Junho de 1997. A Internazionale vivia um jejum de títulos e não ganhava a Serie A há sete anos – o último tinha sido cm os alemães, em 1989. Massimo Moratti era o presidente e dono do clube. Tinha assumido o clube dois anos antes, em 1995. Mas foi neste dia 20 de junho de 1997 que Moratti conseguiu realizar o seu maior feito em termos de contratações ao longo dos 18 anos que foi presidente e dono do clube. Um sonho que parecia improvável, para não dizer impossível e se concretizou: Ronaldo Nazario de Lima foi para Milão e vestiu o azul e preto da Inter como novo contratado. Isso um ano depois do Barcelona bater o recorde de transferências para tirá-lo do PSV por US$ 20 milhões. Como isso aconteceu?

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Em parte, isso se dá pela confusão que existia em Barcelona. Ronaldo era um jogador que tinha privilégios, por ter um talento claramente muito acima da média. Isso incomodava. Ele foi liberado para o Carnaval de 1997 enquanto os companheiros treinavam. O astro brasileiro aparecia em fotos festejando, enquanto os companheiros suavam. A torcida também não gostava do seu comportamento. Escolheram Luis Enrique (sim, aquele mesmo que acabou de deixar de ser técnico do próprio Barcelona) como melhor jogador da temporada. Contamos um pouco disso na matéria sobre os 40 anos do Fenômeno – apelido, aliás, que ganhou na sua passagem pela Inter. “Il Fenomeno”, para os italianos.

Os vilões mesmo para o Barcelona, porém, eram os empresários do jogador, Reinaldo Pitta e Alexandre Martins. Se falava muito da renovação e os empresários, claro, queriam maximizar o lucro. No final da temporada, no dia 26 de maio de 1997, o Barcelona acreditou ter feito uma renovação até 2006 com o jogador, com declarações do então presidente Josep Lluís Núñez dizendo: “Ele é nosso pela vida toda”. No dia seguinte, quando iam assinar o contrato, o acordo ruiu. O presidente do Barcelona, então, admitiu: “Acabou, Ronaldo vai embora”.

A Internazionale de Massimo Moratti já queria tê-lo contratado do PSV e não queria deixar escapar a chance desta vez. Os empresários do jogador receberam a sua comissão da Inter e o cheque para levar à Catalunha. Depositaram o cheque de 27 milhões de dólares na sede da Federação Espanhola de Futebol, pagando assim a sua cláusula de rescisão, mais uma vez quebrando o recorde mundial de transferências. O Barcelona entrou na Fifa pedindo uma indenização e a entidade obrigou o clube italiano a pagar mais 1,8 milhão pelo jogador, em setembro. Ronaldo, a essa altura, já tinha estreado pela Inter.

A contratação

“Não foi fácil. Ninguém pensava que eu podia contratá-lo, então eu não tive concorrência. Ele tinha problemas com o Barcelona e uma vez que nós pagamos a cláusula, ele teve que decidir. O ato final foi quando eu fui para Padua para trabalhar. Giovanni Branchini (o empresário que realizou as negociações) me ligou e me disse que podia ser feito”, afirmou Moratti em entrevista ao Mi-Tomorrow.

Moratti foi perguntado sobre como foi a sua primeira conversa com Ronaldo. “Na verdade, encontrei com Ronaldo um ano antes. Ele veio para Milão com a sua namorada. Ele estava prestes a ir para o Barcelona, ele me deu a sua figurinha que eu ainda tenho comigo. Já havia a ideia que cedo ou tarde ele viria para a Inter”, declarou o dirigente.

Perguntado se achava que o negócio tinha sido uma barganha – apesar de ser o recorde de transferências na época -, Moratti não titubeou em dizer que sim. “Sem dúvida que sim. Deixe-me dar um exemplo. Eu perguntei à Nike se eu contratasse Ronaldo eles me dariam um valor muito diferente pelo patrocínio. Eles não acreditaram em mim e disseram que sim. Eles acharam que era uma brincadeira”, revelou Moratti.

“Quando você compra clube, você sonha que pode fazer algo excepcional, até ao custo de uma administração perfeita. Responde aos seus sentimentos pelo time. Uma vez eu tentei contratar [Eric] Cantona e se tivesse conseguido, nós teríamos ganhado o campeonato no primeiro ano”, contou Moratti.

Perguntado sobre a imagem que deixou na Inter, Moratti cita um lance específico. “O seu primeiro gol contra o Bologna. Uma demonstração de categoria, habilidade, força. Foi seu cartão de visitas”, disse.

Depois de passer quase dois anos parado por causa de lesões entre 1998 e 2000, Ronaldo acabou deixando a Inter em 2002, se transferindo para o Real Madrid. Para Moratti, as duas lesões tiveram um papel decisivo na decisão de Ronaldo de deixar o clube depois de ser campeão mundial pela seleção brasileira na Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e Japão.

“O primeiro ano foi incrível. Infelizmente, a seleção brasileira cortou a preparação em dois para a Copa do Mundo e ele teve duas lesões graves. Acredito que este aspecto, acima de tudo, foi o que contou, o lugar o lembrava muito o que tinha acontecido. Eu recebi a sua despedida de maneira humana e entendi. É uma pena, porque se tivesse apenas a primeira cirurgia, tudo poderia ser diferente”.

Em janeiro de 2007, Ronaldo trocou o Real Madrid pelo Milan. Depois de ter jogado por Barcelona e Real Madrid, o Fenômeno voltava à Itália para atuar no rival da Inter, seu ex-clube no país. Moratti, porém, não perdeu o carinho pelo jogador. “Nunca houve um relacionamento ruim entre mim e Ronaldo e ele sempre teve me tratou muito bem. Ir para o Milan não era a melhor das suas escolhas, mas sua liberdade era parte da sua personalidade”, conta o ex-dirigente. No fim, a passagem de Ronaldo pelo Milan acabou sendo curta e sem muito sucesso. Continuou como um ídolo do lado azul e preto de Milão.

O dirigente acredita que o grupo Suning, atual dono da Inter, pode fazer uma contratação parecida com a de Ronaldo. “Cedo ou tarde, talvez sim. Agora eles precisam encontrar alguém que sintam parte do clube e queira dar o seu melhor para o time. Além disso, não é fácil encontrar alguém do nível do Ronaldo. O técnico trocou muitas vezes, mas os jogadores precisam mostrar personalidade, algo que eles não mostraram. Está claro que tudo depende das escolhas e da sorte que você tem”, analisou Moratti.

Depois de 20 anos, a passagem de Ronaldo pela Inter é muito marcante. Foram 99 jogos, 59 gols e só um título, a Copa da Uefa de 1997/98. Justamente naquele seu primeiro ano, discutivelmente o melhor da sua carreira. Ronaldo aterrorizou defesas italianas, que estavam entre as melhores do mundo na época. Em fevereiro de 2016, Ronaldo foi até San Siro assistir a um jogo da Inter contra a Sampdoria. Foi ovacionado pela torcida, que levou faixas para homenagear o brasileiro.