Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Houve poucos sobressaltos para a Suíça nos últimos quatro anos. O treinador é o mesmo desde a aposentadoria de Ottmar Hitzfeld, ao fim da Copa do Mundo de 2014, e Vladimir Petkovic foi inclusive anunciado seis meses antes. A espinha dorsal da equipe é a mesma do torneio brasileiro e da Eurocopa de 2016: Lichtsteiner, Schär, Djourou, Xhaka, Shaqiri, Behrami, Seferovic e outros coadjuvantes. Continuidade e união de grupo são a linha filosófica da Suíça.

Classificou-se para a Eurocopa sem grandes problemas, em segundo lugar no grupo da Inglaterra. Na França, passou também em segundo atrás da dona da casa, e caiu nas oitavas de final, contra a Polônia, nos pênaltis. Ficou o gostinho de que poderia ter ido mais longe, mas já foi a sua melhor campanha no torneio europeu.

As Eliminatórias da Copa do Mundo foram um pouco cruéis com a Suíça. O time venceu todos os primeiros nove jogos, marcando mais de uma vez em oito deles. Mas Portugal acompanhou de perto. Na última rodada, o time de Cristiano Ronaldo ganhou por 2 a 0 e conseguiu vaga direta à Rússia. A Suíça precisou passar pela repescagem. O único gol dos dois duelos contra a Irlanda do Norte foi marcado de pênalti, por Ricardo Rodríguez – em decisão bem contestável da arbitragem. Mas foi o gol da vaga na Copa para os suíços.   

Como joga

Como a Suíça caiu no grupo do Brasil, você já deve ter ouvido falar muito sobre ela e, provavelmente, já sabe tudo sobre o ferrolho defensivo e a retranca que Neymar e companhia devem esperar. A realidade não é bem essa. Claro que Vladimir Petkovic não abre mão de uma retaguarda sólida, mas a sua equipe tem qualidade com a bola nos pés. Marcou 23 vezes nas Eliminatórias Europeias, antes da repescagem, o que representa o oitavo melhor ataque entre toda as 54 seleções. Ficou atrás de Suécia, Bósnia, Portugal, Alemanha, Polônia, Espanha e Bélgica e à frente de França e Inglaterra.

A chave do ataque é a ponta direita, da onde Shaqiri parte para armar as principais jogadas da Suíça, sempre com muita liberdade de movimentação para acionar o seu pé esquerdo. Pelo centro do esquema 4-2-3-1 preferido de Petkovic, está o veterano Blerim Dzemaili. Na esquerda, o titular na campanha das eliminatórias foi Admir Mehmedi, que sofreu uma lesão de ligamento em março e não se recuperou a tempo. Steven Zuber, do Hoffenheim, vem jogando no setor.

O problema é o comando de ataque. Seferovic foi o jogador que mais vezes atuou pela Suíça na campanha que valeu vaga na Rússia: todos os 12 jogos e apenas um saindo do banco de reservas. E marcou apenas quatro gols, dois em Andorra, uma na Letônia e outro na Hungria, seleções que passaram longe da Copa de 2018. Como não há muito mais confiança em Josip Drmic e Mario Gavranovic, ele deve pelo menos começar o Mundial como titular. A opção para Petkovic seria fazer uma pequena improvisação com Breel Embolo como centroavante.

Xhaka é o pilar do meio-campo. Ao seu lado, o mais provável é que jogue o experiente Valon Behrami, mas Denis Zakari, jogador de 21 anos do Borussia Mönchengladbach, vem pedindo passagem. A defesa está praticamente definida. O capitão Lichtsteiner ocupa a lateral direita, Ricardo Rodríguez, a esquerda. Fabian Schär é absoluto no miolo de zaga. Ao seu lado, o favorito é Manuel Akanji, mas, como passou por alguns apuros desde que se transferiu para o Borussia Dortmund, o rodado Johan Djourou pode ganhar uma chance.

Time base: Yann Sommer; Lichtsteiner, Fabian Schär, Manuel Akanji (Johan Djourou) e Ricardo Rodríguez; Granit Xhaka, Valon Behrami, Blerim Dzemailli, Xherdan Shaqiri e Steven Zuber; Haris Seferovic. Técnico Vladimir Petkovic. 

O dono do time

Xherdan Shaqiri

A carreira de Shaqiri não explodiu como se esperava. Saiu do Basel como uma das grandes revelações do futebol europeu, mas teve poucas oportunidades no Bayern de Munique. Também não se firmou em seis meses na Internazionale. No Stoke City, pelo menos se tornou titular incontestável na última temporada e um jogador importante. Fez oito gols e deu sete assistências na Premier League, o que não pode parecer grande coisa, mas esses números significam que ele participou diretamente de quase metade dos 35 gols que o seu time marcou na liga inglesa. Não deu para evitar o rebaixamento e Shaqiri entra no Mundial observado pelo mercado. O Liverpool estaria interessado em contratá-lo para compor o elenco. Seria uma ótima oportunidade de tentar mais uma vez cumprir a promessa do início da sua carreira. Na Suíça, porém, nunca deixou de ser o melhor jogador da seleção e só não foi titular nas eliminatórias quando esteve machucado.

