Maturana na seleção colombiana durante a Copa do Mundo de 1994. Pouco depois do torneio, Andrés Escobar, zagueiro do time, foi assassinado em Medellín. “Eu levei Amílcar para o Independiente Medellín. Eu o conhecia há muito tempo e era ele quem dizia: ‘Profe, venha ao Panamá, nos ajude’. O afeto era mútuo. Ele era um bom homem, um líder… e o mataram”, disse, ao Guardian.

A maioria dos jogadores panamenhos origina-se de regiões pobres, crescendo entre o crime, as drogas e a violência. Desde 1990, informa a agência Associated Press com números oficiais, pelo menos 20 desses atletas foram assassinados no Panamá. Hernández sequer foi o último. Gilberto Salas morreu em abril deste ano. Na partida decisiva das eliminatórias, contra a Costa Rica, a camisa 21 de Hernández podia ser vista nas arquibancadas, onde a sua esposa ficou dividida entre as lágrimas de alegria e de tristeza. “O sonho dele era jogar a Copa do Mundo. Ele costumava me dizer: se Deus quiser, vamos para a Copa do Mundo”, disse, à AP. Hernández estará na Rússia. Nas mentes, nos corações e nas rezas de cada um dos seus companheiros. E não será o único.

Jogos na Copa

Segunda-feira, 18/06 – 12h – Bélgica x Panamá

Domingo, 24/06 – 09h – Inglaterra x Panamá

Quinta-feira, 28/06 – 15h – Panamá x Tunísia

Ficha técnica 

Seleção panamenha
Infogram