Foi apenas em 1929/30 que a Serie A surgiu, no formato de liga nacionalizada, em projeto que entrava até mesmo na zona de influência política de Benito Mussolini. No entanto, o Campeonato Italiano é bem mais antigo do que isso. E sua história oficial começou há exatos 120 anos. Em 8 de maio de 1898, a Federazione Italiana del Football (que só na década seguinte adotaria a denominação atual, em referência ao histórico Giuoco Calcio) organizou uma competição de tiro curto em Turim. O certame, que mais pareceu um “torneio início” pelo modo como foi realizado, contava com a participação de três clubes turinenses. Mas ao final, o visitante Genoa comemorou, inaugurando aquela que seria a sua dinastia pré-Serie A.

Eram tempos incipientes do futebol na Itália. Deixando de lado os ancestrais locais do esporte, a modalidade no “modelo britânico” chegou à Bota na década de 1880, introduzida por trabalhadores e marinheiros que vinham do Reino Unido. Não à toa, a portuária Gênova e a industrial Turim se tornaram as duas principais bases da crescente prática no Belpaese. O Torino Football and Cricket Club é considerado o primeiro clube do país, fundado em 1887 por Edoardo Bosio, um comerciante da indústria têxtil britânica que se tornaria entusiasta da modalidade. Já em 1891, se fundiria com o Nobili Torino, formando a Internazionale Torino. E na Ligúria, o Genoa surgiu em 1893.

Em 1895, a Federação de Ginástica Nacional Italiana, que regulamentava as práticas esportivas no país, passou a incluir o futebol em seu programa. No ano seguinte, realizou o primeiro campeonato de futebol do país, vencido pela Udine. Vale ponderar, entretanto, que os certames da FGNI não necessariamente adotavam as regras da Football Association. Os jogos possuíam tempos mais curtos, de 30 minutos, enquanto o vencedor em caso de empate por vezes era decidido pela subjetiva opinião do árbitro, baseando-se no “fair play” dos atletas.

A real eclosão do futebol na Itália aconteceu em 1898. Em janeiro daquele ano, o Genoa enfrentou uma seleção de Turim, formada pelos jogadores da Internazionale e do FC Torinese – no que é considerado o primeiro amistoso do país. Depois, encararia ainda Alessandria e Pro Liguria – este, embrião da Sampdoria, no primeiro dérbi genovês. Neste momento, o contato constante entre as agremiações fazia surgir a ideia de uma associação em conjunto, dedicada apenas ao futebol. Assim, sete clubes se juntaram para fundar a Federazione Italiana del Football em abril de 1898.

Naquele ano, o campeonato futebolístico da FGNI fez parte do Concorso Nazionale, uma olimpíada que reunia competições de várias modalidades diferentes. Já em 8 de maio, a FIF também constituiu o seu primeiro torneio. Participaram quatro dos sete clubes associados à entidade na época: Genoa, Internazionale Torino, Torinese e Ginnastica Torino. Eles se enfrentariam em semifinais, decisão do terceiro lugar e final, todas realizadas ao longo daquele dia. O local escolhido era o Velodromo Umberto I, palco tradicional do desporto turinês, em um momento no qual a cidade comemorava os 50 anos do Statuto Albertino – documento que originou a constituição italiana. E havia até mesmo uma taça e medalhas, oferecidas pelo Duque de Abruzzi, importante incentivador do futebol.

Quando a bola rolou, durante a manhã, Internazionale Torino e Genoa provaram seu favoritismo nas semifinais, garantindo classificações magras. A Inter bateu o Torinese por 1 a 0, enquanto o Grifone fez 2 a 1 sobre a Ginnastica Torino. Já a decisão teve o seu pontapé inicial às três da tarde. Após o empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, o Genoa garantiu a taça na segunda prorrogação de 30 minutos, graças ao tento anotado pelo ponta Norman Victor Leaver. O herói da conquista, aliás, era apenas um dos cinco estrangeiros que compunham o time campeão – com quatro britânicos e um suíço, o centroavante Henri Dapples. Em campo, estava também o médico James Spensley, considerado um dos grandes responsáveis por impulsionar o futebol naquele momento histórico.

O Genoa emendaria o tricampeonato italiano durante as primeiras edições do torneio, perdendo a hegemonia apenas em 1901, quando foi superado pelo Milan. Logo depois, voltaria a ser tri. Já em 1907, houve uma importante quebra na FIF, quando a federação resolveu realizar o campeonato exclusivamente aos italianos e criou uma competição separada que permitisse a inclusão de estrangeiros. Isso provocou uma cisão entre seus membros, incluindo o Genoa, que só voltou ao torneio quando a barreira caiu, em 1909. Com a ascensão do Pro Vercelli, a retomada do topo pelo Grifone aconteceu em 1914/15, antes que os genoveses fossem bicampeões em 1922/23 e 1923/24. Tempos gloriosos de um clube importantíssimo à afirmação do futebol italiano, por mais que as conquistas não se repitam desde então.