Até que a final da Copa do Mundo aconteça, o Estádio Luzhniki vivenciou sua maior noite de futebol naquele 21 de maio de 2008. O palco onde o ursinho Misha chorou nos Jogos Olímpicos de 1980 também seria fonte de lágrimas, entre regozijo e lamentos. Manchester United e Chelsea fizeram uma das decisões mais tensas que a Liga dos Campeões já viu, há exatos dez anos. E a marca da cal, cruel com ídolos naquela noite, terminou por consagrar os Red Devils. Pela terceira vez na história, o clube levantava a Orelhuda. A Praça Vermelha foi ainda mais vermelha, diante da façanha do esquadrão dirigido por Sir Alex Ferguson.

Moscou, afinal, se tornou o epicentro do futebol inglês. Após anos de rivalidade doméstica, United e Chelsea decidiriam a maior competição da Europa. Seria a coroação de dois timaços. Os Red Devils aguardavam a reconquista desde a mítica final de 1999, e vinham com uma equipe bastante qualificada, também pela maneira como dominou a Premier League naqueles anos. Depois de deixar Lyon e Roma para trás nos mata-matas, um chutaço de Paul Scholes contra o Barcelona valeu a vaga na decisão. Do outro lado, o Chelsea atravessava uma temporada conturbada, em que as rusgas de José Mourinho culminaram em sua demissão, substituído por Avram Grant. Mesmo sem o mentor principal, ainda era um time forte dos Blues, com seu quarteto de senadores e outros astros. Superaram Olympiacos nas oitavas e um confronto perigoso contra o Fenerbahçe nas quartas, até a revanche contra o Liverpool finalmente acontecer nas semifinais, graças aos gols de Frank Lampard e Didier Drogba na prorrogação em Londres.

O Manchester United jogava para reivindicar sua grandeza. O Chelsea, por sua afirmação continental. E os confrontos anteriores ajudavam a apimentar o clássico decisivo. Além das disputas constantes na Premier League, as duas equipes haviam se encarado na final da Copa da Inglaterra de 2007, quando Drogba definiu um duelo travado e polêmico em Wembley. Além disso, ainda houve uma Community Shield no início da temporada. Nada comparado ao que se prometia no Estádio Luzhniki.

Dez dias depois de confirmar o bicampeonato nacional, fechado com dois pontos de vantagem em cima do próprio Chelsea, o Manchester United vinha focado na final europeia. Sir Alex Ferguson escalava vários nomes célebres. Van der Sar dava segurança sob as traves. Nemanja Vidic e Rio Ferdinand formavam uma dupla de zaga sólida, acompanhados por Wes Brown e Patrice Evra nas laterais. Michael Carrick e Paul Scholes eram o ponto de equilíbrio no meio, com Cristiano Ronaldo voando pela esquerda e Owen Hargreaves servindo de opção na direita. Já no ataque, a explosão de Wayne Rooney e Carlos Tevez. No banco, ainda havia Ryan Giggs e Nani para mudarem o jogo.

O Chelsea de Avram Grant não ficava para trás, embora alguns de seus principais jogadores viessem de lesões recentes. Ainda assim, Terry, Drogba e Ashley Cole foram a campo. A escalação começava por Petr Cech, um craque que fazia diferença aos Blues. Terry e Ricardo Carvalho era a dupla de zaga duríssima a qualquer atacante, com Ashley Cole na esquerda e o improvisado Michael Essien protegendo a direita. No meio, uma trinca respeitabilíssima com Claude Makélélé, Michael Ballack e Franck Lampard. Já no ataque, Joe Cole e Florent Malouda ofereciam o apoio ao fulminante Didier Drogba. Para o segundo tempo, Salomon Kalou e Nicolas Anelka.

Como nos encontros anteriores entre os clubes, foi um jogo nervoso. E logo em uma das primeiras chances de gol, o grito soou mais alto do lado vermelho das arquibancadas. O cruzamento na medida de Wes Brown permitiu o salto soberano de Cristiano Ronaldo, em cabeçada imparável que abriu o placar aos 26 minutos. A partir de então, os goleiros começaram a trabalhar. Van der Sar evitou um gol contra de Ferdinand e, em meio à pressão do United, Cech operou os seus milagres. O segundo tento da noite, contudo, saiu do outro lado do campo, nos instantes finais antes do intervalo. O chute desviado de Essien sobrou limpo para Lampard concluir. O meio-campista era herói da campanha não apenas por seus gols decisivos, mas também pela maneira como seguiu em frente após perder sua mãe na semanas antes. Durante a comemoração, o camisa 8 apontou aos céus.

O segundo tempo foi favorável ao Chelsea. Os Blues atacavam com vigor e iam criando chances. A virada, de qualquer forma, não saiu por um triz. Drogba arriscou um chutaço de fora da área e a bola, cheia de curva, explodiu na trave esquerda de Van der Sar. Tentando melhorar o poderio ofensivo, Ferguson mandou a campo Giggs, no lugar de Scholes. Com aquela partida, o galês superava Bobby Charlton como jogador que mais havia defendido o clube, somando 759 aparições. Mas a mística não pesou e a tensão seguiria à prorrogação.

Os 30 minutos extras só serviram para aumentar o drama. Lampard quase anotou o segundo, desta vez barrado pelo travessão. Já Giggs não se tornou herói porque John Terry salvou o seu chute de maneira espetacular, desviando a bola, a caminho das redes, com uma cabeçada impressionante na pequena área. E quando as penalidades pareciam inescapáveis, os dois times armaram um entrevero por atitude de Tevez que os jogadores do Chelsea avaliaram como falta de Fair Play. Após uma bola mandada para a lateral, a fim de que ocorresse um atendimento médico, o argentino deveria devolver a posse aos Blues, mas mandou um bico para o campo adversário e conclamou a pressão de seus companheiros na marcação. Foi a faísca para a confusão. No meio do bolo, Drogba acertou um tapa no rosto de Vidic e o trio de arbitragem flagrou. Expulso, o centroavante não participou da disputa por pênaltis.

Na marca da cal, Tevez, Ballack, Carrick e Belletti (que entrara só para cobrar) converteram seus chutes. Cristiano Ronaldo tentou enganar Cech com uma paradinha, mas quase se tornou vilão ao parar nas mãos do goleiro. Lampard, Hargreaves, Ashley Cole e Nani seguiram fazendo o serviço – por mais que Van der Sar e Cech tenham tocado alguns destes arremates. E quando John Terry tinha tudo para tornar o Chelsea campeão europeu pela primeira vez, precisando apenas converter a quinta batida, escorregou e mandou a bola na trave. Anderson e Kalou mantiveram a igualdade na primeira série de alternadas. Já na segunda, depois que Giggs deu a vantagem aos Red Devils, Van der Sar se agigantou diante de Anelka, defendendo a cobrança que deu o título aos mancunianos.

Era a porta de entrada daquele Manchester United a um panteão maior. Por mais que o tricampeonato na Premier League, completado na temporada posterior, representasse bastante aos Red Devils, a conquista europeia tinha um significado inigualável. E vinha em um ano significativo, em meio às lembranças dos 50 anos do Desastre de Munique e dos 40 anos do primeiro título continental dos mancunianos. Não à toa, Bobby Charlton liderou seus herdeiros na cerimônia de premiação. Ao Chelsea, restou o sentimento de culpa e a frustração. Precisariam esperar quatro anos, até que acontecesse a redenção de todos os seus quatro senadores em Munique.