O bom coadjuvante

Stephan Lichtsteiner

É o jogador mais velho do elenco, na seleção suíça desde 2006 e, não à toa, usará a braçadeira de capitão na Copa do Mundo da Rússia. Heptacampeão italiano pela Juventus, Lichtsteiner tentará passar sua experiência com as vitórias para os companheiros – de seleção e de Arsenal, seu novo clube. O fôlego de um jogador muito sólido e seguro no que se propõe a fazer segue em dia. Jogou 11 das 12 partidas da Suíça na campanha que a levou ao Mundial. E, mesmo como lateral direito, marcou três vezes.

Fique de olho

Breel Embolo

Breel Embolo quebrou algumas marcas. Aos 19 anos, foi vendido pelo Basel para o Schalke 04 por € 19 milhões, quebrando, na época, o recorde de transferências do clube de Gelsenkirchen e por um jogador suíço. A ida de Xhaka para o Arsenal pulverizou esse dado. Mas, em dois anos, ele não conseguiu explodir, e não por culpa sua. Fraturou a perna em seu décimo jogo na Alemanha e ficou fora até o fim da temporada. Na última campanha, voltou aos poucos, com apenas 25 jogos, apenas 11 como titular. Mas tem qualidade e potencial. Pode contribuir muito com o sistema ofensivo da Suíça. Atua mais naturalmente pela direita da linha de armação, embora também possa ser uma opção para o lugar de Seferovic, frequentemente avesso à bola.

Personagem

Granit Xhaka

“Até onde eu sei, os primeiros meses na cadeira foram ok. Mas, então, os espancamentos começaram”. Este é Granit Xhaka contando a história do seu pai, ao Guardian. Ragip Xhaka, de origem albanesa, era estudante da Universidade de Pristina. Tinha 22 anos. Participava de manifestações contra o governo central da Iugoslávia, reivindicando mais direitos ao Kosovo, então província autônoma iugoslava. Havia casado com Eli há apenas três meses e passou os três anos e meio seguintes como preso político, em uma cela com quatro outros homens. Tinha apenas 10 minutos de ar fresco por dia.  Foi liberado, junto com o seu tio, de repente, em 1990, sem nenhuma explicação. “Ninguém da família sabia até eles aparecerem na nossa porta”, conta o jogador do Arsenal. Com a ajuda da Anistia Internacional, a família Xhaka mudou-se para a Suíça, onde nasceram os irmãos Granit e Taulant.

“Meu pai foi muito forte, e eu e Taulant crescemos com a força mental dele. Nós tínhamos este ídolo, este exemplo, que nos ensinou a sermos fortes para alcançarmos nossos objetivos. Então, crescemos muito fortes. É por isso que no gramado temos força mental para superar as coisas”, disse Xhaka. “Ele era um kosovar orgulhoso e achava que eles tinham o direito de existir. Ele estava lutando pelos direitos deles, direitos básicos da democracia: necessidades, como poder votar”. Kosovo declararia independência, unilateralmente, em 2008 e foi admitido como membro da Fifa em 2016, quando foi atrás de jogadores que poderiam defendê-lo.

Xhaka era um deles, mas o volante acabou decidindo continuar integrando a seleção suíça. Na época, culpou a Fifa por ter imposto restrições aos atletas que haviam disputado a Eurocopa, o que a Federação Kosovar negou, afirmando que ele, e outros jogadores suíços que adotaram o mesmo discurso, estavam apenas buscando uma desculpa para não jogarem pela sua nação de origem.

Técnico

Vladimir Petkovic

A carreira de Petkovic sempre foi muito ligada à Suíça, desde que ele saiu da Bósnia para defender o Chur 97, em 1987. Ficou no país até se aposentar. A primeira vez que se destacou como treinador foi com o Bellinzona, que havia lhe dado a primeira chance com a prancheta. Chegou à decisão da Copa da Suíça contra o Basel e, embora não tenha ficado com o título, conseguiu o acesso à primeira divisão. Foi para o Young Boys e conseguiu ser vice-campeão nacional. Teve breves passagens por Samsunspor, da Turquia, e Sion antes de chegar à Itália. Ganhou a Copa Itália de 2013 pela Lazio, contra a grande rival Roma, mas se complicou com o presidente Claudio Lotito, quando anunciou, no decorrer da temporada, que assumiria a seleção suíça depois da Copa do Mundo de 2014, quando Ottmar Hitzfeld se aposentasse. Foi demitido em janeiro e teve que aguardar alguns meses antes de iniciar seu próximo projeto.

