Como foi o ciclo até a Copa

A Eurocopa da França foi simbólica para a Suécia. Primeiro, pela campanha desastrosa: um empate, duas derrotas e a lanterna do grupo. Ao fim do torneio, Zlatan Ibrahimovic aposentou-se da seleção. O técnico Erik Hamrén estava à frente do time desde 2009 e pediu o boné. Assumiu Janne Andersson, o único treinador que conseguiu quebrar a sequência de títulos suecos do Malmö nos últimos cinco anos, no comando do Norrköping, em 2015. Sorteada no grupo de França e Holanda, poucos imaginavam ver a Suécia na Copa do Mundo da Rússia.

Mas a pressão mais leve produziu uma boa campanha. Ficou invicta dentro de casa, com quatro vitórias e um empate. Apesar de o sistema defensivo ter sido o pilar do sucesso, o ataque também foi determinante, com goleadas por 8 a 0 sobre Luxemburgo e duas por 4 a 0 sobre Belarus, já que, no fim das contas, a Suécia ficou com os mesmos 19 pontos da Holanda e se classificou à repescagem no saldo de gols: 17 a 9. E isso porque perdeu o confronto direto da última rodada, por 2 a 0, quando já estava praticamente garantida na próxima fase.

O segundo lugar em um grupo com duas camisas pesadas já foi motivo de comemoração para uma seleção que não tinha mais nenhuma grande estrela. Contra a Itália na repescagem, mais uma vez a Suécia precisaria superar as expectativas para aparecer na relação de 32 seleções do Mundial. Jakob Johansson fez o único gol do jogo de ida para os donos da casa. Na volta, os suecos resistiram à pressão italiana no San Siro e mais uma vez surpreenderam.

Andersson tomou uma decisão que pode voltar para assombrá-lo. Com a classificação da Suécia, Zlatan Ibrahimovic colocou-se novamente à disposição da seleção nacional, mas o técnico decidiu não o levar para a Rússia. Seu medo era comprometer a união do elenco que encontrou no espírito coletivo sua maior força, introduzindo uma grande estrela, que atrairia os holofotes e, no fim das contas, não havia sofrido durante as eliminatórias como os outros. Justa ou não, foi uma escolha corajosa de Andersson. Se as coisas derem errado na Rússia, podemos esperar críticas por ele ter aberto mão de todo o talento do jogador do Los Angeles Galaxy.

Como joga

Andersson adota um esquema 4-4-2 clássico, com duas linhas de quatro e dois atacantes. A defesa tem uma boa mistura de juventude e experiência. O lateral direito Mikael Lustig e o capitão Andreas Granqvist passaram dos 30 anos. Victor Lindelöf completa o miolo de zaga, e Ludwig Augustinsson faz a lateral esquerda.

A destruição continua com os meias centrais, provavelmente Sebastian Larsson e Albin Ekdal, se o jogador do Hamburgo conseguir se manter em forma, o que não parece muito fácil no momento. As lesões tiraram-no de metade da última temporada, e ele atuou apenas 45 minutos pela seleção desde o primeiro jogo com a Itália, em amistoso contra a Dinamarca, no começo de junho. Gustav Svensson vem jogando em seu lugar.

O maior talento está na ponta esquerda, onde joga Emil Forsberg, principal fonte de criatividade. No outro lado, os marcadores também precisam ficar espertos com Viktor Claessen, terceiro artilheiro do Campeonato Russo com 10 gols (ao lado de outros quatro jogadores). A extrema direita na verdade é uma dúvida de Andersson. Jimmy Durmaz, do Toulouse, jogou mais vezes nas eliminatórias, mas Claessen vem de temporada melhor.

O ataque traz dois veteranos da seleção sueca, a dupla do time que chegou às semifinais do Campeonato Europeu sub-21 de 2009: Marcus Berg, artilheiro e eleito o melhor jogador daquele torneio, e Ola Toivonen. Nenhum dos dois explodiu como se esperava, mas são capazes de pelo menos brigar bastante pelas bolas e cruzamentos lançados por seus companheiros. Afinal, a Suécia não tem pudor de jogar feio. Defender bem é a primeira missão. Depois, a gente vê o que faz.

