Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Após disputar a Copa do Mundo de 2006, a Tunísia fez campanhas razoáveis nas Eliminatórias, ainda que decepcionantes. Antes do Mundial de 2010, ficou a um ponto da Nigéria em sua chave. Tinha a liderança até a penúltima rodada, mas a surpreendente derrota na visita a Moçambique permitiu que as Super Águias fossem à África do Sul. Já em 2014, os tunisianos morreram na praia mais uma vez. Chegaram à última etapa, em confronto direto com Camarões. Após o empate por 0 a 0 em Radès, as Águias de Cartago acabaram goleadas em Yaoundé, com o placar de 4 a 1 para os Leões Indomáveis. E, concomitantemente, os desempenhos na Copa Africana de Nações eram modestos, parando na fase de grupos ou nas quartas de final.

Já na última edição das Eliminatórias, a Tunísia precisou manter um nível alto. Eliminou a Mauritânia antes de chegar à fase de grupos, em chave equilibrada, contra República Democrática do Congo, Líbia e Guiné. O ótimo início, com três vitórias nas três primeiras rodadas, deu impulso aos tunisianos. Arrancaram um empate vital contra os congoleses em Kinshasa, com dois gols nos últimos minutos, antes de golearem Guiné em Conakry. Assim, dependendo apenas de si, o empate final contra a Líbia já bastou para a comemoração.

O resultado nos amistosos preparatórios, por fim, tiveram a sua valia. A Tunísia venceu Irã e Costa Rica em março. Depois, empataria duas vezes, contra Portugal e Turquia. Já no compromisso final, perdeu para a Espanha, mas só depois de vender caro o resultado. Tudo bem que a Roja atuou em ritmo lento. Só que os magrebinos também criaram oportunidades para vencer, ameaçando principalmente nos primeiros minutos. Os testes são positivos para complicar os gigantes. O ponto será fazer o mesmo quando estiver valendo, contra Inglaterra e Bélgica.

Como joga

Ao contrário do “vizinho” Marrocos, a Tunísia possui um elenco pouco badalado na Europa. Apenas dez jogadores atuam no Velho Continente, sete deles na França – onde, aliás, nasceram nove convocados. O trabalho do Nabil Maâloul, naturalmente, acaba dependendo mais do jogo coletivo em si do que necessariamente de um jogador que desequilibre, embora o treinador tenha confiado em Wahbi Khazri para potencializar este grupo.

Ainda que tenha usado um sistema de jogo com três zagueiros no início das Eliminatórias, desde a chegada do atual treinador a Tunísia estabeleceu o seu jogo no 4-2-3-1. Apresenta um estilo técnico, de valorização dos passes, e conta com as investidas dos pontas em diagonal, mas precisa ver o quanto o modelo será funcional contra os poderosos do Grupo G. Além do mais, conta com Khazri adaptado como “falso 9”. Ponta de origem, o jogador mais renomado do elenco tem sido testado na função e ajuda principalmente na criação a quem vem de trás. Mais do que isso, também possui um bom arremate, que o auxilia na posição.

Uma das virtudes da Tunísia é a adaptabilidade. O esquema tático pode se transformar num 4-1-4-1, dependendo dos adversários, com linhas compactas que ajudam na marcação. E essa solidez defensiva será uma das chaves ao time, considerando que os testes em alto nível não são tão numerosos. Defensivamente, os tunisianos oscilaram ao longo dos últimos meses, embora não tenham sofrido grandes goleadas.

Já o grande lamento fica por conta da ausência de Youssef Msakni. O meia tinha a oportunidade de fazer a Copa de sua vida. Idolatrado no futebol local, chegou a disputar o Mundial de Clubes com o Espérance, mas não rumou à Europa, mesmo especulado por clubes do continente. Optou por juntar-se ao Lekhwiya (atual Al-Duhail) e virou rei no futebol catariano. Dono de habilidade para os dribles, visão de jogo e faro de gol, vinha em uma temporada espetacular, autor de 25 gols em 22 aparições na liga nacional. Campeão e melhor jogador, porém, rompeu os ligamentos justo no jogo que confirmou o título. Capitão, voltou para receber a taça, mas no mesmo dia anunciou que perderia a Copa. Fará falta pelo lado esquerdo, até pela capacidade individual que não se encontra com a mesma qualidade no restante do elenco.

