Mesmo antes do Vasco chegar a um dos quadrangulares semifinais do Campeonato Brasileiro de 1997, Edmundo já vivera momentos suficientes para poder considerar tal ano um dos mais marcantes de sua carreira. Os seis gols contra o União São João; as várias atuações decisivas na fase de classificação; a expulsão contra o América-RN, motivando o célebre “paraíba” para se referir pejorativamente ao juiz Francisco Dacildo Mourão; o mutismo com a imprensa, para evitar as confusões após o ocorrido… mas nenhum desses momentos terá sido tão fundamental quanto o vivido em 3 de dezembro de 1997. Há 20 anos, o nativo de Niterói fazia uma das grandes atuações de sua carreira. Logo num Vasco x Flamengo. E logo para levar o time de São Januário à decisão do Brasileiro. E logo quebrando um recorde aparentemente inatingível à época: o número de gols marcados por um só jogador numa edição do torneio.

Até que o apogeu de Edmundo naquele Campeonato Brasileiro começou rapidamente. Num Maracanã repleto, um contra-ataque aos 16 minutos bastou para que o camisa 10 vascaíno tabelasse, retomasse rapidamente a bola, superasse na corrida toda a defesa flamenguista, driblasse Clemer e tocasse para as redes. Era o seu 27º tento, ainda um abaixo do número de gols que Reinaldo marcara pelo Atlético Mineiro em 1977 (28). Tinha tudo para ter começado aí o seu recital. Mas demorou um pouco. Afinal de contas, Nelson foi expulso, e o Vasco precisou se controlar mais para evitar que o arquirrival fizesse qualquer mal.

Todavia, também precocemente, Edmundo começou a resolver o jogo no segundo tempo. Contando com a sorte, que costuma ajudar os craques que fazem por onde: um longo lançamento de Juninho (três anos antes de ganhar o apodo “Pernambucano”) bateu nas costas do protagonista vascaíno. Foi o suficiente para iludir Clemer e Júnior Baiano. Edmundo ganhou tempo para driblar ambos pela direita, chegar à linha de fundo e tocar quase sem ângulo para o 2 a 0. 28 gols: estava igualado o recorde de Reinaldo.

Desesperado ante a superioridade e a segurança vascaínas em campo, o Flamengo só conseguiu seu gol aos 39 minutos: um veterano Renato Gaúcho sofreu pênalti, convertido por Júnior Baiano. Se terminasse assim, não haveria problemas para o Vasco: afinal, a final já estava na alça de mira. Mas faltava o “gran finale”, o lance para que Edmundo mostrasse que era o seu jogo, o seu campeonato, o seu ano. E tal momento só ocorreu aos 44 minutos: na esquerda da grande área, o camisa 10 pegou a bola pela esquerda. Num só corte, descadeirou Júnior Baiano e Ronaldão. Chutou cruzado, no contrapé de Clemer. Pronto: estava batido o recorde de Reinaldo. E de que maneira… Como se estivesse no seu quarto, Edmundo saiu comemorando com a coreografia da “Dança da vassoura”, do Grupo Molejo, que grassava nas rádios populares naquele final de 1997.

Nos acréscimos, Maricá ainda transformou a categórica vitória em goleada. Mas era uma nota de rodapé, naquele dia em que Edmundo bateu um recorde, num Vasco x Flamengo, no Maracanã, defendendo um de seus clubes de coração, convertendo-se no goleador e principal nome do futebol brasileiro (para muitos, do mundo) em 1997. Talvez seja possível dizer: naquela noite de 3 de dezembro, há 20 anos, Edmundo Alves de Souza Neto era a pessoa mais feliz do mundo.