Time base: Robin Olsen; Mikael Lustig, Victor Lindelöf, Andreas Granqvist e Ludwig Augustinsson; Sebastian Larsson, Gustav Svensson (Albin Ekdal), Viktor Claessen (Jimmy Durmaz) e Emil Forsberg; Marcus Berg e Ola Toivonen. Técnico: Janne Andersson

O dono do time

Emil Forsberg

Forsberg, líder técnico da Suécia (Foto: Getty Images)

No momento em que a seleção sueca perdeu Zlatan Ibrabhimovic, começou a ganhar um outro jogador para ser a sua referência técnica. A temporada 2016/17 projetou Emil Forsberg ao mundo do futebol. Com a camisa do RB Leipzig, deu 20 assistências na Bundesliga. Com sobras o melhor garçom do Campeonato Alemão. Havia chegado em 2015, um desses garimpos que o clube da Red Bull faz muito bem, depois de dois títulos nacionais com o Malmö. Esteve em campo todos os minutos da campanha sueca nas eliminatórias, com exceção de 16 contra a Bulgária. Mas sua última temporada em Leipzig não foi tão boa quanto a anterior. Foi titular em apenas 15 rodadas da liga alemã e o seu total de assistências despencou para dois.

O bom coadjuvante

Andreas Granqvist

Granqvist, capitão da Suécia (Foto: Getty Images)

Se a defesa é a aposta da Suécia, alguém precisa liderá-la. Ninguém melhor que o capitão da equipe. Andreas Granqvist tem experiência e já rodou bastante: três temporadas no Groningen, duas no Genoa e, desde 2013, defende o Krasnodar, do Campeonato Russo. No começo do ano, anunciou que voltaria ao Helsingborg depois do Mundial. Tornou-se o primeiro jogador a ganhar o prêmio de Melhor Jogador da Suécia desde 2007, encerrando uma sequência de dez honras a Ibrahimovic, graças às atuações pela seleção nas eliminatórias, em que foi titular em todas as 12 partidas. Com a vaga, cumpriu a promessa que havia feito de raspar o cabelo. É o segundo do atual elenco com mais partidas pela seleção, que defende desde 2007, atrás de Sebastian Larsson. Tem a missão de passar tudo que aprendeu ao longo dos seus 33 anos ao jovem pupilo Lindelöf, que atua ao seu lado no time nacional.

Fique de olho

Ludwig Augustinsson

Depois de Lindelöf e Emil Krafth, Augustinsson é o mais jovem do elenco da Suécia. O jogador de 24 anos ganhou duas vezes o Campeonato Dinamarques pelo Copenhague antes de chegar ao Werder Bremen, no começo da última temporada. Foi titular em toda a Bundesliga, exceto quando sofreu pequenas lesões. Tem um papel importante na seleção por ser o homem das bolas paradas, arma crucial de equipes que não atacam muito, e por precisar compensar as subidas de Forsberg, que nem sempre recompõe a linha de meio campo com rapidez. Entre o ataque e a defesa, precisar ser uma peça equilibrada da seleção sueca.