Uma história da seleção em Copas

A Copa do Mundo tem a sua ironia. A seleção suíça, conhecida por ser defensivista, esteve na partida em que mais gols foram marcados na história dos Mundiais. Foi em 1954, quando o país sediou o torneio. A adversária das quartas de final seria a vizinha Áustria que, em sua única participação anterior, havia ficado em quarto lugar na Itália. Entre os 16 e os 19 minutos do primeiro tempo, a dona da casa emendou três gols, com Robert Ballaman e Josef Hügi. Entre os 25 e os 27, a Áustria respondeu com outros três gols, marcados por Theodor Wagner (dois) e Alfred Körner, todos com falhas do goleiro suíço Eugene Parlier. Ernst Ocwirk concretizou a virada, aos 32, e Körner ampliou. Antes do intervalo, Ballaman descontou para a Suíça. Não perca a conta: 5 a 4 para a Áustria no primeiro tempo. Mas não parou por aí. Na segunda etapa, Wagner fechou a sua tripleta e levou o placar a 6 a 4. Hügi fez o seu terceiro e descontou. A 15 minutos do fim, Erich Probst fechou os trabalhos: 7 a 5. Na semifinal, a Áustria foi eliminada pela Alemanha, em outra chuva de gols. Perdeu por 6 a 1.

Como o futebol explica o país

Nas últimas quatro eleições parlamentares, o Partido Popular da Suíça, conservador e anti-imigração, recebeu a votação mais expressiva. Ao contrário de outros sistemas parlamentaristas, na Suíça, o grupo político vencedor não faz alianças para formar um governo de maioria. Os deputados elegem um comitê de sete pessoas para tocar o país, formado a partir da proporção dos votos de acordos entre os partidos. Além disso, a Suíça tem um forte sistema de democracia direta à base de referendos. Então, apesar da retórica do SVP (sigla em inglês para Swiss People’s Party) muitas vezes descambar para o puro racismo, seu poder para modificar leis de imigração é limitado.

Mas ele tenta. Uma campanha em 2007 causou muito barulho. A imagem de três ovelhas brancas, sobre a bandeira da Suíça, chutando uma ovelha negra para fora, com a mensagem “criar segurança”, em alemão, teve um significado muito claro. O SVP constantemente tenta restringir a entrada de imigrantes, que atualmente representam 25% da população da Suíça. Mesmo conseguindo vitórias eleitorais, a empreitada não é fácil por causa da relação com a União Europeia. Restringir a livre circulação de cidadãos europeus violaria os acordos que o bloco tem com o país. A Suíça não integra a UE, mas adota a maioria das suas políticas.

Tanto que um referendo de 2014, que propunha cotas para imigrantes, passou com 50,3% dos votos, mas o governo suíço buscou um meio-termo, dois anos depois, para não desagradar a União Europeia que, naquela época, com a saída do Reino Unido, adotou uma postura mais firme nesse tipo de negociação. Em vez de limitar a imigração, a Suíça conseguiu aprovar que desempregados que moram no país tenham prioridade em se candidatar a novos postos de trabalho. Ainda insatisfeito, o Partido Popular voltou à tona, recolhendo assinaturas para um novo referendo, menos ambíguo: encerrar qualquer acordo que garanta livre circulação de estrangeiros no país. Precisa de 100 mil signatários até a metade do ano que vem para colocar a questão em votação.

Fechar as fronteiras para estrangeiros pode afetar o futuro da seleção suíça, que encontra nessa população a maioria do seu talento. Dos 23 convocados para a Copa do Mundo da Rússia, oito nasceram em outros países: Yvon Mvogo, François Moubandje, Johan Djourou, Valon Behrami, Blerim Dzemaili, Gelson Fernandes, Xherdan Shaqiri e Breel Embolo. E quatro são filhos de imigrantes:  Denis Zakaria, Mario Gavranovic, Manuel Akanji, Granit Xhakha e Haris Seferovic. Nesta relação, estão alguns dos principais jogadores do time de Vladimir Petkovic.

O que a Copa significa para a seleção

Muitos desses jogadores defendem a Suíça desde as categorias de base, conquistando títulos importantes. A geração é talentosa, mas nunca conseguiu fazer barulho. Oitavas de final tanto na Copa do Mundo do Brasil, quanto na Eurocopa da França, que é basicamente o mínimo que poderiam fazer. Com um grupo acessível para ser segundo lugar, a expectativa é aproveitar os jogadores à disposição, mais maduros, para uma campanha histórica.

Ficha técnica

Seleção suíça
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