Time base: Mathlouthi (Hassen), Nagguez, Syam Ben Youssef (Benalouane), Meriah, Maâloul; Ben Amor (Skhiri), Sassi; Badri (Fakhreddine Ben Youssef), Khaoui, Sliti; Khazri. Técnico: Nabil Maâloul.

Dono do time

Wahbi Khazri

Aos 27 anos, Khazri possui um currículo singular, se comparado ao dos companheiros de seleção. Nascido na França, o camisa 10 jogou por anos no Bastia. Entre 2014 e 2016, teve uma passagem bastante positiva pelo Bordeaux, oferecendo grande contribuição ofensiva. Projeção que o levou ao Sunderland, onde decepcionou. Na última temporada, voltou ao Rennes e recuperou a boa forma. Mas nada que se compare à importância na seleção. O ponta, que pode ser utilizado em ambos os lados ou centralizado na armação, passou a ser testado como “falso 9”. Fez bem o papel, com gol e assistência nas vitórias sobre Irã e Costa Rica. Pega bem na bola, o que é um diferencial, também nas cobranças de falta. O problema é que vem de uma lesão recente, que o tirou dos últimos amistosos. Os tunisianos testaram alternativas no setor, mas nenhuma delas com a tarimba do vice-capitão.

Bom coadjuvante

Aymen Mathlouthi

Em uma seleção na qual apenas quatro jogadores superam os 40 jogos disputados, experiência será importante. E o goleiro Aymen Mathlouthi é insuperável neste sentido. Balbouli, como é conhecido, disputou 70 jogos pelas Águias de Cartago. São 11 anos de seleção, firmando-se após ser herói na conquista da Liga dos Campeões da África de 2007, com o Étoile du Sahel. Já pela seleção, disputou seis edições da Copa Africana de Nações. Dono da braçadeira de capitão, nesta temporada se transferiu ao modesto Al-Batin, da Arábia Saudita. Foi titular em todas as partidas nas Eliminatórias, mas viu seus reservas também ganharem oportunidades nos amistosos recentes, com Mouez Hassen emendando três partidas consecutivas. No entanto, o veterano retornou diante da Espanha.

Fique de olho

Ellyes Skhiri

Aos 23 anos, Skhiri é uma adição recente ao elenco da Tunísia. O meio-campista revelado pelo Montpellier começou a ganhar sequência no clube a partir da temporada 2016/17. Já no último ano, se tornou um dos melhores do time. Passou a ser convocado a partir de março. Versátil, pode atuar como lateral e zagueiro, embora ocupe a cabeça de área. Nos últimos amistosos, substituiu o lesionado Ben Amor na função. Dono de bom porte físico e capaz de acertar chutes perigosos de longe, tem a chance de tomar a posição. Não será surpreendente se for usado também mais adiantado, como meia, para dar o combate e forçar a pressão.

Personagem além da bola

Yohan Benalouane

Um dos nove franceses de nascimento na seleção da Tunísia, Yohan Benalouane iniciou sua carreira no país natal. O zagueiro despontou com a camisa do Saint-Étienne, tornando-se titular aos 20 anos. E as boas atuações com os Verts o levaram à seleção sub-21 da França. Vendido ao Cesena em 2010, o defensor deu entrada na documentação junto à Fifa para defender as Águias de Cartago, graças à nacionalidade de seus pais. Só não estreou em jogo das eliminatórias da CAN porque não pôde viajar ao Chade, como não havia tomado uma vacina necessária para entrar no país. Então, começou a reviravolta.

Na imprensa europeia, começaram a especular que Laurent Blanc poderia convocar Benalouane para a seleção francesa. Diante disso, ele recusou uma nova convocação da Tunísia e sinalizou que queria defender a França. Sua mudança de ideia recebeu a resposta negativa da Fifa, já que a papelada estava encaminhada, sob a ameaça de uma suspensão que se estenderia aos clubes. Por conta da volatilidade de sua opinião, o zagueiro passou a ser criticado pelos torcedores tunisianos. Em 2013, já no Parma, o defensor mais uma vez foi chamado pelas Águias de Cartago e negou de novo.

A carreira de Benalouane por seleções parecia ter se encerrado naquele momento. Contudo, classificada à Copa do Mundo, a Tunísia voltou a insistir em 2018, aproveitando a rodagem do zagueiro, agora no Leicester. Enfim, ele aceitou e declarou que “razões familiares” o levaram a recusar o chamado nas outras duas vezes. Não pegou tão bem com os torcedores, mas não foi isso que levou o técnico Nabil Maâloul a desistir do reforço. O veterano estreou pela equipe nacional em março, às vésperas de completar 31 anos, no amistoso contra o Irã.