Personagem

John Guidetti

John Guidetti publicou a foto pela última vez em seu Instagram em julho de 2012. Nela, há 23 jovens alinhados para jogar futebol: 22 de pele negra e um muito, muito branco, e cabelos muito, muito loiros. Com apenas três anos, o jogador foi levado pelo seu pai para o Quênia, onde o senhor Guidetti assumiria a diretoria de uma escola de Nairóbi. “Ele não era um local, mas se misturou com os garotos e nunca teve problemas”, contou Chris Amimo, o diretor do Ligi Ndogo, clube em que Guidetti atuou na adolescência, ao The Scottish Sun. “Ele aprendeu a língua e se tornou um membro muito popular do time. Não tínhamos muito dinheiro para equipamentos, então às vezes precisávamos jogar com camisa contra sem camisa. Isso não foi um problema para John. Ele não se importou. Queria apenas jogar futebol”. Não foi difícil para Guidetti identificar as diferenças culturais e financeiras da sua vida em comparação com a de seus amigos. “Os garotos não tinham comida, nem roupa, mas diziam todos os dias: ‘obrigado, Senhor, pelo presente da vida’. Eu também rezava antes de todos os jogos e tentava ir à igreja aos domingos. Tenho muita sorte de ter visto essa parte do mundo. Esse período foi muito importante para o meu desenvolvimento, dentro e fora do gramado. Eu joguei futebol descalço nas favelas de Nairóbi e entrei em contato com as pessoas e com a cultura deles”.

Em entrevista à King Magazine, lembrou a primeira coisa que fez quando chegou a um novo time: “Enterramos o nosso capitão que se afogou junto com o seu irmão quando estavam em uma piscina de um dos meninos ricos do time depois do treino”. Guidetti deixou o Quênia em 2006 para perseguir o sonho de ser jogador de futebol profissional. Defendeu clubes importantes, como Manchester City, Feyenoord, Celtic e Celta de Vigo. Mas nunca esqueceu dos seus amigos quenianos. Criou a Fundação John Guidetti para ajudar crianças carentes que também buscam ganhar a vida chutando bolas e não tem os recursos necessários. Na página inicial da fundação, colocou a mesma foto que publicou em seu Instagram. Sem cores porque, no fundo, elas não importam muito.

Técnico

Janne Andersson 

Andersson, técnico da seleção sueca (Foto: Getty Images)

Apesar de ter 55 anos, Janne Andersson não tem grande experiência no alto nível. Ex-jogador de futebol e handebol em Halmstad, cidade em que nasceu, assumiu o comando do clube local em 2004, depois de passagens pelas divisões inferiores da Suécia. Chamou a atenção com o vice-campeonato nacional daquela temporada, mas depois alternou entre o meio da tabela e lutas contra o rebaixamento. Chegou em 2011 ao Norrköping, potência sueca entre as décadas de quarenta e sessenta, mas que não era campeão nacional desde 1989. Quebrou esse jejum em 2015, o único time a conquistar a Suécia nos últimos cinco anos, além do Malmö. Com a saída de Erik Hamrén, depois da Eurocopa de 2016, assumiu a seleção sueca e a classificou à Copa do Mundo.

Uma história da seleção em Copas

Nas primeiras copas, algumas campanhas podem ser um pouco enganosas. A Suécia chegou às quartas de final de 1934 e foi quarta colocada quatro anos depois. Muito bom, certo? Mas nesses dois torneios, realizados em mata-matas puros, com 16 participantes, ganhou apenas dois jogos. Em 1938, na França, passou pela primeira rodada por WO. Enfrentaria a Áustria, que oficialmente não compareceu porque havia sido anexada pela Alemanha de Adolf Hitler. Os principais jogadores austríacos foram mesclados aos alemães naquele torneio. Nas quartas, a Suécia alcançou uma grande vitória: 8 a 0 sobre Cuba.

A goleada tão elástica teve suas circunstâncias. Cuba disputava a Copa do Mundo pela primeira vez – e única até agora. Nas oitavas, havia conseguido derrotar a Romênia, mas precisou de 210 minutos de bola rolando para isso. O primeiro jogo foi para a prorrogação e terminou 3 a 3. Quatro dias depois, os latinos venceram por 2 a 1, em Toulouse, e avançaram às quartas, fase em que os suecos os esperavam totalmente descansados, já que ainda nem haviam entrado em campo.

