“Esse é o nosso espírito viking: nós continuamos lutando até o fim. É difícil descrever. É algo sobre o qual sonhamos e que queremos levar pelo resto da vida”. As palavras de Aron Gunnarsson, sobre o sentimento da Islândia durante a Eurocopa, foram ditas após a vitória contra a Áustria. No entanto, seguem muitíssimo válidas, especialmente após o que aconteceu em Nice, durante a virada contra a Inglaterra. O tal ‘espírito viking’ esteve impregnado nos jogadores nórdicos durante os 90 minutos. Desta vez, não para buscar um gol, mas para evitá-lo. E, a partir do exemplo, Gunnarsson foi tudo o que se espera de um capitão. Não desistiu por um instante sequer, onipresente em campo, em busca da classificação às quartas de final. Para, no fim do jogo, comandar também a comemoração entre jogadores e torcedores com o “cântico de guerra” dos soldados vikings.

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Gunnarsson não é exatamente um craque. O meio-campista possui, sim, a sua qualidade técnica. Prova disso veio mesmo no jogo contra os ingleses, coordenando a saída de bola com calma e passes apurados. Contudo, suas maiores virtudes são outras. Algo que aprimorou desde cedo, em um país que conta com uma política fortíssima de incentivo ao esporte. E em uma família de múltiplos talentos, que estimulou a sua competitividade.

O principal “adversário” de Gunnarsson estava dentro de casa: o irmão Arnór, um ano e seis meses mais velho. Juntos, eles começaram a carreira no Thór Akureyri, clube poliesportivo da cidade onde nasceram, com pouco mais de 18 mil habitantes. Aron jogava tanto no time de handebol quanto no de futebol, e até estreou antes nas quadras, um dos mais jovens a disputar o campeonato nacional de handebol, aos 15 anos. Todavia, a chance de partir ao futebol holandês e defender o AZ levou o garoto a abandonar as quadras dois anos depois. Mas transferiu muitas de suas noções de uma modalidade a outra.

Gunnarsson é o cara que dá equilíbrio a uma seleção que depende da solidez na marcação. Como fazia nas barreiras do handebol, sabe muito bem como fechar os espaços ao redor da área. Enquanto isso, também se empenha para forçar o erro dos adversários desde o campo de ataque. Dono de um fôlego privilegiado, oferece o gás para ir de um lado a outro no campo. É o líder que influencia pela vontade, impulsionando o coletivo do time de Lars Lagerbäck. E o braço permanece forte. As cobranças de lateral são um trunfo da Islândia, até mesmo com jogadas ensaiadas. Assim, inclusive, nasceu o gol de empate nesta segunda.

Mas, se Aron abandonou uma carreira que também era promissora no handebol, o sobrenome da família seguiu sendo honrado nas quadras. Arnór tornou-se um dos principais jogadores islandeses da modalidade, na qual o país costuma figurar entre os melhores do mundo. Esteve nas duas últimas edições do Campeonato Europeu, assim como a Copa do Mundo de 2015. Em casa, os Gunnarsson podem compartilhar as suas alegrias pelas equipes nacionais.

gunnarsson

Aron, inclusive, ascendeu desde cedo como uma liderança na seleção islandesa de futebol. Convocado ao elenco principal desde os 18 anos, ele capitaneou a geração de ouro na já histórica participação no Campeonato Europeu sub-21 de 2011. Cresceu ao lado da maioria absoluta de seus companheiros, rumo à afirmação na equipe adulta. E, naturalmente, Lagerbäck deu a braçadeira ao jogador do Cardiff em agosto de 2012, quando tinha somente 23 anos. Um posto que lhe parecia de direito, diante da maturidade que apresentava em campo. Lesionado, o capitão não pôde disputar a repescagem da Copa do Mundo de 2014. Porém, junto de seus companheiros, desfrutou do sucesso inédito na empreitada rumo à Euro. E segue desfrutando na França.

Contra a Inglaterra, Gunnarsson desperdiçou a chance de se destacar de vez, em contra-ataque aos 44 do segundo tempo no qual carimbou Joe Hart. O gol, ao menos, não fez falta. Seu protagonismo será mais exigido contra a França, quando os islandeses deverão se preparar para a pressão. Nada que intimidará o meio-campista. A coragem e a sede por vencer não são só dele. Quando ergue os braços e vibra do fundo de sua alma, todo o país obedece o capitão.

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