A falta de ritmo pesa contra Benalouane. O zagueiro disputou apenas um jogo pela Premier League nesta temporada, como lateral direito. Mesmo assim, foi testado como titular em dois dos cinco compromissos preparatórios. Deve disputar posição com Syam Ben Youssef, outro dos mais experientes do elenco, que atua no Kasimpasa. Mesmo evitando roer o osso para saborear o filé, o medalhão estará na Copa.

Técnico

Nabil Maâloul

Nabil Maâloul foi um dos principais jogadores da história da seleção, mas em tempos de vacas magras. O meio-campista estreou em 1985 e despediu-se em 1995, sem pegar o período de Copas do Mundo. Teve o gosto apenas de disputar os Jogos Olímpicos de 1988. Ídolo do Espérance, também chegou a atuar pelo Hannover 96. Aposentou-se em 1996 e logo iniciou sua carreira como técnico. Foi assistente da seleção e comandou o time olímpico, além de passar por importantes clubes do país. A carreira engrenou mesmo nesta década, bicampeão nacional com o Espérance e também triunfando na Liga dos Campeões da África em 2011. Teve uma breve passagem pela seleção em 2013, mas pediu demissão após sete jogos. Foi campeão da Copa do Catar com o El Jaish, treinou a seleção do Kuwait e, em 2017, ganhou nova chance nas Águias de Cartago. Após a demissão do polonês Henryk Kasperczak, virou a solução da federação. E o trabalho tem sido bem sucedido, com a reconquista da classificação à Copa do Mundo após 12 anos. Vem oferecendo alternativas táticas à equipe, o que é fundamental.

Uma história da seleção nas Copas

As participações recentes da Tunísia em Copas do Mundo não foram frutíferas. Era um time burocrático o que participou dos Mundiais em 1998, 2002 e 2006. Foram três empates e seis derrotas em nove partidas, sem deixar qualquer saudade. Falta de carisma bem distante do que aconteceu em 1978, quando as Águias de Cartago estrearam em Copas, após superarem o Egito nas Eliminatórias. Os tunisianos foram os responsáveis pela primeira vitória de uma seleção africana na história da competição.

Depois que Egito, Marrocos e Zaire passaram em branco anteriormente, a Tunísia teria a sua chance na Argentina. “Chegamos à Argentina com muito medo. O Zaire tinha se saído muito mal na Copa anterior e muitos sentiam que poderiam sofrer com a mesma fatalidade. Mas nos preparamos muito bem e ganhamos confiança”, explicou Tarak Dhiab, eleito melhor jogador africano de 1977, em entrevista à BBC.

A Tunísia começou fazendo sua parte logo na estreia: diante do México, o time treinado por Abdelmajid Chetali surpreendeu. El Tri terminou o primeiro tempo em vantagem no Gigante de Arroyito, mas o duelo se transformou após o intervalo, quando a torcida rosarina abraçou os africanos sob os gritos de “Tunísia, Tunísia” nas arquibancadas. Kaabi, Ghommidh e Dhouieb anotaram os gols que garantiram a vitória por 3 a 1. Mais do que isso, os tunisianos assumiram a liderança do pesadíssimo Grupo 2, graças ao empate sem gols entre Alemanha Ocidental e Polônia.

Estava claro que o desafio nas rodadas seguintes seria gigantesco. Ainda assim, os tunisianos não fizeram feio. Passaram longe de ser Zaire. Desperdiçaram várias chances contra a Polônia e poderiam ter melhor sorte. Perderam apenas por 1 a 0, gol do artilheiro Lato. Já diante da Alemanha, que havia enfiado 6 a 0 no México, os magrebinos jogaram fechadinhos. Anularam uma linha de ataque que possuía Karl-Heinz Rummenigge, Dieter Müller e Klaus Fischer, arrancando o empate por 0 a 0. Apesar da eliminação, abaixo dos europeus na tabela, já era um feito e tanto aprontar aquilo tudo.

“Nós voltamos para casa felizes. É por causa de nossas atuações que a África ganhou uma segunda vaga à Copa do Mundo a partir de 1982”, conclui Dhiab, falando sobre o bom papel feito também por Camarões e Argélia quatro anos depois. A história, de qualquer maneira, estava feita pelos tunisianos e não se apagaria.

