Aos 39 anos, David Seaman se encaminhava ao final da carreira em 2002/03. Aquela seria a última de suas 13 temporadas pelo Arsenal. Não exibia a mesma agilidade de outros tempos, como ficou marcado na Copa do Mundo de 2002, desmoralizado pela cobrança de falta estratosférica de Ronaldinho Gaúcho. Ainda assim, o veterano seguia como um dos bastiões de Highbury. E o dia 13 de abril de 2003 seria particularmente especial. Completava 1.000 partidas como profissional, justo em uma semifinal de Copa da Inglaterra. Uma ocasião que não sairia da memória de qualquer torcedor, a partir do momento em que o arqueiro resolveu “desafiar a gravidade” – como bem definiu o jornal The Guardian, na época. Aos 39 do segundo tempo, Seaman operou uma defesa que está em qualquer listas das mais fantásticas já vistas no futebol inglês. Um lance plástico, impressionante. Segundos que merecem a exaltação, 15 anos depois.

Enfrentando o Sheffield United em Old Trafford, o Arsenal vencia apertado. Saiu em vantagem no primeiro tempo, com Fredrik Ljungberg, mas sofria a pressão das Blades. E tudo pareceu mais difícil quando Paul Peschisolido cabeceou livre, na pequena área, com a meta aberta. Muitos acreditavam que o empate estava consumado quando o jogador que veio do banco golpeou a bola, apesar do movimento desengonçado. Mas a grande beleza do futebol está em refutar as certezas. Exatamente o que fez Seaman, num estalo.

Não existia mais falta de elasticidade. Não existia mais tempo de reação débil. Não existia mais a lesão muscular que o afastou por um mês, retornando justamente naquela tarde. Sobretudo, não existia qualquer resistência física que pudesse parar o goleiro, flutuando nos ares. Ele se jogou para trás e, com um movimento acrobático, conseguiu tirar a bola em cima da linha. Poucos poderiam imaginar que, justo na milésima partida, ele tinha realizado aquilo. Mas aconteceu, e valeu a classificação ao Arsenal, vencendo a partida por 1 a 0.

“Eu pensei que estava dentro, para ser honesto. Eu apenas joguei meu braço para trás e tentei buscar algo dali. Estou contente por isso. Nada mal para quem tem 39 anos, não é?”, declarou, após a partida. E se a serenidade prevalecia em Seaman, a empolgação se espalhava pela Inglaterra. No célebre BBC Match of The Day, ninguém menos que Peter Schmeichel classificou aquele lance como a melhor defesa que já tinha visto. “Foi inacreditável. Ele estava desequilibrado, teve que voltar e conseguiu salvar. Ele deve ter pás nas mãos. Fico feliz por ele. Voltou de lesão e vinha sendo criticado, principalmente por sua idade. Seaman irá lembrar desse dia pelo resto de sua vida”, disse.

Mais do que a melhor defesa da vida ou mais do que um lance inesquecível no milésimo jogo, aquele milagre rendeu outras glórias a Seaman. Na decisão da Copa da Inglaterra, ele não apenas foi titular, como também ostentou a braçadeira de capitão – substituindo o lesionado Patrick Vieira na função. Venceu o Southampton por 1 a 0 e levantou a taça, em sua última aparição pelo clube. Sem renovar seu contrato, seguiu ao Manchester City. Atuou por um semestre antes de ter a aposentadoria forçada, ironias à parte, por uma contusão recorrente no ombro. Sua história, de qualquer maneira, estava escrita. E com uma imagem para sempre.