andrew

Há 133 anos, o filho de uma ex-escrava se tornava o primeiro negro a defender uma seleção

Não importa se é na Rússia, na Itália, no Peru ou no Brasil. Semana após semana, o futebol aparece manchado por episódios de racismo. Estupidez pura em forma de desrespeito aos semelhantes. E também uma enorme ignorância em relação ao passado do esporte. O futebol nasceu, sim, enraizado em uma sociedade ‘branca’. Mas, se conseguiu se tornar tão popular, foi graças a sua capacidade de miscigenar, de integrar gente de diferentes camadas sociais. Nas origens inglesas, a massificação aconteceu com o rompimento das barreiras sociais na década de 1880. Já no Brasil, esse processo promoveu a integração racial de maneira mais intensa a partir dos anos 1930.

E em um momento de tantas manifestações de intolerância, não custa resgatar a história de um pioneiro. Muito antes que o profissionalismo ajudasse a superar as divisões, na Inglaterra ou no Brasil, Andrew Watson eternizou seu nome no esporte. Você provavelmente não saberá quem ele é assim, de imediato, mas certamente admirará seu feito: o guianês foi o primeiro jogador a atuar por uma seleção nacional, há exatos 133 anos. Algo marcante, ainda mais uma época em que a segregação era bem mais explícita.

Watson nasceu da miscigenação e, ao contrário de muitos com história parecida, não foi renegado por seu pai. Ele era filho de Peter Miller Watson, rico barão do açúcar na Guiana, com uma ex-escrava chamada Anna Rose. O latifundiário assumiu a criança e a colocou em berço de ouro, deixando-lhe uma vasta herança quando Andrew ainda era adolescente. O guianês foi educado no tradicional King’s College de Londres e seguiu para a Universidade de Glasgow. E justamente na faculdade, quando tinha 19 anos, é que começou a ter contato com o futebol, cujas regras haviam sido estabelecidas 12 anos antes.

“Watson, Andrew: Um dos melhores defensores que nós temos. Desde que ele se juntou ao Queen’s Park, ele tem evoluído bastante; tem uma grande velocidade e é esplêndido nos desarmes; chute certeiro e poderoso; digno de jogar em qualquer equipe”, Anuário da Associação Escocesa de Futebol, 1880/81.

Jogando como defensor, Watson rapidamente tornou-se notável no esporte. Passou por Maxwell e Parkgrove, até acertar sua ida ao Queen’s Park, grande potência do futebol britânico na época. Pelos Spiders, o guianês foi o bicampeão da Copa da Escócia, o primeiro negro a vencer um torneio oficial. E também foi pioneiro a disputar a Copa da Inglaterra, a competição mais antiga da história.

O talento exibido no Queen’s Park não seria desperdiçado pela seleção escocesa, que utilizava o próprio clube como sua base. No dia 12 de março de 1881, nove anos depois do primeiro jogo internacional da história, ele não só entrou em campo pela Escócia contra a Inglaterra, como também foi capitão da equipe que venceu por 6 a 1. Pouco tempo depois, ele lideraria os escoceses à goleada por 5 a 1 sobre Gales. E faria sua última partida pela equipe nacional em 11 de março de 1882, 5 a 1 sobre a Inglaterra.

O fim precoce da passagem de Watson pela seleção não foi por falta de interesse dos escoceses. O problema é que o defensor se mudou para Londres em 1882 e, na época, a equipe se limitava a convocar jogadores que atuassem no país. Na capital inglesa, o guianês continuou fazendo história. Depois de dois anos no Swifts, passou a reforçar o Corinthians, potência do amadorismo mesmo com o profissionalismo nascente. Watson esteve em campo, inclusive, na emblemática vitória por 8 a 1 sobre o Blackburn, então campeão da Copa da Inglaterra e já profissionalizado.

andrew1

Engenheiro formado e milionário, Andrew Watson preferiu manter-se no amadorismo. Voltou ao Queen’s Park, no qual também acumulou funções administrativas. E terminou a carreira no Bootle, os primeiros rivais do Everton. Parte dos jogadores do clube era paga, mas não existem fontes suficientes para afirmar se Watson foi ou não o primeiro profissional negro da história do futebol. Esta honraria é atribuída a Arthur Wharton, ganês que era goleiro do Roterham Town, equipe da recém-criada segunda divisão do Campeonato Inglês.

Watson encerrou a carreira em 1892, passando os últimos 20 anos de sua vida trabalhando como engenheiro naval em Liverpool. Certamente, suas origens nobres ajudaram a ter as portas abertas, em uma época na qual o futebol era marcado pela divisão social. Mas não tanto pelo preconceito racial. Não existem registros de jornal que relatem qualquer discriminação pela cor da pele do defensor – mas, curiosamente, apontam um estranhamento pelas chuteiras ‘coloridas’ que usava, marrons, em uma época em que os calçados pretos eram dominantes.

Durante a década de 1920, Watson foi eleito para a melhor seleção escocesa da história. Um reconhecimento e tanto, mostrando também como superou qualquer barreira que se impusesse. Pioneiro que não gerou uma miscigenação imediata, mas que poderia ser colocado ao lado de outros grandes, como Leônidas da Silva, Leandro Andrade, Larbi Benbarek. Todos negros, que marcaram o futebol. E que são ignorados por um bando de imbecis que se acham no direito de usar o esporte para segregar e inferiorizar.