Como o futebol explica o país

A grande rivalidade da Tunísia nasceu na década de 1920. Criados em bairros próximos da capital, Espérance e Club Africain possuem origens bastante diferentes. O primeiro estava ligado inicialmente aos colonizadores franceses, embora tenha se aproximado da elite árabe com o tempo. Era um clube da aristocracia local. Já o segundo possui raízes bem mais populares e, mais importante, anticolonialistas. Seu nome original deveria ser Club Islamique Africain, referência negada pelas autoridades francesas.

Ligado à juventude local, o Club Africain pleiteava principalmente a valorização da cultura local, com uma perspectiva de negar a influência europeia. Não à toa, o clube se ligou a movimentos além do futebol, que promoviam a música, o teatro e outras artes voltadas à identidade árabe. Já na década de 1930, ante o crescimento dos alvirrubros, houve uma tentativa de fundi-los com o Espérance, em momento incipiente da rivalidade. Quem estava por trás do projeto? Habib Bourguiba, um dirigente do EST que se formara em direito na França e começava a se tornar um dos líderes do movimento anticolonialista.

Durante as décadas seguintes, Espérance e Club Africain estariam em lados opostos em campo, mas muitos de seus membros se uniram pela independência da Tunísia. Quando ela aconteceu, o presidente se tornou justamente Bourguiba. Embora o Campeonato Tunisiano já existisse desde a década de 1910, passou a ser disputado por diversos clubes ligados a movimentos nacionalistas.

Habib Bourguiba não se afastou totalmente do futebol durante os 30 anos de seu regime autoritário na Tunísia. O melhor exemplo veio em 1965, quando o país sediou a Copa Africana de Nações. Desafeto de outros países árabes, ao aventar uma reconciliação entre palestino e israelenses, o presidente viu República Árabe Unida (atual Egito) e Sudão boicotarem a competição. Permaneceu no poder até 1987, quando sofreu um sangrento golpe de estado, que colocou Zine El Abidine Ben Ali.

O novo ditador também usaria a Copa Africana de Nações para se afirmar, em 2004. Além de ser sede, a Tunísia conquistou a competição. Oito meses depois, aconteceram as eleições presidenciais. Depois de restringir os direitos da oposição, com uma lei de 2003 que alterava o Código Eleitoral, Ben Ali chegou ao seu quarto “mandato”, no governo desde 1987. O pleito foi considerado um “simulacro de democracia” por organizações como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch.

Ben Ali ficou no poder até 2011, quando se iniciou a Revolução de Jasmim, o estopim da chamada Primavera Árabe. A Tunísia conseguiu restaurar a democracia ao longo dos últimos sete anos, em processo bem sucedido em relação aos seus vizinhos, mas que voltou a gerar tensões nos meses recentes. A corrupção e a crise econômica, motivos que ajudaram a derrubar Ben Ali, voltaram a atingir níveis alarmantes. Além disso, membros da antiga ditadura permanecem ligados ao poder. Os protestos se intensificaram em 2018. Mas no futebol, ao menos, trouxeram algumas melhorias.

Durante a revolução, o Campeonato Tunisiano parou. Apenas o Espérance, campeão africano naquele mesmo ano, apresentava boas condições financeiras. Os outros clubes enfrentaram dificuldades com a parada forçada. Assim, o novo momento no país também gerou uma limpa no futebol. Presidente da federação e partidário do antigo regime, Ali Hafsi foi retirado do cargo. Enquanto isso, alguns clubes também mudaram seus estatutos, a começar pelo Club Africain. Foi a primeira agremiação do país a eleger um presidente democraticamente. Outra boa nova foi a criação de um sindicato nacional aos jogadores profissionais, presidido por Ali Boumnijel, goleiro da seleção em três Copas. Já o ministério dos esportes caiu nas mãos de Tarak Dhiab – sim, o herói nacional por seus feitos na Copa de 1978. Permaneceu no cargo até 2014.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A Tunísia sabe que será um azarão no grupo de dois adversários pesados. Mesmo assim, como um dos times mais “misteriosos” da Copa do Mundo, sem jogadores tão badalados, sonha em surpreender. Depende do trabalho em conjunto e de um bocado de sorte. Se repetir 1978, mesmo sem a classificação, já estará ótimo.

Jogos na Copa

Segunda-feira, 18/06 – 15h – Inglaterra x Tunísia

Sábado, 23/06 – 9h – Bélgica x Tunísia

Quinta-feira, 28/06 – 15h – Tunísia x Panamá

Ficha técnica

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