A Suécia havia aberto o placar aos 9 minutos e ampliado aos 22. Por volta da primeira meia hora, começou a cair uma forte chuva e o campo ficou mais pesado. Os suecos aproveitaram a vantagem física e fizeram o terceiro. Antes do intervalo, um dos jogadores de Cuba machucou-se e não retornaria para o segundo tempo. Tomas ainda perdeu um pênalti. Gustav Wetterstrom fechou sua tripleta no primeiro tempo. Com 4 a 0 no placar, pernas muito mais descansadas em um lado e um jogador a menos no outro, a segunda etapa foi meramente protocolar. Aos 35, 36, 39 e 44, os suecos voltaram a marcar e fecharam a goleada por 8 a 0. Na semifinal, perderam da Hungria, por 5 a 1. E depois levariam 4 a 2 do Brasil, na disputa do terceiro lugar.

Como o futebol explica o país

Julian Assange

Desde que o Fórum Econômico Mundial começou a publicar um relatório sobre igualdade de gênero ao redor do mundo, a Suécia nunca esteve fora das cinco primeiras colocações. Liderou as primeiras duas listas, em 2006 e 2007, e apareceu em quinto lugar na última, ao lado dos colegas nórdicos – Islândia, Noruega e Finlândia – e de Ruanda. Os critérios são participação na economia e na política, feitos na educação e questões de saúde. O país tem leis interessantes nesse âmbito. Promove a igualdade em todos os níveis da educação e oferece 480 dias de licença paternidade paga que pode ser dividida entre o homem e a mulher.

Mas ainda há trabalho a ser feito. Mesmo diante dessa possibilidade de dividir, em média, as mães ainda cumprem três quartos da licença paternidade. O pagamento não é igualitário, com as mulheres recebendo 88% do salário dos homens. E, em 2016, apenas 6% dos executivos-chefes das empresas suecas eram do sexo feminino. Além disso, em 2015, houve 29 mil casos de violência contra mulheres. Um número que vem crescendo, mas, segundo o site oficial do país, porque elas estão se sentindo mais à vontade para denunciar.

Em 2010, uma corte da Suécia decretou a prisão de Julian Assange, o fundador do Wikileaks, site que vaza documentos oficiais na internet, como parte da investigação de um promotor sueco sobre acusações de assédio sexual contra ele. Chegou a ser preso pela polícia britânica, em Londres, e uma ordem de extradição para a Suécia foi emitida. Mas Assange refugiou-se na embaixada do Equador e o processo foi arquivado ano passado. As acusações contra o fotógrafo Jean-Claude Arnault tiveram mais consequências. O membro da Academia Sueca foi acusado de assédio sexual por 18 mulheres, o que fez com que o Prêmio Nobel de Literatura de 2018 fosse cancelado.

Se o prêmio mais renomado do mundo não escapou, que chances teria um jogador de futebol? Kingsley Sarfo tem 23 anos e defendia o Malmö, clube mais poderoso do momento no país. Ano passado, estreou pela seleção de Gana nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, no empate por 0 a 0 contra Uganda. O meia, no entanto, foi sentenciado a 32 meses de prisão por duas relações sexuais com uma garota de 14 anos.  Será deportado ao fim da pena e não poderá retornar à Suécia nos próximos dez anos. Ele afirmou que, caso fosse condenado, seu contrato com o Malmö seria encerrado.

O que a Copa significa para a seleção 

Lucro. A classificação da Suécia foi inesperada. Além de perder Zlatan Ibrahimovic e trocar o treinador, depois do longo trabalho de Erik Hamrém, a seleção havia caído no grupo da França e da Holanda. Mas conseguiu se superar e chegou à Rússia, onde jogará sem grandes responsabilidades. Ganhar da Alemanha seria pedir demais, mas, se os suecos conseguirem replicar a dedicação contra a Itália na repescagem, podem dar muito trabalho para Coreia do Sul e México.

Jogos na Copa

Segunda-feira, 18/06 – 09h – Suécia x Coreia do Sul

Sábado, 23/06 – 15h – Alemanha x Suécia

Quarta-feira, 27/06 – 11h – México x Suécia

Ficha técnica

Seleção sueca
Infogram