Há 15 anos, faltava algo para que Ronaldinho Gaúcho fosse visto como craque inquestionável. Fizera furor ao surgir no Grêmio e na Seleção Brasileira, em 1999; estava bem no Paris Saint-Germain; já fizera boa Copa de 2002, sendo talvez o melhor em campo no fundamental jogo contra a Inglaterra. Mas faltava algo. Assim como faltava ao Barcelona recuperar calma dentro e fora de campo, após a caótica volta de Louis van Gaal e a traumática saída de Rivaldo. Pois bem: em 21 de julho de 2003, Ronaldinho era apresentado no Camp Nou, marcando o início de um novo auge na história barcelonista – e o período em que se consolidaria, aí sim, como símbolo de seu tempo no futebol mundial.

Não que o gaúcho fosse o único símbolo de mudança no Barcelona, naquela preparação para a temporada 2003/04. Da chegada do técnico Frank Rijkaard à aposta (frustrada) na vinda de Rüstü Reçber para o gol, a gestão de Joan Laporta começava querendo fazer de tudo para provar que o turbulento fim de gestão de Joan Gaspart seria superado. Mas é inegável que Ronaldinho era a “cereja do bolo”: em rota de colisão com o técnico Luis Fernández no Paris Saint-Germain, desejoso de um clube mais conhecido, o Barça veio na hora certa. Bastou o esforço de Sandro Rosell – na época, diretor-geral do clube e principal parceiro de Joan Laporta antes do rompimento – para que ele aceitasse a transferência, por 25 milhões de euros.

Ronaldinho nem falou muito na época – apenas se declarou ao site oficial da agremiação catalã, comentando sobre o “privilégio” que seria jogar no novo clube e sobre a admiração que tinha por Rijkaard, desde os tempos em que este jogava. Na sua chegada, se uniria a um time ainda experiente, com nomes como Luis Enrique, Phillip Cocu e Patrick Kluivert. E bastou aquela temporada para que a dupla Laporta-Rosell já tivesse ciência de como havia acertado ao quebrar a banca para trazer R10: começavam as atuações assombrosas, fosse criando jogadas, fosse chegando para finalizá-las.

Nao era suficiente para fazer a equipe brigar pelo título: o primeiro turno do Campeonato Espanhol mostrou um time patinando no meio da tabela. Para melhorar, a vinda de Edgar Davids, por empréstimo, em janeiro de 2004, aprimorou o time em campo. E a ascensão barcelonista foi admirável: impossível foi tirar o título do Valencia em La Liga, mas aquele segundo lugar já dava a impressão de que dias muito melhores viriam. Para o time, com mais reformulações – por exemplo, o retorno de Cocu para o PSV abriu espaço para um tal de Andrés Iniesta. E para Ronaldinho – que no segundo semestre de 2004 deixou claro: aquele bom começo ainda não havia sido nada, diante do que se veria com ele vestindo azul e grená.

Sobraram provas do êxito daquele casamento. Para o time, com o bicampeonato espanhol e a conquista da segunda Liga dos Campeões, em 2005/06. E para Ronaldinho: incontáveis atuações de brilho (como esquecer aquela atuação na derrota para o Chelsea, nas oitavas de final da Liga dos Campeões, em 2004/05? E os aplausos no Santiago Bernabéu, após o 3 a 0 no rival, no clássico de La Liga em 2005/06?), as eleições de melhor do mundo segundo a Fifa – equilibrada em 2004, indubitável em 2005 -, a sensação de que ele realmente atuava bem em todas as partidas.

A partir de 2006, lentamente, o “Bruxo” foi deixando o estrelato com um jovem argentino que jogava desde 2005 entre os profissionais. Coube a Lionel Messi simbolizar o auge absoluto do Barcelona, desde aquela reação. No entanto, quem acompanha futebol desde então sabe: os torcedores blaugranas sempre terão gratidão e alegria ao lembrarem aqueles tempos em que um brasileiro mesmerizou usando a camisa 10 do clube. Tempos que começaram em 21 de julho de 2003.